AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaPais da Igreja3 de 25

É pecado fugir do chamado de Deus? O que diz 1 Pedro 5:6

Gregório de Nazianzo, ordenado à força pelo pai, e a humildade que volta a se pôr debaixo da mão de Deus

Diego Gonçalvesatualizado 6 min de leitura1.209 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Miniatura do vídeo: É pecado fugir do chamado de Deus? O que diz 1 Pedro 5:6Assistir no YouTube

Um homem é ordenado pelo próprio pai, foge da cidade e só volta meses depois, numa manhã de Páscoa, falando de uma “nobre tirania”. Fugir do chamado de Deus é pecado, ou pode ser humildade?

Esse homem é Gregório de Nazianzo, um dos grandes pais da Igreja do século 4. A história dele não chegou até nós por boato: ele mesmo a contou em dois discursos que ainda hoje podemos ler. Nazianzo era uma cidade pequena da Capadócia, no centro da atual Turquia, e o bispo de lá também se chamava Gregório. Era o pai dele.

Um filho ordenado à força

O filho tinha estudado nas melhores escolas do seu tempo, inclusive em Atenas, e voltou para casa querendo uma vida retirada, de oração, estudo das Escrituras e silêncio. Em outras palavras, queria ser monge. O pai, já idoso, precisava de ajuda para cuidar da igreja. No fim de 361 ou no começo de 362, ordenou o filho presbítero, isto é, um dos anciãos que ajudavam o bispo a pastorear o povo. Gregório não queria, e pouco depois saiu da cidade e foi para o Ponto, perto do mar Negro, onde vivia seu amigo Basílio.

Você conhece a versão brasileira dessa cena. A igreja indica um irmão para diácono ou para liderar a mocidade, a assembleia aprova, e no domingo seguinte o banco dele está vazio. Há quem chame isso de humildade, e há quem chame de fuga. No caso de Gregório, as duas leituras moram na mesma pessoa, e quem melhor defende cada uma delas é ele próprio.

O peso do ministério

A defesa mais forte da fuga saiu da pena de Gregório, no segundo discurso, que ficou conhecido como a defesa da sua fuga. Ali ele explica por que tremeu. Guiar seres humanos, escreve, é a arte das artes e a ciência das ciências, porque não há criatura mais variada e difícil de conduzir do que o homem. E o alvo dessa arte, diz ele, é dar asas à alma, tirá-la do mundo e entregá-la a Deus. Para Gregório, quem entende o tamanho disso não se oferece correndo.

“Então ele estava certo. Quem leva a sério o peso do ministério tem mesmo que recuar.” O argumento tem força, e muita igreja sofreria menos se mais gente tremesse antes de subir ao púlpito. Nós, que falamos de Deus em público, precisamos ouvir isso primeiro, antes de qualquer outra pessoa.

Só que Gregório não deixa a própria desculpa tão limpa. No sermão da Páscoa, o primeiro dos dois discursos, ele diz que se retirou um pouco para se examinar e que voltava trazendo o dia da ressurreição como defensor da sua covardia e da sua fraqueza. Em vez de chamar a fuga de reverência, ele a chamou de covardia, na frente da igreja que tinha abandonado. A Escritura conhece esse caminho: “Mas Jonas fugiu da presença do Senhor” (Jonas 1:3). Na defesa da fuga, o próprio Gregório se mede pelo profeta que correu para o lado oposto. A conclusão do primeiro problema é esta: a humildade que termina dizendo não a Deus ainda não terminou de ser humildade.

A defesa do pai

E se o filho fugiu por medo, o pai acertou ao ordená-lo à força? A resposta exige olhar para o bispo com a mesma justiça.

A defesa do pai também é forte: “Ele era a autoridade, a igreja precisava, e o filho tinha os dons. Esperar a vontade dele seria perder o melhor obreiro da cidade.” O apóstolo Pedro, porém, escrevendo justamente aos presbíteros, pede outra coisa: “pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer” (1 Pedro 5:2). A igreja pode reconhecer um chamado e convidar alguém a assumi-lo, mas não consegue fabricar a disposição que Pedro pede. Gregório chamou aquilo de tirania, e só depois de voltar conseguiu chamá-la de nobre. O pai acertou ao ver o dom e errou no modo de impô-lo. O filho acertou ao temer o peso e errou ao fugir dele.

Humilhar-se debaixo da mão de Deus

O que tirou Gregório da fuga foi um versículo da mesma carta de Pedro. A defesa da fuga começa com uma confissão curta, algo como “fui vencido e reconheço a derrota”, e termina com o filho dizendo que caiu e se humilhou debaixo da poderosa mão de Deus. São palavras de Pedro: “Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido” (1 Pedro 5:6).

Repare no que esse versículo faz com a pergunta. Na fuga, Gregório também se sentia pequeno, mas guardava para si a última palavra sobre o que conseguia ou não carregar. Humilhar-se debaixo da mão de Deus é entregar essa última palavra a Ele. O versículo seguinte explica o que essa mão faz: “Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5:7). A mesma mão que pesa sobre você é a que carrega a ansiedade que fazia você correr.

Quem escreveu foi um fugitivo

E há um detalhe que me comove toda vez. Quem escreveu essas palavras foi um homem que também fugiu. Na noite em que Jesus foi preso, Pedro negou o Mestre três vezes. Depois da ressurreição, à beira do mar, Jesus perguntou três vezes se ele o amava e lhe disse: “Pastoreie as minhas ovelhas” (João 21:16). O apóstolo que manda os presbíteros pastorearem o rebanho está repetindo a ordem que recebeu quando foi buscado de volta. O “tempo devido” de que ele fala também tem o desenho de Cristo, que se humilhou até a cruz e foi exaltado por Deus, como Paulo escreve em Filipenses 2:8-9.

Voltar numa Páscoa

Por isso não é acaso Gregório ter voltado numa Páscoa. Ele mesmo disse que trazia a ressurreição como advogada da sua covardia. O pai tentou resolver a resistência do filho pela força, e Deus a resolveu pela graça. O mesmo Deus que chama vem antes de nós, alcança o fugitivo onde ele estiver e dá a graça para responder, sem arrastar ninguém pelo braço.

Então, fugir do chamado de Deus é pecado ou humildade? Recuar diante do peso pode até começar como humildade, mas só termina como humildade quando você volta e se põe debaixo da mão de Deus.

Talvez o banco vazio daquele domingo seja o seu. Se existe algo que Deus colocou diante de você e você foi para longe, o caminho que Pedro e Gregório encontraram continua aberto: voltar, dizer a verdade sobre o próprio medo e deixar que a mão de Deus carregue o que você não aguentaria sozinho.

140pal/min