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Capítulo 38: A doutrina da Igreja

Teologia Sistemática, Parte 8: A Igreja

Diego Gonçalvesatualizado 25 min de leitura4.911 palavras

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Neste texto

Jesus estabeleceu sua igreja para representá-lo no mundo. Mas o que é essa igreja? E, com tantos grupos usando esse nome, como podemos reconhecer uma igreja verdadeira?

A Natureza da Igreja

Nos capítulos anteriores, vimos como Deus salva o pecador: ele chama, perdoa, faz nascer de novo, adota, santifica e guarda. Mas Deus não salva pessoas para que vivam cada uma no seu canto. Quem é unido a Cristo é unido também a todos os que são dele. A salvação nos coloca dentro de um povo. Esse povo é a Igreja.

O que é a Igreja?

“Igreja” é uma palavra comum hoje em dia e é usada para diversos propósitos. Às vezes, a palavra é usada para se referir a um edifício, como em “a igreja da praça”. Outras vezes, é usada para uma denominação, como a Igreja Católica Romana ou a Igreja Presbiteriana. Em outros momentos, refere-se a uma reunião de culto, como em “ir à igreja”. Também usamos a palavra para um grupo específico de crentes, como “a Primeira Igreja Batista” da nossa cidade. E, por fim, a palavra é usada para todos os crentes em Cristo, em todos os tempos e lugares.

A palavra traduzida como igreja no Novo Testamento é a palavra grega ekklesia. No mundo grego, ela indicava uma assembleia de cidadãos, chamados para se reunir e tratar dos assuntos da cidade. A palavra vem de duas partes que querem dizer “chamar para fora”. A Igreja, então, é o povo que Deus chamou para fora do mundo, para ser dele.

Essa palavra já era conhecida dos judeus. A tradução grega do Antigo Testamento, usada no tempo de Jesus, chamava de ekklesia a assembleia de Israel. Por isso Estêvão podia falar de Moisés como aquele “que esteve na congregação do povo no deserto” (Atos 7:38). No Novo Testamento, a palavra passa a indicar a assembleia dos que creem em Jesus. Às vezes, é usada para todos os crentes em todos os tempos e lugares, a igreja universal (Mateus 16:18; Efésios 1:22-23). Em outras ocasiões, é usada para os crentes de uma cidade ou que se reúnem num local específico, a igreja local (1 Coríntios 1:2; Filemom 2).

Os apóstolos reunidos recebem o Espírito Santo no dia de Pentecostes, em pintura barroca francesa
Jean II Restout, Pentecostes, 1732. Museu do Louvre, Paris. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Igrejas Locais Como uma Embaixada

No Novo Testamento, a igreja local nunca é tratada como um pedaço da igreja universal, como se fosse uma filial. Cada igreja local é a Igreja naquele lugar. Paulo escreve “à igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2). De certa forma, isso é semelhante a uma embaixada. A embaixada do Brasil em outro país representa o país inteiro. Quem precisa do Brasil lá fora vai até ela. Onde quer que os crentes se reúnam em nome de Cristo, é ali que está a igreja.

Quando a Igreja Começou?

Os cristãos concordam que Jesus prometeu construir a sua igreja. “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja; e as portas do Xeol não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). Também concordam que algo novo aconteceu no Pentecostes, quando o Espírito foi derramado e “foram adicionados naquele dia quase três mil almas” (Atos 2:41). A discussão é sobre a relação entre a Igreja e o povo de Israel.

Um Só Povo de Deus

A maior parte da tradição cristã, com Agostinho, Lutero, Calvino, Armínio e Wesley, entende que Deus tem um só povo ao longo da história. No Antigo Testamento, esse povo esperava o Messias prometido. No Novo, ele crê no Messias que veio. O Pentecostes, nessa visão, marca o começo de uma forma nova do povo de Deus, agora aberta a todas as nações. Armínio dizia que a Igreja é uma só quanto ao seu fundamento, que é Cristo, mas que Deus a governou de modos diferentes antes e depois da vinda dele (Debates privados, LI.2).

