
TeologiaTeologia Sistemática32 de 45
Capítulo 32: A doutrina da salvação: Visão geral
Teologia Sistemática, Parte 7: A salvação
Neste texto
- O que É a Salvação
- As Palavras da Bíblia
- Salvos de Quê?
- A Salvação Vem do Senhor
- Os Três Tempos da Salvação
- Fomos Salvos
- Estamos Sendo Salvos
- Seremos Salvos
- Uma Só Salvação
- A Ordem da Salvação
- O que É a “Ordem da Salvação”?
- As Partes da Salvação
- A Corrente de Romanos 8
- Como os Protestantes Entendem a Ordem
- O que Todos os Protestantes Afirmam
- A Visão Reformada
- A Visão Luterana
- A Visão Arminiana e Wesleyana
- Batistas e Pentecostais
- Onde Está a Grande Diferença?
- A Posição Deste Site
- A União com Cristo
- Com Cristo na Cruz e na Ressurreição
- Escondidos com Cristo
- Uma União Viva
- Os Meios e o Alcance da Salvação
- Todos Serão Salvos?
- A Salvação Vem pelos Sacramentos?
- A Visão Evangélica
- Conclusão
- Fontes
Há várias maneiras de entender a salvação: para alguns, ela é libertação da opressão; para outros, é encontrar o verdadeiro eu; para outros ainda, é fazer parte de uma igreja. A Bíblia, porém, descreve a salvação como a libertação da escravidão do pecado e a volta à comunhão com Deus. Como essa salvação chega até nós, e em que ordem Deus a realiza em nossa vida?
O que É a Salvação
Nos capítulos anteriores, vimos o que Cristo fez por nós na cruz e como o Espírito Santo aplica essa obra no crente. Agora começamos a estudar a salvação em si. Este capítulo dá a visão do conjunto. Os próximos tratam de cada parte com mais calma: o chamado, o arrependimento e a fé; a justificação; a regeneração, a adoção e a certeza da salvação; a santificação; e a perseverança.
As Palavras da Bíblia
No Antigo Testamento, a palavra hebraica para salvar é yasha. Ela quer dizer livrar, socorrer, tirar alguém de um aperto. Deus salvou Israel do Egito, dos inimigos, da fome e da doença. O nome Josué vem dessa palavra e quer dizer “o Senhor salva”. Em grego, esse nome ficou Iesous, Jesus. Por isso o anjo disse a José: “tu chamarás seu nome Jesus; porque ele salvará seu povo de seus pecados” (Mateus 1:21).
No Novo Testamento, as palavras são sozo, salvar, e soteria, salvação. Nos Evangelhos, sozo também é usada para a cura. Quando Jesus diz a alguém que a sua fé o salvou, às vezes está falando de um corpo curado. A salvação alcança a pessoa inteira. O estudo dessa doutrina se chama soteriologia, palavra que vem justamente de soteria.
Salvos de Quê?
A Bíblia diz que somos salvos de várias coisas ao mesmo tempo. Somos salvos da culpa do pecado, porque Deus nos perdoa. Somos salvos do poder do pecado, porque o Espírito nos transforma. Somos salvos da ira de Deus: “muito mais agora, que já somos justificados por seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Romanos 5:9). E somos salvos do domínio de Satanás: “Ele nos tirou do domínio das trevas, e nos transportou para o reino do seu amado Filho” (Colossenses 1:13).
Mas a salvação também nos leva para alguma coisa. Fomos tirados das trevas para entrar no reino de Cristo. Fomos perdoados para viver como filhos de Deus. E fomos chamados para, um dia, ver o Senhor face a face.
A Salvação Vem do Senhor
De dentro do peixe, Jonas resumiu tudo numa frase: “A salvação vem do SENHOR” (Jonas 2:9). Esse é o primeiro ponto de toda a doutrina. Ninguém salva a si mesmo; quem salva é Deus. Paulo diz o mesmo na passagem que a Reforma tomou como bandeira:
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não por obras, para que ninguém tenha orgulho de si mesmo. Pois nós fomos feitos por ele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, que Deus preparou para que nelas andássemos.
(Efésios 2:8-10, Bíblia Livre)
A fonte da salvação é a graça, o favor de Deus que não merecemos. O meio é a fé, que recebe o que a graça oferece. E o fruto são as boas obras, que nascem da salvação e não a compram. Quem foi salvo foi “criado em Cristo Jesus” para uma vida nova.
