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Lição 34: Os dons e o fruto do Espírito

Curso de Teologia Sistemática, parte 4

Diego Gonçalves25 min de leitura4.997 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática. Parte 4: A doutrina do Espírito Santo: a salvação, a Igreja e as últimas coisas.

Objetivos da lição

  • Explicar os termos bíblicos da doutrina (charisma, pneumatika, dōrea, karpos e erga) e a distinção entre o dom do Espírito e os dons do Espírito.
  • Expor o ensino do Novo Testamento sobre os carismas (Romanos 12, 1 Coríntios 12 a 14, Efésios 4 e 1 Pedro 4) e sobre o fruto do Espírito (Gálatas 5).
  • Acompanhar a história da questão, do montanismo ao cessacionismo reformado, a Armínio, a Wesley e à renovação carismática no Brasil.
  • Fundamentar a posição wesleyano-arminiana: a continuidade dos dons com discernimento, a primazia do fruto sobre os dons e a santidade como obra da graça do começo ao fim.

Introdução

Quem teve uma jabuticabeira no quintal sabe que ela não se parece com nenhuma outra árvore. O fruto não nasce na ponta dos galhos, mas brota do próprio tronco, colado à casca, como se a árvore mostrasse por fora a seiva que corre por dentro. Ninguém consegue pregar jabuticabas no tronco com cola, e quem tentasse enganaria os vizinhos por uma tarde. Quando chega a safra, porém, a árvore não fica com nada para si: os vizinhos aparecem com bacias, as crianças sobem nos galhos e a fruta se reparte pela rua inteira. A imagem guarda as duas perguntas desta lição: o que o Espírito Santo faz crescer em nós, que é o fruto, e o que ele nos dá para servir aos outros, que são os dons.

Poucos assuntos dividem tanto a igreja brasileira. Numa comunidade, o falar em línguas é tido como sinal obrigatório da plenitude do Espírito; noutra, qualquer menção a profecia desperta suspeita; e o comércio da “unção” e dos milagres fez muitos crentes desconfiarem de tudo o que é sobrenatural. Ao mesmo tempo, igrejas que se orgulham da doutrina correta convivem com a aspereza e a inveja, como se o fruto do Espírito fosse matéria de devocional, e não de teologia. A Escritura não nos deixa escolher entre os dons e o fruto, mas ensina a ordem entre eles.

A lição 33 estudou a pessoa do Espírito e afirmou, com Wesley, que todo o mérito está no Filho e todo o poder está no Espírito. Esta lição pergunta como esse poder se manifesta na Igreja, nos carismas, e no caráter do crente, no fruto. Ela prepara o estudo do caminho da salvação, que começa na lição 35.

1. Os termos da doutrina

1.1 Charisma e pneumatika

O substantivo charisma deriva de charis, “graça”, e quer dizer “dádiva graciosa”, um presente que procede somente de Deus. O Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento (art. “Graça”) observa que, com a exceção de um texto de 1 Pedro, o termo é exclusivamente paulino e tem dois sentidos. No sentido geral, o charisma é a própria salvação: “o dom gratuito de Deus é a vida eterna” (Romanos 6:23). No sentido especializado, é a operação multiforme da única graça em cada cristão, mediante o único Espírito, para o serviço da comunidade. O verbete conclui que, para Paulo, “é inconcebível a existência de qualquer cristão sem algum dom da graça”.

Paulo também usa pneumatika, “coisas espirituais” (1 Coríntios 12:1; 14:1). James Dunn, no artigo “Espírito” do mesmo dicionário, nota que a palavra é mais ambígua, porque em Efésios 6:12 designa até os espíritos maus, e que os coríntios parecem tê-la preferido para as manifestações extáticas. Neste sentido, ao preferir charismata, a própria escolha do vocabulário já corrige Corinto: o que se recebeu de graça não pode servir de medalha.

