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HistóriaPais da Igreja10 de 25

O erro da torre de Babel segundo Calvino e os pais da Igreja

Gênesis 11 lido com Agostinho, Irineu, Calvino e a liturgia oriental de Pentecostes: querer fazer um nome é pecado?

Diego Gonçalvesatualizado 11 min de leitura2.197 palavras

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Na torre de Babel, uma cidade quis fazer um nome que chegasse ao céu, e o texto de Gênesis não diz que a torre caiu: diz que o Senhor desceu para vê-la e que a obra parou no meio. Os construtores disseram o motivo com as próprias palavras: nosso nome será famoso, e não seremos espalhados. Agostinho, em A Cidade de Deus, enxergou ali a soberba que quer subir sozinha ao céu. Irineu, bem antes dele, contou Babel como um passo de uma história maior, que não termina na confusão e segue adiante até o chamado de Abraão. Calvino, comentando versículo por versículo, mostra um Deus que frustra o projeto sem força nenhuma, só confundindo a língua. E a liturgia oriental canta, na festa de Pentecostes, que o mesmo Deus que dividiu as nações chamou todos à unidade com línguas de fogo. Só que, em Atos 2, ninguém volta a falar uma língua só, porque cada um ouve na própria língua. Então, querer fazer um nome é pecado, e o Espírito desfez a confusão de Babel ou fez com ela outra coisa?

O texto: uma cidade e um nome

No mundo todo havia uma só língua, conta Gênesis 11, e os homens que chegaram à planície de Sinear decidiram se fixar ali. O dilúvio tinha ficado para trás, e continuava de pé a ordem que Deus tinha dado a Noé em Gênesis 9:1: sejam férteis, multipliquem-se e encham a terra. Ali eles fazem tijolos e os queimam bem, e o texto se detém para explicar a ouvintes de Israel, acostumados à pedra, que usavam tijolo em vez de pedra e piche em vez de argamassa. O motivo vem em Gênesis 11:4:

“E disseram: Vamos, edifiquemo-nos uma cidade e uma torre, cuja ponta chegue ao céu; e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.”

(Gênesis 11:4, Bíblia Livre)

Em muitas cidades brasileiras há uma placa de bronze na entrada de uma escola ou de um posto de saúde, com o nome de quem inaugurou em letras maiores do que o nome da própria obra. Babel é essa placa levada ao extremo, uma cidade inteira levantada para segurar um nome. E, se formos honestos, nós também gostamos de ver o nosso nome na placa. Em hebraico, Babel é o mesmo nome da Babilônia, e o versículo 9 liga esse nome a um verbo que soa parecido e quer dizer confundir. Unir-se, construir e querer deixar um nome parece coisa boa, então por que isso se torna um problema tão grave que o próprio Deus desce para interromper a obra?

Agostinho: a soberba que sobe

Antes de qualquer divergência, há um chão comum: todas as vozes desta conversa tratam o capítulo como Escritura, tratam a confusão como juízo real de Deus e leem a história inteira à luz de Cristo.

A primeira leitura enxerga em Babel a soberba, e a voz que a representa é a de Agostinho. No livro 16 de A Cidade de Deus, escrita no século cinco, ele liga Babel à confusão e à Babilônia e lê o projeto como obra de uma humanidade que quer chegar ao céu pela própria construção. Contra esse caminho ele põe a humildade, e Babel vira retrato da cidade terrena, ou seja, da sociedade que vive para a própria glória. Católicos, luteranos e reformados herdaram de Agostinho essa desconfiança diante do nome que se constrói para si. E o próprio Gênesis permite uma aproximação: no jardim, a serpente prometeu, em Gênesis 3:5, “sereis como Deus”, e na planície os construtores querem uma torre que alcance os céus. Nos dois lugares, o ser humano tenta tomar por conta própria uma altura que só Deus pode dar. Nenhum de nós está fora dessa leitura, porque carreiras, ministérios e até púlpitos viram torre quando o nome de quem constrói cresce mais do que o nome de quem é anunciado.

