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Capítulo 40: Ministério, governo e missão da Igreja

Teologia Sistemática, Parte 8: A Igreja

Diego Gonçalves27 min de leitura5.472 palavras

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Neste texto

Cristo deu à sua Igreja pessoas para cuidar dela, uma ordem para viver junta e uma tarefa no mundo. Quem são esses servos, como a igreja deve ser governada e o que ela foi enviada a fazer?

O Ministério na Igreja

Nos dois capítulos anteriores, vimos o que é a Igreja e os dois sinais que Cristo deu a ela, o batismo e a Ceia. Agora vamos olhar para a vida da igreja por dentro e por fora. Por dentro, ela precisa de líderes e de ordem. Por fora, ela tem uma missão a cumprir.

Todo Crente É um Servo

A palavra “ministério” vem do latim e quer dizer serviço. No Novo Testamento, a palavra grega mais usada para isso é diakonia, que também quer dizer serviço. Antes de falar dos pastores e dos diáconos, é importante lembrar que todo cristão é chamado para servir. Pedro escreve: “Cada um sirva aos outros segundo o dom que recebeu, como bons administradores da variada graça de Deus” (1 Pedro 4:10).

No capítulo sobre a Igreja, vimos que a Bíblia chama o povo de Deus de “sacerdócio real” (1 Pedro 2:9). Lutero chamou isso de sacerdócio de todos os crentes. Não há na igreja uma casta de pessoas mais santas que as outras, que se aproximam de Deus em nome do povo. Todos têm acesso a Deus por meio de Cristo, e todos têm alguma parte no trabalho do corpo. A professora da escola dominical e a irmã que visita os doentes também estão servindo a Cristo.

Mas o sacerdócio de todos os crentes não apaga os ministérios especiais. Paulo pergunta: “Por acaso são todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres?” (1 Coríntios 12:29). A resposta é não. Deus chama alguns para tarefas específicas dentro da igreja, para que todos os outros possam servir melhor.

Por que Deus Usa Pessoas

Cristo é a única cabeça da Igreja, e ele poderia governá-la sem ajuda de ninguém. Por que, então, ele usa pastores e mestres? Calvino deu algumas respostas simples. Deus mostra a sua bondade quando escolhe gente comum para levar a sua palavra. Ele também nos ensina a humildade, porque nos acostuma a obedecer à sua palavra mesmo quando ela vem da boca de alguém igual a nós. E ele une a igreja, porque, quando um ensina e todos aprendem a mesma doutrina, ninguém pode viver como se não precisasse dos outros (Institutas, IV.3.1). Por isso Calvino tratava o ministério com muita seriedade:

Quem tenta abolir ou desprezar esta ordem e este modo de governo tenta desorganizar a Igreja, ou melhor, arruiná-la por completo. Pois nem a luz e o calor do sol, nem a comida e a bebida, são tão necessários para sustentar a vida presente quanto o ofício apostólico e pastoral é para preservar a Igreja na terra.

(João Calvino, Institutas, IV.3.2, tradução nossa)

Armínio definiu o ministério da igreja como um serviço público que Deus confia a algumas pessoas. A tarefa delas é reunir a igreja, cuidar dela e levá-la a Cristo, e por meio de Cristo a Deus, para que os seus membros tenham vida e Deus seja glorificado (Debates privados, LIX.2). O ministro é um servo que presta contas a Deus.

Ministérios do Começo e Ministérios Permanentes

Paulo diz que Cristo, depois de subir ao céu, deu pessoas à sua igreja:

“E ele mesmo deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e outros como pastores e instrutores. Para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do serviço, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, à maturidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo.”

(Efésios 4:11-13, Bíblia Livre)

Repare no objetivo. Os líderes existem “para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do serviço”. Eles preparam os membros para que os membros façam o trabalho. Um pastor que faz tudo sozinho e deixa a igreja sentada assistindo não entendeu essa passagem.