A salvação também é obra das três pessoas da Trindade. Paulo mostra isso na carta a Tito:
Mas quando a bondade e amor de Deus nosso Salvador para a humanidade apareceu, Não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito, mas sim segundo sua misericórdia, ele nos salvou pelo banho do novo nascimento, e da renovação do Espírito Santo; Ao qual ele derramou abundantemente em nós por meio de Jesus Cristo nosso Salvador; Para que, ao termos sido justificados por sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna.
(Tito 3:4-7, Bíblia Livre)
O amor do Pai é a causa. A obra de Jesus Cristo é o fundamento. O Espírito Santo é quem nos faz nascer de novo e nos renova. E o resultado é que somos justificados pela graça e nos tornamos herdeiros da vida eterna. O Pai planejou a nossa salvação, o Filho a conquistou e o Espírito a aplica em nós.
Os Três Tempos da Salvação
A Bíblia fala da salvação de três maneiras diferentes. A salvação começa quando uma pessoa se arrepende e coloca sua fé em Jesus ressuscitado. Ela continua ao longo da vida, enquanto o Espírito nos santifica. E ela se completa quando Cristo voltar e formos glorificados.
- Fomos salvosDa culpa do pecado, pela fé em Cristo
- Estamos sendo salvosDo poder do pecado, pela santificação
- Seremos salvosDa presença do pecado, na glorificação
Fomos Salvos
Paulo fala da salvação como algo que já aconteceu: “pela graça sois salvos, por meio da fé” (Efésios 2:8). Quem crê em Cristo já foi perdoado, já foi aceito por Deus e já passou da morte para a vida. “Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). É a salvação da culpa do pecado.
Estamos Sendo Salvos
Mas Paulo também fala da salvação como algo que está acontecendo agora: “a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para os que se salvam é poder de Deus” (1 Coríntios 1:18). O verbo está no presente. O crente está sendo salvo, dia após dia, do poder do pecado. Essa é a obra da santificação, em que o Espírito vai nos tornando parecidos com Cristo.
Seremos Salvos
E Paulo fala da salvação como algo que ainda vai acontecer: “a salvação está agora mais perto de nós do que quando começamos a crer” (Romanos 13:11). Pedro diz que os crentes estão guardados “no poder de Deus para a salvação, pronta para se revelar no último tempo” (1 Pedro 1:5). Quando Cristo voltar, seremos ressuscitados, livres de uma vez da presença do pecado, e veremos o Senhor como ele é.
Uma Só Salvação
Esses três tempos formam uma só salvação, vista de três lados. É preciso cuidado para não separar demais as coisas, como se a justificação ficasse só no passado, a santificação só no presente e a salvação só no futuro. Paulo, por exemplo, pode falar da santificação como algo já feito: “já estais lavados, e santificados, e justificados no nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus” (1 Coríntios 6:11). Deus começou uma obra, está continuando essa obra e vai completá-la: “aquele que começou a boa obra em vós irá completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6).
A Ordem da Salvação
A Bíblia usa muitas palavras para falar do que Deus faz quando salva alguém: chamado, arrependimento, fé, conversão, regeneração, justificação, adoção, santificação, perseverança, glorificação. Como essas coisas se relacionam? Qual vem primeiro?
O que É a “Ordem da Salvação”?
Os teólogos protestantes deram a essa pergunta o nome de ordem da salvação, em latim ordo salutis. É a tentativa de colocar em sequência os atos pelos quais Deus aplica ao pecador a salvação que Cristo conquistou na cruz.
Há uma coisa importante a entender logo de início. Muitas dessas obras acontecem ao mesmo tempo. No momento em que uma pessoa crê, ela é justificada, nasce de novo e é adotada como filho de Deus. Não há um intervalo de dias ou de horas entre uma coisa e outra. Quando os teólogos falam de “ordem”, na maior parte das vezes estão falando de uma ordem lógica, e não de uma ordem no tempo. Querem saber o que é a causa e o que é o efeito, o que depende do quê.
Calvino já explicava isso ao tratar da fé e do arrependimento:
Quando dizemos que a fé é a origem do arrependimento, não sonhamos com algum intervalo de tempo que ela gaste para produzi-lo. Queremos dizer que ninguém pode se dedicar de verdade ao arrependimento se não sabe que pertence a Deus.
