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Zaqueu foi salvo antes de devolver? Lucas 19 nas tradições

Lucas 19 lido com Lutero e Wesley: a ordem entre a salvação e a restituição

Diego Gonçalvesatualizado 9 min de leitura1.729 palavras

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Numa primavera, perto da Páscoa, o chefe dos cobradores de impostos de Jericó correu à frente da multidão e subiu numa árvore. No mesmo dia, prometeu devolver quatro vezes mais a quem tinha lesado. Foi esse gesto que o salvou?

Quem conta a cena é Lucas, no capítulo 19 do seu Evangelho. Jesus está subindo para Jerusalém pela última vez, numa Judeia governada por um prefeito romano, e a casa desse homem vai virar, séculos depois, uma das discussões mais antigas da fé cristã. Martinho Lutero, no século 16, e João Wesley, no 18, leram a mesma árvore e a mesma promessa, e cada um saiu dela vigiando um perigo diferente.

Jericó e os cobradores de impostos

Jericó ficava no vale do Jordão, a cerca de 25 quilômetros de Jerusalém, cercada de palmeiras e de plantações de bálsamo, um perfume caro que o historiador judeu Flávio Josefo, no primeiro século, descreve entre as riquezas da região. Quem vinha do outro lado do rio para subir a Jerusalém passava por ali, e por onde passava mercadoria, alguém cobrava.

Os Evangelhos chamam esses cobradores de publicanos. Na Judeia daquele tempo, eram em geral homens da própria terra que arrematavam o direito de cobrar pedágios e taxas num lugar, pagavam o valor combinado e ficavam com o que conseguissem arrecadar além dele. Era um contrato, e a margem de lucro dependia da mão de quem cobrava. Por isso, quando alguns publicanos foram ao Jordão perguntar a João Batista o que deviam fazer, a resposta, em Lucas 3, foi curta: “Não cobrem nada além do que lhes foi estipulado.”

Zaqueu na figueira

O homem da árvore se chamava Zaqueu, um nome judeu ligado a uma palavra hebraica que quer dizer puro. Lucas o apresenta com duas marcas: era chefe dos publicanos, título que só aparece aqui em todo o Novo Testamento, e era rico. Ele cobrava do próprio povo, para um poder estrangeiro, e enriquecia com a diferença.

Lucas pôs essa cena logo depois de outra. Poucos versículos antes, um homem importante pergunta a Jesus o que fazer para herdar a vida eterna, ouve que deve vender tudo e dar aos pobres, e fica triste, porque era muito rico. Os discípulos perguntam quem, então, pode ser salvo, e a resposta de Jesus fica esperando um rosto até Jericó.

Na estrada da cidade, a multidão que seguia Jesus era um muro, e Zaqueu era baixo. O homem que a cidade inteira conhecia pelo nome não conseguia ver por cima dos ombros dela.

Então ele correu adiante e subiu numa figueira brava, o sicômoro, árvore de tronco curto e galhos largos, comum naquele vale. Lucas não diz o que Zaqueu sentia nem o que esperava; diz apenas que ele queria ver quem era Jesus, e que correu.

Quando Jesus chegou àquele ponto da estrada, parou, olhou para cima e disse, em Lucas 19:5: “Zaqueu, desça depressa. Quero ficar em sua casa hoje.” A frase termina com uma palavra pequena, hoje, e Jesus vai repeti-la antes de deixar aquela casa.

Zaqueu desceu depressa e o recebeu com alegria. A multidão viu e começou a se queixar: “Ele se hospedou na casa de um pecador.” Hospedar-se com alguém, ali, era partilhar a mesa e a fama dele, e Jesus escolheu justamente a casa que a cidade evitava.

Até aqui, Zaqueu não prometeu nada. Não devolveu uma moeda, não disse uma palavra sobre o passado, não pediu perdão em voz alta. Jesus o chamou quando ele ainda estava em cima da árvore.

Quatro vezes mais

Dentro da casa, com a cidade murmurando lá fora, o dono se levantou. Zaqueu disse, no versículo 8: “Olha, Senhor. Estou dando a metade dos meus bens aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais.”

Você entende o tamanho disso quando abre a Lei que Zaqueu conhecia. Para quem tinha tirado de outro com engano, Levítico 6:5 mandava devolver o valor inteiro e acrescentar um quinto, isto é, vinte por cento a mais. Quatro vezes era a medida de Êxodo 22:1, para o ladrão que roubava uma ovelha e depois a matava ou vendia, sem ter como devolvê-la.

Zaqueu aplicou a si mesmo a pena do ladrão de ovelhas, quando a Lei lhe pedia bem menos. E fez isso depois de entregar a metade de tudo aos pobres, ficando com a outra metade para responder pelo que tinha tomado.

Agora a cena de antes se fecha. O rico do capítulo 18 ficou triste diante de um pedido para dar. O rico de Jericó oferece sem que ninguém lhe peça nada. Os discípulos tinham perguntado quem poderia ser salvo, e Jesus tinha respondido, em Lucas 18:27: “O que é impossível para os homens é possível para Deus.” Em Jericó, o impossível tem nome, casa e uma bolsa aberta.

