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Irineu e a imagem de Deus: de onde vem a sua identidade

Diego Gonçalves10 min de leitura2.047 palavras

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Neste estudo

Tem gente que acorda e a primeira coisa que faz é pegar o celular pra ver se alguém curtiu, respondeu, elogiou. Se ninguém reagiu, o dia começa torto. Se alguém criticou, desanda de vez. A gente ri disso, mas por baixo da graça mora uma pergunta séria: quem sou eu, de verdade? Se bastam três curtidas pra eu me sentir alguém, e uma crítica pra me sentir ninguém, é sinal de que eu entreguei a outras mãos a resposta.

Poucas perguntas custaram tanto à humanidade. E há um jeito antigo de respondê-la, que vem de um bispo do século 2 chamado Irineu, de Lyon, na Gália, onde hoje é a França. Irineu escreveu Contra as Heresias pra enfrentar os gnósticos, gente que dizia que o corpo era uma prisão, que o mundo material era um erro e que salvação era fugir da carne. Ele respondeu com uma ideia que ainda hoje é fresca: o ser humano foi feito pra ter um rosto, e esse rosto tem nome.

Feitos à imagem de alguém

Deus diz no começo da Bíblia: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26, ARA). Muita gente lê “imagem de Deus” como uma ideia vaga, uma espécie de brilho genérico de divindade que a gente carrega. Irineu lia de outro jeito. Pra ele, quando Deus modelou o ser humano, tinha em mente o Filho, o Verbo que um dia se faria carne. A imagem não era um molde abstrato flutuando no céu. Era uma Pessoa.

Isso muda a pergunta. Você não foi feito à imagem de um conceito, e sim à imagem de Alguém. Existe uma forma concreta, relacional, que é o seu destino original. Paulo diz que Cristo é a imagem do Deus invisível (Cl 1:15), e aí a gente entende que o padrão de toda humanidade verdadeira tem rosto, voz e história.

O texto de Gênesis usa duas palavras, imagem e semelhança (em hebraico, tselem e demut; no grego da Septuaginta, que Irineu lia, eikon e homoiosis). Irineu costuma ser lido como alguém que viu aí duas coisas diferentes. A imagem seria o que recebemos na criação: razão, afeto, linguagem, escolha moral, capacidade de amar e de adorar. Isso a queda feriu, mas não apagou. A semelhança seria o crescimento rumo a Deus, a vida divina se aprofundando em nós pelo Espírito, e foi esse caminho que o pecado interrompeu. Os estudiosos discutem o quanto Irineu separava as duas, mas a intuição é boa: a gente ainda tem o rascunho, só que perdeu a estrada que levava ao desenho acabado.

John Wesley, séculos depois, falava de um jeito parecido quando dizia que a obra da graça é renovar em nós a imagem moral de Deus. Pra tradição wesleyana, salvação não é só ser declarado livre da culpa. É ser refeito.

Gênesis também diz que essa imagem vem com tarefa. Logo depois de criar o homem e a mulher, Deus lhes dá a missão de frutificar, encher a terra e exercer domínio sobre a criação (Gn 1:28). Domínio, no sentido bíblico, lembra o cuidado de um rei que governa pra servir. Ou seja, imagem de Deus é também o jeito que a gente trabalha, cuida e responde pelo que está ao seu alcance.

O dia em que o espelho rachou

A serpente não ofereceu nada obviamente mau. Ofereceu algo que parecia melhor: ser como Deus, sabendo o bem e o mal (Gn 3:5). O ser humano já era imagem de Deus, e a conversa insinuava que isso era pouco, que Deus guardava alguma coisa, que a grandeza de verdade estava em decidir tudo sozinho.

Adão e Eva comeram, e o texto diz que os olhos deles se abriram e que perceberam que estavam nus (Gn 3:7). Repara no que veio primeiro: a vergonha. E o primeiro movimento foi se esconder atrás de folhas de figueira. Aquela nudez não era só de corpo. Era a sensação de estar sem cobertura, sem o olhar de Deus como chão. A partir dali, a gente passa a precisar de uma folha de figueira: uma conquista, um cargo, um elogio, uma imagem bem cuidada.