(João Calvino, Institutas, III.3.2, tradução nossa)
John Wesley fez a mesma distinção ao falar da justificação e do novo nascimento:
A primeira se refere à grande obra que Deus faz por nós, perdoando os nossos pecados; a segunda, à grande obra que Deus faz em nós, renovando a nossa natureza caída. Na ordem do tempo, nenhuma delas vem antes da outra. […] Mas, na ordem do pensamento, como se costuma dizer, a justificação vem antes do novo nascimento.
(John Wesley, O novo nascimento, introdução, 1, tradução nossa)
Essa frase de Wesley ajuda muito. Na justificação, Deus faz alguma coisa por nós: muda a nossa situação diante dele. No novo nascimento, Deus faz alguma coisa em nós: muda o nosso coração. As duas coisas vêm juntas, mas cada uma tem o seu papel.
As Partes da Salvação
Antes de ver como as tradições protestantes organizam essa ordem, vale a pena olhar rapidamente cada parte. Cada uma terá o seu próprio capítulo mais adiante.
O Chamado
O primeiro passo é de Deus. É o Espírito Santo quem convence o mundo “do pecado, e da justiça, e do juízo” (João 16:8). Sem a consciência de que algo está errado, ninguém procura conserto. E Jesus chama a todos: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos farei descansar” (Mateus 11:28). Deus chama pela pregação do evangelho e pela obra interior do Espírito. Esse chamado vem antes de qualquer resposta nossa.
O Arrependimento e a Fé
A conversão é a resposta ao chamado de Deus, e tem dois lados. O primeiro é o arrependimento, que é dar as costas ao pecado, com tristeza sincera por ter ofendido a Deus. O segundo é a fé, que é voltar-se para Cristo e confiar nele. Paulo pregava “do arrependimento para se converter a Deus, e da fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21). Posso me afastar do pecado e me voltar para muitas direções; se não me voltar para Cristo, não me converti. E posso dizer que creio em Cristo; se não me afastei da vida antiga, também não me converti.
A Regeneração
A regeneração é o novo nascimento. É a obra do Espírito que dá ao pecador uma vida espiritual nova. Jesus disse a Nicodemos que quem não nascer de novo não pode ver o reino de Deus (João 3:3). Essa obra é só de Deus, porque ninguém faz a si mesmo nascer. “Se alguém está em Cristo, uma nova criatura é; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17).
A União com Cristo
Paulo usa muitas vezes a expressão “em Cristo”. Quem crê fica unido a Cristo, como o ramo à videira. Todas as bênçãos da salvação vêm dessa união. Voltaremos a ela ainda neste capítulo.
A Justificação
A justificação é o ato de Deus que declara justo o pecador que crê. Ela é uma sentença de juiz: Deus perdoa os pecados e aceita o pecador por causa da justiça de Cristo, que lhe é creditada pela fé. A mudança por dentro é obra da regeneração e da santificação, que vêm junto com ela. “Ao que não tem obra, mas crê naquele que torna justo o ímpio, sua fé lhe é reputada como justiça” (Romanos 4:5).
A Adoção
A justificação trata da nossa situação diante da lei de Deus. A adoção trata da nossa relação com ele. Deus não só nos absolve; ele nos recebe na sua família. “A todos quantos o receberam, deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem em seu nome” (João 1:12). E o Espírito confirma isso dentro de nós: “O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16).
A Santificação
A santificação é a obra do Espírito que vai transformando o crente à imagem de Cristo. Ela começa no novo nascimento e continua por toda a vida. Deus nos separa para ele e nos faz crescer em santidade. A Bíblia nos manda buscar “a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14).
A Perseverança
A perseverança é a continuação do crente na fé até o fim. Todos os protestantes concordam que é Deus quem guarda os seus. Eles discordam sobre se um crente verdadeiro pode abandonar a fé, como veremos no capítulo sobre o assunto.
A Glorificação
A glorificação é a etapa final, quando Cristo voltar. Nosso corpo será ressuscitado, livre da corrupção, e seremos semelhantes a ele: “sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (1 João 3:2).
A Corrente de Romanos 8
O texto mais citado quando se fala da ordem da salvação é este:
Pois aos que desde antes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
(Romanos 8:29-30, Bíblia Livre)
Muitos chamam essa passagem de “corrente de ouro”, porque ela liga a eternidade passada à eternidade futura. Tudo começa no conhecimento e no propósito de Deus e termina na glória. Todos os protestantes concordam com isso: a salvação nasce em Deus, é sustentada por Deus e termina em Deus.
