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Caim e Abel: Gênesis 4 segundo Clemente, Calvino e Wesley
Gênesis 4:3-8 lido com três teólogos de três épocas, e a pergunta que Deus faz a Caim no versículo 7
Antes de matar Abel, Caim ouviu uma frase de Deus, e essa frase é a única palavra de Deus registrada a Caim entre a oferta rejeitada e o campo. Se a sua igreja lê essa frase de um jeito que o texto não sustenta, você vai descobrir hoje, porque a história de Caim e Abel guarda uma antiga disputa entre cristãos sobre a graça. Vamos ler Gênesis 4:3-8 com três teólogos de três épocas: Clemente de Roma, no fim do primeiro século, João Calvino, no século dezesseis, e John Wesley, no século dezoito. Os três afirmam a mesma fé em Jesus e a mesma culpa de Caim, e se separam num único versículo, o sétimo. A pergunta que fica aberta até o fim é esta: quando Deus disse a Caim que ele podia ser aceito, a porta estava aberta de verdade?
Você já viu um cachorro de rua encostado na porta da cozinha, esperando uma fresta? Ele não força a entrada, ele espera que alguém deixe a porta mal fechada, e essa comparação vai nos servir porque o texto fala justamente de uma porta.
O texto e o que ele cala
Primeiro, a Escritura.
“E aconteceu, decorrendo o tempo, que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel trouxe também dos primogênitos de suas ovelhas, e de sua gordura. E olhou o SENHOR com agrado a Abel e à sua oferta; mas não olhou com bons olhos a Caim e à sua oferta. Caim irritou-se muito, e descaiu-lhe o semblante.”
(Gênesis 4:3-5, Bíblia Livre)
“Então o SENHOR disse a Caim: Por que te irritaste, e por que o teu semblante descaiu? Se bem fizeres, não serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado está à porta; contra ti será o seu desejo, porém tu deves dominá-lo. Depois Caim falou a seu irmão Abel; e aconteceu que, estando eles no campo, Caim se levantou contra seu irmão Abel, e o matou.”
(Gênesis 4:6-8, Bíblia Livre)
Repare no que o texto entrega e no que ele segura. Dois irmãos, dois ofícios, duas ofertas trazidas ao mesmo Deus: é o primeiro culto registrado na Bíblia, e ele nasce com um problema. Deus aceita Abel e a oferta dele, e não aceita Caim e a sua, e o texto não diz por quê. Você pode ter ouvido que era porque Abel trouxe sangue e Caim trouxe fruto, ou porque Abel trouxe o melhor e Caim trouxe qualquer coisa; são leituras antigas, mas Gênesis 4 não desenvolve o motivo. A explicação só aparece em Hebreus 11:4, que vamos ler mais adiante. Repare também na ordem: a irritação de Caim vem antes da fala de Deus, e a fala de Deus vem antes do campo. Deus intervém entre a raiva e o crime.
O povo de Israel ouvia esse relato com seus altares, suas primícias e a memória das leis de Moisés. Para eles, as primeiras crias e as partes gordas eram o melhor, aquilo que a lei mandaria dar ao Senhor, enquanto de Caim o texto diz apenas “do fruto da terra”. Fílon de Alexandria, judeu do primeiro século, escreveu sobre os sacrifícios de Abel e Caim e viu a diferença no coração de quem oferece, não na coisa oferecida. Esse é o horizonte em que o texto foi lido antes de qualquer teólogo cristão.
Clemente de Roma: a inveja que passa pela porta
A primeira leitura é a de Clemente de Roma, e você sabe por que ele falou de Caim? Clemente escreveu a Primeira Carta aos Coríntios, no fim do primeiro século, para uma igreja que tinha deposto seus presbíteros numa briga interna. No capítulo 4 ele cita Gênesis 4:3-8 quase inteiro, e conclui diante dos irmãos que a inveja e o ciúme causaram o assassinato de um irmão. Caim abre a lista dele de casos em que a inveja destruiu, seguida por Jacó e Esaú, José, Moisés e Davi. A leitura de Clemente é pastoral e moral, sem eleição nem livre-arbítrio, e é o chão comum: católicos, ortodoxos e protestantes leram Caim como o homem cujo culto não o protegeu da própria inveja. Sobre a oferta, os pais da Igreja seguiram Hebreus e viram a diferença na fé de Abel, não no tipo de sacrifício, e nisso há ampla concordância.