Israel e a Igreja Como Povos Distintos

Outros defendem que a Igreja é algo totalmente novo, que começou no Pentecostes e não existia no Antigo Testamento. É a visão dispensacionalista, comum em muitas igrejas evangélicas do Brasil. Paul Enns, por exemplo, ensina que Israel e a Igreja são dois povos distintos, cada um com as suas promessas. Para ele, Jesus falou da igreja no futuro (“edificarei”) porque ela ainda não existia.

Avaliando as Visões

É verdade que a Igreja do Novo Testamento tem algo novo. O Espírito foi derramado sobre todo o povo, e judeus e gentios foram reunidos num só corpo, coisa que não acontecia antes. Mas o Novo Testamento também mostra uma continuidade forte. Paulo compara o povo de Deus a uma única oliveira. Alguns ramos naturais, os judeus incrédulos, foram cortados, e os gentios foram enxertados no lugar deles, nutridos pela mesma raiz (Romanos 11:17-18). Cristo “dos dois povos ele fez um, e derrubou do meio o muro da separação” (Efésios 2:14). E quem é de Cristo é “descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa” (Gálatas 3:29).

Minha própria visão é a primeira. Deus tem um só povo, salvo pela mesma graça e pela fé no mesmo Messias. A Igreja do Novo Testamento é esse povo, agora cheio do Espírito e aberto a todas as nações. Isso não quer dizer que Deus se esqueceu do povo judeu. Paulo diz que os ramos cortados “se não continuarem na incredulidade, serão enxertados” de volta (Romanos 11:23).

Imagens Bíblicas da Igreja

Entender o que é a igreja pode ser desafiador. A Bíblia usa uma série de imagens para descrever a igreja, cada uma delas mostrando algum aspecto do que ela é. É provável que nenhuma delas dê, sozinha, uma imagem completa. Mas, juntas, elas ajudam muito o nosso entendimento.

O Povo de Deus

Em 2 Coríntios 6:16 e Romanos 9:25-26, a igreja é chamada de “povo de Deus”. Isso é muito semelhante à linguagem do Antigo Testamento sobre Israel, o povo escolhido de Deus. Pedro aplica à igreja as mesmas palavras que Deus tinha dito a Israel no Sinai:

“Mas vós sois a geração escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido; a fim de que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Antes, vós não éreis povo, mas agora sois povo de Deus. Antes, não havíeis recebido misericórdia, mas agora recebestes misericórdia.”

(1 Pedro 2:9-10, Bíblia Livre)

Isso nos diz que somos diferentes de todos os outros grupos deste mundo. A igreja tem algo que nenhum clube, associação ou partido tem: ela pertence a Deus.

O Templo de Deus

Em 1 Coríntios 3:16-17, 2 Coríntios 6:16 e Efésios 2:21-22, a igreja é descrita como o templo e a morada de Deus. Sob a antiga aliança, havia um templo de pedra em Jerusalém, que era o lugar da presença de Deus e o centro do culto. Sob a nova aliança, esse templo é a própria igreja. As igrejas locais hoje têm prédios onde se reúnem, mas esses prédios não substituem o templo do Antigo Testamento. O templo de Deus hoje é feito de gente, de todos os crentes. “Não sabeis vós, que sois o templo de Deus? E que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Coríntios 3:16).

O Sacerdócio Real

Na mesma passagem citada acima, Pedro chama a igreja de “sacerdócio real”. Em Israel, só os descendentes de Levi podiam servir como sacerdotes, e o povo se aproximava de Deus por meio deles. Na igreja, todo crente é sacerdote. Todos podem chegar diretamente a Deus por meio de Cristo, o nosso grande Sumo Sacerdote (Hebreus 4:14-16), e todos oferecem a Deus sacrifícios espirituais (1 Pedro 2:5). Lutero chamou isso de sacerdócio de todos os crentes. Essa verdade não acaba com os ministérios dentro da igreja, que veremos num capítulo próprio. Mas ela lembra que nenhum cristão precisa de outro ser humano como intermediário diante de Deus.

A Noiva de Cristo

Em Efésios 5:25-27, Apocalipse 19:7 e Apocalipse 21:9-10, a igreja é descrita como a noiva de Cristo. Isso é muito semelhante à relação entre Deus e Israel no Antigo Testamento. Ezequiel 16:8-14, Isaías 54:5 e Jeremias 2:2 são exemplos dessa linguagem. Essas passagens deixam claro que a imagem não descreve uma relação física. Ela mostra o cuidado e o amor que Deus derramou sobre Israel e que Cristo derrama sobre a Igreja. Cristo “amou a Igreja, e se entregou por ela” (Efésios 5:25). A noiva hoje está prometida e espera a volta do noivo para as bodas (Apocalipse 19:7).

