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HistóriaPais da Igreja17 de 25

O papado existia no início do cristianismo? Analisando os documentos

De Pedro e Clemente a Cipriano e Leão I: o que as fontes antigas mostram sobre a primazia de Roma

Diego Gonçalvesatualizado 12 min de leitura2.321 palavras

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Se Roma governava toda a igreja, por que bispos antigos resistiram às suas decisões? Mas se Roma não tinha autoridade especial, por que interveio numa crise em Corinto ainda no século I? A resposta decide quem pode falar em nome de toda a igreja e quem possui a palavra final quando bispos e tradições discordam. Uma das mais antigas cartas cristãs preservadas fora do Novo Testamento, enviada de Roma a outra igreja, não começa com as palavras “Eu, Clemente, papa universal”. Ela começa em nome da igreja de Roma. E essa igreja não escreve apenas para oferecer conselhos. Ela intervém numa crise, corrige a comunidade de Corinto e espera ser obedecida.

Roma já exercia autoridade fora de Roma. A pergunta é: Roma já mandava em toda a igreja?

Primazia ou jurisdição?

Para responder, precisamos separar três afirmações. Pedro pode ter sido o primeiro entre os apóstolos. Roma pode ter sido a primeira entre as grandes igrejas. E o bispo de Roma pode ter recebido autoridade para governar todas elas. As duas primeiras afirmações não provam automaticamente a terceira. Primazia é ocupar o primeiro lugar. Jurisdição é possuir autoridade para governar. É essa passagem da primazia para a jurisdição que precisamos testar.

Pedro no Novo Testamento

O melhor argumento católico começa no Novo Testamento. Em Mateus 16, Simão confessa que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus responde: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mateus 16:18, Bíblia Livre). Pedro recebe as chaves do reino e a autoridade de ligar e desligar. Em Lucas 22, Jesus ora por ele e lhe ordena que fortaleça os irmãos. Em João 21, o Cristo ressuscitado o interpela três vezes e lhe diz: “Apascenta minhas ovelhas” (João 21:16, Bíblia Livre). Nos primeiros capítulos de Atos, Pedro fala pelos 12, prega em Pentecostes e participa dos momentos decisivos da expansão da igreja. Uma leitura protestante não precisa fingir que Pedro era apenas mais um apóstolo.

Ele aparece em primeiro plano, recebe uma responsabilidade singular e frequentemente representa o grupo apostólico. Mas o mesmo Novo Testamento também mostra uma autoridade compartilhada. Em Mateus 18, a autoridade de ligar e desligar reaparece no contexto da comunidade apostólica. No Concílio de Jerusalém, em Atos 15, Pedro faz uma intervenção decisiva, mas Tiago formula a proposta e a decisão final é enviada em nome dos apóstolos e presbíteros. Em Gálatas 2, Paulo confronta Pedro publicamente quando sua conduta ameaça a verdade do Evangelho. O Novo Testamento apresenta primazia e colegialidade ao mesmo tempo. Pedro é singular. A questão é: quem herdou sua singularidade? Porque nenhum texto mostra Pedro entregando as chaves a um bispo romano ou declarando que seus sucessores em Roma governariam todos os demais bispos.

O Novo Testamento demonstra a primazia de Pedro. O que não demonstra diretamente é quem herdaria essa primazia.

Clemente, Inácio e Irineu

Por isso, o argumento precisa avançar para os primeiros documentos cristãos. No final do século I, a igreja de Corinto enfrentava uma grave divisão. Alguns presbíteros haviam sido afastados. A igreja de Roma escreveu uma carta extensa, defendendo a ordem ministerial, condenando a revolta e pedindo que os presbíteros fossem restaurados. Mais perto do final, o documento adverte que aqueles que desobedecessem às palavras transmitidas por meio dos remetentes estariam se colocando em grave perigo. Isso é mais do que uma carta amistosa. Roma assume responsabilidade pelo que acontece em outra igreja. O texto não esclarece de forma inequívoca se Corinto havia solicitado formalmente essa intervenção. Também não apresenta Clemente reivindicando pessoalmente o título de sucessor de Pedro, papa universal ou juiz de todas as igrejas.

O remetente continua sendo a igreja de Roma. A primeira carta de Clemente demonstra que Roma já assumia responsabilidade por outra comunidade cristã. O documento ainda não define essa responsabilidade como jurisdição universal de um bispo individual. Intervir não é o mesmo que governar, mas também não é ser irrelevante. A primeira carta de Clemente corrige uma explicação protestante popular. Roma não começou a ser importante com Constantino.

No início do século II, Inácio de Antioquia tratou a igreja de Roma de maneira excepcional. Ele fala de uma igreja que preside no amor. A expressão indica precedência, mas não explica poderes jurídicos, nem desenvolve uma teoria de sucessão papal. Roma ocupa o primeiro plano. O alcance dessa posição ainda não está definido.