1.2 O dom e os dons

O Novo Testamento distingue o dom do Espírito dos dons do Espírito. Em Pentecostes, Pedro promete aos que se arrependem: “vós recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38). O termo é dōrea, e o dom é o próprio Espírito, dado a todos os que creem (Romanos 8:9; 1 Coríntios 12:13). Os charismata, por sua vez, são capacitações distribuídas pelo Espírito “particularmente a cada um como quer” (1 Coríntios 12:11). H. Orton Wiley insistiu nessa distinção (Christian Theology, vol. 2): o Doador vem primeiro, e os dons dependem dele. Quem busca os dons sem o Doador inverte a ordem, como quem quisesse a fruta sem a árvore.

1.3 Karpos e erga: fruto e obras

Em Gálatas 5, Paulo opõe “as obras da carne” (ta erga tēs sarkos) ao “fruto do Espírito” (ho karpos tou pneumatos). O Dicionário internacional (art. “Fruto”) explica o contraste: ergon, tirado do mundo do artesanato, é aquilo que o homem produz pelos próprios esforços; karpos, que vem do crescimento natural, é aquilo que cresce da força vivificante da árvore, e esse crescimento “não está à disposição do homem”. Nos que estão em Cristo, o fruto aparece como resultado da vida, e não como produto fabricado. Além disso, o termo está no singular: um só fruto com nove aspectos, e não nove frutos que se colecionam separadamente.

1.4 Dons, talentos e ofícios

Três distinções evitam confusões. Em primeiro lugar, o carisma não se confunde com o talento natural, que é dom da criação: é, nas palavras de Dunn, expressão da energia divina, e não do potencial humano. Em segundo lugar, não se confunde com o ofício: Efésios 4:11 fala de pessoas dadas à Igreja, e 1 Coríntios 12:8-10, de manifestações. Em terceiro lugar, as listas do Novo Testamento (Romanos 12:6-8; 1 Coríntios 12:8-10, 28-30; Efésios 4:11; 1 Pedro 4:10-11) não coincidem nem pretendem ser exaustivas. Walter Brunelli agrupa os nove dons de 1 Coríntios 12 em dons de revelação, de poder e de locução, mas reconhece que Paulo “não se ocupa com essa didática” (Teologia para pentecostais, vol. 1).

2. Fundamentação bíblica

2.1 Um só Espírito, muitos dons

O texto central está em 1 Coríntios 12, que o site estudou em detalhe nos estudos indutivos de 1 Coríntios 12:1-11 e 1 Coríntios 12:12-30:

E há variedade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há variedade de trabalhos na Igreja, mas o Senhor é o mesmo. E há variedade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a cada um é dada a manifestação do Espírito, para o que for conveniente.

1 Coríntios 12:4-7

Seguem-se nove manifestações, da palavra de sabedoria à interpretação de línguas, e o fecho: “todas estas coisas quem opera é um e o mesmo Espírito, repartindo particularmente a cada um como quer” (12:11). Quatro afirmações se destacam. A variedade tem uma só fonte, trinitária: o Espírito, o Senhor e Deus. O dom é dado “a cada um”, e não existe crente sem carisma nem crente com todos eles (12:29-30). O dom é dado “para o que for conveniente”, para o bem comum, e não para o prestígio de quem o recebe. E o Espírito reparte “como quer”. Wesley, que negava a eleição incondicional para a salvação, via aqui um campo legítimo da soberania divina: ela aparece “na dispensação dos vários dons do seu Espírito para a edificação da sua Igreja”, ao passo que, na disposição do estado eterno dos homens, “não somente a soberania, mas a justiça, a misericórdia e a verdade mantêm as rédeas” (A predestinação calmamente considerada, 50-54). Deus distribui os dons segundo o seu beneplácito, e ninguém tem do que se gloriar.

