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Quatro Artigos de Praga: A Reforma antes de Lutero

Cem anos antes de Lutero: o que foram os Quatro Artigos de Praga?

Diego Gonçalves3 min de leitura670 palavras

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A maioria das pessoas aprende na escola ou na igreja que a Reforma Protestante começou de repente, em 1517, quando Martinho Lutero pregou as 95 Teses na porta da igreja de Wittenberg. A impressão é a de que a cristandade passou mil anos dormindo e acordou num estalar de dedos no século dezesseis.

A história real é muito mais rica e corajosa do que isso.

Multidão reunida numa igreja gótica em Praga, ouvindo a pregação de Jan Hus; mulheres ajoelhadas e a rainha sentada em primeiro plano
Alfons Mucha, Jan Hus pregando na Capela de Belém (detalhe), 1916; reprodução de 1924. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Cerca de um século antes de Lutero, um grupo de cristãos na Boêmia, onde hoje fica a República Tcheca, escreveu um manifesto que colocou as estruturas do poder medieval em xeque. Eram os seguidores de Jan Hus, o reformador queimado vivo no Concílio de Constança em 1415.

Em vez de se dispersar pelo medo, o povo boêmio se uniu e redigiu, em 1420, um documento que ficou conhecido como Os Quatro Artigos de Praga.

À primeira vista, as reivindicações parecem simples para qualquer cristão de hoje. No século quinze, porém, cada um desses quatro pontos pesava como uma bomba contra o clero corrompido, a opressão papal e a tirania institucional da época.

O primeiro artigo exigia a livre pregação da Palavra de Deus. Os cultos eram celebrados inteiramente em latim, língua que o povo das aldeias não entendia, e ninguém podia pregar a Bíblia sem autorização expressa dos bispos. Os hussitas insistiam que o evangelho fosse anunciado na língua falada pelas pessoas e sem censura humana. Se a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo (Romanos 10:17), manter as Escrituras num idioma inacessível era privar o povo do meio que Deus escolheu para dar a conhecer a salvação.

O segundo artigo pedia a comunhão sob as duas espécies para todos os fiéis. Durante a Idade Média, a Igreja ergueu uma barreira na Ceia do Senhor: os padres comiam o pão e bebiam o vinho, mas os fiéis comuns recebiam só o pão. Alegava-se o risco de um leigo derramar o sangue de Cristo por descuido. Na prática, essa divisão servia para criar uma casta espiritual superior. Os hussitas voltaram à ordem do próprio Jesus ao entregar o cálice aos discípulos: “Bebei dele todos” (Mateus 26:27, Bíblia Livre), palavras que Paulo confirma em 1 Coríntios 11:23-26. Na mesa do Senhor não existem cristãos de primeira e de segunda classe.

O terceiro artigo atacava a raiz do dinheiro: o fim do poder secular e do acúmulo de bens pelo clero. Bispos e abades medievais viviam como nobres feudais, cobravam impostos pesados, comandavam exércitos particulares e habitavam castelos luxuosos. O artigo exigia que os líderes da igreja abrissem mão do domínio político e voltassem à simplicidade apostólica ensinada por Jesus: “Mas não é assim entre vós”, e “quem quiser ser o primeiro entre vós será o vosso servo” (Mateus 20:26-27, Bíblia Livre).

O quarto artigo cobrava disciplina para os pecados públicos, especialmente os do clero. Padres e bispos que cometiam abusos, fraudes financeiras e imoralidades sexuais eram acobertados por tribunais da própria igreja e saíam impunes. Os hussitas exigiam que a lei valesse para todos e que a liderança cristã desse o exemplo de integridade.

Seiscentos anos depois, esses quatro artigos continuam atuais.

A tentação da igreja de todas as épocas é a mesma: complicar a mensagem bíblica com jargões herméticos, transformar pastores em celebridades intocáveis acima de qualquer disciplina, correr atrás de influência política e fazer da mesa da graça um balcão de negócios.

Os Quatro Artigos de Praga nos lembram que a verdadeira reforma nunca é a invenção de uma novidade da moda. Ela é o retorno humilde, corajoso e permanente à Escritura e ao evangelho de Jesus Cristo.