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HistóriaConversões: histórias de fé71 de 83

Paulo Kanamori, o Moody do Japão: do ceticismo à pregação

A Conversão de Paulo Kanamori: O Moody do Japão

Diego Gonçalvesatualizado 4 min de leitura805 palavras

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Neste texto

Paulo Kanamori ficou conhecido como o “Moody do Japão”, mas a trajetória dele teve grandes reviravoltas: sofreu perseguição na juventude, chegou ao topo do ministério pastoral, caiu fundo no ceticismo teológico e voltou arrependido, e esse retorno abalou o evangelismo japonês.

O despertar em Kumamoto

A história começou na década de 1870, numa escola ocidental em Kumamoto, no sul do Japão. Um professor americano, o capitão Janes, deu Bíblias em inglês aos alunos mais velhos e passou a estudá-las com eles na própria casa, aos sábados. Impressionados com o que liam, os rapazes começaram a dividir o texto com os colegas. Em pouco tempo, dezenas de jovens estavam reunidos em grupos para estudar as Escrituras.

Seis integrantes idosos do Grupo de Kumamoto, entre eles Kanamori, em fotografia de 1930
Integrantes do Grupo de Kumamoto em seus últimos anos, entre eles Michitomo (Paulo) Kanamori, fotografia de 1930. Autor desconhecido. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A mensagem do Evangelho foi alcançando o coração daqueles rapazes. Em 1876, cerca de quarenta estudantes subiram o Monte Hanaoka, perto da cidade, e assinaram um pacto solene de consagração a Jesus Cristo, jurando levar o Evangelho ao Japão custasse o que custasse. Kanamori estava entre eles.

As famílias, de tradição samurai, reagiram na hora e com violência. Vários rapazes foram espancados, expulsos de casa ou deserdados. A própria família trancou Kanamori num quarto. Ele já esperava ficar isolado e tinha costurado os evangelhos de Mateus e João no forro do colete. Nos meses de cárcere em casa, memorizou capítulos inteiros, para que ninguém pudesse arrancar a Palavra da mente dele.

O naufrágio na crítica superior

Depois que a poeira baixou, Kanamori terminou os estudos na Universidade Doshisha e virou um pastor influente e pregador eloquente em Tóquio. O ministério parecia firme, mas uma nova onda intelectual começava a atingir os líderes cristãos da época: a teologia liberal alemã e a crítica histórica radical.

Fascinado pelas novas teorias, Kanamori tentou conciliar a fé bíblica com as tendências modernistas. As dúvidas foram corroendo as certezas dele. Começou a relativizar os milagres, a expiação vicária (Cristo morrendo no lugar do pecador) e a inspiração das Escrituras. Não conseguia pregar o que já não acreditava com sinceridade, e tomou uma decisão drástica: largou o pastorado e abandonou a fé cristã.

Durante mais de vinte anos, Kanamori viveu longe do Evangelho. Assumiu cargos no governo, escreveu sobre economia e socialismo e traduziu livros alemães de sociologia e política. Para os jovens intelectuais do Japão, era uma autoridade respeitada. Para o reino de Deus, era um homem espiritualmente morto.

A dor da perda e o colapso de uma fé sem fundamento

A ilusão modernista desmoronou quando a tragédia bateu à porta. No começo da década de 1910, a esposa dele adoeceu e morreu, e ele ficou viúvo com nove filhos para criar, o caçula com menos de quatro anos.

Diante do caixão da mulher e do choro das crianças, tudo o que Kanamori tinha construído nas duas décadas anteriores ruiu. A sociologia, a economia política e a crítica teológica não tinham uma palavra de consolo diante da morte. Na solidão do luto, voltaram à memória as palavras de Cristo que ele tinha decorado na juventude: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11:25).

Kanamori caiu de joelhos, chorando e desesperado. Viu a arrogância com que tinha trocado o pão vivo pela fumaça das teorias humanas. Depois de dias de angústia e de confissão sincera, experimentou de novo o perdão de Deus e a certeza da salvação.

O retorno e o sermão de três horas

O retorno de Paulo Kanamori abalou o meio cristão japonês. Com mais de cinquenta anos, ele recomeçou do zero e percorreu o país de ponta a ponta com um único propósito: pregar o Cristo crucificado.

Kanamori montou uma mensagem expositiva detalhada, que ficou conhecida como o “sermão de três horas”, dividida em três partes simples: Deus, Pecado e Salvação. Ele alugava grandes teatros e tendas públicas, juntava multidões e explicava o Evangelho sem rodeios. Ao longo da década seguinte, dezenas de milhares de japoneses tomaram uma decisão pública por Cristo por meio do ministério dele.

Até o fim da vida, Kanamori confiou sem abalo nas Escrituras. Quando perguntavam da postura teológica dele, costumava levantar a Bíblia e dizer que acreditava nela “de capa a capa”. Ele tinha sentido na pele a esterilidade do ceticismo acadêmico e sabia que só a Palavra viva de Deus tem poder para transformar o coração humano.

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