2.2 Para a edificação do corpo

As outras listas confirmam o propósito. Em Romanos, os dons variam “segundo a graça que nos foi dada” (Romanos 12:6), e a exortação que os precede proíbe que alguém se estime “mais do que convém se estimar” (12:3). Em Efésios, o Cristo que subiu ao alto “deu dons às pessoas” (Efésios 4:8) “para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (4:12). Pedro resume: “Cada um sirva aos outros segundo o dom que recebeu, como bons administradores da variada graça de Deus” (1 Pedro 4:10). O dom é mordomia, e quem administra o que é de outro presta contas.

2.3 O caminho mais excelente

Entre a lista dos dons e a ordem do culto, Paulo põe o capítulo do amor, e o lugar do texto já é argumento:

Ainda que eu falasse as línguas dos seres humanos e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que retine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e soubesse todos os mistérios, e todo o conhecimento; e ainda que tivesse toda a fé, de tal maneira que movesse os montes de lugar, e não tivesse amor, nada seria.

1 Coríntios 13:1-2

Paulo não opõe o amor aos dons, mas o apresenta como “um caminho ainda mais excelente” (12:31) para buscá-los e exercê-los. O capítulo termina com uma comparação de tempos: “as profecias serão aniquiladas; as línguas acabarão”, e isso acontecerá “quando vier o que é completo” (13:8, 10). O versículo 12 identifica o momento: “agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face”. O “completo” (to teleion) é a consumação, quando veremos o Senhor, e não o fechamento do cânon. Os dons pertencem ao tempo da Igreja peregrina; o amor pertence à eternidade.

2.4 A ordem do culto e o discernimento

Em 1 Coríntios 14, o critério de todo exercício dos dons é a edificação (14:12). Por isso a profecia, que fala “para edificação, convencimento, e consolação” (14:3), é preferida às línguas sem interpretação (14:18-19). A profecia é julgada pela comunidade (“falem dois ou três profetas, e os outros julguem”, 14:29), e o princípio é o caráter de Deus: “Deus não é de confusão, mas de paz” (14:33). A conclusão afasta os dois desvios de uma só vez: “desejai com zelo profetizar, e não impeçais o falar línguas estranhas. Fazei tudo decentemente e com ordem” (14:39-40).

O mesmo equilíbrio, que proíbe tanto o desprezo quanto a credulidade, aparece na carta mais antiga de Paulo: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo, e mantende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:19-21). O primeiro teste é cristológico: “todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (1 João 4:2). O segundo é moral: “Vós os conhecereis pelos seus frutos” (Mateus 7:16). Logo depois, Jesus adverte que muitos dirão naquele dia “Não profetizamos em teu nome?” e ouvirão: “Nunca vos conheci” (7:22-23). Um carisma verdadeiro não prova que a árvore é boa.

2.5 O fruto do Espírito

Gálatas 5 situa o fruto dentro da luta entre a carne e o Espírito, que “se opõem mutuamente” (5:17), e o contrapõe às obras da carne, que vão do pecado sexual às “inimizades, brigas, ciúmes, iras” e “facções” (5:19-21):

Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra essas coisas não há lei. Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as paixões e os maus desejos. Se vivemos no Espírito, também no Espírito andemos.

Gálatas 5:22-25

A lista começa pelo amor, que “está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5:5), e os outros aspectos são o mesmo amor visto de ângulos diferentes: o amor que se alegra, que tem paz, que espera, que é bondoso e que se governa. No versículo 25, o indicativo vem antes do imperativo: a vida é dom, e o andar é resposta à vida recebida. Jesus usou a mesma lógica com a imagem da videira: “como o ramo de si mesmo não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim vós também não, se não estiverdes em mim” (João 15:4). O fruto depende da permanência, e a permanência é chamado, e não automatismo.