Mas Deus não ficou no jardim esperando o ser humano voltar. Ele veio procurar e perguntou: “Onde estás?” (Gn 3:9, ARA). Irineu diria que o ser humano continuou sendo imagem de Deus, só que agora vivia de costas pro Criador, tentando fabricar um rosto por conta própria.

Agostinho, mais tarde, disse com outras palavras a mesma coisa no começo das suas Confissões: Deus nos fez para ele, e o nosso coração fica inquieto enquanto não descansa nele. A inquietação, nesse sentido, não é defeito de caráter. É um sinal apontando pra falta que a gente carrega.

O novo Adão e a recapitulação

Irineu não parou no diagnóstico. A palavra que ele mais usa pra falar do remédio é anakephalaiosis, que a gente traduz por recapitulação. Tem dois sentidos juntos: resumir, juntar num ponto tudo o que estava espalhado, e refazer, percorrer o mesmo caminho de novo, desta vez sem errar.

Foi o que Cristo fez. Ele entrou na história como novo Adão, e onde o primeiro caiu, ele ficou de pé. Adão cedeu à tentação num jardim; Jesus resistiu no deserto (Mt 4:1-11). Adão desobedeceu; Jesus foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2:8). A árvore da desobediência foi respondida por uma árvore de obediência, e Irineu gostava de dizer isso.

Só que a recapitulação mostra mais que um conserto. Cristo é a imagem completa daquilo que o Criador tinha em mente quando fez o primeiro homem. Quando a gente olha pra ele, pra como trata os excluídos, pra autoridade com que fala, pra ternura com que acolhe, pra firmeza com que enfrenta o mal, pro amor com que entrega a vida, não está diante de um ideal impossível pra nos humilhar. Está vendo o rascunho terminado. Está vendo o rosto que você foi feito pra ter.

Irineu pensava no ser humano como alguém em crescimento. Adão, dizia ele, era como criança, no começo do caminho. A queda não só estragou a obra, também parou o crescimento antes do destino. Cristo não leva a humanidade de volta ao Éden. Leva adiante, à glória que o Éden prometia.

O olhar que devolve o rosto

Tem uma cena nos evangelhos que mostra isso melhor do que qualquer explicação (Jo 8:1-11). Uma mulher flagrada em adultério é jogada diante de Jesus. A multidão está em volta, e as pedras nas mãos já eram só a parte visível: tinha também a pedra do julgamento, da comparação, da identidade fixada no pior erro. Naquele momento, a mulher não tem nome no texto. Existe só como pecado. Tudo o que ela é foi reduzido ao que fizeram dela.

Jesus se abaixa e escreve no chão. O texto não diz o que ele escreveu, e talvez não precise dizer. O que conta é o que vem depois: ele diz que quem nunca pecou atire a primeira pedra, e um a um, dos mais velhos aos mais novos, todos vão embora. Então ele pergunta onde estão os acusadores, e ela responde que ninguém ficou. “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8:11, ARA).

Olha o que aconteceu ali. Jesus perdoou, claro, e também chamou a mulher pra uma vida nova, sem aquele pecado. Mas antes de tudo ele devolveu um rosto. Olhou pra alguém que tinha sido reduzida a uma falha e viu uma pessoa. A identidade dela não foi decidida pela multidão com pedras, nem pelo erro. Foi dita pelo único que tinha autoridade pra condenar e escolheu não fazer isso.

A restauração da imagem começa assim, por um olhar. O Criador te vê como você foi feito pra ser, antes de você conseguir se ver desse jeito.

De glória em glória

Mas o olhar começa a obra, e não a termina sozinho. Para Irineu, a restauração da imagem é trabalho do Espírito Santo, devagar, no corpo e no tempo. Paulo usa a figura do espelho: “Todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem” (2Co 3:18, ARA).