Os protestantes discordam, porém, sobre o que significa “conheceu desde antes” e sobre como funciona a predestinação. Essa questão foi estudada no Capítulo 17: Os decretos de Deus e a predestinação. Aqui basta notar uma coisa em que todos concordam: o alvo da predestinação é que sejamos “conformes à imagem do seu Filho”. Deus nos salvou para nos levar para o céu, sim, mas também para nos tornar parecidos com Jesus.
Como os Protestantes Entendem a Ordem
O que Todos os Protestantes Afirmam
Antes de ver as diferenças, é bom ver o muito que as igrejas da Reforma têm em comum.
Todos afirmam que a salvação é somente pela graça. O ser humano caído não pode salvar a si mesmo nem dar, sozinho, o primeiro passo em direção a Deus. Todos afirmam que a justificação é somente pela fé, sem as obras da lei, por causa da justiça de Cristo creditada ao pecador. Todos afirmam que as boas obras são fruto da salvação, e não a sua causa. E todos afirmam que Cristo é o único Salvador: “em nenhum outro há salvação” (Atos 4:12).
Isso contrastava com o ensino da Igreja Católica Romana no tempo da Reforma. O Concílio de Trento (1547) ensinou que a justificação inclui a renovação interior do homem, que ela começa pelo batismo e que cresce pelas boas obras. Os reformadores responderam que a justificação é uma declaração de Deus, e não uma qualidade que cresce em nós. Mas eles também insistiram que Deus nunca justifica alguém sem também começar a transformá-lo. Calvino descreveu essa “dupla graça” assim:
Cristo, dado a nós pela bondade de Deus, é recebido e possuído por nós pela fé, e, participando dele, recebemos sobretudo dois benefícios. Primeiro, reconciliados com Deus pela inocência dele, temos no céu um Pai favorável em vez de um juiz. Depois, santificados pelo seu Espírito, nos dedicamos à inocência e à pureza de vida.
(João Calvino, Institutas, III.11.1, tradução nossa)
Perdão e transformação andam juntos. Quem diz ter um sem o outro não entendeu o evangelho.
As diferenças entre os protestantes aparecem em outros pontos: se a graça que leva à fé pode ser recusada, se a regeneração vem antes ou depois da fé, qual o papel do batismo e se um crente pode abandonar a fé. Vejamos as principais posições, cada uma como ela mesma se explica.
A Visão Reformada
A tradição reformada, ou calvinista, coloca no início de tudo a eleição incondicional: antes da criação, Deus escolheu, por pura graça, um número determinado de pessoas para a salvação. No tempo certo, Deus faz chegar a essas pessoas um chamado eficaz. Pelo Espírito, ele as regenera, dando vida a quem estava morto no pecado. Como consequência dessa vida nova, a pessoa se arrepende e crê. Então vêm a justificação, a adoção, a santificação, a perseverança e a glorificação.
A ordem fica mais ou menos assim:
- eleição;
- chamado eficaz;
- regeneração;
- fé e arrependimento;
- justificação;
- adoção;
- santificação;
- perseverança;
- glorificação.
O ponto principal é que a regeneração vem antes da fé. Os reformados apontam para passagens como Efésios 2:1, “vós estáveis mortos em vossas ofensas e pecados”. Um morto não pode fazer nada, nem mesmo crer. Por isso, dizem eles, Deus precisa primeiro dar vida, e só então a pessoa crê. Eles lembram também que os filhos de Deus “não são gerados de sangue, nem de vontade da carne, nem de vontade de homem, mas sim de Deus” (João 1:13), e que “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1 João 5:1). Para eles, essa graça é irresistível nos eleitos, e os que foram regenerados certamente perseverarão até o fim. A Confissão de Westminster (1647) e os Cânones de Dort (1619) são as expressões clássicas dessa visão.
A Visão Luterana
Os luteranos não costumam dar tanta importância a uma ordem detalhada. O centro da salvação, para eles, é a justificação pela fé, o artigo do qual depende toda a vida da igreja. Os teólogos luteranos do século 17 chegaram a falar de uma ordem: chamado, iluminação, conversão e regeneração, justificação, união com Cristo, renovação, conservação na fé e glorificação.