A maior parte da tradição protestante faz uma distinção entre esses ministérios. Os apóstolos e os profetas tiveram um papel único no começo da Igreja. Eles são o “fundamento” sobre o qual ela foi edificada (Efésios 2:20), e um fundamento só se lança uma vez. Os apóstolos, no sentido estrito, eram testemunhas da ressurreição escolhidas pelo próprio Senhor, e não deixaram sucessores. Armínio explicou que os apóstolos e os evangelistas serviam a igreja no mundo todo, sem ficar presos a um lugar, e que esse tipo de ministério durou só um tempo. Já os pastores, mestres, bispos e presbíteros, colocados sobre igrejas locais, continuam “até o fim do mundo” (Debates privados, LIX.8). Tratamos da pergunta sobre os dons do Espírito hoje, inclusive a profecia, no Capítulo 31: Os dons e o fruto do Espírito.

Depois dos apóstolos, o Novo Testamento mostra dois ofícios permanentes nas igrejas locais. Paulo escreve aos crentes de Filipos “com os supervisores e servidores” (Filipenses 1:1). São os presbíteros, também chamados de bispos ou pastores, e os diáconos.

Os Presbíteros

Três Nomes para o Mesmo Ofício

O Novo Testamento usa três palavras para os líderes da igreja local. A primeira é presbyteros, que quer dizer ancião ou presbítero. A palavra vem das sinagogas, onde os homens mais velhos e respeitados guiavam a comunidade, e lembra a maturidade que o líder deve ter. A segunda é episkopos, que quer dizer supervisor e foi traduzida em português como “bispo”. Ela fala do trabalho de vigiar e cuidar. A terceira é poimen, pastor, aquele que cuida do rebanho.

Hoje, muitas igrejas usam essas palavras para cargos diferentes. Mas, no Novo Testamento, elas indicam as mesmas pessoas. Paulo chamou “os anciãos da igreja” de Éfeso (Atos 20:17) e disse a eles: “prestai atenção por vós mesmos, e por todo o rebanho sobre os quais o Espírito Santo tem vos posto como supervisores, para apascentardes a igreja de Deus” (Atos 20:28). Os mesmos homens são anciãos, supervisores e pastores do rebanho. Em Tito acontece o mesmo: Paulo manda constituir “presbíteros” em cada cidade e logo explica que “o supervisor deve ser irrepreensível” (Tito 1:5, 7). Calvino observou isso e disse que a Escritura usa bispos, presbíteros, pastores e ministros sem distinção (Institutas, IV.3.8).

Repare também que o Novo Testamento fala quase sempre de presbíteros no plural. Paulo e Barnabé escolheram “anciãos para cada igreja” (Atos 14:23), e Tiago manda o doente chamar “os anciãos da igreja” (Tiago 5:14). A liderança da igreja local era, em geral, um grupo, e não uma pessoa sozinha.

O Trabalho dos Presbíteros

O que fazem os presbíteros? Pedro, que era ancião como eles, resume:

“Pastoreai o rebanho de Deus que está entre vós, não por obrigação, mas sim voluntariamente, segundo a vontade de Deus; não por ganância, mas sim com sincera prontidão; nem como que dominando os que estão aos vossos cuidados, mas sim como exemplos ao rebanho. E quando o Pastor Principal aparecer, vós recebereis a indestrutível coroa da glória.”

(1 Pedro 5:2-4, Bíblia Livre)

O presbítero ensina a Palavra, cuida das pessoas, lidera a igreja e a protege do erro. Ele deve reter “firme a fiel palavra”, para “exortar na sã doutrina” e “mostrar os erros dos que falam contra ela” (Tito 1:9). Alguns se dedicam mais à pregação: Paulo pede honra dobrada para os presbíteros “que trabalham na palavra e na doutrina” (1 Timóteo 5:17). Armínio resumiu o trabalho do ministro em três coisas: ensinar a verdade, junto com a administração dos sacramentos; interceder por todos diante de Deus; e governar a igreja (Debates privados, LIX.4).

Repare também em quem é o dono do rebanho. Ele é “o rebanho de Deus”, e Jesus é “o Pastor Principal”. O pastor de uma igreja local cuida de ovelhas que não são dele. Um dia ele vai prestar contas ao dono.

