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HistóriaPais da Igreja2 de 25

Como Hipona transformou Agostinho em pastor do Ocidente

A cidade portuária do Norte da África onde Agostinho foi presbítero, bispo e pastor por quase quarenta anos

Diego Gonçalvesatualizado 8 min de leitura1.609 palavras

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Imagine um erudito solitário, isolado numa cela silenciosa, longe do barulho do mundo, escrevendo tratados de teologia num canto tranquilo do império. Agora apague essa imagem da sua mente.

O pensador que mais influenciou o cristianismo ocidental viveu quase 40 anos dentro de uma cidade portuária barulhenta, cheia de navios, mercadores disputando preços e uma história tão antiga que já somava mais de mil anos quando ele sequer havia nascido. Essa cidade se chamava Hipona.

Uma cidade em camadas

Muito antes de qualquer padre cristão pisar em suas ruas, Hipona já era uma cidade em camadas, cada uma pertencente a um império diferente. Fenícios vindos da cidade de Tiro fundaram o povoado por volta do século 10 antes de Cristo, atraídos por sua baía protegida e pela água doce em abundância. E aqui vai o primeiro dado curioso. Alguns historiadores acreditam que o próprio nome Hipona venha de uma antiga palavra púnica que significava, simplesmente, porto.

Mais tarde, Hipona virou residência de reis númidas, o que lhe deu o sobrenome que os romanos usariam para sempre, Hipona Régia, a Hipona real, um título vindo do rei Massinissa, que escolheu a cidade como uma de suas residências entre os séculos 3 e 2 antes de Cristo.

Em 46 antes de Cristo, depois que Júlio César derrotou o rei númida Juba I, a cidade passou para as mãos de Roma e, com o tempo, recebeu o status de colônia. Ergueram-se ali um fórum monumental, termas públicas e um teatro capaz de reunir cerca de 3 mil espectadores. Uma das inscrições daquele fórum, ainda visível hoje, homenageia um certo Caio Pácio, provavelmente um benfeitor local que ajudou a pagar pelas obras.

E a língua daqueles primeiros fenícios resistiu debaixo de todas essas camadas. Mesmo na época de Agostinho, camponeses da região ao redor de Hipona ainda falavam púnico no campo, mais de mil anos depois da fundação da cidade.

Um porto que ajudava a alimentar Roma

Mas a verdadeira força de Hipona nunca esteve apenas nas pedras do fórum. Estava no mar. Armazéns e celeiros públicos se espalhavam pelo porto, recebendo trigo de uma região agrícola fértil e despachando esse trigo, junto com o azeite e outras mercadorias, para todo o Mediterrâneo. Hipona fazia parte da rede de portos que garantia a distribuição pública de trigo à população de Roma. Em outras palavras, Hipona ajudava a alimentar Roma, literalmente. Isso significa que, quando Agostinho um dia caminhasse por suas ruas, ele não estaria numa cidadezinha esquecida do interior africano. Estaria dentro de uma das engrenagens econômicas que sustentavam o próprio império.

Uma cidade que já era cristã

E havia algo ainda mais surpreendente esperando por ele. Mesmo antes de sua chegada, Hipona já era sede episcopal, com bispo próprio desde um tempo anterior ao século 4.

No coração da cidade ficava a chamada Basílica da Paz, um grande complexo com batistério e salões anexos, onde multidões se reuniam para ouvir a pregação cristã. Arqueólogos ainda hoje escavam mosaicos originais desse mesmo complexo, quase 1.600 anos depois. Aquela igreja já tinha até seus próprios mártires, um grupo lembrado como os 20 mártires de Hipona, entre eles um bispo chamado Fidêncio, mortos numa perseguição anterior à chegada de Agostinho.

Foi ali, décadas mais tarde, que o próprio Agostinho, já bispo, resumiu toda a sua filosofia de ministério numa única frase que atravessou os séculos. Em latim ele disse: “Vobis enim sum episcopus, vobiscum sum christianus”. Ou, em português: “Para vós eu sou o bispo, mas convosco eu sou o cristão”. O cargo o separava do povo, mas a fé os igualava.

O visitante que não queria ficar

Foi essa cidade portuária, próspera e já profundamente cristã, que Agostinho visitou em 391. Ele não tinha nenhuma intenção de ficar. Havia ido apenas visitar um amigo e evitava a todo custo cidades sem bispo, com medo de ser justamente convocado para o cargo.

Mas, durante um culto na Basílica da Paz, a multidão o reconheceu, cercou-o e literalmente o empurrou até o bispo Valério, exigindo sua ordenação ali mesmo, na hora. Agostinho chorou. Chorou de verdade, resistindo até o último instante. Não adiantou. Foi ordenado presbítero naquele mesmo dia, contra a própria vontade.

Há um detalhe que explica por que essa cena foi tão incomum. Na África daquela época, apenas bispos tinham permissão de pregar. Padres comuns não subiam ao púlpito. Mas Valério, mais à vontade falando grego do que latim, precisava urgentemente de alguém capaz de pregar com fluência para o povo local. Encontrou esse alguém no padre recém-ordenado.