3. Desenvolvimento histórico

3.1 Os Pais da Igreja e o montanismo

Os primeiros séculos testemunham a presença dos carismas. Irineu de Lyon escreveu que ouvia muitos irmãos que tinham dons proféticos e falavam pelo Espírito toda espécie de línguas (Contra as heresias, V, 6, 1). A mesma época conheceu a crise do montanismo: na Frígia, Montano e duas profetisas apresentaram as suas palavras extáticas como revelação nova. Randy Maddox observa que o problema não era a reivindicação do dom profético, mas o conteúdo das profecias, que contradiziam o ensino de Cristo, e que a reação de muitos líderes, sobretudo no Ocidente latino, foi restringir os dons ao clero ordenado, em vez de exercer o discernimento (Responsible Grace, cap. 5).

Com o tempo, os carismas extraordinários se tornaram raros. João Crisóstomo confessou que 1 Coríntios 12 era obscuro porque aqueles fatos já não aconteciam no seu tempo (Homilias sobre 1 Coríntios, 29), e Agostinho, que a princípio via nas línguas um sinal do começo da Igreja, registrou no fim da vida dezenas de curas em Hipona (A cidade de Deus, XXII, 8).

3.2 A Idade Média

Tomás de Aquino distinguiu a gratia gratum faciens, a graça que torna a pessoa agradável a Deus, da gratia gratis data, dada a alguém para o bem de outros, entre as quais pôs os nove carismas de 1 Coríntios 12, e ensinou que a primeira é mais excelente (Suma teológica, I-II, q. 111, a. 1, 4 e 5). A teologia arminiana conserva o núcleo da distinção: os carismas servem aos outros e não santificam por si quem os exerce.

3.3 A Reforma e o cessacionismo

Lutero escreveu Contra os profetas celestiais (1525) diante dos que punham as revelações interiores acima da Palavra, e firmou o princípio de que Deus dá o Espírito por meio da Palavra externa. Calvino ensinou que os ofícios de apóstolo, profeta e evangelista não foram instituídos para ser perpétuos, embora Deus os suscitasse em tempos excepcionais (Institutas, IV, 3, 4), e que o dom de curar desapareceu com os demais milagres (IV, 19, 18). A Confissão de Westminster (1647) declarou cessados os “antigos modos” pelos quais Deus revelava a sua vontade (I, 1), e B. B. Warfield, em Counterfeit Miracles (1918), deu ao cessacionismo a sua forma clássica: os dons miraculosos eram credenciais dos apóstolos e cessaram com eles (2 Coríntios 12:12; Hebreus 2:3-4).

Esse argumento contém uma verdade que todos os protestantes partilham, estudada na lição 13: a revelação que funda a Igreja está completa em Cristo e no testemunho apostólico, e a Igreja está “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas” (Efésios 2:20), que não se coloca de novo. A questão é se dessa verdade se segue a cessação de todo carisma de sinal, e aqui a tradição wesleyana responde de outro modo.

3.4 Armínio

Armínio não escreveu um tratado sobre os carismas, mas tocou o assunto em dois lugares. Na Dissertação sobre o sétimo capítulo de Romanos, para provar que se pode atribuir algum bem a quem não foi regenerado, ele cita “todos aqueles dons do Espírito Santo, que são para a edificação da Igreja e que são atribuídos a vários dos condenados” (1 Coríntios 12 e 13), e reconhece que essas coisas, por si mesmas, não salvam (As obras de Armínio, vol. 2): o carisma pode existir sem a graça que santifica (Mateus 7:22-23). Na Carta sobre o pecado contra o Espírito Santo, a João Uytenbogaert, ele entende os que “foram feitos participantes do Espírito Santo” (Hebreus 6:4) como possivelmente referidos aos “dons extraordinários do Espírito Santo que, naquela época, floresciam na igreja”. Armínio falava desses dons como coisa da era apostólica, mas o princípio que deixou ultrapassa essa avaliação: o dom é graça para o serviço e não substitui a graça que regenera.