Logo depois da promessa, Jesus diz: “Hoje houve salvação nesta casa.”

Então foi a promessa que trouxe a salvação?

A objeção é séria, e o texto parece dar razão a ela. Você pode estar pensando: “A ordem está ali. Primeiro Zaqueu promete, depois Jesus declara a salvação. Se ele tivesse ficado com o dinheiro, teria ouvido a mesma frase?” Quem pensa assim não está inventando nada, porque está lendo os versículos 8 e 9 na sequência em que foram escritos.

Lutero e Wesley leram a mesma cena

Martinho Lutero, monge agostiniano e professor em Wittenberg, enfrentou esse tipo de pergunta num livro de 1520, Da liberdade cristã. Ali escreveu que obras boas e justas nunca fazem um homem bom e justo, mas um homem bom e justo faz obras boas e justas. A imagem vem do próprio Jesus, em Mateus 7: a árvore boa dá frutos bons. Para Lutero, a fruta não fabrica a árvore; ela mostra que a árvore já está viva.

Lida assim, a cena de Jericó tem a fé no versículo 6, quando Zaqueu desce e recebe Jesus com alegria, e a restituição no versículo 8, como o primeiro fruto daquela acolhida. O dinheiro não compra o “hoje”; ele sai da mão de um homem que já foi alcançado.

Mais de dois séculos depois, João Wesley, sacerdote anglicano que pregava ao ar livre para mineiros e operários da Inglaterra, leu a mesma passagem com outro cuidado. Wesley também ensinava que só a fé justifica. Num sermão de 1765, O caminho bíblico da salvação, porém, ele insistiu que o arrependimento e os frutos dignos dele são, em certo sentido, necessários, embora não no mesmo sentido nem no mesmo grau que a fé.

Wesley falava de dinheiro sem rodeio. Num sermão de 1760, O uso do dinheiro, ele resumiu a vida cristã diante da bolsa em três regras: ganhe tudo o que puder, economize tudo o que puder, dê tudo o que puder. No fim da vida, viu os próprios metodistas enriquecerem e escreveu que, onde as riquezas aumentavam, a essência da religião diminuía na mesma proporção.

Lutero e Wesley concordam no essencial, e nenhum dos dois diz que a restituição comprou o perdão de Zaqueu. A diferença está no perigo que cada um vigia. Lutero vigia o homem que transforma o fruto em preço. Wesley vigia o homem que chama de fé uma vida em que a bolsa nunca se abre. E os dois perigos moram também nas igrejas que hoje se dizem herdeiras deles, inclusive nas nossas.

Quem procura quem

Para decidir, voltamos à ordem que o próprio Lucas escreveu. O primeiro “hoje” vem no versículo 5, quando Zaqueu ainda está na árvore e não prometeu nada. Jesus se convida para a casa de um homem que ninguém queria visitar, e a alegria com que Zaqueu o recebe vem antes de qualquer moeda.

O segundo “hoje”, no versículo 9, explica o que aconteceu lá dentro:

“Hoje houve salvação nesta casa, porque ele também é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio para buscar, e para salvar o que tinha se perdido.”

(Lucas 19:9-10, Bíblia Livre)

A salvação entrou naquela casa porque o Salvador entrou nela.

Repare em quem procura quem. Zaqueu queria ver Jesus, mas é Jesus quem para, olha para cima e chama. O perdido é achado por quem veio buscá-lo. E a frase devolve Zaqueu ao povo de quem ele cobrava: a multidão o chamava de pecador, Jesus o chama de filho de Abraão.

Lucas já tinha mostrado, no capítulo 18, um publicano que voltou para casa justificado com as mãos vazias, aquele que só conseguia dizer: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador.” Em Jericó, as mãos não ficam vazias, mas a ordem é a mesma: primeiro a misericórdia, depois a casa que muda.

Da casa de Zaqueu, conta Lucas, Jesus seguiu subindo para Jerusalém. Dias depois, ele pagaria lá uma dívida que nenhuma restituição alcança, porque o Filho do homem veio, como ele mesmo disse em Marcos 10:45, para dar a sua vida em resgate por muitos.

Lutero tem razão sobre a ordem, Wesley tem razão sobre o fruto, e o texto segura os dois. A porta da casa de Zaqueu foi aberta de fora, quando Jesus chamou um homem em cima de uma árvore, e a restituição veio depois, como a primeira coisa que essa salvação fez com a bolsa dele.

A ordem da graça

Volte à árvore da estrada de Jericó: um homem rico nos galhos, que só queria ver quem passava. Ele desceu com a salvação a caminho da sua casa, e o dinheiro saiu da mão dele porque alguém tinha entrado.

Zaqueu não foi salvo porque devolveu; ele devolveu porque a salvação tinha chegado à casa dele.

Isso vale para você e para mim. Ninguém está longe demais da graça de Cristo por causa do que fez para ganhar dinheiro. Quando ele entra numa casa, porém, muda o que essa casa faz com o que tem, e a pergunta deixa de ser só como ganhamos o que temos para ser o que Cristo faz hoje com isso.

Publicado em 15 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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