O traço próprio dos luteranos é a ênfase nos meios da graça. O Espírito Santo age pela Palavra e pelos sacramentos. Por isso, eles ensinam que Deus regenera as crianças pelo batismo, e os adultos pela pregação da Palavra: “Conforme a sua própria vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18). Eles afirmam que a conversão é inteiramente obra de Deus, sem nenhuma contribuição humana. Ao mesmo tempo, ensinam que o ser humano pode resistir à graça e que um crente verdadeiro pode perder a fé. E rejeitam a ideia de que Deus tenha predestinado alguns para a condenação.
A Visão Arminiana e Wesleyana
Jacó Armínio era pastor e professor na Igreja Reformada da Holanda. Ele concordava com os reformados em que o ser humano caído está morto no pecado e não pode, por si mesmo, querer nem fazer nada de bom diante de Deus. A diferença estava no modo como a graça age. Ele escreveu:
Desse modo, atribuo à graça o início, a continuação e a consumação de todo bem […]. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão: “É a graça de Deus uma certa força irresistível?”
(Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos, 1608)
Nessa visão, tudo começa com a graça preveniente, a graça que vem antes. Por causa da obra de Cristo, Deus estende a todas as pessoas uma graça que ilumina, convence do pecado e liberta a vontade o bastante para que a pessoa possa crer. Jesus é “a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9), e “a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens” (Tito 2:11). Essa graça pode ser recusada: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51). Quem é alcançado por ela e não resiste se arrepende e crê. No momento em que crê, a pessoa é justificada, nasce de novo e é adotada. Depois vêm a santificação, a perseverança, que depende de permanecer em Cristo pela fé, e a glorificação.
A ordem fica mais ou menos assim:
- graça preveniente, dada a todos;
- chamado do evangelho e convicção do pecado;
- arrependimento e fé;
- união com Cristo, justificação, regeneração e adoção, no mesmo momento;
- santificação;
- perseverança;
- glorificação.
John Wesley preferia falar de um caminho da salvação, em vez de uma ordem fixa. Para ele, a vida cristã é uma caminhada em que se vai de graça em graça. Ele descreveu o começo desse caminho assim:
A salvação começa com o que geralmente se chama, e com muita propriedade, graça preveniente, que inclui o primeiro desejo de agradar a Deus, a primeira luz sobre a sua vontade e a primeira convicção, leve e passageira, de ter pecado contra ele.
(John Wesley, Sobre operar a nossa própria salvação, II.1, tradução nossa)
Logo depois, no mesmo sermão, Wesley fala da graça que convence e leva ao arrependimento, e então da salvação propriamente cristã, que tem dois ramos: a justificação, que nos salva da culpa do pecado, e a santificação, que nos salva do seu poder e da sua raiz.
Batistas e Pentecostais
Os batistas não têm uma posição única. Desde o século 17, há batistas particulares, que seguem a ordem reformada, e batistas gerais, que seguem a visão arminiana. No Brasil, muitos batistas misturam as duas coisas: aceitam que a graça pode ser recusada antes da conversão, mas afirmam que, depois de salvo, o crente nunca pode se perder.
Os pentecostais, em sua maioria, seguem a visão arminiana e wesleyana da salvação. A Assembleia de Deus, por exemplo, ensina a graça oferecida a todos e a possibilidade de o crente cair da graça. O que os pentecostais acrescentam é o batismo no Espírito Santo como uma experiência de poder para o serviço, depois da conversão. Mas eles não colocam esse batismo como condição para a salvação.
Onde Está a Grande Diferença?
As listas mostram que a diferença principal está na relação entre a regeneração e a fé. Os reformados dizem que Deus regenera primeiro e, por isso, a pessoa crê. Os arminianos e wesleyanos dizem que a graça preveniente vem primeiro, a pessoa crê, e, ao crer, nasce de novo.
Os arminianos levam a sério o argumento de Efésios 2:1. Eles também creem que o pecador está morto e não pode crer por si mesmo. Por isso afirmam que Deus age antes da fé, pela graça preveniente. A diferença é que essa graça é dada a todos e pode ser resistida, enquanto a regeneração reformada é dada só aos eleitos e não pode ser resistida.
E há textos que colocam a fé antes da vida nova. João escreveu o seu Evangelho “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:31). A fé vem, e com ela vem a vida. João 1:12 diz que os que receberam Cristo e creram nele receberam o poder de ser feitos filhos de Deus. Paulo diz aos efésios que, depois que ouviram o evangelho “e nele crestes, nele fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1:13). E a pregação apostólica sempre chama à fé com a promessa da salvação: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo” (Atos 16:31).
