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O dilúvio bíblico e a promessa a Noé, dos Pais a Wesley

Gênesis 8:21 lido com Crisóstomo, Irineu, Calvino e Wesley: se o pecado sobreviveu ao dilúvio, o que mudou?

Diego Gonçalvesatualizado 11 min de leitura2.260 palavras

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Neste texto

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O dilúvio bíblico não conseguiu lavar o coração humano, e quem afirma isso é o próprio Deus, em Gênesis 8:21, logo depois que as águas baixam. A arca está parada nos montes, Noé levanta um altar, a fumaça sobe, e o texto diz que o Senhor sentiu o cheiro suave e prometeu nunca mais destruir os seres vivos daquele jeito. Só que, na mesma frase, volta o diagnóstico que tinha aberto o dilúvio: o coração humano continua inclinado para o mal. Em volta desse versículo, leitores separados por mais de mil e quinhentos anos fizeram perguntas diferentes. João Crisóstomo quer saber o que Deus viu naquele altar, e Irineu de Lião enxerga ali uma aliança com o mundo inteiro. Calvino admite que a frase parece contradizer o que Deus tinha dito antes, e Wesley pergunta se as pessoas de hoje são diferentes das que viviam antes das águas. Se o pecado sobreviveu ao dilúvio, o que mudou para Deus dizer nunca mais, e o que aquele altar tem a ver com Cristo?

O texto: o altar e a promessa

A arca já tinha descansado sobre os montes de Ararate quando Deus mandou Noé sair, e a primeira coisa que ele faz em terra seca é construir um altar e oferecer holocaustos, isto é, animais puros queimados por inteiro. Então vem o versículo central:

“E percebeu o SENHOR cheiro suave; e o SENHOR disse em seu coração: Não voltarei mais a amaldiçoar a terra por causa do ser humano; porque o intento do coração do ser humano é mau desde sua juventude: nem voltarei mais a destruir todo vivente, como fiz.”

(Gênesis 8:21, Bíblia Livre)

Depois Deus acrescenta que, enquanto a terra durar, plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não vão cessar. Agora compare com Gênesis 6:5, antes das águas, onde o Senhor vê que todo desígnio dos pensamentos do coração humano era só mau continuamente, e é por isso que o dilúvio vem. A palavra hebraica traduzida por “porque” também pode ser lida como “ainda que”, como fazem algumas traduções, mas nas duas o motivo do castigo e o motivo da promessa são praticamente a mesma frase.

No capítulo 9, Deus renova a bênção sobre Noé e seus filhos e protege a vida humana, porque o homem foi feito à imagem de Deus. Depois firma uma aliança, isto é, um compromisso solene que prende quem promete, com Noé, com os descendentes dele e com todos os seres vivos. O sinal é o arco nas nuvens, e é Deus quem diz que, ao vê-lo, vai se lembrar da aliança.

Pense num pai que continua pagando a conta de luz todo mês, mesmo sabendo que o filho adolescente vai seguir esquecendo a luz do banheiro acesa. A casa continua iluminada, e o motivo não está no filho, que não mudou, mas na decisão de quem paga. Por que Deus decide assim, e o que aquele altar teve a ver com a decisão?

Crisóstomo e Calvino: a intenção de quem oferece

A primeira leitura nasce no Oriente cristão e começa pela pergunta que muita gente tem vergonha de fazer: Deus tem nariz? João Crisóstomo, pregando sobre Gênesis em Antioquia no fim do século quatro, responde que não se deve imaginar Deus com narinas, porque ele é espírito invisível. O que sobe de um altar, lembra ele, é fumaça de carne queimada, e poucas coisas cheiram pior; se a Escritura chama isso de cheiro suave, é para você aprender que Deus olha a intenção de quem oferece. Essa é a leitura dos pais orientais, e Crisóstomo está entre os mestres que a tradição ortodoxa mais honra.

Mais de mil anos depois, em Genebra, Calvino diz quase o mesmo no seu comentário a Gênesis, explicando que Moisés usa essa linguagem para se acomodar a um povo simples. Para ele, o que perfumava aquele altar era a fé de um homem que sabia ter recebido a vida só pela misericórdia de Deus. Aqui está o terreno comum de todos esses leitores: ortodoxos, católicos e protestantes confessam o mesmo Deus, que não depende de fumaça e que se revelou plenamente em Jesus. Só que essa leitura, sozinha, deixa a promessa presa a um homem e a um momento, e o capítulo 9 fala de algo muito maior.