As Qualificações

Paulo deixou duas listas do que se espera de um presbítero (1 Timóteo 3:1-7; Tito 1:5-9). O que chama a atenção é que quase tudo nelas fala de caráter, e não de talento. O presbítero deve ser “irrepreensível, marido de uma mulher, sóbrio, comedido, decente, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, mas sim moderado, não briguento, não cobiçoso por dinheiro” (1 Timóteo 3:2-3). Ele deve governar bem a própria casa, porque, “se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” (1 Timóteo 3:5). Não pode ser recém-convertido e precisa ter bom testemunho até entre os de fora.

Só uma qualidade da lista é uma habilidade: ser “apto para ensinar”. Todo o resto é vida. Uma igreja que escolhe os seus líderes pela boa oratória, pelo carisma ou pelo sucesso nos negócios, sem olhar para o caráter, está desobedecendo à Bíblia.

Os Diáconos

O segundo ofício é o dos diáconos. A palavra diakonos quer dizer servo ou servidor. Muitos veem a origem desse ofício em Atos 6:

“Naqueles dias, ao se multiplicar o número de discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, de que suas viúvas estavam sendo desprezadas no serviço diário de entrega de comida. E os doze, chamando à multidão dos discípulos, disseram: Não é bom que nós deixemos a palavra de Deus para servirmos às mesas. Portanto, irmãos, buscai sete homens dentre vós, de quem haja bom testemunho, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre esta importante tarefa. Nós, porém, perseveraremos na oração e no serviço da palavra.”

(Atos 6:1-4, Bíblia Livre)

A igreja tinha um problema prático: viúvas passando necessidade e uma queixa que podia dividir os irmãos. Os apóstolos não abandonaram o ensino para resolver tudo sozinhos. A igreja escolheu homens cheios do Espírito para cuidar disso. Calvino entendia que os diáconos receberam o cuidado dos pobres e a administração das ofertas destinadas a eles (Institutas, IV.3.9).

Estêvão e Filipe, dois dos sete, também pregavam com poder, o que mostra que os diáconos não são líderes de segunda categoria. As qualificações dos diáconos são quase as mesmas dos presbíteros: boa conduta, sinceridade, domínio próprio, honestidade com o dinheiro, firmeza na fé e uma casa bem governada. Eles também devem ser “primeiro testados, depois sirvam, se forem irrepreensíveis” (1 Timóteo 3:10). A diferença é que o diácono não precisa ser “apto para ensinar”. O trabalho dele está mais ligado ao serviço prático e ao cuidado das pessoas.

E as Mulheres?

Uma pergunta que divide os protestantes hoje é o lugar das mulheres no ministério. Todos concordam que as mulheres serviram na igreja do Novo Testamento. Paulo recomenda “a nossa irmã Febe, que é servidora da Igreja que está em Cencreia” (Romanos 16:1), e a palavra “servidora” é a mesma usada para diácono. Priscila e o seu marido Áquila explicaram o caminho de Deus a Apolo, um pregador famoso (Atos 18:26). Filipe tinha “quatro filhas, que profetizavam” (Atos 21:9). Paulo chama várias mulheres de suas cooperadoras.

A discussão está no ofício de presbítero e pastor. Alguns entendem que esse ofício é reservado aos homens. Eles se apoiam em 1 Timóteo 2:12, “não permito que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido”, e na exigência de que o bispo seja “marido de uma mulher”. É a posição de muitos batistas, presbiterianos e pentecostais. Outros entendem que essas instruções respondiam a problemas daquelas igrejas e que, em Cristo “não há macho nem fêmea” quanto aos dons e ao chamado (Gálatas 3:28). É a posição de muitos metodistas, de várias igrejas de santidade e de igrejas como a Quadrangular, que ordenam mulheres como pastoras.

Os dois lados querem obedecer à Bíblia, e o assunto não toca nas verdades centrais da fé. O que não podemos fazer é desprezar o serviço das mulheres, que sempre foram a maioria nos bancos e na oração, no ensino das crianças e no campo missionário. Cada igreja precisa decidir com consciência diante da Palavra e tratar com respeito os irmãos que pensam diferente.