O Rebanho de Cristo

Jesus se apresentou como o bom pastor e disse: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste curral; a estas também me convém trazer, e ouvirão minha voz, e haverá um rebanho, e um pastor” (João 10:16). As ovelhas deste curral eram os discípulos judeus. As outras eram os gentios, que viriam depois. Os dois grupos formam um só rebanho. A imagem fala de cuidado e de pertença: as ovelhas são dele, ele as conhece e elas ouvem a sua voz. Por isso Paulo lembra aos presbíteros de Éfeso que a igreja de Deus foi adquirida “por meio de seu próprio sangue” (Atos 20:28).

O Corpo de Cristo

Provavelmente, a imagem mais importante usada para descrever a igreja é a do corpo de Cristo. Nesta imagem, Cristo é a cabeça do corpo (Efésios 1:22-23), e a igreja é o restante do corpo, dirigido pela cabeça. A igreja ocupa, de certo modo, o lugar do corpo físico de Cristo aqui na terra e continua o trabalho que ele começou.

Com a igreja sendo o corpo, cada um de nós se torna um membro desse corpo (1 Coríntios 12:27). Todos os membros do meu corpo são importantes para que ele funcione bem. Da mesma forma, todos os membros do corpo de Cristo são importantes (Efésios 4:15-16). Cada um de nós tem um papel a cumprir (1 Coríntios 12:28-30). Mas esses papéis diferentes não devem nos dividir. Precisamos estar unidos como um só corpo (Efésios 4:4-6). Origem, cor da pele, língua, classe social ou sexo não devem nos separar, porque em Cristo “não há grego, nem judeu, nem circunciso, nem incircunciso, bárbaro, cita, escravo, nem livre; mas Cristo é tudo, e em todos” (Colossenses 3:11).

Como corpo de Cristo, somos o seu representante no mundo hoje. O que Cristo fez enquanto estava aqui, exceto a expiação, que só ele podia fazer, é o que devemos continuar fazendo. Especialmente, Cristo nos chamou para levar as boas novas ao mundo e fazer discípulos (Mateus 28:18-20; Atos 1:8). Como seu corpo, devemos seguir a direção da cabeça.

Cristo, a Única Cabeça

Se a igreja é o corpo, a pergunta seguinte é quem a dirige. A resposta da Bíblia é simples: Cristo. Deus “o constituiu por cabeça sobre todas as coisas para a Igreja, que é o seu corpo” (Efésios 1:22-23). A igreja de Roma ensina que o papa é o vigário de Cristo, o seu representante visível como cabeça da Igreja na terra. Os reformadores rejeitaram essa ideia. Armínio explicou bem a razão. Só Cristo tem em si mesmo tudo o que é necessário para a salvação, só ele está unido à igreja como a cabeça ao corpo, e só ele pode passar a ela a sua vida. Por isso ninguém pode ocupar o lugar dele, nem Pedro, nem qualquer bispo de Roma (Debates privados, LIII.3-5). Cristo usa pastores e líderes para cuidar da igreja, mas eles são servos da cabeça, e não substitutos dela.

A Igreja Visível e a Igreja Invisível

Nem todos os que estão numa igreja local são crentes de verdade. Jesus contou a parábola do trigo e do joio, que crescem juntos no mesmo campo até a colheita (Mateus 13:24-30). Agostinho, e depois dele Lutero e Calvino, usaram dois nomes para falar disso. A igreja visível inclui todas as pessoas na terra que se identificam como cristãs, em geral como membros de alguma igreja local. A igreja invisível é formada por todos os que são de fato crentes, unidos a Cristo pela fé. Ela é chamada de invisível porque só Deus vê o coração: “o Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo 2:19). Então, esses dois termos querem dizer a mesma coisa? Há várias respostas a essa pergunta.