De glória em glória é um processo. Ninguém acorda um dia pronto. A gente contempla, é transformado um pouco, contempla de novo, é transformado mais. O rosto que a gente fixa vai moldando o rosto que a gente vai ficando. Quem fixa os olhos na aprovação dos outros fica cada vez mais dependente dela. Quem fixa os olhos no próprio fracasso vai sendo moldado pela vergonha. Quem fixa os olhos em Cristo, na oração, nas Escrituras, na vida da igreja, no serviço ao próximo, vai sendo refeito à imagem que o Criador tinha em mente.

Tiago usa a mesma figura (Tg 1:23-25). Um homem olha o rosto no espelho, vai embora e esquece como era. Outro se debruça sobre a lei perfeita, a que liberta, e permanece nela, e é abençoado no que faz. A diferença entre os dois não é de inteligência. É de continuar olhando.

O corpo também é imagem

Os gnósticos que Irineu combatia achavam que o corpo era inimigo da alma e que a salvação era escapar da matéria. Irineu respondeu que o ser humano inteiro, carne e espírito, é imagem de Deus. Seu argumento mais forte é a encarnação: o Filho veio em carne, com fome de verdade, cansaço de verdade, choro de verdade, e ressuscitou em corpo, não como espírito solto no ar.

Isso quer dizer que cuidar do corpo, descansar, comer direito, estar presente de verdade na vida das pessoas também faz parte de uma vida cristã séria. A espiritualidade cristã nunca foi fuga do mundo. Foi sempre morar nele de um jeito mais pleno, como Cristo morou em nossa carne.

Dignidade sem mérito, e sem orgulho

Falar de dignidade assim pode soar como massagem no ego, uma versão religiosa de autoajuda pra se sentir especial. Mas a dignidade que vem da imagem de Deus é outra coisa. O orgulho diz: eu valho porque fui bem-sucedido, porque mereço, porque me superei. A imagem de Deus diz: eu valho porque fui criado por Alguém que é amor, e fui feito pra refletir algo muito maior que eu.

O orgulho olha pra dentro e se contenta com o que vê. A dignidade da imagem olha pra cima, pra Cristo, e encontra aí não humilhação, mas elevação. Irineu tem uma frase que ficou famosa: “A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Contra as Heresias, 4.20.7). Deus se glorifica quando o ser humano vive de verdade, e viver de verdade é ver a Deus.

Por isso Paulo pode dizer: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2:20). Isso não apaga o Paulo. Quando Cristo vive em mim, quem aparece é o eu verdadeiro, livre da distorção da queda, caminhando de volta à forma que Deus pensou pra ele.

O rosto que você procurava

Pensa no tanto de tempo que a gente gasta procurando o próprio rosto nos olhos dos outros: nas curtidas, no silêncio de quem não respondeu, no elogio que chegou tarde, na crítica que ficou tempo demais. É um cansaço diferente do físico, o de ser arquiteto de um rosto que nunca fica pronto, porque está sempre sendo julgado, comparado e aprovado de novo. Irineu daria a esse cansaço um nome: viver de costas pro Criador. E o remédio não é esforçar mais, é virar de frente.

O livro de Apocalipse termina com essa promessa. Sobre os redimidos, diz que verão a face dele, e que o nome dele estará na fronte deles (Ap 22:4). Ver a face e ter o nome: um encontro de rostos e uma identidade fundada, enfim, em Deus, e não mais na opinião de ninguém.

Você está nesse caminho. Ferido, sim, mas sendo restaurado. Com o espelho rachado, mas com o Espírito trabalhando nele. Com o rosto ainda meio escondido atrás de folhas de figueira, mas com um Deus que veio procurar no jardim e perguntou, sem nenhuma condenação na voz: “Onde estás?”.

Tomara que a gente consiga responder: estou aqui, encontrado. E que, na próxima vez que a mão correr pro celular atrás de aprovação, a gente lembre que o rosto verdadeiro já existe, está em Cristo, e vai sendo refeito de glória em glória.