3.5 Wesley e o metodismo

Wesley tratou dos dons quase sempre para responder à acusação de “entusiasmo”. No sermão Cristianismo escriturístico (1744), ele deixa a questão em aberto: se esses dons foram destinados a permanecer na Igreja em todos os tempos, e se serão restaurados com a aproximação da “restituição de todas as coisas”, “são questões que não precisamos decidir”. Observa, porém, que mesmo na infância da Igreja Deus os repartiu com mão comedida, “talvez nem um em mil”, e que os discípulos foram cheios do Espírito para receber “a mente que houve em Cristo, aqueles frutos santos do Espírito, os quais, aquele que não os possuir não é dele” (introdução, 2-4, em Coletânea da teologia de João Wesley).

Com o tempo, a posição se definiu. Em 1750, Wesley anotou no Diário (15 de agosto) a suspeita de que os montanistas foram cristãos verdadeiros e de que os dons miraculosos recuaram porque homens “secos, formais e ortodoxos” começaram a ridicularizar os dons que não tinham; e no sermão O caminho mais excelente (1787) atribuiu o declínio dos carismas depois de Constantino ao esfriamento do amor. Maddox resume: Wesley chegou a entender que os dons foram destinados a permanecer na Igreja, e que o seu desaparecimento resultou da mundanidade dos cristãos, e não do plano de Deus (Responsible Grace, cap. 5).

Essa abertura nunca foi credulidade. Wesley distinguia as operações “ordinárias” do Espírito, que são permanentes, das “extraordinárias”, que são excepcionais, e no sermão A natureza do entusiasmo (1750) exigiu que toda suposta direção do Espírito fosse provada pela Escritura e pela razão. E pôs o fruto no centro. Todo crente precisa receber o Espírito, “não para operar milagres, mas para fé, paz, alegria e amor”, os frutos ordinários do Espírito (Outro apelo aos homens sensatos e religiosos, I, 6); e “ninguém descanse sobre algum suposto testemunho do Espírito separado dos seus frutos” (O testemunho do Espírito, II, V, 3). Na Explicação clara da perfeição cristã (1766), resumiu a vida cristã em amor: não há nada mais alto na religião, e quem procura outra coisa que não mais amor procura longe do alvo.

Maddox mostra ainda o que Wesley entendia por fruto. Os nove aspectos de Gálatas 5 são “temperamentos santos” (holy tempers), disposições estáveis do coração das quais brotam pensamentos, palavras e ações santas. Eles não são posse natural do ser humano, mas efeito da presença do Espírito; tornam-se parte do caráter do crente, mas a sua continuidade se deve à fidelidade do Espírito, e eles definham quando deixamos de responder a essa presença (Responsible Grace, cap. 5).

3.6 Do movimento de santidade ao Brasil

Wiley tratou os carismas depois do dom do próprio Espírito e afirmou a primazia do fruto, e o movimento de santidade, de onde ele vinha, recusou fazer das línguas a evidência do batismo com o Espírito. Do mesmo movimento nasceu o pentecostalismo, que associou esse batismo às línguas. Alister McGrath descreve depois a renovação carismática nas igrejas históricas, a partir dos anos 1960, e a ênfase em “sinais e prodígios” (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 4).

No Brasil, a Congregação Cristã (1910) e a Assembleia de Deus (1911) implantaram o pentecostalismo clássico; a renovação carismática dividiu igrejas históricas, e dela nasceram a Igreja Metodista Wesleyana e a Convenção Batista Nacional, ambas em 1967; depois veio o neopentecostalismo, com a teologia da prosperidade. Flávyo Henrique Costa Santos registra uma ironia da nossa história editorial: comentários bíblicos declaradamente cessacionistas saem pela editora da maior denominação pentecostal do país (Manual de teologia arminiana, 2021). A igreja brasileira precisa de uma doutrina dos dons que não seja importada pronta de nenhum dos lados.