Calvino: a fé de Abel foi dada
A segunda leitura, a de Calvino no Comentário sobre Gênesis, vai além de Clemente num ponto exato. Clemente diz o que a inveja fez; Calvino pergunta de onde veio a fé que fez Abel ser aceito, e responde que Deus a deu. A oferta de Abel foi aceita pela fé, não por mérito do sacrifício, e essa fé é fruto da eleição, isto é, da escolha de Deus feita antes de qualquer obra. Primeira João 3:12 sustenta a linha:
“Não sejamos como Caim, que era do maligno, e matou o seu irmão. E por que o matou? Porque as suas obras eram más, e as do seu irmão justas.”
(1 João 3:12, Bíblia Livre)
E o versículo 7 de Gênesis 4, o que Calvino faz com ele? Ele se recusa a tirar dali um poder próprio de Caim para fazer o bem. Na leitura dele, a pergunta de Deus expõe a culpa de Caim e tira dele qualquer desculpa, sem lhe devolver uma capacidade que a queda destruiu. Calvino chega a ler a última frase do versículo como a ordem entre os irmãos, com Abel submisso ao mais velho, e não como o pecado a ser dominado. Presbiterianos, reformados e boa parte dos batistas herdaram essa leitura, com nuances, porque nem todo reformado lê o versículo 7 do mesmo jeito.
Wesley: uma oferta de verdade
A terceira leitura, a de Wesley nas Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, vai na direção contrária de Calvino quanto ao peso da pergunta de Deus. Wesley concorda com tudo o que veio antes: a inveja de Clemente, a fé de Abel, a culpa de Caim sem desculpa. Ele escreve que a grande diferença entre os irmãos é que Abel ofereceu com fé, e Caim não. Ele se apoia, aliás, em comentaristas ingleses de leitura reformada, como o pastor presbiteriano Matthew Henry (1662–1714), o que já mostra que a fronteira aqui não passa entre igrejas. A diferença está em como ele lê a pergunta de Deus, “Se bem fizeres, não serás aceito?”, como uma oferta verdadeira de aceitação. Para Wesley, se Caim tivesse feito o bem como Abel, teria sido aceito, porque Deus não faz acepção de pessoas; e, se agora ele se arrependesse e trouxesse a sua oferta de outro modo, ainda seria aceito: só o pecado impede a aceitação. Deus não faz a Caim uma pergunta retórica, daquelas que já sabem a resposta; ele abre uma porta e avisa do perigo encostado nela. Se a porta estava aberta, Caim podia entrar, não por força própria, mas pela graça que já agia nele no momento em que Deus falou. Quanto à última frase do versículo, Wesley a lê como Calvino, sobre Abel: a oferta aceita de Abel não tira de Caim a posição de primogênito. O argumento dele, portanto, não depende dessa frase, e sim da pergunta e da condição que a precedem. Metodistas, wesleyanos e pentecostais herdaram essa ênfase na pergunta de Deus como convite real.
Agora cada lado fala na sua forma mais forte, porque é aí que a coisa aperta. Do lado de Calvino, alguém diria: “Primeira João diz que Caim era do maligno; então ele nunca teve chance, e a pergunta de Deus só mostra que ele era culpado.” O argumento é sério, porque o apóstolo não diz que Caim virou do maligno depois do crime; ele apresenta o assassinato como fruto do que Caim já era. Nessa leitura, a fala de Deus não muda nada no coração de Caim, apenas registra que ele foi avisado.
Do lado de Wesley, alguém responderia: “Se Deus pergunta se ele não será aceito, ou a pergunta é sincera ou Deus está fingindo.” E aqui entra a objeção que atinge também quem está do lado de Wesley: “Se Caim podia escolher o bem sozinho, para que serve a graça?” Essa é a pergunta que a nossa casa protestante às vezes esquece de responder. Se a leitura de Wesley terminasse em “Caim podia sozinho”, ela deixaria de ser uma leitura de Gênesis e viraria uma leitura de Pelágio, e reconhecer isso é honestidade, não concessão.
Uma nota de método, dita uma vez: nada do que dissemos vem da arqueologia. Não há escavação que mostre os altares de Caim e Abel. A data que a cronologia bíblica tradicional atribui à cena, por volta do século 38 antes de Cristo, é uma âncora herdada e discutida entre cristãos fiéis, não um dado de consenso. O que temos é o texto, e é o texto que decide.