O Chamado ao Ministério

Como alguém se torna pastor ou diácono? Os reformadores falavam de dois chamados. O primeiro é o chamado interior: a convicção, diante de Deus, de que se deve servir, não por ambição nem por dinheiro, mas por temor de Deus e amor à igreja. O segundo é o chamado exterior: a igreja reconhece esse chamado e separa a pessoa para a tarefa (Institutas, IV.3.11). Quem diz ter um chamado de Deus, mas não é reconhecido por nenhuma igreja, deve desconfiar de si mesmo.

Armínio descreveu esse reconhecimento em três passos. Primeiro, a igreja examina se a pessoa conhece a verdade, tem uma vida íntegra e sabe ensinar. Depois, ela a escolhe. Por fim, a confirma publicamente, com oração, jejum e imposição de mãos (Debates privados, LIX.11-12). É isso que vemos em Antioquia. Enquanto a igreja servia ao Senhor e jejuava, “o Espírito Santo disse: Separai-me a Barnabé e a Saulo, para a obra para a qual eu os tenho chamado. Então jejuando, e orando, e pondo as mãos sobre eles, os despediram” (Atos 13:2-3). O próprio Deus chamou, e a igreja reconheceu e enviou. Paulo lembra a Timóteo o dom que recebeu “com a imposição das mãos dos presbíteros” (1 Timóteo 4:14).

A imposição de mãos, que hoje chamamos de ordenação ou consagração, não passa ao ministro um poder mágico. Ela é um ato público em que a igreja ora pela pessoa, reconhece o seu chamado e a entrega à graça de Deus.

Líderes que Servem

A Bíblia pede que os membros honrem os seus líderes. “Obedecei aos vossos líderes, e sede submissos a eles, pois eles vigiam pelas vossas almas, como os que prestarão contas delas” (Hebreus 13:17). Paulo pede que a igreja reconheça e estime “muito com amor” os que trabalham no meio dela (1 Tessalonicenses 5:12-13), e que o pastor seja sustentado: “aos que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho” (1 Coríntios 9:14).

Mas a mesma Bíblia limita a autoridade dos líderes. Quando os discípulos discutiam quem seria o maior, Jesus disse:

“Vós bem sabeis que os chefes dos gentios os dominam, e os grandes usam de autoridade sobre eles. Mas não é assim entre vós. Ao contrário, quem quiser se tornar grande entre vós será o vosso assistente; e quem quiser ser o primeiro entre vós será o vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas sim para servir, e para dar a sua vida em resgate por muitos.”

(Mateus 20:25-28, Bíblia Livre)

No Brasil, muitos crentes já sofreram com líderes que tratam a igreja como propriedade, exigem obediência cega ou enriquecem à custa do rebanho. Pedro proibiu exatamente isso: nada de ganância e nada de dominar os que estão sob o seu cuidado (1 Pedro 5:2-3). A autoridade do pastor vem da Palavra que ele prega. Quando ele ensina o que a Bíblia diz, a igreja deve ouvi-lo. Quando ele manda o que a Bíblia não manda, a consciência do crente está ligada a Deus, e não a ele.

O Governo da Igreja

Cristo é a única cabeça da Igreja. Mas a igreja é também um grupo de pessoas que precisam tomar decisões. Quem escolhe o pastor? Quem recebe novos membros? Quem cuida do dinheiro? Quem decide quando há um conflito? Paulo deu uma regra geral: “Fazei tudo decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40). Armínio explicou para que serve o governo da igreja:

O governo da igreja é usado para esse fim, para que, em toda ela, todas as coisas possam ser feitas decentemente, em ordem, visando a edificação, e para que cada um dos seus membros possa ser mantido em seu dever, a fim de que possam ser incentivados os indolentes, confirmados os fracos, trazidos de volta os que se desviaram do caminho, punidos os contumazes, e recebidos os penitentes.

(Jacó Armínio, Debates privados, LIX.7, em As obras de Armínio, vol. 2)

O governo da igreja, então, existe para cuidar das pessoas e para que tudo sirva à edificação. Ao longo da história, as igrejas organizaram esse governo de algumas maneiras diferentes.

