
HistóriaPais da Igreja14 de 25
Fora da arca de Noé ninguém escapou. E fora da Igreja?
Justino, Cipriano e Lutero leem a arca de Gênesis 6 e 1 Pedro 3 como figura do batismo e da Igreja
Fora da arca de Noé ninguém escapou, e há quase dezoito séculos o bispo Cipriano, de Cartago, escreveu em A unidade da Igreja que fora da Igreja também ninguém escapa. Antes dele, Justino já via nas oito pessoas da arca a água do batismo e o dia da ressurreição, e ortodoxos e católicos guardam essa leitura na liturgia e no Catecismo. Do outro lado da mesa está a Reforma, com uma surpresa: Lutero também pedia a Deus, no rito de batismo que publicou, que a criança batizada fosse guardada seca e segura na arca santa da cristandade. E Pedro aperta ainda mais o nó quando escreve que aquela água aponta para o batismo que agora também salva. Então a pergunta fica com você: quem está dentro da arca hoje, a Igreja que se pode ver e contar, com os seus bispos, ou outra coisa que o próprio Gênesis 6 ajuda a enxergar?
A arca no texto de Gênesis 6
Gênesis 6:14 em diante começa com uma ordem de carpintaria: Deus manda Noé fazer uma arca de madeira, dividida em compartimentos e revestida de piche por dentro e por fora. A ordem vem logo depois de Deus anunciar que vai pôr fim à violência que enchia a terra, e o que se segue parece mais a planta de uma obra do que uma visão.
As medidas, que a NVI converte em metros, dão cento e trinta e cinco de comprimento, vinte e dois e meio de largura e treze e meio de altura. Há um vão entre o teto e o corpo da arca, três pavimentos e uma porta, uma só, aberta na lateral. A palavra hebraica que traduzimos por arca é tebá, algo como uma caixa, e ela só aparece em mais um lugar da Bíblia. Em Êxodo 2, é o nome do cesto que a mãe de Moisés vedou com piche e betume antes de deixar o bebê entre os juncos do Nilo.
Para o israelita que ouvia a Torá, a arca de Noé e o cesto de Moisés tinham o mesmo nome: uma caixa vedada que Deus usou para guardar uma vida sobre a água. O texto também não descreve leme, vela nem remo, e esse silêncio não é um dado de engenharia, mas o modo como a narrativa deixa o rumo inteiro com quem deu a ordem.
No versículo 17, Deus anuncia a água que vai destruir toda criatura que tem fôlego de vida, e logo depois vem o versículo que sustenta o capítulo. Em Gênesis 6:18, ele diz: “Mas com você estabelecerei a minha aliança, e você entrará na arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos”. Seguem-se as ordens sobre os animais, cuja entrada não trataremos aqui, e sobre o alimento, e o capítulo fecha no versículo 22: “Noé fez tudo exatamente como Deus lhe tinha ordenado”.
Pense num bebê-conforto preso no banco de trás do carro: a criança não dirige nem escolhe a estrada, e mesmo assim viaja protegida, porque alguém fez o assento e alguém o prendeu no lugar certo. É a relação que Gênesis 6 desenha: Noé trabalha, obedece e confere cada medida, mas o que garante a vida lá dentro é a aliança prometida antes mesmo de ele entrar.
Então por que, séculos depois, os cristãos olharam para essa caixa de madeira e viram nela o batismo, a Igreja e o próprio Cristo? A primeira resposta está nos apóstolos: em 1 Pedro 3:20, Pedro lembra que Deus esperava com paciência enquanto a arca era construída, e logo em seguida liga aquela água ao batismo.
Justino: a arca e o batismo
E se a arca fosse, antes de tudo, uma imagem do batismo? A primeira leitura nasce dessa linha de Pedro e parte de um chão que as outras duas vão compartilhar: a arca é figura da salvação que Deus dá em Cristo. Figura, aqui, é um acontecimento real que, sem deixar de ser história, anuncia outro maior.
Por volta da metade do século dois, Justino, um filósofo convertido que morreu mártir em Roma, escreveu o Diálogo com Trifão, em que tenta mostrar a um judeu que as próprias Escrituras apontam para Cristo. No capítulo 138, ele vê nas oito pessoas da arca um sinal do oitavo dia, aquele em que Cristo ressuscitou. E vai além: Cristo é o começo de uma nova humanidade, gerada de novo pela água, pela fé e pela madeira, que guarda o mistério da cruz, assim como Noé foi salvo pela madeira sobre as águas com a sua casa.