O que o texto sustenta
Então, qual leitura Gênesis 4:7 sustenta melhor? A fala de Deus tem três partes: uma pergunta sobre a raiva, uma condição sobre a aceitação e um aviso sobre o pecado. Uma condição colocada por Deus diante de um homem irritado, no intervalo entre a raiva e o campo, só tem sentido se a resposta ainda estava em aberto. Se a porta estivesse fechada, Deus estaria perguntando a Caim se ele não entraria por uma porta que ele mesmo trancou, e o texto não descreve Deus assim. Ele descreve um Deus que vai atrás do homem rejeitado antes que o homem rejeitado vá atrás do irmão.
Calvino acerta em algo que não podemos perder: a fé de Abel foi dada, e nada em Caim merecia aceitação. Mas a leitura dele não se sustenta no ponto em que transforma a pergunta de Deus em mera acusação. O verbo é de futuro, “não serás aceito?”, e o aviso, lido como a maioria das traduções modernas o lê, é de luta, “tu deves dominá-lo”; um aviso de luta pressupõe um combate que ainda pode ir para qualquer lado. (Calvino e Wesley liam essa última frase de outro modo, mas o argumento não depende dela: a condição da primeira metade do versículo já basta.) A ordem dos acontecimentos confirma: Deus fala, Caim cala, Caim chama o irmão para o campo, e o texto marca a decisão como decisão de Caim, tomada depois de ouvir Deus. Onde a leitura da eleição diz que Caim nunca pôde, o versículo diz que ele devia, e um dever imposto por Deus não é um dever impossível. Cristãos fiéis à Escritura divergem aqui e seguem irmãos, mas o versículo não fica em empate. A leitura que mais respeita as palavras é a que ouve na pergunta de Deus uma oferta real, sustentada não pela força de Caim, mas pela graça que já batia à porta antes do pecado.
Você pode estar pensando: “e Primeira João?” O apóstolo não diz que Caim não podia; ele diz de quem Caim era quando matou, e descreve o homem que fechou a porta, não um homem que nunca teve porta. Hebreus 11:4 fecha o círculo:
“Pela fé, Abel ofereceu a Deus melhor sacrifício do que Caim; por isso obteve testemunho de que era justo, pois Deus testemunhou de suas ofertas; e mesmo estando morto, ainda fala por meio dela.”
(Hebreus 11:4, Bíblia Livre)
Deus olhou para a fé por trás da oferta. Isso responde a Clemente, porque a inveja nasce quando o culto é gesto sem fé; responde a Calvino, porque a fé é dada por Deus; e responde a Wesley, porque a fé é oferecida a quem ouve, e Deus falou com Caim como falou com Abel.
De Abel até Cristo
E é aqui que o Novo Testamento leva Abel até Cristo, sem forçar nada. Jesus, em Mateus 23:35, fala do “sangue do justo Abel” como o primeiro de uma longa fila de justos mortos por quem prestava culto sem coração. Hebreus 12:24 diz que chegamos a Jesus, “o Mediador de um Novo Testamento, e ao sangue da aspersão, que fala melhor coisa que o de Abel”. O sangue de Abel clamava da terra por justiça; o sangue de Cristo clama por perdão. A primeira violência da história humana, de um irmão contra o irmão, recebe resposta na cruz, onde o Irmão mais velho de todos nós foi morto por gente furiosa, de rosto transtornado, que também tinha sido avisada. Ali a porta que Caim fechou foi aberta de novo.
A porta estava aberta para Caim, e Deus a abriu com uma pergunta, avisou do que estava encostado nela e deixou a resposta com o homem. Clemente nos mostrou que a inveja passa por uma porta mal fechada. Calvino nos lembrou que ninguém segura essa porta por mérito próprio, porque a fé vem de Deus. Wesley nos fez ouvir na pergunta de Deus uma oferta sincera, e o texto, pesado com calma, ficou do lado da oferta. E a porta diante de você? O pecado não arromba, ele espera uma fresta, como o cachorro encostado na cozinha, e Deus ainda faz a mesma pergunta antes de cada campo. Como a sua igreja lê essa frase de Deus a Caim, e quando foi a última vez em que você a ouviu antes de sair de casa?
O que fica para a fé é sóbrio: Deus olha para a fé por trás da oferta, não só para o gesto, e nenhum culto, por mais correto, protege alguém da própria inveja se o coração não estiver na oferta. Que a graça que bateu à porta de Caim encontre a sua aberta.
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