Episcopal

A forma mais hierárquica é a episcopal, de episkopos, bispo. Nela, a autoridade está com os bispos, que cuidam não de uma igreja só, mas de um grupo de igrejas numa região. São eles que ordenam os pastores e, em muitos casos, os enviam às igrejas locais. A Igreja Católica Romana é o exemplo mais conhecido, com o papa no topo. As igrejas ortodoxas e a Igreja Anglicana também têm bispos. Entre os protestantes, as igrejas metodistas e algumas igrejas luteranas seguem essa forma.

Os defensores do governo episcopal lembram que Tiago parece ter liderado a igreja de Jerusalém (Atos 15:13-21; Gálatas 2:9), e que Timóteo e Tito tinham autoridade sobre várias igrejas, com a tarefa de constituir presbíteros. Eles lembram também que, já no começo do século 2, Inácio de Antioquia escrevia às igrejas falando de um bispo em cada cidade, com presbíteros e diáconos.

Aqui é preciso separar duas coisas. A igreja de Roma ensina que os bispos são sucessores dos apóstolos e que a autoridade deles vem dessa sucessão. Os protestantes rejeitam essa ideia, como vimos no capítulo sobre a Igreja: o que faz uma igreja apostólica é a fidelidade ao ensino dos apóstolos (veja também O papado existia no início do cristianismo?). As igrejas protestantes que têm bispos os veem de outro modo, como pastores de pastores, escolhidos para supervisionar e cuidar das igrejas. John Wesley, que foi ministro da Igreja da Inglaterra a vida inteira, pensava assim:

Quanto ao meu próprio juízo, ainda creio que a forma episcopal de governo da igreja é bíblica e apostólica, quer dizer, combina bem com a prática e os escritos dos apóstolos. Mas não creio que ela seja prescrita na Escritura. […] Nem Cristo nem os seus apóstolos prescreveram alguma forma específica de governo da igreja.

(John Wesley, carta a James Clark, 1756, tradução nossa)

Presbiteriana

A segunda forma é a presbiteriana, de presbyteros, presbítero. Nela, a igreja é governada por presbíteros eleitos pelos membros. É um pouco como uma democracia representativa. A igreja local é dirigida por um conselho, formado pelo pastor e pelos presbíteros. No Brasil, a Igreja Presbiteriana chama os pastores de presbíteros docentes, porque ensinam, e os outros de presbíteros regentes, porque ajudam a governar. Representantes dos conselhos formam o presbitério, que cuida das igrejas de uma região. Acima dele há o sínodo e, no topo, o Supremo Concílio. Cada concílio tem autoridade sobre o de baixo, e as decisões importantes são tomadas por grupos, nunca por uma pessoa só.

Calvino defendeu essa forma em Genebra, e ela é a forma das igrejas presbiterianas e de muitas igrejas reformadas. Os seus defensores lembram que as igrejas do Novo Testamento tinham vários presbíteros, e que, quando surgiu uma dúvida grave sobre a circuncisão dos gentios, “os apóstolos e anciãos se reuniram para dar atenção a este assunto” (Atos 15:6). A decisão do concílio de Jerusalém foi enviada às outras igrejas e aceita por elas (Atos 16:4). Para eles, as igrejas locais prestam contas umas às outras.

Congregacional

A terceira forma é a congregacional. Nela, a autoridade final está com a própria igreja local, reunida em assembleia. Cada membro tem voz e voto. A igreja local é autônoma: nenhuma organização de fora manda nela. As igrejas podem se unir em convenções e associações para cooperar em missões, escolas e obras sociais, mas essas organizações aconselham e ajudam, sem dar ordens. A igreja chama o seu pastor, e ele presta contas a ela. É a forma da maioria das igrejas batistas e de muitas igrejas independentes.

Os defensores dessa forma lembram que, em Atos 6, foi a multidão dos discípulos que escolheu os sete. Em Atos 14:23, Paulo e Barnabé, “tendo escolhido por votação anciãos para cada igreja”, seguiram viagem, e a palavra grega usada ali descreve o voto com a mão levantada. Calvino reconheceu isso e disse que Paulo e Barnabé presidiram a escolha, mas foi o povo que votou (Institutas, IV.3.15). No concílio de Jerusalém, a decisão final “pareceu bem aos apóstolos, e aos anciãos, com toda a igreja” (Atos 15:22). Jesus mandou levar o caso do irmão que não se arrepende à igreja (Mateus 18:17), e Paulo mandou a igreja inteira de Corinto disciplinar um membro (1 Coríntios 5:4-5). Por trás disso está o sacerdócio de todos os crentes. Se todos têm o Espírito, todos podem participar das decisões.