Irineu: uma aliança com o mundo inteiro

A segunda leitura tira os olhos do altar e olha a história inteira. Irineu, bispo de Lião no fim do século dois, escreve na sua Demonstração da pregação apostólica que, depois do dilúvio, Deus fez uma aliança com o mundo inteiro, animais e homens, e lhes deu um sinal. No mesmo trecho, ele lembra que o homem foi feito imagem de Deus, que essa imagem é o Filho e que o Filho apareceu no fim dos tempos. Em Contra as heresias, Irineu conta quatro alianças principais dadas ao gênero humano, e a de Noé está entre elas, antes da lei de Moisés e do Evangelho, que renova o homem e reúne todas as coisas em si.

Onde Crisóstomo olhava o coração de quem oferecia, Irineu olha o caminho da história, e o altar de Noé vira um degrau que aponta para o Filho. Essa moldura virou herança comum: o Catecismo da Igreja Católica coloca a aliança com Noé entre as etapas da revelação, e a teologia da aliança protestante também pensa em alianças sucessivas. Mas, se a aliança com Noé é um degrau da salvação, o que exatamente ela salva?

Calvino: um limite para o juízo

A terceira leitura responde a essa pergunta com uma franqueza rara, começando por admitir a dificuldade do versículo. Calvino reconhece que o raciocínio parece incoerente: se a maldade humana não para de provocar a ira de Deus, ela deveria trazer destruição, e Deus parece contradizer o que disse antes do dilúvio. A resposta dele é que Deus quis que houvesse uma sociedade humana na terra, e que, se as pessoas fossem tratadas como merecem, seria preciso um dilúvio todos os dias.

Repare onde Calvino se separa de Irineu: para ele, a promessa de Gênesis 8 não é um passo de salvação, mas um limite que Deus põe no próprio juízo. O “nunca mais” suspende só a punição que destruiria o mundo inteiro, e a aliança chega até os animais, para os quais o efeito dela é simplesmente a preservação da vida. Teólogos reformados posteriores, cuja herança chega aos presbiterianos de hoje, deram a essa bondade o nome de graça comum, porque alcança justos e injustos sem salvar ninguém por si mesma. Mesmo assim, Calvino escreve que os filhos de Adão só concebem pensamentos corrompidos até se tornarem nova obra de Cristo, formados pelo seu Espírito. O mundo foi poupado, e o coração continua esperando outra coisa.

Wesley: o mundo poupado precisa de cura

É aí que entra a quarta leitura, de John Wesley, que no século dezoito publicou um sermão sobre o pecado original a partir de Gênesis 6:5. O plano já provoca: mostrar como eram as pessoas antes do dilúvio e perguntar se elas não continuam as mesmas hoje. Wesley concorda com Calvino que o coração, entregue a si mesmo, está inteiramente corrompido, e não deixa ninguém de fora, nem quem está falando com você agora. Mas lembra que, mesmo antes das águas, o Espírito de Deus lutava com aquelas pessoas e lhes deu uma trégua cheia de graça, os cento e vinte anos em que a arca era construída.

Onde Calvino mostra um mundo preservado, Wesley pergunta pela cura, e fecha o sermão dizendo que o grande fim da religião é renovar o nosso coração à imagem de Deus. Conheça a sua doença, conheça a sua cura, escreve ele: você nasceu em pecado, por isso precisa nascer de novo, e o que a natureza corrompeu a graça vai renovar por inteiro. Essa leitura foi herdada por metodistas, nazarenos e igrejas de santidade, e deixa uma pergunta que ninguém consegue evitar: se a água não curou o coração, de onde vem a cura?

A objeção e o que o texto sustenta

Antes da resposta, a objeção mais forte precisa ser ouvida, porque ela nasce do próprio texto. Você pode estar pensando: “Então o dilúvio foi inútil, e Deus, cansado, desistiu de punir”. Na versão mais dura, o texto mostraria um Deus que mudou de ideia ao perceber que a punição não tinha resolvido nada. O próprio texto responde por três caminhos, e nenhum deles suaviza o juízo. Primeiro, o dilúvio mostrou de uma vez que o problema humano é mais fundo do que a água alcança, e é Deus quem tira essa conclusão. Segundo, como Calvino percebeu, a promessa limita a forma do juízo sem apagar a justiça. Terceiro, ela não nasce do cansaço de Deus, mas do altar, porque vem logo depois do sacrifício.