A tradição ortodoxa guarda essa leitura na liturgia do batismo, onde a arca aparece ao lado da travessia do Mar Vermelho. É a mesma ligação que Paulo faz em 1 Coríntios 10:2, quando diz que os israelitas foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar. E o Catecismo da Igreja Católica, na parte dedicada ao batismo, vê na arca de Noé uma prefiguração, isto é, um anúncio antecipado, da salvação pelo batismo.
Só que uma caixa de madeira não guarda uma pessoa isolada, mas um grupo inteiro atrás da mesma porta, e foi esse detalhe que um bispo africano levou adiante.
Cipriano: a arca e a Igreja visível
Mas e se o que importa na arca não for só a água, e sim o casco que separa quem está dentro de quem está fora? A segunda leitura é a de Cipriano, bispo de Cartago, no norte da África. Em 251, a igreja dele saía da perseguição do imperador Décio, na qual muitos cristãos tinham negado a fé para salvar a vida, e grupos rivais se separavam e levantavam os seus próprios bispos.
Foi para esse cenário que ele escreveu A unidade da Igreja. No capítulo sexto, diz que não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe, e usa Gênesis como prova: se alguém que estava fora da arca de Noé tivesse escapado, também escaparia quem está fora da Igreja.
Estar fora, para Cipriano, não era questão de sentimento, mas de comunhão: quem rompia com o bispo legítimo e com o conjunto dos bispos saía da arca. No mesmo livro, ele chega a dizer que não pode ser mártir quem não está na Igreja. E Gênesis parece dar razão a ele, porque há uma arca, uma porta e uma família, e nenhuma segunda embarcação ao lado.
A fórmula curta que ficou ligada ao nome dele, fora da Igreja não há salvação, aparece numa carta sua sobre o batismo. E ele foi coerente com ela a ponto de recusar o batismo feito fora dessa unidade, que o próprio bispo de Roma aceitava: aqui Cipriano vai além de Justino, porque para ele a água só salva dentro do casco certo.
O ensino católico recebeu essa imagem dos Pais da Igreja. No parágrafo 845, o Catecismo ensina que a Igreja é prefigurada pela arca de Noé, a única que salva do dilúvio. Logo em seguida, explica o antigo axioma, isto é, a frase tomada como princípio, de modo positivo: toda salvação vem de Cristo, a cabeça, por meio da Igreja, que é o seu corpo. E esclarece que ela atinge quem sabe que a Igreja é necessária e se recusa a permanecer nela, não quem a desconhece sem culpa e busca a Deus com sinceridade.
Para o ensino católico, portanto, a arca continua sendo a Igreja visível, governada pelos bispos em comunhão com o bispo de Roma, ainda que a salvação não esteja fechada para quem a ignora sem culpa.
Lutero: a arca e a cristandade dos que creem
Será que a Reforma simplesmente jogou essa arca fora, como talvez você imagine? A terceira leitura é a de Martinho Lutero, e ela começa num lugar inesperado: o pequeno livro de batismo que ele publicou em alemão em 1523. Ali está a chamada oração do dilúvio, que o pastor dizia sobre a criança antes de batizá-la.
Nela, Lutero lembra que Deus condenou pela água o mundo incrédulo e preservou o Noé que cria, com as oito pessoas, e que fez Israel atravessar a seco o Mar Vermelho, como figura do batismo. E pede que a criança seja separada dos incrédulos e guardada, seca e segura, na arca santa da cristandade. É um encontro bonito entre cristãos que tantas vezes se olham de longe: a arca junto do Mar Vermelho, como na liturgia ortodoxa, e a arca como Igreja, como em Cipriano.
A divergência mora em duas palavras dessa mesma oração, cristandade e fé. Para Lutero, a cristandade é o povo dos que creem, reunido onde o Evangelho é pregado e os sacramentos, isto é, o batismo e a ceia, são dados, e não um corpo definido pela comunhão com os bispos. No Catecismo Maior, de 1529, ele diz que fora da cristandade, onde o Evangelho não está, não há perdão dos pecados nem santidade. Ou seja, a leitura da Reforma, que luteranos, reformados e evangélicos herdaram, também afirma à sua maneira que fora da Igreja não há salvação, mas muda o endereço da Igreja.
Em A escravidão da vontade, de 1525, ele escreve em latim abscondita est ecclesia, latent sancti, isto é, a Igreja está escondida, os santos estão ocultos. Agora as duas leituras estão frente a frente: para Cipriano, a arca é a Igreja que se pode ver e contar; para Lutero, é a cristandade dos que creem, reunida pela Palavra, que nem sempre se deixa contar.