Sem Governo Formal

Alguns grupos, como os quakers e parte dos Irmãos, preferem quase não ter estrutura. Eles não têm pastores ordenados nem cargos fixos. Nas reuniões, esperam que o Espírito Santo guie todos ao mesmo pensamento, e uma decisão só é tomada quando há acordo. Mas o Novo Testamento mostra igrejas com líderes reconhecidos, e grupos sem liderança costumam acabar dirigidos pelos que falam mais alto.

As Igrejas no Brasil

Na prática, muitas igrejas misturam essas formas. Uma igreja batista tem assembleia, mas também tem pastor e diáconos com funções definidas. Muitas igrejas pentecostais brasileiras, como boa parte das Assembleias de Deus, têm um pastor-presidente que dirige a igreja-sede e as suas congregações nos bairros, e se reúnem em convenções regionais e nacionais. Para conhecer melhor as famílias de igrejas e o jeito de cada uma, veja Os diferentes tipos de igrejas.

Avaliando as Formas

Qual dessas formas é a correta? Wesley chegou a uma conclusão que muitos estudiosos de todas as tradições compartilham: o Novo Testamento não prescreve, em detalhes, uma única forma de governo. Ele mostra elementos de mais de uma. Há presbíteros no plural, como no modelo presbiteriano. Há participação de toda a igreja nas decisões, como no modelo congregacional. E há pessoas como Timóteo e Tito, que cuidavam de várias igrejas, o que lembra o modelo episcopal. Mas o Novo Testamento não mostra nenhuma organização acima da igreja local com poder para mandar nela, e nada fala de uma sucessão de bispos que garanta a verdade.

Por isso, em vez de brigar pela forma, é melhor perguntar se um governo segue alguns princípios claros da Bíblia. Minha própria visão é que um governo é bom quando:

  • reconhece Cristo como a única cabeça e a Bíblia como a regra que está acima de qualquer líder ou concílio;
  • tem líderes qualificados pelo caráter, e não só pelo talento;
  • divide a liderança entre várias pessoas, em vez de concentrá-la numa só;
  • dá à igreja uma parte real nas decisões, como na escolha dos líderes;
  • faz os líderes prestarem contas, à igreja e a outros pastores;
  • mantém a igreja local ligada às outras igrejas, em cooperação e comunhão.

Uma igreja episcopal, presbiteriana ou congregacional pode ser fiel a esses princípios, e qualquer uma delas pode traí-los. No Brasil de hoje, o perigo maior está menos na forma escolhida e mais no líder que não presta contas a ninguém.

A Missão da Igreja

Se Deus já salvou os crentes, por que não os leva logo para o céu? Por que a igreja continua neste mundo? Porque ela tem uma missão. Na noite da ressurreição, Jesus disse aos discípulos: “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio” (João 20:21). A Igreja é um povo enviado. A Bíblia mostra pelo menos quatro coisas que ela deve fazer enquanto está aqui: adorar a Deus, edificar os crentes, evangelizar o mundo e servir ao próximo.

Adoração

A primeira tarefa da igreja é adorar a Deus. Uma das palavras gregas para adoração no Novo Testamento é proskyneo, que quer dizer curvar-se diante de alguém. Adorar é reconhecer quem Deus é e entregar-se a ele. Jesus disse que o Pai procura adoradores que o adorem “em espírito e em verdade” (João 4:23-24). Paulo pede que apresentemos o nosso corpo “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12:1). A adoração inclui o culto de domingo, com louvor, oração, leitura da Bíblia, pregação e Ceia, mas vai além dele e abraça a vida inteira.

A adoração vem primeiro porque a glória de Deus é o fim de todas as coisas. A igreja existe, antes de tudo, para Deus, e só depois para si mesma e para o mundo. Em Antioquia, foi enquanto os líderes serviam ao Senhor e jejuavam que o Espírito mandou enviar Barnabé e Saulo (Atos 13:2). A missão nasceu do culto.

