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Santo Agostinho era africano? Hipona, 354 a 430 d.C.

Agostinho, Atanásio e Antão nasceram e morreram na África: o que isso diz sobre quem é dono do evangelho

Diego Gonçalvesatualizado 7 min de leitura1.366 palavras

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A cidade onde Santo Agostinho foi bispo por mais de trinta anos hoje se chama Annaba, na Argélia. Se ele nasceu, pregou e morreu na África, por que nós lembramos dele como um europeu?

Uma vida inteira na África

As datas de Agostinho são fáceis de conferir. Ele nasceu em 354, em Tagaste, uma cidade do interior da Numídia, província romana no norte da África que hoje faz parte da Argélia. Estudou em Cartago, na atual Tunísia, passou uns cinco anos ensinando em Roma e em Milão e voltou para casa. Em Hipona foi ordenado padre e depois bispo, e ali morreu em 430, com a cidade cercada pelos vândalos. Tirando aqueles anos na Itália, a vida inteira dele se passou na África.

E ele não é o único. Atanásio (c. 296–373), o bispo que passou a vida defendendo que o Filho é Deus tanto quanto o Pai, como confessa o Credo de Niceia, foi bispo de Alexandria, no Egito. Antão (c. 251–356), que a tradição chama de primeiro monge cristão, nasceu numa aldeia egípcia e foi viver no deserto do Egito. São três mestres que católicos, ortodoxos e protestantes leem até hoje, e os três nasceram e morreram na África.

Romano ou africano?

Talvez você esteja pensando: “Espera aí, Agostinho escrevia em latim, tinha nome romano e era cidadão do Império, então ele era romano, e Roma fica na Europa.” É a objeção mais séria, e ela tem um pedaço de verdade, porque Agostinho era mesmo cidadão romano. Só que o Império Romano dava a volta inteira no Mediterrâneo, e o norte da África era uma das suas províncias mais ricas e mais cheias de igrejas.

Pense nos nomes que você encontra em qualquer bairro do Brasil: Washington, Jefferson, Wellington. Ninguém acha que o Jefferson da sua rua é americano só porque tem nome de presidente americano. Com Agostinho acontecia algo parecido, porque o latim era a língua da escola, do tribunal e da carreira em todo o Império, e um nome latino dizia em que mundo a pessoa vivia, não onde estava a raiz da família dela.

E o próprio Agostinho deixou isso por escrito. No livro 8 das Confissões, ele conta a visita de um oficial da corte chamado Ponticiano e apresenta esse homem como “nosso concidadão, por ser africano”. Quando Agostinho quer dizer que alguém é da terra dele, a palavra que ele usa é África.

O monge egípcio que mudou a vida de Agostinho

Com Antão, a fonte é o próprio Atanásio, que escreveu a Vida de Antão pouco depois da morte do monge. Atanásio conta que Antão, quando menino, não quis aprender as letras, e que, já velho, quando filósofos gregos foram até o deserto para conversar com ele, falou com eles por meio de um intérprete. Ou seja, o homem que a tradição chama de primeiro monge cristão precisava de tradutor para falar grego, e quem ia atrás dele no deserto era sobretudo o povo simples do Egito.

E agora o fio se fecha. Ponticiano, aquele africano das Confissões, contou a Agostinho, em Milão, o que tinha acontecido em Tréveris, cidade que hoje fica na Alemanha. Dois funcionários do imperador entraram numa casa de monges, acharam um livro com a vida de Antão, leram e decidiram largar a carreira para viver como ele. Agostinho conta que saiu daquela conversa abalado, e naquele mesmo dia, num jardim, veio a crise que terminou na conversão dele, em 386.

Um monge egípcio, contado por um bispo egípcio, mudou a vida de funcionários na Alemanha e de um professor africano na Itália. Os três eram africanos do Império Romano, e a Europa aprendeu a vida monástica imitando o deserto do Egito.

Por que viraram europeus?

Se as fontes são tão claras, por que esses três viraram europeus na cabeça de tanta gente? Há razões honestas, e elas vêm primeiro. Em primeiro lugar, eles escreveram em latim e em grego, as línguas que a Europa continuou estudando por mais de mil anos. Em segundo lugar, depois que os árabes conquistaram o norte da África, no século 7, a igreja de língua latina daquela região foi diminuindo até desaparecer, e os livros de Agostinho passaram a ser copiados e lidos sobretudo nos mosteiros e nas universidades da Europa. Os leitores mudaram de continente, e os livros foram junto.

Por fim, há uma razão menos inocente. O teólogo metodista Thomas Oden, num livro sobre como a África moldou a mente cristã, defende que quase não se encontra preconceito contra a África na história cristã antes do século 19, quando boa parte da academia europeia passou a tratar o que havia de bom nesses pais como herança grega ou latina. A Idade Média mostra o contraste. Os europeus procuravam um rei cristão poderoso além das terras do islã, o lendário Preste João, e quando os portugueses chegaram à Etiópia, no século 16, encontraram uma igreja mais antiga que o próprio Portugal.

E aqui eu preciso me incluir. Neste mesmo espaço, Agostinho já foi chamado de “o mais famoso teólogo do Ocidente”. A frase acerta a influência dele, mas esconde onde ele viveu, e nós repetimos isso sem perceber.

A verdade não tem sotaque, mas a origem importa

Você pode estar pensando: “Isso é briga de identidade de hoje. Para a fé, tanto faz de onde ele veio, o que importa é se o que ele ensinou é verdade.” Nisso você tem razão. A cor da pele nunca foi critério da verdade cristã, e Agostinho e Atanásio seriam os primeiros a querer ser julgados pelo que ensinaram sobre Cristo. Chamar Agostinho de branco ou de negro também é levar para o século 4 categorias que só existem hoje.

Só que esquecer de onde eles vieram cobra um preço, porque deixa no ar a ideia de que o evangelho tem um continente dono e de que a fé saiu da Europa para o resto do mundo, quando a ordem foi outra. A própria Escritura conta a história nessa outra ordem. Em Atos 8, um oficial da rainha dos etíopes, ao sul do Egito, volta para casa lendo o profeta Isaías, ouve Filipe anunciar Jesus e é batizado na beira da estrada. Só em Atos 16 Paulo atravessa para a Macedônia e prega pela primeira vez na Europa. No relato de Atos, um africano é batizado antes de Paulo pisar na Europa.

A salvação pertence ao Cordeiro

E o último livro da Bíblia mostra para onde tudo isso vai. Em Apocalipse 7:9, João vê “uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas”, em pé diante do trono e do Cordeiro. E no versículo 10 eles clamam: “A salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro”. Ela não pertence a Hipona. Ela não pertence a Roma. Ela não pertence nem ao Brasil, nem a qualquer igreja que se ache herdeira exclusiva. Ela pertence ao Cordeiro, que no capítulo 5 é adorado porque, com o próprio sangue, comprou para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação.

Santo Agostinho era africano, um africano do Império Romano, e a fé que ele nos deixou não pertence à África nem à Europa, mas a Cristo, que comprou para Deus gente de toda nação. O Jefferson da sua rua carrega um nome americano e continua brasileiro. Agostinho carregou um nome latino e continuou africano. E nós, aqui no Brasil, carregamos uma fé que veio de muito longe e continua sendo de Cristo.

Por isso, da próxima vez que você abrir Agostinho ou recitar o Credo que Atanásio defendeu, agradeça a Deus pela igreja da África, e lembre que nenhum povo é dono do evangelho, porque todos nós somos devedores dele.

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