Quanto a 1 João 5:1, os arminianos respondem que o versículo mostra que quem crê é nascido de Deus, mas não diz que o novo nascimento vem antes da fé. As duas coisas andam juntas.
A Posição Deste Site
Este site segue a visão arminiana clássica, na linha de Armínio e Wesley. Cremos que o ser humano está totalmente perdido e não pode dar nenhum passo para Deus sozinho. A graça preveniente, por causa de Cristo, alcança todas as pessoas, liberta a vontade e torna possível crer, mas pode ser recusada. A fé não tem mérito nenhum: é a mão vazia que recebe o presente. E, ao crer, o pecador é justificado pela justiça de Cristo, nasce de novo e é adotado, tudo no mesmo instante. Tratamos do assunto com mais detalhes em Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça e em Um Resumo da Soteriologia Arminiana.
A União com Cristo
Qualquer lista corre o risco de fazer a salvação parecer uma escada de degraus separados. A Bíblia mostra outra coisa. Todas as bênçãos da salvação nos são dadas numa pessoa só, Jesus Cristo. Paulo diz que Cristo, “por parte de Deus, tornou-se para nós sabedoria, justiça, santificação, e resgate” (1 Coríntios 1:30). Não recebemos a justificação de um lado e a santificação de outro. Recebemos Cristo, e nele temos tudo.
Esse é um ponto em que Calvino e Armínio estão de acordo. Como vimos no capítulo 30, Calvino ensinava que, enquanto estamos separados de Cristo, tudo o que ele fez não nos serve de nada, e que o Espírito Santo é o laço que nos une a ele. Armínio acrescentou que, do nosso lado, o laço dessa união é a fé. E ele resumiu a nossa dependência de Cristo numa frase bonita:
A religião tem uma característica singular: a sua fundação é Cristo, o qual possui todas as coisas, e não precisa de nada; o limite é o fiel, que precisa de todas as coisas.
(Jacó Armínio, Debates privados, XLV.8, em As obras de Armínio, vol. 2)
Com Cristo na Cruz e na Ressurreição
Em Romanos 6:3-10, Paulo diz que fomos crucificados com Cristo e ressuscitamos com ele. Como isso é possível, se essas coisas aconteceram muito antes de nascermos? Por causa da nossa união com ele. Cristo foi o nosso substituto na cruz, e, além disso, nos levou com ele para a cruz. E a sua ressurreição é também a nossa. “Já estou crucificado com Cristo. Estou vivendo não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).
Escondidos com Cristo
Paulo dá mais um passo em Colossenses 3:
Pois já morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.
(Colossenses 3:3-4, Bíblia Livre)
Ainda estamos na terra, com os nossos problemas e as nossas lutas. Mas a nossa vida está guardada com Cristo, junto de Deus. E, quando ele aparecer em glória, nós apareceremos com ele.
Uma União Viva
A união com Cristo é uma relação viva. Jesus a comparou a uma videira:
Eu sou a videira, vós sois os ramos; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, é lançado fora, como o ramo, e seca-se; e os colhem, e os lançam no fogo, e ardem.
(João 15:5-6, Bíblia Livre)
O ramo vive da seiva da videira. Separado dela, não dá fruto e seca. Por isso a vida cristã é descrita como “permanecer” em Cristo. Os protestantes discordam sobre se um ramo verdadeiro pode ser cortado, e esse assunto voltará no capítulo sobre a perseverança. Este site entende que o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e que é possível abandonar uma fé que era verdadeira (Colossenses 1:23; Hebreus 3:14). Explicamos essa posição em Arminianismo: A Segurança da Salvação. Mas todos concordam no principal: fora de Cristo não há vida, e nele há tudo.
Os Meios e o Alcance da Salvação
Todos Serão Salvos?
O universalismo é a crença de que, no fim, todos serão salvos e ninguém será condenado para sempre. Orígenes, um teólogo do século 3, ensinou que todas as criaturas, até os demônios, seriam um dia restauradas a Deus. Para ele, o castigo dos ímpios seria temporário e serviria para purificá-los. Essa ideia foi condenada pela Igreja no século 6, mas voltou de várias formas ao longo da história.
Hoje há também quem pense, de modo mais simples, que um Deus de amor nunca condenaria ninguém. Os universalistas citam passagens como Romanos 11:32, Romanos 5:18 e Colossenses 1:20, que falam da misericórdia de Deus para com todos e da reconciliação de todas as coisas.