Visão Católica Romana

A visão católica romana é que pertencer à instituição da igreja, sob o papa e os bispos, é o caminho normal da salvação. Uma pessoa entra na igreja pelo batismo e permanece nela em comunhão com Roma. Nessa visão, a ênfase cai quase toda sobre a igreja visível, e a verdadeira Igreja é identificada com uma organização na terra.

Visão Pietista

A visão pietista é praticamente o oposto da visão católica romana. Para o pietista, o que importa é o relacionamento pessoal de cada um com Cristo. Todos os que têm esse relacionamento formam a igreja. Em geral, não há muita ênfase na igreja local. Pessoas que pensam assim podem nem mesmo fazer parte de uma igreja visível.

Visão Protestante Clássica

Esta visão está entre as duas anteriores e dá valor tanto ao visível quanto ao invisível. A igreja visível é formada por todos os que fizeram uma confissão pública de fé. A igreja invisível é formada por todos os verdadeiros crentes. Nessa visão, pode haver alguns na igreja visível que não estão na invisível, como o joio no meio do trigo. E pode haver crentes verdadeiros que, por algum motivo, ainda não estão ligados a uma igreja local.

Armínio lembrou que se trata de uma só igreja, vista por dentro e por fora. A igreja é invisível porque “com o coração se crê para a justiça”, e é visível porque “com a boca se confessa para a salvação” (Romanos 10:10; Debates privados, LIV.7). Calvino ensinou o mesmo. Devemos crer na igreja que só Deus conhece e, ao mesmo tempo, honrar a igreja que vemos e manter comunhão com ela (Institutas, IV.1.7).

Avaliando as Visões

Em nenhuma parte das Escrituras somos informados de que precisamos entrar numa instituição para sermos salvos. A salvação é pela graça, por meio da fé em Cristo. Mas também somos instruídos a fazer parte de um corpo local, nos reunindo e encorajando uns aos outros:

“E sejamos atenciosos uns para com os outros, a fim de incentivar o amor e as boas obras; não abandonando a nossa reunião, como é o costume de alguns. Ao contrário, encorajemos uns aos outros, e tanto mais quanto vedes aquele dia se aproximando.”

(Hebreus 10:24-25, Bíblia Livre)

O cristianismo é uma fé vivida em comunidade. A vida cristã só alcança a sua plenitude em comunhão com outros crentes. Por isso, a visão protestante clássica me parece a mais fiel à Bíblia. Ela não confunde a Igreja com uma organização, como faz Roma, e também não despreza a igreja local, como fazem muitos pietistas.

As Notas da Igreja

Desde os primeiros séculos, os cristãos confessam a sua fé na Igreja com as palavras do Credo Niceno-Constantinopolitano, do ano 381: “Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica.” Essas quatro palavras são chamadas de notas ou atributos da Igreja. Elas descrevem o que a Igreja é diante de Deus. Os protestantes nunca abandonaram o Credo. Eles recitam as mesmas palavras, mas as entendem à luz da Bíblia.

Una

A Igreja é uma só. Paulo escreve:

“Há um só corpo, e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança do vosso chamado. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus, e Pai de todos, que é acima de todos, por meio de todos, e em todos.”

(Efésios 4:4-6, Bíblia Livre)

Essa unidade vem de Deus. Há um só corpo porque há uma só cabeça e um só Espírito que vive em todos os crentes. Armínio descreveu assim a unidade e a santidade da Igreja:

A Igreja Católica é “una” porque, sob um só Deus e Pai, […] está unida, como um só corpo a uma só cabeça, Cristo, o Senhor, por um só Espírito, e por uma só fé […]. Ela é “santa”, porque […] foi separada do mundo impuro, teve seus pecados lavados pelo sangue de Cristo […] e adornada de verdadeira santidade pela santificação do Espírito Santo.

(Jacó Armínio, Debates privados, LIV.3-4, em As obras de Armínio, vol. 2)

Mas, se a Igreja é uma só, por que há tantas denominações? A unidade da Igreja, em primeiro lugar, é espiritual. Um batista em Manaus, um luterano em Blumenau e um presbiteriano em Recife pertencem ao mesmo corpo, se estão unidos a Cristo pela fé. As divisões visíveis são, muitas vezes, fruto do pecado e da nossa limitação. Outras vezes, nasceram da defesa necessária da verdade do evangelho. Jesus orou “para que todos sejam um; como tu, Pai, em mim, e eu em ti, que também eles em nós sejam um; para que o mundo creia que tu tens me enviado” (João 17:21). Por isso a unidade, além de um fato a ser crido, é também uma tarefa. Devemos procurar a comunhão com todos os que confessam o mesmo Cristo, sem abrir mão das verdades centrais da fé.

