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Conversão de Agostinho: o jardim de Milão e o Tolle, lege
A Conversão de Agostinho de Hipona
Aurélio Agostinho, que ficaria conhecido na história da Igreja como o bispo de Hipona e um dos teólogos mais influentes de todos os tempos, nasceu em Tagaste, no norte da África, em 354. Filho de Patrício, um pagão pragmático, e de Mônica, uma cristã fervorosa que orou por ele sem desistir durante décadas, Agostinho passou a juventude atrás de sucesso literário, de reconhecimento público e dos prazeres do mundo.
Brilhante, tornou-se professor de retórica nas principais cidades do Império Romano: Cartago, Roma e Milão. Mas, por trás do brilho acadêmico e das discussões filosóficas, vivia uma tempestade moral. Experimentou o maniqueísmo, uma religião que dividia o mundo entre luz e trevas, e o neoplatonismo, uma filosofia inspirada em Platão. Nenhuma escola de pensamento, porém, conseguia libertar a alma dele da escravidão dos próprios vícios. Agostinho sabia o que era certo e não tinha força para romper com o pecado. Como ele mesmo confessaria mais tarde nas Confissões, durante anos a oração dele tinha sido: “Senhor, dá-me castidade e continência, mas não agora”.
O Conflito no Jardim
A crise chegou ao auge no verão de 386, em Milão. Tomado de vergonha ao ouvir relatos de homens simples que tinham largado tudo para seguir a Cristo nos desertos do Egito, Agostinho se virou para o amigo Alípio e desabafou, indignado:
— O que está acontecendo conosco? Por que somos assim? Homens simples e sem estudo se levantam e tomam de assalto o Reino dos Céus, enquanto nós, com toda a nossa ciência e diplomas, continuamos nos afundando no lamaçal de nossas paixões!
Transtornado, Agostinho foi até o fundo do jardim da casa onde estavam hospedados, jogou-se no chão debaixo de uma figueira e começou a chorar muito:
— Até quando, Senhor? Até quando continuarei adiando? Por que não hoje? Por que não agora o fim da minha vergonha?
“Tolle, Lege”
Chorando com o rosto entre as mãos, ouviu uma voz de criança, vinda da cerca de uma casa vizinha, cantando uma frase repetida, como numa brincadeira:
— Tolle, lege! Tolle, lege! (Pega e lê! Pega e lê!).
Agostinho parou de chorar e tentou se lembrar de algum jogo de criança com aquelas palavras. Não se lembrou de nenhum. Entendeu aquele canto como uma ordem vinda de Deus, levantou-se depressa e voltou ao banco onde tinha deixado o livro com as cartas do apóstolo Paulo.
Abriu o livro ao acaso, e os olhos caíram direto em Romanos 13:13-14:
“Andemos de maneira decente, como de dia; não em orgias e bebedeiras; não em pecados sexuais ou depravações; não em brigas, nem em inveja. Em vez disso, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não fiqueis pensando em realizar os desejos da carne.”
(Romanos 13:13-14, Bíblia Livre)
A Dúvida que Sumiu
Agostinho não precisou ler mais nenhuma linha. Mais tarde, ele mesmo descreveu aquele momento: ao terminar de ler a frase, uma luz de serenidade e certeza tomou o coração dele, e as sombras da dúvida sumiram como fumaça. A libertação veio de Cristo, de quem a Escritura o mandava se revestir, e não de uma resolução mais firme da vontade dele: a salvação é dom de Deus, recebido pela fé (Efésios 2:8-9).
Fechou o livro, marcou a página e contou com calma a Alípio o que tinha acabado de acontecer. Depois os dois foram dar a notícia a Mônica. As lágrimas de aflição que a mãe tinha derramado por tantos anos viraram alegria: o filho de tantas orações tinha sido, enfim, conquistado pela graça de Deus. No ano seguinte, no sábado de Páscoa de 387, o bispo Ambrósio batizou Agostinho em Milão, e ali começava uma das trajetórias mais marcantes da história cristã.
Uma observação: Agostinho é lido por várias tradições cristãs, e cada uma se vê em continuidade com ele. Os reformados o tratam como um dos pais da doutrina da graça soberana. Para eles, quando se diz que o filho de tantas orações foi “conquistado pela graça de Deus”, isso quer dizer que a conversão começa e termina na iniciativa de Deus, que atrai com eficácia quem escolheu. Outros cristãos, como os wesleyanos, também o recebem com gratidão e confessam a mesma graça que chega primeiro e chama o pecador, mas entendem de outro modo a resposta da pessoa: a graça preveniente a capacita, ela a recebe, ou pode resistir a ela. As duas tradições o têm em alta conta, e o agradecimento dele no jardim é o mesmo de todas elas.
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