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HistóriaReforma Protestante19 de 121

Wittenberg: A faculdade do interior que gerou a Reforma

A faculdade do interior que mudou o mundo: Como Wittenberg se tornou o berço da Reforma

Diego Gonçalves4 min de leitura708 palavras

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Se alguém no início do século 16 recebesse a missão de apostar de onde sairia a grande revolução espiritual e cultural da Europa, apontaria para centros acadêmicos prestigiados como Paris, Bolonha, Oxford ou Colônia. Ninguém em sã consciência apostaria na modesta Wittenberg.

Naquela época, Wittenberg era pouco mais do que uma vila rústica e barrenta às margens do rio Elba, no interior da Alemanha. Tinha cerca de dois mil habitantes, um clima frio e úmido e uma reputação tão humilde que os intelectuais das capitais falavam dela com desprezo e chamavam a região de fim do mundo da civilização germânica.

Foi nesse cenário improvável que, em 1502, o príncipe eleitor da Saxônia, Frederico III, conhecido na história como Frederico, o Sábio, resolveu fundar uma universidade própria.

Retrato de Frederico, o Sábio, príncipe eleitor da Saxônia, de perfil, com barba e chapéu escuro
Lucas Cranach, o Velho, Retrato de Frederico, o Sábio, eleitor da Saxônia, c. 1525. Barnes Foundation, Filadélfia. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O objetivo do governante não era iniciar nenhuma revolução religiosa mundial; ele queria apenas formar advogados, médicos e burocratas para administrar o seu território sem depender de outras regiões do império. A faculdade nasceu pequena, improvisada em salas alugadas e com professores emprestados de cidades vizinhas. As grandes e tradicionais faculdades de teologia da época zombavam da iniciativa e tratavam Wittenberg como uma concorrente de segunda categoria que não merecia atenção.

A história daquela escolinha do interior mudou de rumo com a chegada de dois homens que formariam uma das parcerias mais decisivas do cristianismo ocidental.

O primeiro foi um monge agostiniano chamado Martinho Lutero, transferido para lecionar teologia bíblica em 1511 por sugestão do seu mentor, João de Staupitz. Lutero começou a dar aulas sobre os Salmos e a Epístola aos Romanos e ensinava aos alunos a descoberta que o libertou: a salvação é recebida unicamente pela graça de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo, e não por mérito nosso. Era o que Paulo escreve aos romanos: “Pois no Evangelho se revela a justiça de Deus de fé em fé; como está escrito: O justo viverá pela fé.” (Romanos 1:17, Bíblia Livre). Em 1517, ao afixar as suas 95 Teses contra o comércio abusivo das indulgências na porta da igreja do castelo, segundo a tradição, Lutero colocou a pequena cidade nas manchetes de toda a Europa.

O segundo personagem crucial desembarcou em Wittenberg no ano seguinte, em 1518: Filipe Melanchthon. Com apenas vinte e um anos, Melanchthon era um jovem tímido, franzino, mas com uma bagagem linguística extraordinária. Ele dominava o grego e o hebraico com uma profundidade que deixou até os veteranos boquiabertos.

Juntos, Lutero e Melanchthon fizeram uma faxina no currículo acadêmico. Em vez de obrigar os estudantes a passar anos decorando comentários medievais áridos sobre a filosofia de Aristóteles, eles estabeleceram o princípio renascentista de voltar direto às fontes primárias. Os alunos agora aprendiam hebraico e grego para ler o texto sagrado diretamente no original, sem os filtros e as distorções que haviam se acumulado ao longo dos séculos.

A combinação entre a paixão profética de Lutero e a clareza didática de Melanchthon teve um impacto enorme. Em poucos anos, aquela faculdade desacreditada do interior se transformou na universidade mais procurada da Alemanha.

Estudantes de todas as partes da Europa, ingleses, escoceses, franceses, húngaros e escandinavos, viajavam centenas de quilômetros para estudar em Wittenberg. Quando concluíam os estudos e voltavam para suas cidades e nações natais, eles levavam na bagagem as Escrituras traduzidas e a mensagem bíblica da justificação pela fé, tornando a universidade o motor de irradiação da Reforma Protestante.

A trajetória de Wittenberg ensina que Deus não depende do glamour dos grandes centros de prestígio para cumprir a sua vontade. Na economia divina, a transformação profunda da cultura e da fé muitas vezes nasce no silêncio de salas de aula modestas, longe dos holofotes do poder, onde pessoas comuns se dedicam com fidelidade a desenterrar a verdade das Escrituras, que testemunham de Cristo.

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