Santa

A Igreja é santa. Isso não quer dizer que os seus membros já sejam perfeitos. Qualquer pessoa que frequenta uma igreja sabe que ela está cheia de pecadores. A igreja de Corinto tinha divisões, imoralidade e brigas na Ceia. Mesmo assim, Paulo a chama de “igreja de Deus” e os seus membros de “santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (1 Coríntios 1:2).

Ser santo é ser separado para Deus. A Igreja é santa porque pertence a ele, porque foi lavada pelo sangue de Cristo e porque o Espírito Santo habita nela. E ela é santa também porque está sendo santificada. Cristo se entregou por ela “a fim de apresentar a si mesmo uma igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem algo semelhante; mas sim, santa e irrepreensível” (Efésios 5:27). A santidade da Igreja é, ao mesmo tempo, um dom recebido e um alvo a ser buscado.

Católica

Muitos evangélicos estranham essa palavra, porque a associam à Igreja Católica Romana. Mas “católica” vem de uma expressão grega que quer dizer “de acordo com o todo”, ou seja, universal. Quando o Credo diz que a Igreja é católica, está dizendo que ela não pertence a um povo, a uma cultura ou a um lugar. Ela está espalhada por toda a terra e reúne gente de todas as épocas. João viu no céu “uma grande multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas” (Apocalipse 7:9).

Os reformadores insistiam que eram católicos nesse sentido, e que Roma tinha reduzido a palavra a uma só organização. John Wesley, o pregador inglês que deu início ao movimento metodista, explicou a palavra a partir de Efésios 4:

A igreja católica, ou universal, é formada por todas as pessoas do universo que Deus chamou para fora do mundo de tal modo que elas são “um só corpo”, unidas por “um só Espírito”, tendo “uma só fé, uma só esperança, um só batismo; um só Deus e Pai de todos”.

(John Wesley, sermão Sobre a Igreja, 14, tradução nossa)

Algumas igrejas protestantes, ao recitar o Credo, trocam “católica” por “universal”, para evitar confusão. O sentido é o mesmo.

Apostólica

A Igreja é apostólica porque está edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Cristo Jesus é a pedra principal da esquina” (Efésios 2:20). Os primeiros cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (Atos 2:42).

Aqui está uma das grandes diferenças entre Roma e os protestantes. Para a igreja de Roma, e também para a ortodoxa, a apostolicidade depende de uma sucessão de bispos que viria, sem interrupção, desde os apóstolos. Para os protestantes, uma igreja é apostólica quando crê e ensina o que os apóstolos creram e ensinaram. E esse ensino está guardado para nós no Novo Testamento. Uma igreja pode ter uma longa lista de bispos e, mesmo assim, ter abandonado o evangelho dos apóstolos. Paulo foi duro com isso: “ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos anunciamos, maldito seja” (Gálatas 1:8). O que faz uma igreja apostólica é a fidelidade à “fé que de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3).

As Marcas da Igreja Verdadeira

As quatro notas descrevem a Igreja como Deus a vê. Mas, na prática, como saber se um grupo que se chama de igreja é mesmo uma igreja de Cristo? Essa pergunta ficou urgente no tempo da Reforma. A igreja de Roma dizia que a verdadeira Igreja se reconhece pela antiguidade, pelo tamanho, pela duração e pela sucessão ininterrupta dos bispos. Armínio respondeu que essas marcas tinham sido inventadas porque combinavam com a situação de Roma (Debates privados, LIII.13). Os reformadores voltaram à Bíblia e apontaram outras marcas.

A Pregação Fiel da Palavra

A primeira marca é a pregação fiel da Palavra de Deus. A Confissão de Augsburgo, dos luteranos, de 1530, diz que a Igreja é a reunião dos santos, na qual o evangelho é ensinado com pureza e os sacramentos são administrados corretamente (artigo VII). Calvino disse quase o mesmo:

Onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada com pureza e ouvida, e os sacramentos administrados conforme a instituição de Cristo, ali, não há dúvida, existe uma igreja de Deus. Pois a sua promessa não pode falhar: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles”.

