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Henry Martyn: o missionário que traduziu o Novo Testamento
Henry Martyn: Um Pioneiro Persa
Poucas biografias missionárias passam um senso de urgência tão forte quanto a de Henry Martyn. Ele nasceu na Cornualha, em 1781, e viveu só trinta e um anos. Tinha o corpo franzino, a saúde delicada e um temperamento reservado. Mesmo assim, antes de a tuberculose acabar com a vida dele numa cidadezinha no interior da Turquia, traduziu o Novo Testamento pro urdu e pro persa, supervisionou a versão em árabe, e abriu as Escrituras pra povos inteiros no Oriente Médio e no sul da Ásia.
O brilho acadêmico em Cambridge
Martyn era filho de um minerador que subiu na vida até virar chefe de escritório comercial em Truro. Desde muito cedo, mostrou uma inteligência fora do comum. Aos dezesseis anos entrou no St John’s College, em Cambridge, e se dedicou com afinco à matemática e aos clássicos.
Aos vinte anos, ganhou a maior honra acadêmica da universidade britânica: o título de Senior Wrangler, além do cobiçado prêmio Smith. Era reconhecido como uma das mentes mais brilhantes da geração dele, com um futuro garantido nas cátedras da universidade ou nos tribunais de Londres.
Só que, no auge do sucesso, veio o vazio. Ele mesmo confessou mais tarde que, com os prêmios nas mãos, percebeu que tinha conquistado só um punhado de fumaça.
O pai dele morreu de repente. Somadas as cartas piedosas da irmã mais nova, a morte levou o jovem matemático a buscar refúgio na Bíblia. Martyn passou a frequentar a igreja de Holy Trinity, em Cambridge, onde ouvia as pregações de Charles Simeon, um dos maiores líderes evangélicos da Inglaterra na época. Ali Martyn entendeu a mensagem da cruz: a salvação não era uma fórmula racional, mas a entrega total da alma a Cristo.
O chamado e a renúncia ao conforto
Martyn leu o diário de David Brainerd, o jovem que tinha morrido entre os indígenas da América do Norte, e a leitura mexeu com ele. Sentiu que não podia gastar a vida só juntando honrarias acadêmicas na Inglaterra. Largou a carreira jurídica e o noivado com a mulher que amava pra se dedicar aos campos missionários do Oriente.
Em 1805, já ordenado pastor anglicano e nomeado capelão da Companhia das Índias Orientais, embarcou pra Índia.
A viagem de navio durou quase dez meses e foi exaustiva, mas, ao chegar em Calcutá, Martyn não perdeu tempo. Procurou os missionários batistas de Serampore, liderados por William Carey, e pôs a mente privilegiada a serviço das línguas locais. Sob um calor sufocante, com febre toda hora, trabalhou horas a fio até terminar a tradução do Novo Testamento pro hindustâni (urdu), uma das principais línguas da Índia.
Em Shiraz: confrontando a erudição persa
A fragilidade dos pulmões, porém, deixava o clima da Índia cada vez mais perigoso pra ele. Martyn precisava de um ar mais seco. Em 1811, partiu pra Pérsia, o atual Irã, pra revisar a versão persa do Novo Testamento junto com os eruditos de lá.
Foi morar em Shiraz, cidade histórica, berço dos poetas persas. Vestia roupa local e vivia numa tenda simples. Passou um ano inteiro debatendo com clérigos muçulmanos e mestres sufis. Muitos europeus da época tratavam os orientais com arrogância imperial, mas Martyn impressionava quem conversava com ele pelo respeito, pela mansidão e pelo domínio perfeito da língua persa.
Terminada a tradução do Novo Testamento e dos Salmos num persa elegante, ele conseguiu mandar ela ao Xá da Pérsia, Fath-Ali Shah Qajar, que recebeu o texto com apreço.
A última cavalgada em Tokat
Com o corpo arrasado pela tuberculose e por febres sem fim, Martyn começou a longa viagem de volta à Inglaterra, passando pela Armênia e pela Turquia otomana. Foi a cavalo, debaixo do sol de rachar durante o dia e do frio congelante das noites da Anatólia. Sofreu abusos do guia turco e chegou ao limite do esgotamento.
Em 16 de outubro de 1812, aos 31 anos, não aguentou mais. Morreu na cidade de Tokat, onde clérigos armênios deram a ele sepultura cristã.
Logo que chegou à Índia, em 1806, tinha escrito no diário uma frase que resume bem a passagem dele pela terra: “Que eu queime até o fim por Deus”. Henry Martyn não viveu pra ver os frutos das páginas que traduziu. Mas a vida curta dele provou que o valor de uma vida não se mede pelo tempo que ela dura, mas pela causa a que ela se entrega.
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