Irineu: uma desobediência com endereço

Mas, se o problema fosse só o orgulho do coração, por que o texto gasta metade do versículo 4 com outra coisa? A segunda leitura começa nessa outra metade: não sejamos espalhados pela face da terra. Deus tinha mandado encher a terra, e a cidade se organiza para ficar num só lugar, com um só nome e uma só língua. O erro de Babel inclui, então, uma recusa concreta a uma ordem conhecida, e o juízo produz justamente o que eles evitavam, porque em Gênesis 11:8 o Senhor os dispersou dali por toda a terra. O castigo acaba cumprindo a bênção que eles recusaram.

No fim do século dois, Irineu de Lião escreveu a Demonstração da pregação apostólica, e o modo como ele organiza o livro já é uma leitura. Babel aparece ali numa história contínua, logo depois da aliança de Deus com toda a terra, e a obra segue para o chamado de Abraão e, mais adiante, para Cristo. Na estrutura do livro, Babel é um passo, e Deus continua tratando com as nações. Irineu é pai comum de católicos, ortodoxos e protestantes, e aqui a segunda leitura corrige a primeira num ponto preciso: o problema de Babel está também numa desobediência com endereço, e o juízo, mesmo duro, ainda serve à bênção.

Calvino: a calma de Deus

Só que as duas primeiras leituras olham sobretudo para os construtores, e o texto, no meio da obra, muda de personagem. A terceira leitura desloca a atenção do pecado para o modo como Deus age, e a voz aqui é a de Calvino, no Comentário sobre Gênesis, publicado em 1554. Gênesis 11:5 diz: “E desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre que edificavam os filhos dos homens” (Bíblia Livre). A torre devia alcançar os céus, e o texto mostra Deus descendo para enxergá-la.

Calvino comenta o capítulo versículo por versículo, e nos versículos da confusão das línguas vê um exemplo de como Deus frustra os planos humanos de autoafirmação, ou seja, o esforço de quem tenta se impor diante de Deus. Deus desfaz esse esforço sem força nenhuma: basta confundir a língua, e o versículo 8 registra que pararam de construir a cidade. Ninguém derruba a torre com raio, fogo ou exército, e ela fica ali, inacabada, porque os construtores já não se entendem. Numa reconstrução simples, compatível com o texto, o canteiro daquele dia fica assim: alguém pede mais piche e recebe uma resposta que não entende, outro grita uma medida e ninguém se move. Essa leitura passou à tradição reformada, que aprendeu a ver na história bíblica a soberania de Deus agindo com serenidade. Aqui a terceira leitura toma outra direção: o centro do texto não está no tamanho do erro humano, mas na calma de Deus diante dele.

Pentecostes: Babel ao contrário?

O Novo Testamento, porém, volta a essa humanidade dispersa. A quarta leitura vem da festa de Pentecostes em Jerusalém, contada em Atos 2. Ali estão judeus vindos de muitas nações, um som vem do céu, e línguas como de fogo pousam sobre os discípulos. A multidão fica perplexa porque, em Atos 2:6, cada um os ouvia falar em sua própria língua.

Na liturgia da festa, a tradição ortodoxa põe esse acontecimento ao lado de Babel. O kontakion de Pentecostes, ou seja, um hino curto que resume o sentido do dia, faz o contraste. Ele canta que o Altíssimo desceu e confundiu as línguas, dividindo as nações, e que, ao distribuir as línguas de fogo, chamou todos à unidade. A ligação não pertence só ao Oriente, porque nasce de pôr os dois textos lado a lado, mas é a ortodoxia que a canta todos os anos. E ela acrescenta à terceira leitura o que faltava: Deus não só frustra, Ele refaz o que a confusão separou. Só que, em Atos 2:11, os visitantes dizem que ouvem declarar, em suas próprias línguas, as maravilhas de Deus. Se aquele dom continua hoje é uma pergunta séria, para outro episódio; diante de Babel, a pergunta é outra: o Pentecostes é Babel ao contrário, ou é outra coisa?