(João Calvino, Institutas, IV.1.9, tradução nossa)

A Igreja nasce da Palavra e vive dela. Paulo chama a igreja de “coluna e o alicerce da verdade” (1 Timóteo 3:15). Uma igreja que deixou de pregar o evangelho de Cristo pode ter prédio, programação e muita gente, mas perdeu aquilo que a faz ser igreja. Calvino notou um detalhe importante: a Palavra precisa ser pregada e também ouvida. Uma igreja verdadeira tem a Bíblia no púlpito, recebe o que ela diz e procura obedecer.

Os Sacramentos Bem Administrados

A segunda marca é a administração correta dos sacramentos que Cristo instituiu: o batismo e a Ceia do Senhor. Jesus mandou fazer discípulos, “batizando-os em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19), e mandou celebrar a Ceia “em memória de mim” (1 Coríntios 11:24). Os protestantes discordam entre si sobre o sentido desses atos, sobre quem deve ser batizado e sobre o modo como Cristo está presente na Ceia. Veremos essas diferenças no próximo capítulo. Mas todos concordam que uma igreja que abandona o batismo e a Ceia, ou que acrescenta a eles coisas que Cristo não mandou, se afasta da ordem que ele deixou.

A Disciplina

Muitas confissões reformadas, como a Confissão Belga, de 1561, acrescentam uma terceira marca: a disciplina. Jesus ensinou o caminho para tratar o irmão que peca e não se arrepende. Primeiro, uma conversa a sós. Depois, com testemunhas. Por fim, “comunica à igreja; e se também não der ouvidos à igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mateus 18:15-17). Paulo mandou a igreja de Corinto afastar um membro que vivia em pecado escandaloso: “Tirai pois dentre vós a este maligno” (1 Coríntios 5:13).

O alvo da disciplina é a honra de Cristo, a proteção da igreja e a volta de quem caiu, e nunca a humilhação de alguém. Wesley, comentando o caso de Ananias e Safira, viu nessa igreja de Jerusalém um retrato da igreja do Novo Testamento:

Temos aqui um exemplo autêntico de uma igreja do Novo Testamento: um grupo de pessoas chamadas pelo evangelho, enxertadas em Cristo pelo batismo, animadas pelo amor, unidas por todo tipo de comunhão e disciplinadas pela morte de Ananias e Safira.

(John Wesley, Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Atos 5:11, tradução nossa)

Armínio, por sua vez, falou das marcas a partir da vida dos membros. Para ele, uma igreja se dá a conhecer pela profissão da verdadeira fé e por uma vida conduzida pelo Espírito (Debates privados, LIII.8). As duas coisas andam juntas. A Palavra pregada produz fé, e a fé verdadeira aparece numa vida transformada.

Igrejas Mais Puras e Menos Puras

Não existe igreja perfeita deste lado da eternidade. Por isso, as marcas não servem para procurarmos uma igreja sem defeitos. Ao longo da história, alguns grupos, como os donatistas no tempo de Agostinho, se separavam de toda igreja em que viam algum pecado. Calvino advertiu contra esse caminho:

Como não há ninguém que não esteja envolto em alguma nuvem de ignorância, ou não admitimos igreja nenhuma, ou perdoamos os erros naquilo que se pode ignorar sem ferir o essencial da religião. […] Não devemos, por qualquer pequena diferença de opinião, abandonar a igreja que guarda a doutrina pura e salvadora.

(João Calvino, Institutas, IV.1.12, tradução nossa)

Calvino separava as doutrinas centrais das secundárias. Há verdades que todo cristão precisa confessar: que há um só Deus, que Cristo é Deus e Filho de Deus, que a nossa salvação depende da misericórdia de Deus. E há pontos em que crentes sinceros discordam sem deixar de ser irmãos. Armínio também falava de graus. Algumas igrejas são mais puras e outras menos, tanto na doutrina quanto no culto e na vida (Debates privados, LIV.8).