Edificação

A segunda tarefa é edificar os crentes, isto é, ajudá-los a crescer até se parecerem com Cristo. Como vimos, os pastores e mestres foram dados “para a edificação do corpo de Cristo”, até que todos cheguem “à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4:12-13). A Grande Comissão também manda fazer discípulos, e não só convertidos: “ensinando-lhes a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:20).

A primeira igreja fazia isso de modo simples: “eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão, e nas orações” (Atos 2:42). O ensino, a comunhão, a Ceia e a oração edificavam o corpo. E cada geração deve passar a fé adiante. Paulo diz a Timóteo: “o que de mim ouviste entre muitas testemunhas, confia-o a pessoas fiéis, que sejam competentes para ensinar também a outros” (2 Timóteo 2:2). Uma igreja que só evangeliza, mas não ensina, terá muitos convertidos e poucos discípulos.

Evangelismo

A terceira tarefa é levar o evangelho a quem ainda não conhece a Cristo. Jesus deu essa ordem antes de subir ao céu:

“Jesus se aproximou deles, e lhes falou: Todo o poder me é dado no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos a todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-lhes a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado. E eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.”

(Mateus 28:18-20, Bíblia Livre)

Essa ordem foi dada à Igreja inteira, e não só aos pastores e missionários. Quando a perseguição espalhou os crentes de Jerusalém, os apóstolos ficaram na cidade, e os que foram dispersos “passavam anunciando a palavra” (Atos 8:1, 4). Foram crentes comuns, sem nome na história, que levaram o evangelho a Antioquia (Atos 11:19-21). Também não fazemos isso com a nossa própria força. Jesus prometeu: “vós recebereis poder do Espírito Santo, que virá sobre vós; e vós sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia, e Samaria, e até ao último lugar da terra” (Atos 1:8).

A igreja local também envia missionários. Paulo pergunta: “como ouvirão, sem haver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” (Romanos 10:14-15). Alguns vão, e os outros oram, contribuem e sustentam. No século 18, os morávios já enviavam missionários para vários continentes. Wesley, impedido de pregar nas igrejas de outros pastores, defendeu a sua pregação itinerante assim:

Considero o mundo inteiro a minha paróquia; quero dizer que, em qualquer parte dele em que eu esteja, julgo justo, certo e meu dever indeclinável anunciar a todos os que estiverem dispostos a ouvir as boas novas da salvação.

(John Wesley, carta a James Hervey, 1739, tradução nossa)

Em 1792, o batista inglês William Carey escreveu um pequeno livro defendendo que a Grande Comissão ainda obrigava os cristãos, e no ano seguinte partiu para a Índia. Começava ali o grande movimento missionário moderno. O evangelho chegou ao Brasil por esse caminho, com missionários como o escocês Robert Kalley, que chegou ao Rio de Janeiro em 1855, e o americano Ashbel Simonton, que chegou em 1859. Hoje o Brasil, que recebeu missionários, também envia missionários para outros povos. A tarefa não terminou. Jesus disse que “este Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mateus 24:14). Para ideias práticas sobre o assunto, veja Grande Comissão: como fazer discípulos no dia a dia.

Serviço ao Próximo

A quarta tarefa é servir às pessoas ao nosso redor. Jesus pregou o arrependimento, mas também curou os doentes, expulsou demônios e alimentou os famintos. Ele disse que fora ungido “para evangelizar os pobres” e “pôr em liberdade os oprimidos” (Lucas 4:18). E disse aos discípulos: “Vós sois o sal da terra […]. Vós sois a luz do mundo” e “assim brilhe vossa luz diante das pessoas, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem ao vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

As cartas do Novo Testamento seguem o mesmo caminho. “Enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos; mas principalmente aos familiares da fé” (Gálatas 6:10). Tiago diz que “a religião pura e não contaminada para com Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e guardar-se sem a corrupção do mundo” (Tiago 1:27). Quando os apóstolos de Jerusalém reconheceram o ministério de Paulo, pediram só uma coisa: que ele se lembrasse dos pobres, e ele procurou fazer isso “com empenho” (Gálatas 2:10).

