
HistóriaPais da Igreja9 de 25
Pais da Igreja x protestantes: o Cântico é só romance?
Três presentes que os pais da Igreja oferecem a quem lê a Bíblia pelo sentido claro, com Beda, Orígenes e Agostinho
Se Deus pôs na Bíblia um elogio que compara o cabelo da noiva a um rebanho de cabras, o que Ele quer que você ouça ali? E será que os cristãos antigos ouviam algo que você deixa passar?
O verso está em Cântico dos Cânticos 4:1: “Teu cabelo é como um rebanho de cabras, que descem do monte Gileade” (Bíblia Livre). Quem já tentou ler a Bíblia em um ano sabe o que acontece com versos assim: você lê, acha estranho e passa adiante, porque não espera encontrar nada ali.
A leitura mais comum tem razão no que afirma: o verso descreve a beleza com os olhos de outro povo, que tinha outro padrão de beleza e outro jeito de elogiar. Afinal, hoje um elogio desses, dizendo que o cabelo parece cabras descendo a serra, arrancaria risada de qualquer noiva. Só que essa leitura para na diferença cultural e deixa aberta a pergunta que mais importa: por que Deus quer que você ouça isso?
Uma ajuda que poucos de nós abrimos
Para essa pergunta existe uma ajuda que muitos de nós nunca abrimos. Os pais da Igreja, isto é, os pastores e mestres dos primeiros séculos, e seus herdeiros no começo da Idade Média, comentaram a Bíblia quase linha por linha. Esses escritos estão entre os maiores presentes da tradição cristã, para quem prega e para qualquer cristão que quer crescer.
Mas esse presente vem com espinhos, e quem abre esses livros tropeça neles com frequência. Eles se preocupavam com coisas que para nós são normais, como o teatro, e lutavam contra ideias que hoje parecem absurdas, como a de um Jesus sem corpo de verdade. E liam a Bíblia de outro jeito: muitas vezes parecem tratar o texto com liberdade demais e chegam a conclusões que soam forçadas para nós.
Por isso muitos protestantes desconfiam deles, sobretudo do exagero na alegoria, ou seja, da busca de um sentido espiritual escondido nas palavras. Então, por que você deveria se dar ao trabalho? Porque, mesmo deixando a alegoria de lado, esses escritos guardam três presentes que todo cristão pode receber, de qualquer igreja.
Primeiro presente: profundidade nos versos que lemos às pressas
O primeiro presente é encontrar profundidade nos versos que nós lemos às pressas. Quem mostra isso é Beda (c. 673–735), um monge inglês que ajudou a espalhar o costume de contar os anos a partir do nascimento de Cristo. Num livro chamado Sobre o Tabernáculo, ele parou justamente nas cabras do Cântico.
Na Escritura, a cabra costuma lembrar o pecador, e o próprio Jesus, quando fala do juízo em Mateus 25, separa as ovelhas dos bodes. Mas a Lei de Moisés põe a cabra entre os animais puros, e o Cântico usa cabras para elogiar a noiva. Beda junta as duas coisas: se a cabra significasse sempre a sujeira dos pecadores e nunca a humildade dos penitentes, ela não estaria entre os animais puros nem no elogio da noiva. Penitente quer dizer o pecador que reconhece o próprio erro, se arrepende e volta para Deus.
A conclusão de Beda responde à pergunta do começo: o pecador arrependido é bonito aos olhos de Deus, e todos nós somos chamados a ser assim. Você pode estar pensando: “Isso é forçar o texto, cabelo é cabelo”. Mas Beda não trouxe um sentido de fora nem apagou o sentido claro; ele juntou o que a própria Bíblia diz sobre cabras e perguntou por que esse animal aparece num elogio. O teste segue sendo o texto: o que a Escritura sustenta, você recebe, e o resto você deixa de lado.
Segundo presente: ligações que surpreendem
Antes do celular, muita gente sabia de cor o telefone da família inteira, dos tios e até do vizinho, e hoje muita gente não sabe nem o da própria mãe. Os cristãos antigos viviam numa cultura oral: livro era caro, o único buscador era a memória, e muitos sabiam de cor trechos enormes da Escritura. Daí vem o segundo presente: eles ligam textos de um jeito que surpreende você, e o que para nós parece criatividade é, para o bom leitor, mostrar o que já estava na Bíblia.