Mas há um limite. Uma igreja pode se afastar tanto do evangelho que deixa de ser igreja. Jesus advertiu a igreja de Éfeso: “senão eu virei a ti, e tirarei teu castiçal de seu lugar, se tu não te arrependeres” (Apocalipse 2:5). Quando uma igreja nega Cristo, troca o evangelho por outra mensagem ou mistura o culto a Deus com idolatria, o crente não está obrigado a permanecer nela. Armínio dizia que, nesse caso, a culpa pela divisão é da igreja que se separou de Cristo primeiro, e não de quem sai dela (Debates privados, LIII.10-11).

Por que Precisamos da Igreja

Cipriano de Cartago, no século 3, escreveu que ninguém pode ter Deus por Pai se não tem a Igreja por mãe. Mais tarde, a frase “fora da Igreja não há salvação” passou a ser usada para dizer que só se salva quem está ligado à igreja de Roma. Os protestantes rejeitaram esse uso. A salvação vem de Cristo, e não de uma instituição. Sobre esse assunto, veja também Fora da arca de Noé ninguém escapou. E fora da Igreja?.

Mesmo assim, Calvino gostava de chamar a Igreja de mãe. Com isso, ele queria dizer que é por meio dela que Deus nos faz nascer pela Palavra, nos alimenta e cuida de nós até o fim da vida (Institutas, IV.1.4). Quem salva é Cristo, e a igreja é o lugar onde ele nos alimenta. Um cristão que vive longe da igreja é como uma brasa tirada da fogueira: ela até continua quente por um tempo, mas logo se apaga.

Lucas descreve como era a vida da primeira igreja:

“E eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão, e nas orações. […] E perseverando a cada dia em concordância no Templo, e partindo o pão de casa em casa, comiam juntos com alegria e sinceridade de coração. Louvando a Deus, e tendo graça, sendo do agrado de todo o povo. E a cada dia o Senhor acrescentava à igreja aqueles que estavam sendo salvos.”

(Atos 2:42, 46-47, Bíblia Livre)

Nessa passagem estão o ensino, a comunhão, a Ceia, a oração, o louvor e o testemunho diante do mundo. É na igreja que somos ensinados, consolados, corrigidos e enviados. Cada um de nós precisa dos dons dos outros, e os outros precisam dos nossos. Deus deu à igreja apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres “para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:12). Ninguém cresce sozinho até “a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4:13).

Conclusão

A Igreja é o povo que Deus chamou para fora do mundo e reuniu em Cristo. Ela existe em cada reunião local de crentes e, ao mesmo tempo, abraça todos os que creem, em todos os lugares e em todas as épocas. A Bíblia a descreve como povo de Deus, templo do Espírito, sacerdócio real, noiva, rebanho e corpo de Cristo. Cristo é a sua única cabeça.

Com o Credo, confessamos que a Igreja é una, santa, católica e apostólica. Ela é una porque há um só Senhor e um só Espírito. É santa porque pertence a Deus e está sendo santificada. É católica porque está espalhada por toda a terra. E é apostólica porque permanece no ensino dos apóstolos. Na prática, reconhecemos uma igreja verdadeira pela pregação fiel da Palavra, pelos sacramentos administrados conforme Cristo mandou e pela disciplina que cuida da vida dos membros.

Nenhuma igreja local é perfeita. Mas Cristo ama a sua Igreja, se entregou por ela e prometeu que “as portas do Xeol não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). Se ele a ama assim, nós também devemos amá-la, servir nela e não abandonar a nossa reunião.

No próximo capítulo, veremos com mais detalhe duas das marcas da Igreja: o batismo e a Ceia do Senhor. Depois, trataremos dos ministérios, das formas de governo e da missão da Igreja no mundo.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Debates privados, LI, LIII e LIV. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. IV.1.4, 7, 9 e 12.
  • Confissão de Augsburgo (1530), artigo VII.
  • Confissão Belga (1561), artigo 29.
  • Credo Niceno-Constantinopolitano (381).
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • Wesley, John. Sobre a Igreja (sermão 74), 14. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Organização de Robert W. Burtner e Robert E. Chiles. Nashville: Abingdon, 1954.
  • Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, nota a Atos 5:11.

Teologia Sistemática, Parte 8: A Igreja. Capítulo anterior: Capítulo 37: A perseverança dos santos. Próximo capítulo: Capítulo 39: Os sacramentos: batismo e Ceia do Senhor.

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