Mas a grande maioria das passagens bíblicas distingue claramente o destino dos que creem e o dos que não creem. Jesus disse: “E estes irão ao tormento eterno, porém os justos à vida eterna” (Mateus 25:46). O amor de Deus alcança todos, e ele “quer que todas as pessoas se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Mas nem todos aceitam esse amor. Deus não é menos amoroso porque alguns o rejeitam.
A Salvação Vem pelos Sacramentos?
Um sacramento é um rito instituído por Cristo como sinal da sua graça. Os protestantes reconhecem dois: o batismo e a Ceia do Senhor. A Igreja Católica Romana reconhece sete, e ensina que a salvação é comunicada, de modo ordinário, pelos sacramentos administrados pela Igreja. Nessa visão, é pelo batismo que a pessoa é libertada do pecado e nasce de novo, e é pela Eucaristia e pela penitência que a graça continua a chegar à sua vida.
Os protestantes rejeitaram a ideia de que os sacramentos salvam por si mesmos. Mas não pensam todos do mesmo jeito sobre eles. Os luteranos, como vimos, ensinam que Deus regenera pelo batismo. Os reformados veem os sacramentos como sinais e selos da graça, que Deus usa para fortalecer a fé. Os batistas e muitos pentecostais preferem falar de ordenanças, atos de obediência que testemunham uma salvação já recebida. Wesley tinha os sacramentos por meios de graça, canais pelos quais Deus nos alcança, mas nunca por méritos. Este site defende o batismo de crentes. O assunto será tratado no capítulo sobre o batismo e a Ceia do Senhor.
A Visão Evangélica
Para os evangélicos, a salvação é obra de Deus do começo ao fim. Somos salvos pela graça, por meio da fé, e não por alguma coisa que fazemos. Nem o batismo nem qualquer outra ação nossa merece a salvação.
A Bíblia acrescenta mais um elemento: a Palavra. Pedro diz que nascemos de novo “pela viva palavra de Deus, que permanece” (1 Pedro 1:23). E Paulo pergunta: “como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, sem haver quem pregue?” (Romanos 10:14). E conclui: “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17).
O evangelho é, portanto, o meio ordinário que Deus usa para levar as pessoas à fé. Por isso a Igreja tem o dever de pregá-lo a toda criatura. Mas o Espírito Santo não está preso à nossa pregação. Pela graça preveniente, ele já trabalha na vida das pessoas antes de elas ouvirem o evangelho, despertando nelas a consciência do pecado e a busca por Deus. E ele as conduz até a Palavra, por meio da qual as leva à fé em Cristo.
Conclusão
A salvação é livramento do pecado e volta à comunhão com Deus. Ela vem do Senhor, do começo ao fim. O Pai a planejou, o Filho a conquistou na cruz e o Espírito Santo a aplica em nós. Ela tem três tempos: fomos salvos da culpa do pecado, estamos sendo salvos do seu poder e seremos salvos da sua presença.
Os protestantes concordam em que a salvação é somente pela graça e somente pela fé, que a justificação é uma declaração de Deus por causa da justiça de Cristo, e que as boas obras são fruto, e não causa, da salvação. Eles discordam sobre a ordem em que Deus aplica a salvação, sobretudo sobre a relação entre a regeneração e a fé, sobre se a graça pode ser recusada e sobre a perseverança. Este site segue a visão de Armínio e Wesley: a graça vem antes e alcança todos, e quem crê é, no mesmo instante, justificado, regenerado e adotado.
Mais importante que qualquer lista é a pessoa de Cristo. Todas as bênçãos da salvação estão nele, e as recebemos quando estamos unidos a ele pela fé. Ele possui todas as coisas, e nós precisamos de todas elas.
No próximo capítulo, começamos a percorrer o caminho da salvação parte por parte, com o chamado do evangelho, o arrependimento e a fé.
Fontes
- Armínio, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608). Tradução no site.
- Armínio, Jacó. Debates privados, XLV: Sobre a união dos crentes com Cristo. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. III.3.2; III.11.1.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
- Wesley, John. O novo nascimento (sermão 45); Sobre operar a nossa própria salvação (sermão 85). Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works e Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
Teologia Sistemática, Parte 7: A salvação. Capítulo anterior: Capítulo 31: Os dons e o fruto do Espírito. Próximo capítulo: Capítulo 33: Vocação, arrependimento e fé.
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