Uma objeção séria
Você pode estar pensando: “Isso é conveniente demais, porque a arca era de madeira, com uma porta de verdade e uma família de verdade lá dentro, e Pedro fala de água e de batismo, coisas que qualquer um vê”. E pode acrescentar que Cipriano escreveu a menos de dois séculos dos apóstolos, enquanto Lutero veio quase mil e quinhentos anos depois.
É uma objeção séria, e ela acerta num ponto: ninguém entrou sozinho naquela arca, e o versículo 18 põe a família inteira atrás da mesma porta. Acerta também em todos nós que já tratamos a igreja como lugar de passagem, trocando de comunidade como quem troca de mercado, ou crendo sozinhos em casa como se o povo de Deus fosse opcional.
Mas o texto tem limites claros. Pedro liga a arca à água e ao batismo, e nenhum texto do Novo Testamento diz que a arca é a Igreja, e menos ainda uma igreja ligada a um bispo. Quanto à antiguidade, ela pesa, mas o texto de Pedro é ainda mais antigo, e é por ele que as leituras precisam ser pesadas.
O que o texto sustenta
Então, quando colocamos as três leituras diante de Gênesis 6 e de 1 Pedro 3, qual delas o texto sustenta melhor? O versículo 18 decide o primeiro ponto: a família entra por causa da promessa, e a arca serve à aliança, não o contrário. E Hebreus 11:7, diz que foi pela fé que Noé, avisado de coisas que ainda não se viam, construiu a arca para salvar a sua família.
Em 1 Pedro 3:20-21, Pedro diz da arca que “nela apenas algumas pessoas, a saber, oito, foram salvas por meio da água, e isso é representado pelo batismo que agora também salva vocês”. E continua: “não a remoção da sujeira do corpo, mas o compromisso de uma boa consciência diante de Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo”.
O batismo salva, diz Pedro, mas não como lavagem do corpo: salva como compromisso de uma consciência que se volta para Deus, e a força que salva vem da ressurreição de Cristo. Por isso a leitura que o texto sustenta melhor é a da Reforma: estar dentro da arca é estar em Cristo pela fé na promessa, com o batismo marcando essa entrada e a igreja como a família que entra junto.
Cipriano vai além do texto quando faz da comunhão com os bispos o casco da arca, porque Gênesis põe a aliança na palavra dita a Noé, e o Novo Testamento põe a salvação na ressurreição de Cristo, não numa estrutura de governo. O ensino católico, mesmo com o seu matiz, também vai além quando faz da Igreja visível o meio necessário por onde passa toda salvação. Em 1 Timóteo 2:5, a Escritura diz que há um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus: a Igreja anuncia, batiza e reúne, mas quem salva é ele.
Quem está em Cristo pela fé, portanto, não fica fora da arca por não pertencer a uma instituição, mas quem diz estar nele e despreza o povo dele contradiz o próprio versículo 18. A leitura batismal de Justino fica de pé, porque ele mesmo amarra a água à fé e à cruz. Entre os que leem a arca assim, a divergência que continua entre irmãos fiéis à mesma Escritura é sobre o batismo: Lutero rezava a sua oração sobre crianças, e muitas igrejas evangélicas batizam só quem confessa a fé.
A arca e Cristo
E o Novo Testamento já abriu o caminho até Cristo pelo fio que o próprio texto oferece. Em Mateus 24:37-39, Jesus compara a sua vinda aos dias de Noé, quando as pessoas comiam, bebiam e se casavam até o dia em que Noé entrou na arca, sem perceber nada. A água que julgou o mundo antigo é a mesma que, em Cristo, agora salva, porque ele passou pelo juízo na madeira da cruz e saiu vivo no oitavo dia. Quem está nele está dentro, e enquanto ele não volta, a porta continua aberta.
Justino leu nas oito pessoas da arca a água, a fé e a madeira da cruz, leitura que vive na liturgia ortodoxa e no Catecismo católico. Cipriano viu no casco único a unidade visível da Igreja, recebida pelo ensino católico com um matiz. E Lutero guardou a arca e o batismo, mas pôs dentro dela a cristandade dos que creem, reunida pela Palavra.
Qual dessas três leituras você costuma ouvir na sua igreja quando alguém fala da arca de Noé? E, na sua vida de fé, a igreja tem sido uma família dentro da arca ou só um lugar por onde você passa?
A arca não tinha leme, ou pelo menos o texto não fala de nenhum, e Noé não precisou navegar a tempestade para ser salvo. Como a criança no bebê-conforto, ele só precisava estar lá dentro, porque a promessa de Gênesis 6:18, já tinha decidido a viagem antes da primeira gota de chuva. Esse é o descanso que o Evangelho oferece: você não segura o leme da própria salvação, porque Cristo ressuscitado guarda quem está nele.
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