Resta outra dúvida, que talvez você também tenha: ligar a fumaça do altar de Noé a Cristo não seria alegoria forçada? O texto decide entre as leituras, e ele é claro: a aliança de Gênesis 9 é unilateral, porque só Deus se compromete, universal, porque inclui até os animais, e não impõe condição a quem a recebe. Nada nela promete salvar alguém, e tudo nela promete chão firme, estações, colheitas e tempo. Por isso, quanto ao que esta aliança faz, o texto dá razão a Calvino: ela preserva o mundo e não cura ninguém. Irineu acerta ao ver a história caminhando para o Filho, mas a aliança com Noé, sozinha, não leva ninguém até lá. E quem fizer da promessa uma recompensa pela piedade de Noé não encontra apoio no texto, porque a razão que o versículo 21 dá é o coração mau. Entre irmãos, a divergência que sobra é de nome e de ênfase, graça comum para uns, etapa do plano de salvação para outros, e as duas cabem na fé apostólica.

De Noé a Cristo

A expressão “cheiro suave” (ou “aroma agradável”, em outras traduções) aparece aqui pela primeira vez na Bíblia e depois se torna a linguagem dos sacrifícios de Israel, inclusive do sacrifício pelo pecado, em Levítico. A tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, deu a ela uma forma fixa, e é essa forma que Paulo usa em Efésios 5:2. Ali ele escreve que Cristo nos amou e “se entregou por nós como oferta e sacrifício de cheiro suave a Deus” (Bíblia Livre). Paulo não decifra as pedras do altar nem conta os animais; ele toma a linguagem que nasce em Gênesis 8 e mostra onde ela encontra o sentido pleno. Isso é leitura apostólica, e Calvino aponta o mesmo caminho quando diz que os altares antigos ensinavam que ninguém chega a Deus sem um mediador.

Isaías 54 vem logo depois do capítulo em que o Servo do Senhor é ferido pelas nossas transgressões e, pelas suas feridas, somos curados. Ali Deus diz:

“Porque isto será para mim como as águas de Noé, quando jurei que as águas de Noé não mais passariam sobre a terra; assim jurei, que não me irarei contra ti, nem te repreenderei. Porque montes se removerão e morros se retirarão, porém minha bondade não se removerá de ti, nem o pacto de minha paz se retirará.”

(Isaías 54:9-10, Bíblia Livre)

A água tirou da terra a violência que a enchia, mas deixou intacto o coração de quem saiu da arca. A água mostrou o tamanho do juízo de Deus, mas não produziu um único coração novo. A água nunca poderia fazer o que só uma oferta que agrada a Deus por inteiro faz, e é para essa oferta que o altar de Noé aponta.

Então, o que mudou, se o ser humano não mudou? Entre Deus e a terra passou a existir um altar, e Deus se amarrou à própria palavra antes que alguém merecesse alguma coisa, com uma graça que vem antes e alcança toda carne. Em Cristo, essa linha chega ao destino: a oferta que agrada a Deus não só adia o juízo, ela o carrega, e traz a cura do coração que Wesley anunciava.

Crisóstomo mostrou que Deus olhou o coração de quem oferecia, e não a fumaça. Irineu colocou a aliança com Noé no caminho que leva ao Filho, e Calvino mostrou que ela preserva o mundo sem curar ninguém. Wesley lembrou que o mundo poupado ainda precisa de cura, e o próprio texto, lido com Paulo e Isaías, mostrou que essa cura vem da oferta de Cristo. E você, olhando para o próprio coração, vive como quem recebeu apenas uma trégua ou como quem já recebeu a cura?

Volte ao pai que paga a conta de luz mesmo com o filho esquecendo a luz do banheiro acesa. Em Gênesis 8, Deus mantém a casa iluminada para um mundo que não mudou; na cruz, ele faz o que a promessa a Noé não fazia e entra na casa para mudar quem mora nela. A aliança nasce da graça e não do merecimento, e é por isso que o pacto da sua paz não se retirará.

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