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HistóriaReforma Protestante32 de 59

A Ceia como campo de guerra: Lutero e Schwenckfeld em 1525

Quando a mesa da comunhão vira um campo de guerra

Diego Gonçalves2 min de leitura426 palavras

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Poucas coisas são mais dolorosas do que ver um símbolo feito para unir corações virar motivo de separação. Vemos isso nas disputas de família no almoço de domingo e o vemos com frequência assustadora nos corredores religiosos, onde qualquer nuance vira pretexto para declarar guerra.

Em dezembro de 1525, o nobre silesiano Caspar Schwenckfeld viajou a Wittenberg movido pela melhor das intenções. Discípulo dedicado da Reforma Protestante, estava angustiado com as primeiras divisões que começavam a rachar o movimento evangélico na Europa. Julgando ter achado um caminho equilibrado sobre a Ceia, quis apresentar seus argumentos pessoalmente a Martinho Lutero, sonhando com pontes de conciliação.

A visita começou com sorrisos corteses e disposição para a conversa, mas a paz de fachada não resistiu ao primeiro choque de ideias.

Retrato de Martinho Lutero, de meio corpo, pintado por Lucas Cranach, o Velho, em 1528
Lucas Cranach, o Velho, Retrato de Martinho Lutero, 1528. Veste Coburg. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Assim que Lutero percebeu que Schwenckfeld não subscrevia a sua compreensão da presença real do corpo de Cristo nos elementos da Ceia, a cordialidade deu lugar à fúria. Intransigente e acostumado ao confronto, Lutero rejeitou qualquer nuance, encerrou as conversas e passou a atacar o nobre publicamente, com trocadilhos ofensivos feitos a partir do sobrenome do visitante. Magoado com a humilhação, Schwenckfeld revidou dizendo que o teólogo alemão estava endurecido e cego pelo orgulho.

O resultado do encontro foi mais uma ruptura. O sacramento instituído por Jesus para anunciar a comunhão do seu corpo partido na cruz se transformou, pelas mãos de homens inflamados, no campo de batalha mais sangrento do protestantismo nascente. Paulo ensinara o contrário: “porque assim como há um só pão, nós muitos somos um só corpo” (1 Coríntios 10:17, Bíblia Livre). A mesa lembra que pertencemos a um só corpo.

Nossa época continua caindo na mesma armadilha. Temos uma facilidade espantosa de transformar discordâncias legítimas em inimizades viscerais. Nos debates virtuais ou nas conversas de corredor, a vaidade intelectual fala mais alto do que a caridade, e a necessidade infantil de “vencer o debate” atropela o mandamento de preservar os vínculos fraternos (1 João 4:20). Quem não tem a humildade de tolerar divergências secundárias acaba construindo fortalezas de solidão em volta de si, esquecendo que a verdade de Cristo nunca precisa do ódio para se sustentar.