Um mosteiro na casa do bispo

Mais tarde, já bispo, Agostinho fez algo pouco comum para um clérigo daquela época. Transformou a própria residência episcopal numa espécie de mosteiro. Ele e os padres que viviam com ele dividiam tudo, comida, roupas, até os móveis da casa. Nenhuma prataria era permitida, exceto colheres. Os pratos eram de barro, madeira ou pedra. O vinho, quando servido a visitantes, vinha em quantidade estritamente limitada. Quem quisesse entrar para o clero de Agostinho, precisava, antes de tudo, aceitar viver na pobreza.

Um desses clérigos, um jovem chamado Possídio, se tornaria bispo de outra cidade da região e décadas depois, a testemunha mais próxima dos últimos dias de Agostinho. Sem ele, boa parte do que sabemos sobre essa história simplesmente não existiria.

Esse modelo de vida comunitária, nascido dentro de uma casa episcopal no litoral africano, ajudaria a inspirar boa parte do monaquismo que se espalharia pela África cristã nos séculos seguintes e serviria de base, muito mais tarde, para ordens religiosas inteiras que existem até hoje.

O concílio de 393

Enquanto ainda era apenas presbítero e não bispo, Agostinho viveu um episódio que resume bem sua trajetória inteira. Foi convidado a discursar diante de uma assembleia inteira de bispos reunidos em concílio ali mesmo em Hipona, no ano de 393. Um padre comum, falando por exigência dos próprios bispos, outra vez. Esse discurso, revisado depois, tornou-se o tratado que ficaria conhecido como Sobre a fé e o símbolo, um comentário artigo por artigo do credo que a Igreja usava para preparar novos convertidos ao batismo.

Foi também nesse mesmo concílio que os bispos reunidos aprovaram uma das primeiras listas formais de livros reconhecidos como Escritura sagrada pela Igreja ocidental, uma lista que, com ajustes ao longo dos séculos seguintes, ajudaria a moldar a Bíblia que hoje conhecemos. Curiosamente, um dos cânones daquele mesmo concílio determinava que o bispo responsável por presidir às reuniões não deveria receber títulos grandiosos como príncipe dos sacerdotes, apenas ser chamado bispo da primeira sé.

Dois anos depois, em 395, Valério, já idoso, conseguiu autorização para consagrar Agostinho como bispo coadjutor, contornando uma regra antiga que proibia dois bispos numa mesma cidade. Quando Valério morreu no ano seguinte, Agostinho assumiu sozinho a sede de Hipona. Governaria aquela igreja por 34 anos, presidindo ainda outros concílios regionais, incluindo um realizado em 426.

O cerco e a morte de Agostinho

A história de Agostinho em Hipona termina exatamente do jeito que a cidade sempre viveu, sob pressão externa. Em 430, os vândalos, liderados pelo rei Genserico, cercaram Hipona por mar e por terra. Os próprios vândalos, aliás, também se diziam cristãos, ainda que seguidores de uma vertente considerada herética, o arianismo, que negava a plena divindade de Cristo. Entre os refugiados que se abrigaram atrás dos muros da cidade, estava justamente Possídio, aquele antigo companheiro de comunidade, agora bispo de outra sé, testemunha ocular do que estava por vir.

Já com 75 anos, doente e enfraquecido, Agostinho foi atingido por uma febre no terceiro mês do cerco. Soube que aquela seria sua última doença. Pediu que os salmos penitenciais de Davi fossem copiados em folhas e afixados na parede do seu quarto. Dali em diante, passou seus últimos dias apenas lendo aqueles salmos, em prantos, pedindo para não ser interrompido, exceto pelos médicos e por quem lhe trazia comida. Morreu em 28 de agosto daquele mesmo ano, olhando para uma parede coberta de súplicas por perdão, não para tratados teológicos.

Mas há uma reviravolta que poucos esperam. Quando Agostinho morreu, a cidade ainda não tinha caído. Faminta como os próprios sitiantes, Hipona resistiu por 14 meses, até que os vândalos, também famintos, recuaram. A notícia de sua morte chegou a alarmar a corte imperial em Ravena, preocupada em perder justamente aquele celeiro que décadas antes ajudava a alimentar Roma. Só anos depois, por meio de um tratado firmado em 435, a região passaria de fato para o controle vândalo e Hipona chegaria a servir, por um breve período, como a primeira capital africana daquele novo reino. Agostinho não viveu para ver esse desfecho. Morreu ainda acreditando que talvez tudo ao seu redor estivesse prestes a desabar.

A lição de Hipona

Talvez a maior lição de Hipona não esteja nas ruínas do fórum, nem nas pedras da basílica. Esteja no fato de que o pensamento cristão mais influente do Ocidente não nasceu isolada, protegida do mundo. Nasceu no meio do barulho de um porto movimentado, dentro de uma cidade prestes a desabar, sustentada por um bispo que preferia dividir sua mesa a guardar prataria e que morreu não debruçado sobre seus próprios livros, mas chorando diante de um salmo de arrependimento.

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