No final do mesmo século, surge uma evidência ainda mais forte. Irineu de Lião combatia grupos gnósticos que diziam possuir ensinamentos secretos recebidos dos apóstolos. Irineu respondeu apontando para a tradição pública das igrejas apostólicas. Ele afirma que poderia listar muitas sucessões, mas escolhe Roma, liga essa igreja a Pedro e Paulo, apresenta sua sequência de dirigentes e afirma na versão latina preservada que as demais igrejas precisam concordar com ela por causa de sua especial preeminência.

Esse é um dos textos antigos mais fortes a favor de Roma. Irineu não trata a Igreja Romana como uma comunidade qualquer. Sua sucessão é pública. Sua fé serve como referência contra os hereges. Sua influência ultrapassa sua própria região. Mas Irineu está combatendo tradições gnósticas secretas. Ele não está escrevendo um manual sobre os poderes do papa. Além disso, a frase decisiva sobre concordar com Roma sobrevive integralmente numa tradução latina. Seu alcance exato é discutido. Ela pode ser interpretada como submissão jurídica, mas também pode significar convergência com uma igreja cuja fé apostólica era pública e conhecida em muitos lugares. Seria fraco dizer que Roma é apenas um exemplo acidental, mas também seria excessivo afirmar que Irineu já definiu a jurisdição universal e a infalibilidade papal.

Irineu demonstra preeminência romana, não demonstra sozinho todo o papado posterior. Até aqui, porém, o argumento católico ganhou força. A singularidade de Pedro, a intervenção romana, a presidência mencionada por Inácio, a sucessão apresentada por Irineu e a crescente preeminência de Roma formam um caso histórico cumulativo.

Cipriano e Estêvão

Mas uma autoridade só possui a palavra final quando sua decisão é tratada como final. O que acontece quando Roma decide e outros bispos não obedecem? No século III, cristãos discutiam se deveria ser reconhecido o batismo recebido fora da comunhão da igreja. Estêvão, bispo de Roma, defendia a prática romana. Cipriano de Cartago e muitos bispos africanos mantinham outra posição. Cipriano não era um protestante antecipado. Ele defendia uma igreja visível, episcopal e sacramental. Reconhecia a sucessão apostólica, a unidade do episcopado e a importância de Pedro. Também tratava Roma como uma sede de grande relevância.

Mesmo assim, não considerou a decisão de Estêvão como o fim automático da discussão. No contexto da oposição aberta entre Roma e os africanos, Cipriano reuniu um concílio em Cartago. Oitenta e sete bispos apresentaram suas posições. Na abertura da deliberação, Cipriano declarou que nenhum dos bispos ali presentes se constituía “bispo dos bispos”, nem obrigava seus colegas à obediência por medo tirânico. A frase não menciona Estêvão nominalmente, mas sua força dentro daquela controvérsia é difícil de ignorar. Os africanos mantiveram sua posição. A resposta católica pode observar corretamente que resistir a uma autoridade não prova que essa autoridade não exista.

O próprio conflito mostra que Roma possuía peso suficiente para provocar uma crise internacional, mas a prática de Cipriano também mostra que ele não entendia a decisão do bispo romano como uma sentença unilateral e automaticamente vinculante para todos os bispos. No século III era possível reconhecer Pedro, a sucessão apostólica e a importância de Roma sem tratar cada decisão romana como a palavra final. A pergunta já não é se Roma possuía a autoridade, possuía. A pergunta é: qual era o alcance dessa autoridade?

De Niceia a Calcedônia

No século IV, a posição de Roma ganhou formas canônicas mais concretas. O Concílio de Niceia reconheceu antigos privilégios de Roma, Alexandria e Antioquia. Roma não aparece como uma diocese comum, mas o cânon não define uma jurisdição universal sobre toda a igreja. Pouco depois, o Concílio de Sérdica foi além. Se um bispo acreditasse ter sido condenado injustamente, poderia recorrer a Roma. O bispo romano poderia determinar a realização de um novo julgamento. Isso era mais do que honra cerimonial. Roma passava a exercer funções concretas de revisão e proteção. Ainda assim, o novo julgamento continuava sendo realizado por bispos e a recepção universal desses cânones permaneceu discutida. A primazia romana estava crescendo.

Ela já incluía precedência, intervenção e apelação. No século V, com Leão I, esse crescimento ganhou uma formulação muito mais clara. Com Leão, Roma formula algo novo em clareza, ainda que não sem antecedentes. Pedro continuaria exercendo sua responsabilidade por meio da sé romana. O bispo de Roma não seria primeiro apenas por costume. Seu ofício seria a continuação da missão petrina. Quando a igreja enfrentou uma grave controvérsia sobre a pessoa de Cristo, Leão escreveu uma exposição doutrinária que ficou conhecida como o Tomo de Leão. O documento foi levado ao Concílio de Calcedônia, em 451.