A objeção e o que o texto sustenta

Você pode estar pensando: “Então Deus se incomodou com pessoas trabalhando juntas, a ponto de dizer, em Gênesis 11:6, que em breve nada poderá impedir o que planejam fazer? Isso soa como alguém protegendo o próprio território”. A objeção é séria, e é preciso ser honesto sobre o limite do que sabemos: não temos a torre, não temos uma data, e não temos acesso às razões de Deus além das que o próprio texto registra. E o texto registra o bastante, porque o mesmo capítulo já mostrou um Deus que desce para ver a torre, e quem desce para ver não está disputando altura com ela. O versículo 6 descreve uma unidade reunida em torno do próprio nome e decidida a não encher a terra. Interromper essa obra é um limite que também protege, e o Pentecostes mostra que Deus não é contra a unidade humana, e sim contra a unidade que se fecha contra Ele.

No versículo 4, as duas razões dos construtores estão na mesma frase, e por isso as duas primeiras leituras não são rivais. O texto sustenta melhor a leitura que as une: o erro de Babel é fazer um nome para si contra a palavra que Deus já tinha dado. Uma leitura que transforma Babel numa lição genérica sobre ambição não se sustenta, porque esquece a ordem concreta de Gênesis 9; e uma leitura que só enxerga a dispersão fica curta, porque o texto põe o nome em primeiro lugar. Calvino e os pais da Igreja, então, apontam para o mesmo lugar: o nome construído contra Deus. Muda a ênfase, porque Agostinho olha o coração que sobe, Irineu acompanha o caminho de Deus com as nações, e Calvino contempla a calma com que Deus desfaz o projeto.

O nome que se recebe

Então querer um nome é pecado em si? O capítulo seguinte responde com uma surpresa, porque em Gênesis 12:2 o próprio Deus promete a Abraão, de quem nasceria Israel: “engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção” (Bíblia Livre). A vontade de ter um nome deixa de ser legítima quando o nome é construído para nós mesmos, contra a palavra de Deus, em vez de recebido de Deus para abençoar os outros.

Sobre o Pentecostes, não há aqui disputa real entre Oriente, Roma e Reforma, e seria desonesto fabricar uma: a ligação entre Babel e Atos 2 é herança comum, que protestantes também podem cantar com os irmãos do Oriente. O texto só pede cuidado com a palavra reversão, porque o Espírito não devolve uma língua só e faz as muitas línguas declararem as mesmas maravilhas de Deus. Cristãos fiéis à Escritura ainda divergem sobre quanto chamar isso de reversão, e seguem irmãos nessa conversa.

Em Babel, os homens querem subir e Deus desce para julgar; em Jesus, Deus desce para salvar, se faz homem, vai até a cruz e ressuscita ao terceiro dia. Filipenses 2:9-11 conta o que vem depois:

“Por isso Deus também o exaltou supremamente, e lhe deu o nome que é acima de todo nome; a fim de que no nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.”

(Filipenses 2:9-11, Bíblia Livre)

O nome acima de todo nome não foi construído, foi dado. E a última palavra devolve as línguas de Babel ao lugar certo: a cidade quis um nome famoso em uma só língua, e Deus fará um nome ser confessado em todas.

Com Agostinho, você viu a soberba que tenta subir ao céu pela própria construção. Irineu colocou Babel num caminho maior, em que Deus segue com as nações até Abraão e além dele. Calvino mostrou que bastou a Deus confundir a língua para a obra parar no meio. E a liturgia oriental canta o Pentecostes como o dia em que o Deus que dividiu as nações chamou todas à unidade. Qual dessas leituras mais falou com você? E, na sua vida de fé, em que torre você tem tentado escrever o próprio nome?

Aquela torre ficou na planície, inacabada, e ninguém chegou a pendurar a placa. Buscar um nome grande é antigo como Babel e continua morando em nós, mas a única grandeza que não se dissolve em confusão é a que se recebe de Deus, e não a que se constrói para si mesmo. Toda placa de inauguração um dia desbota, e o nome que permanece é aquele diante do qual toda língua vai confessar que Jesus Cristo é o Senhor.

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