O mestre dessas ligações é Orígenes (c. 185–253), de Alexandria. Em algumas ideias ele se afastou da fé da Igreja, e isso precisa ser dito, mas a contribuição dele para a leitura da Bíblia é enorme. Em Cântico dos Cânticos 1:2, logo na abertura do livro, a noiva deseja os beijos da boca do amado.
No Comentário ao Cântico dos Cânticos, Orígenes ouve nesse desejo a vontade da Igreja de escutar o próprio Cristo. Os beijos, ele diz, são de Cristo, que veio em carne e, presente em pessoa, falou à sua Igreja palavras de fé, de amor e de paz. E ele liga o verso a Isaías: na Bíblia grega que Orígenes lia, o profeta anuncia que não seria mensageiro nem anjo, mas o próprio Senhor quem salvaria. Para a encarnação, ou seja, Deus perto do seu povo num corpo real, é difícil achar imagem melhor do que um beijo.
Você pode estar pensando: “Mas o Cântico é poesia de amor entre um homem e uma mulher, e ponto”. E ele é isso de verdade. Só que, se você tira do Cântico toda metáfora, sobra apenas a história de um casal apaixonado, e fica difícil entender por que esse livro entrou na Bíblia. A própria Escritura oferece o fio: em Efésios 5, Paulo diz que o casamento aponta para Cristo e a igreja. Assim, o Cântico pode ser poesia de amor e, ao mesmo tempo, falar do Cristo que veio buscar o seu povo.
Terceiro presente: o invisível na história do Éden
Você também pode achar que dois exemplos do Cântico são fáceis demais, porque num livro de poesia até quem lê ao pé da letra aceita alguma imagem. Por isso o terceiro presente vem de um texto que muitos leem como história: o Éden, em Gênesis 2 e 3.
Quem tenta comer melhor sabe que a coxinha na vitrine da padaria parece chamar o seu nome, mas ela não come por você: só oferece, e a decisão acontece por dentro. O terceiro presente é que os pais da Igreja lidam melhor do que nós com o pensamento abstrato, ou seja, com o invisível.
Agostinho (354–430), bispo de Hipona, no norte da África, escreveu sobre Gênesis várias vezes. Em alguns desses livros ele leu o texto ao pé da letra, como a história de um homem e de uma mulher reais, que pecaram de verdade. Na obra A Trindade, ele dá outro passo: Adão representa a razão mais alta, que busca a sabedoria eterna, e Eva, a razão que cuida das decisões do dia a dia. E a serpente representa o desejo que chega pelos sentidos, aquilo que o olho vê e a boca quer.
Agostinho conclui que a serpente não comeu da árvore proibida, só convidou a comer; do mesmo jeito, dentro de uma só pessoa, o desejo dos sentidos se levanta contra a sabedoria. A queda do primeiro homem e da primeira mulher vira também um mapa da alma, a história de todos nós. O mundo oferece, a mente leva a oferta para dentro, e ali você escolhe o que fazer com ela. Ninguém está fora dessa história. Muito antes de existir a psicologia, Agostinho já descrevia esse caminho, e tirava isso da Bíblia.
Vale a pena abrir os pais da Igreja?
Então, vale a pena quem lê a Bíblia pelo sentido claro abrir os pais da Igreja? Vale, desde que você entre nesses livros de olhos abertos, com a Escritura na mão, pronto para testar cada leitura pelo próprio texto, como Beda fez com as cabras. As leituras deles são diferentes das nossas e às vezes parecem estranhas, mas são pensadas e fiéis à Escritura. Eles veem coisas grandes em lugares pequenos, costuram a Bíblia de um jeito que nós não esperamos e enxergam a alma de cada um dentro de uma história antiga. E repare aonde as três leituras chegam: ao pecador arrependido que Deus acha bonito, ao Cristo que veio em carne falar com a Igreja e ao coração diante da tentação.
A resposta cabe numa frase. Os pais da Igreja não tomam o lugar da Escritura, mas ensinam você a esperar que Deus fale em cada verso.
Da próxima vez que o seu plano de leitura chegar ao Cântico, ou a um verso que parece vazio, vá devagar. Pare um minuto e faça a pergunta que os pais da Igreja faziam diante de cada linha da Escritura: por que Deus quis que eu ouvisse isso?
- História da Igreja
- Pais da Igreja
- Interpretação Bíblica
- Hermenêutica