Com Leão encontramos uma forma avançada e explicitamente petrina de primazia romana, algo que já pode ser chamado com a devida qualificação histórica de papado. Mas ainda precisamos descobrir como os demais bispos compreendiam essa autoridade. Depois da leitura do tomo, os bispos reunidos em Calcedônia aclamaram: “Pedro falou por meio de Leão.” Poucas frases da Igreja antiga parecem favorecer tanto a posição católica. Leão não é tratado como um simples bispo regional. Sua voz é ligada a Pedro. Seu ensino é reconhecido como apostólico e colocado em concordância com Cirilo de Alexandria. Mas o documento não foi recebido sem exame. Os bispos o compararam com os credos e com os escritos anteriores de Cirilo.

Alguns pediram esclarecimentos. O concílio declarou que o tomo ensinava a fé apostólica e formulou sua própria definição cristológica.

Na leitura católica, o concílio reconheceu a doutrina autorizada do sucessor de Pedro. Na leitura ortodoxa e protestante, o concílio afirmou que Pedro falou por Leão porque o conteúdo do documento havia sido reconhecido como apostólico. A tensão aumenta no cânon 28. Calcedônia concedeu privilégios ampliados a Constantinopla, a chamada Nova Roma. Os representantes romanos protestaram. O concílio, porém, manteve sua decisão, mas também não tratou a oposição de Roma como irrelevante.

O sínodo escreveu a Leão, chamou-o de porta-voz de Pedro e pediu que confirmasse a medida. Leão aceitou a definição doutrinária de Calcedônia, mas recusou o cânon sobre Constantinopla. Esse é o paradoxo central. O mesmo concílio que diz que Pedro falou por Leão não entrega automaticamente a Leão toda a palavra final. Calcedônia trata Roma como primeira sede. Reconhece uma autoridade doutrinária extraordinária. Procura a confirmação de Leão, mas também delibera, examina documentos e toma uma decisão canônica contra a oposição dos representantes romanos. A autoridade romana operava dentro de uma igreja em que concílios e outras sedes ainda preservavam a autoridade real.

O argumento do desenvolvimento

A melhor resposta católica é o argumento do desenvolvimento. A Trindade não aparece no Novo Testamento com toda a terminologia de Niceia. As duas naturezas de Cristo não aparecem com todas as fórmulas de Calcedônia. Uma doutrina não é falsa apenas porque sua linguagem amadureceu depois. Essa objeção é correta. O problema não é apenas quando a linguagem sobre o papa apareceu. O problema é saber se a estrutura posterior preservou ou mudou a distribuição apostólica da autoridade. Para o católico, o desenvolvimento posterior não é uma ruptura: nasce naturalmente dos textos bíblicos e corresponde à prática e à recepção da igreja antiga.

Até o diálogo contemporâneo entre católicos e ortodoxos reconhece que no primeiro milênio primazia e sinodalidade funcionavam juntas, embora Oriente e Ocidente tenham interpretado essa relação de maneiras diferentes. A discussão não é entre Roma importante e Roma irrelevante. É sobre que tipo de primazia pertence à igreja.

O que as fontes permitem afirmar

Então, a igreja primitiva tinha papa? Ela tinha a primazia de Pedro, tinha a precedência da igreja de Roma e, com o tempo possuía sucessão romana, intervenções e funções de apelação ligadas ao bispo romano. O que ela não demonstra desde o início é uma jurisdição universal, imediata e uniformemente reconhecida sobre todos os bispos. No século V, especialmente com Leão, já encontramos uma forma avançada e reconhecível de papado, mas ainda dentro de uma igreja em que concílios e outras sedes preservavam autoridade real. A partir de uma lente protestante clássica, essas raízes são históricas e não devem ser negadas. Pedro é singular. Roma possui precedência antiga. O papado não foi inventado do nada, mas as fontes não demonstram com clareza suficiente que Cristo tenha instituído uma jurisdição universal permanente e exclusivamente transmitida aos bispos romanos.

A antiguidade de uma instituição não prova, por si só, que toda a sua forma posterior tenha sido instituída por Cristo. O papado não nasceu do nada. A questão é se cresceu de suas raízes ou além delas. A discussão continua viva, porque toda tradição precisa responder quem possui a palavra final quando a igreja se divide. O catolicismo aponta para o sucessor de Pedro.

A ortodoxia sustenta uma primazia inseparável da sinodalidade. Os protestantes reconhecem autoridades eclesiásticas reais, mas submetidas à autoridade normativa da Escritura. A fragmentação protestante não prova o papado, mas mostra que o problema da unidade é real. Entre Clemente e Irineu, Cipriano e Calcedônia, qual documento pesa mais para você? As fontes não mostram uma data única em que o papado nasceu, mostram uma transformação. A pergunta que fica é: quando o bispo de Roma realmente se tornou papa?

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