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História

Amigos e inimigos de Lutero nos primeiros anos da Reforma

Os bastidores humanos da Reforma: quem protegeu e quem combateu Lutero

Diego Gonçalves5 min de leitura994 palavras

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A história costuma resumir grandes revoluções à figura de um único herói solitário desafiando o mundo com uma Bíblia na mão. Mas Martinho Lutero nunca teria chegado vivo ao final da década de 1520 se não houvesse ao redor dele uma rede fascinante de aliados leais, príncipes pragmáticos e acadêmicos brilhantes. Da mesma forma, sua teologia não teria ganhado a precisão e a urgência que teve sem a pressão implacável de adversários formidáveis.

Para entender os primeiros anos da Reforma, precisamos olhar para o tabuleiro humano de quem esteve ao lado e de quem ficou contra o monge de Wittenberg.

Retrato de Martinho Lutero com barrete escuro e veste de pregador, pintado por Lucas Cranach, o Velho
Lucas Cranach, o Velho, Retrato de Martinho Lutero, 1528. Veste Coburg. Domínio público, via Wikimedia Commons.

No círculo dos aliados, o primeiro alicerce foi espiritual. Johann von Staupitz, o superior da ordem dos agostinianos, foi o conselheiro que ouviu as confissões escrupulosas de Lutero por horas a fio. Staupitz teve a lucidez de tirá-lo do labirinto da autopunição e determinou que ele fizesse o doutorado e ensinasse a Bíblia aos universitários. Lutero reconheceu mais tarde que devia muito a Staupitz, que o apontava para a graça de Cristo e não para os próprios méritos.

O alicerce político veio de Frederico III, o Eleitor da Saxônia, conhecido como “o Sábio”. Frederico era um príncipe à moda antiga, muito devoto e dono de uma das maiores coleções de relíquias sagradas da Europa. Mas ele tinha duas qualidades raras para um governante da época: um senso aguçado de justiça e muito orgulho da universidade que havia fundado em Wittenberg. Quando Roma exigiu que Lutero fosse enviado acorrentado para responder por heresia na Itália, Frederico insistiu que seu professor fosse ouvido em solo alemão. Mais tarde, quando o imperador declarou Lutero fora da lei e qualquer um podia matá-lo sem punição, foi Frederico quem providenciou o falso sequestro e escondeu o reformador na segurança do castelo de Wartburg.

Para fazer a ponte diplomática entre a cela do monge e o palácio do príncipe, entrou em cena Georg Spalatin. Secretário de confiança de Frederico e amigo íntimo de Lutero, Spalatin foi o articulador discreto que intermediou crises, negociou com emissários papais e supervisionou a publicação impressa de panfletos que inundaram a Alemanha.

No plano intelectual, ninguém foi mais decisivo do que Philipp Melanchthon. Esse jovem prodígio do grego chegou a Wittenberg com pouco mais de vinte anos e se tornou o parceiro de trabalho mais próximo de Lutero. Enquanto Lutero era tempestuoso, impulsivo e intuitivo, Melanchthon era metódico, calmo e organizado. Coube a Melanchthon redigir a primeira teologia sistemática protestante (Loci Communes) e elaborar a Confissão de Augsburgo, o documento de fé mais importante dos luteranos. O próprio Lutero reconhecia a dívida com o colega: dizia que a ele cabia derrubar troncos e abrir a mata bruta, enquanto Melanchthon, com elegância, arava e semeava.

A oficina de Lucas Cranach, o Velho, deu forma visual às ideias da Reforma. O pintor da corte produziu xilogravuras e retratos, ilustrou a tradução da Bíblia de Lutero e espalhou a imagem do reformador pela Europa, numa época em que a imagem impressa alcançava mais gente que os tratados teológicos.

Do outro lado da trincheira, a oposição começou com Johann Tetzel, o frade dominicano que vendia indulgências papais pelas feiras com a sutileza de um mascate inescrupuloso. Tetzel prometia que a alma saltava do purgatório no instante em que a moeda tilintava no cofre, e essa propaganda grosseira provocou a indignação de Lutero, que redigiu as 95 Teses em outubro de 1517. O que o incomodava era mais fundo que o abuso: a graça de Deus não se compra, e o perdão vem pela fé em Cristo, não por moedas nem por obras.

No topo da hierarquia estava o papa Leão X, membro da refinada e gastadora família Médici de Florença. No início, Leão teria tratado o caso como uma simples disputa entre monges. Quando percebeu que o incêndio ameaçava as finanças e a autoridade papal, publicou a bula Exsurge Domine, chamando Lutero de “um javali selvagem que invadiu a vinha do Senhor” e condenando seus escritos ao fogo.

No debate acadêmico, o oponente mais temível foi o teólogo Johann Eck. No Debate de Leipzig, em 1519, Eck foi brilhante e implacável: encurralou Lutero diante da plateia e o levou a admitir publicamente que tanto papas quanto concílios podiam errar, e que somente a Escritura é a autoridade final. Sem querer, Eck ajudou a firmar o princípio protestante da sola Scriptura, a Escritura como autoridade suprema para a fé e a vida.

No campo imperial, o obstáculo era o jovem imperador Carlos V. Aos vinte e um anos, governando o maior império da terra, Carlos se via como o defensor da fé católica. Na Dieta de Worms, em 1521, depois da recusa de Lutero em retratar-se, o imperador declarou que um único frade não podia estar certo contra mil anos de cristandade e assinou o Edito de Worms, que baniu Lutero do império.

Houve também relações que se romperam dolorosamente pelo caminho. Andreas Karlstadt, colega de universidade de Lutero, acelerou as reformas de modo tão radical e impaciente que entrou em choque com ele. E Erasmo de Roterdã, o grande humanista europeu que preparou o terreno com sua crítica à corrupção clerical, preferiu a cautela e rompeu com Lutero numa disputa amarga sobre a liberdade da vontade humana.

Nenhum movimento histórico nasce de uma mente isolada. A Reforma avançou porque encontrou homens de oração que sustentaram o coração de Lutero, políticos astutos que garantiram sua integridade física, intelectuais que organizaram sua mensagem e adversários duros que o obrigaram a ser mais claro a cada resposta.