4. A posição arminiana clássica e wesleyana

4.1 A continuidade dos dons com discernimento

Em primeiro lugar, afirmamos que a Escritura não ensina a cessação dos carismas. O texto que a anuncia liga o fim das profecias e das línguas à vinda “do que é completo”, quando veremos “face a face” (1 Coríntios 13:10-12). Paulo manda desejar os dons (14:1) e não impedir as línguas (14:39) sem nenhuma cláusula de prazo, e a promessa de Joel, citada em Pentecostes, abrange “os últimos dias” (Atos 2:17), que são o tempo inteiro da Igreja. O Espírito continua livre para distribuir os seus dons “como quer”.

Em segundo lugar, afirmamos com os reformadores que o fundamento não se repete. O cânon está fechado, e nenhuma profecia, visão ou “revelação” acrescenta algo à fé “que de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3). A profecia na igreja local é palavra de edificação, convencimento e consolação (1 Coríntios 14:3), sujeita ao juízo da comunidade e à Escritura; quem a apresenta como palavra igual à da Bíblia repete o erro de Montano. Do mesmo modo, o apostolado das testemunhas da ressurreição (Atos 1:21-22) pertence ao primeiro século, e os títulos de “apóstolo” que hoje se multiplicam pelo Brasil não encontram apoio nessa doutrina.

Em terceiro lugar, afirmamos que todo carisma passa pelo discernimento: a confissão de Jesus como Senhor vindo em carne, a conformidade com a Escritura, a edificação do corpo, a ordem no culto e o fruto na vida de quem exerce o dom. Com Wesley, aprendemos que a abertura ao sobrenatural e a recusa do fanatismo andam juntas.

4.2 A primazia do fruto sobre os dons

Os carismas são dados para o serviço; o fruto é a própria vida de Cristo em nós. Por isso nenhum dom prova a santidade de quem o exerce, e Corinto é o exemplo bíblico: uma igreja à qual “nenhum dom” faltava (1 Coríntios 1:7) e à qual Paulo não pôde falar “como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo” (3:1). Brunelli tira a lição: um crente espiritual não há de ser conhecido “pelo fervor nem mesmo pelos dons que venha a possuir”, mas pelas graças que compõem o fruto (Teologia para pentecostais, vol. 1). O critério de Jesus é se ele nos conhece, e “nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vós tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35).

Daí se segue uma consequência para a segurança, que a lição 40 desenvolverá: o testemunho do Espírito (Romanos 8:16) se confirma pelo fruto, e não por manifestações extraordinárias, e o crente que nunca falou em línguas, mas ama a Deus e ao próximo, não tem motivo para duvidar de que o Espírito habita nele (Romanos 8:9).

4.3 O fruto e a santidade: obra da graça do começo ao fim

O fruto não é obra humana, mas cresce de uma vida recebida. Wesley chegou a reconhecer graus reais de paciência, bondade e mansidão antes mesmo da justificação, mas os atribuiu à graça preveniente, e não à natureza (O testemunho do Espírito, II, V, 4). Neste sentido, toda virtude cristã, do primeiro desejo de Deus ao amor perfeito, é dom do Espírito, e o crente não acrescenta mérito nenhum ao que nele cresce.

O contraste com Charles Finney mostra o que está em jogo. Finney ensinava que toda virtude consiste na “intenção última suprema” da vontade, a escolha da benevolência desinteressada, e criticava os que falavam de “sentimentos virtuosos, como se a virtude consistisse nisso, e não na intenção” (Teologia sistemática). A teologia wesleyana afirma o oposto: a santidade é a renovação do coração e das afeições pelo Espírito, e o fruto são temperamentos santos que a vontade, por si, não produz. O imperativo continua de pé (“no Espírito andemos”), mas é dirigido a quem já vive pelo Espírito, e o andar é resposta à graça, e não ponto de partida.