Na parábola das ovelhas e dos bodes, Jesus separa as pessoas pelo modo como trataram o faminto, o estrangeiro, o doente e o preso (Mateus 25:31-46). Não somos salvos pelas boas obras, mas a fé verdadeira aparece no cuidado com os outros. O que fizemos a um desses pequeninos, fizemos ao próprio Cristo.

Evangelismo e Ação Social

Como o evangelismo e o serviço ao próximo se relacionam? Os evangélicos já discutiram muito isso.

Alguns dão ao evangelismo uma prioridade quase exclusiva. Para eles, a missão da igreja é pregar o evangelho e fazer discípulos, e o cuidado social é fruto natural da vida cristã, mas não faz parte da missão em si. Eles temem, com razão, que a igreja troque a pregação da cruz por um programa social ou político, como aconteceu em muitas igrejas no século 20.

Outros falam de missão integral. A expressão nasceu na América Latina, com teólogos como o equatoriano René Padilla e o peruano Samuel Escobar. Ela ganhou força no Congresso de Lausanne, de 1974, cujo documento final afirmou que o evangelismo e a responsabilidade social fazem parte do dever cristão. Para eles, a igreja anuncia Cristo com palavras e também com ações, como o próprio Jesus fazia.

As duas visões têm algo a nos ensinar. Nada substitui a pregação do evangelho, porque só ele salva, e uma igreja que alimenta o corpo, mas cala sobre a cruz, deixou de lado o que só ela pode dar ao mundo. Mas também não dá para separar as duas coisas, como se pudéssemos amar a alma de alguém e ignorar a sua fome. A pregação dá sentido às boas obras, e as boas obras dão credibilidade à pregação. Sobre isso, veja também Missão da igreja: sal da terra, não clube de fim de semana.

A Igreja e o Reino

A missão da Igreja está ligada ao Reino de Deus. Jesus começou o seu ministério anunciando que o Reino estava próximo, e a Igreja continua esse anúncio. A Igreja não é o Reino inteiro, mas é o povo que já vive sob o governo de Cristo e que mostra ao mundo, ainda de modo imperfeito, como é viver sob esse governo. Ela anuncia o Rei e serve como sinal do que ele vai fazer quando vier. A Igreja trabalha com esperança, sabendo que o Reino virá em plenitude pela mão de Deus, e não pela nossa. Sobre essa relação, veja Reino de Deus e Igreja: como os dois se relacionam.

Conclusão

Cristo deu à sua Igreja tudo de que ela precisa para viver e cumprir a sua tarefa. Todo crente é chamado a servir com o dom que recebeu. Além disso, Cristo deu à Igreja os apóstolos e os profetas, que lançaram o fundamento, e continua dando pastores, mestres, presbíteros e diáconos, para que os santos sejam preparados para o serviço. Esses líderes são escolhidos pelo caráter, reconhecidos pela igreja e chamados a servir como o próprio Jesus serviu.

As igrejas se organizam de formas diferentes: episcopal, presbiteriana, congregacional ou mista. O Novo Testamento não fixa uma forma única, mas deixa princípios claros: Cristo é a cabeça, a Bíblia é a regra, a liderança é compartilhada, a igreja participa e todos prestam contas.

E a Igreja tem uma missão. Ela existe para adorar a Deus, edificar os crentes, levar o evangelho a todas as nações e servir ao próximo. Ela fará isso até que o seu Senhor volte. “E eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20).

Com este capítulo, terminamos a parte sobre a Igreja. Na próxima e última parte do livro, olharemos para o futuro: a morte, a volta de Cristo, a ressurreição, o juízo e a nova criação.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Debates privados, LIX. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. IV.3.1, 2, 8, 9, 11 e 15.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • Pacto de Lausanne (1974), parágrafo 5.
  • Wesley, John. Carta a James Hervey (1739) e carta a James Clark (1756). Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Organização de Robert W. Burtner e Robert E. Chiles. Nashville: Abingdon, 1954.

Teologia Sistemática, Parte 8: A Igreja. Capítulo anterior: Capítulo 39: Os sacramentos: batismo e Ceia do Senhor. Próximo capítulo: Capítulo 41: A doutrina das últimas coisas.

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