Ao mesmo tempo, o fruto cresce em condições. O ramo precisa permanecer na videira (João 15:4-6), e o Espírito pode ser entristecido (Efésios 4:30) e apagado (1 Tessalonicenses 5:19). Por isso a teologia arminiana fala de graça responsável, e não de graça automática. Os meios de graça (a Escritura, a oração, a Ceia, o jejum e a comunhão cristã, que a lição 44 estudará) são o cuidado do quintal, e não o adubo que produz a fruta por conta própria. A meta é o amor perfeito que a tradição wesleyana chama de inteira santificação, assunto da lição 41: não a ausência de erros e de crescimento, mas um coração que ama a Deus e ao próximo sem rival, recebido pela fé (1 Tessalonicenses 5:23-24).

4.4 Em diálogo com as outras tradições

Com a tradição reformada, concordamos que a revelação fundante está completa e que a Palavra é o critério de todo espírito. Divergimos do cessacionismo de Warfield, mas registramos que a tradição reformada não é unânime: Wayne Grudem, cuja Teologia sistemática circula amplamente no Brasil, defende a atualidade da profecia como palavra falível, sujeita a juízo. Com a tradição luterana, concordamos que o Espírito não se separa da Palavra externa. Com a tradição católica, partilhamos a distinção entre a graça que santifica e a graça dada para o serviço, e divergimos da ligação dos carismas ao magistério.

Com a tradição pentecostal, partilhamos a convicção de que os dons são atuais e a herança do movimento de santidade. Divergimos em dois pontos: não ensinamos o batismo no Espírito como experiência posterior à regeneração cuja evidência inicial seja o falar em línguas, porque Paulo pergunta “Falam todos várias línguas?” esperando a resposta negativa (1 Coríntios 12:30); e entendemos a obra posterior da graça como purificação do coração no amor, e não como revestimento de poder. Com o neopentecostalismo, a divergência é maior, porque a venda da bênção e do milagre repete o pecado de Simão, que pensou que o dom de Deus pudesse “ser obtido por meio de dinheiro” (Atos 8:20).

5. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, nenhum crente é espectador. Se não existe cristão sem algum dom da graça, a igreja que concentra todo o ministério no púlpito desperdiça o que o Espírito distribuiu. O Espírito derramado “sobre toda carne” (Atos 2:17) não respeita as fronteiras que nós traçamos, e Wesley o entendeu ao dar lugar aos pregadores leigos no metodismo.

Em segundo lugar, o dom deve ser exercido com zelo e humildade. Paulo lembra a Timóteo que reacenda “o dom de Deus que está em ti” (2 Timóteo 1:6), com o verbo de quem atiça a brasa, a imagem do fogão a lenha da lição anterior; mas o administrador da “variada graça de Deus” (1 Pedro 4:10) não se apropria do que é do Senhor.

Em terceiro lugar, a igreja precisa de discernimento para examinar tudo pela Escritura e pelo fruto, e de coragem para não apagar o Espírito por medo do excesso alheio. O culto pode ser aberto à ação do Espírito e, ao mesmo tempo, decente e ordenado (1 Coríntios 14:40).

Em quarto lugar, a santidade se mede pelo amor. Uma igreja cheia de dons e vazia de mansidão é Corinto outra vez, e uma igreja que confessa a doutrina correta e não tem paciência com os fracos também não reflete o fruto do Espírito.

Voltemos à jabuticabeira. O fruto que brota do tronco mostra a seiva que corre por dentro, e ninguém o fabrica com cola; a safra, por sua vez, não é da árvore, mas da rua inteira, que chega com as suas bacias. Assim é a obra do Espírito em nós: o fruto é a vida de Cristo que ele faz crescer, e os dons são a colheita que ele reparte para que outros se alimentem. Ambos vêm da mesma seiva, e nenhum deles é nosso. Vem, Espírito Santo, Senhor que repartes os teus dons como queres; livra-nos de desejar os dons sem amar o Doador, e de confessar a tua obra sem dar o teu fruto; faz crescer em nós o amor, a alegria, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão e o domínio próprio, e usa o que nos deste para a edificação do teu povo e a glória de Cristo.

Síntese

  1. Os carismas (charismata) são dádivas da graça, distribuídas pelo Espírito a cada crente, segundo a sua vontade soberana, para a edificação do corpo de Cristo; distinguem-se do dom do Espírito, que é o próprio Espírito dado a todos os que creem.
  2. A Escritura não ensina a cessação dos dons, que pertencem ao tempo da Igreja até a vinda “do que é completo”; o fundamento apostólico e profético, porém, não se repete, e nenhuma profecia acrescenta algo ao cânon.
  3. Todo carisma deve ser exercido em amor, com ordem e sob discernimento: pela confissão de Cristo, pela Escritura, pela edificação da Igreja e pelo fruto de quem o exerce.
  4. O fruto do Espírito (karpos), em contraste com as obras da carne (erga), é a vida de Cristo que o Espírito faz crescer no crente, com o amor à frente; é obra da graça do começo ao fim, e não produto da vontade humana.
  5. O fruto tem primazia sobre os dons: um carisma não prova a santidade nem a salvação de quem o exerce, ao passo que o amor é o sinal dos discípulos de Cristo e a meta da santificação.
  6. O fruto cresce na permanência em Cristo e no uso dos meios de graça, e pode definhar quando o Espírito é entristecido; por isso somos chamados a andar no Espírito, em quem vivemos.

Questões para revisão

  1. Quais são os dois sentidos de charisma em Paulo, e por que o apóstolo prefere essa palavra a pneumatika ao corrigir os coríntios?
  2. Qual é a diferença entre o dom do Espírito (Atos 2:38) e os dons do Espírito (1 Coríntios 12:11)?
  3. Explique o contraste entre erga e karpos em Gálatas 5 e o que ele ensina sobre a santificação.
  4. Por que o “completo” de 1 Coríntios 13:10 se refere à consumação, e não ao fechamento do cânon?
  5. Que critérios de discernimento o Novo Testamento oferece para o exercício dos dons?
  6. Como Armínio e Wesley trataram os dons extraordinários, e em que a posição de Wesley mudou ao longo da vida?
  7. Por que um carisma verdadeiro não prova a salvação de quem o exerce (Mateus 7:22-23)?
  8. Em que a doutrina wesleyana do fruto como temperamentos santos difere da doutrina de Charles Finney sobre a virtude?

Bibliografia

  • AGOSTINHO. A cidade de Deus, XXII.
  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (vol. 2: Dissertação sobre o sétimo capítulo de Romanos; Carta sobre o pecado contra o Espírito Santo).
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 1 (Pneumatologia). Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
  • CALVINO, João. As institutas da religião cristã (1559), IV, 3, 4 e IV, 19, 18.
  • Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000 (arts. “Espírito”, “Fruto” e “Graça”).
  • GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
  • IRINEU DE LYON. Contra as heresias, V, 6, 1.
  • JOÃO CRISÓSTOMO. Homilias sobre a primeira epístola aos Coríntios, 29.
  • LUTERO, Martinho. Contra os profetas celestiais (1525).
  • MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994 (cap. 5).
  • McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd, 2005 (cap. 4).
  • SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. Editora Reflexão, 2021.
  • TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica, I-II, q. 111.
  • WARFIELD, B. B. Counterfeit Miracles. Nova York: Scribner, 1918.
  • WESLEY, John. Cristianismo escriturístico (1744); Outro apelo aos homens sensatos e religiosos (1745); A predestinação calmamente considerada (1752); O testemunho do Espírito, II. Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
  • WESLEY, John. Diário, 15 de agosto de 1750; A natureza do entusiasmo (1750); Uma explicação clara da perfeição cristã (1766); O caminho mais excelente (1787).
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. Vol. 2. Kansas City: Beacon Hill, 1941.
  • Confissão de fé de Westminster (1647), cap. I.
  • Para contraste: FINNEY, Charles. Teologia sistemática.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática. Anterior: Lição 33: A doutrina do Espírito Santo. Próxima: Lição 35: A doutrina da salvação: Visão geral.

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