AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

TeologiaTeologia Sistemática37 de 45

Capítulo 37: A perseverança dos santos

Teologia Sistemática, Parte 7: A salvação

Diego Gonçalves21 min de leitura4.115 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Quem começou a vida cristã vai chegar até o fim? A Bíblia promete que Deus guarda os que são dele, e a mesma Bíblia manda os crentes permanecerem firmes e os avisa do perigo de cair. Como essas duas coisas se encaixam?

O que É a Perseverança

No capítulo anterior, vimos que a santificação é a obra de Deus que vai tornando o crente parecido com Cristo, até o dia em que o veremos. A pergunta deste capítulo vem logo em seguida: todos os que começaram essa vida vão terminá-la? Ou alguém que creu de verdade pode abandonar a fé e se perder?

Perseverar é continuar. Na linguagem da teologia, a perseverança é a continuação do crente na fé e na graça até o fim da vida. A doutrina recebe nomes diferentes. Os reformados falam em “perseverança dos santos”. Muitos evangélicos preferem “segurança eterna” ou a frase popular “uma vez salvo, salvo para sempre”. Outros falam em “preservação”, para deixar claro que é Deus quem guarda.

Três Perguntas Diferentes

Muita confusão some quando separamos três perguntas que costumam vir misturadas.

  • Deus guarda os que creem? Todos os protestantes respondem que sim. Ninguém persevera pela própria força.
  • O crente pode ter certeza da salvação hoje? Aqui também a resposta comum é sim, e dela tratamos no Capítulo 35: Regeneração, adoção e certeza da salvação.
  • Uma pessoa que creu de verdade pode abandonar a fé e se perder? Aqui os protestantes se dividem. Esse é um dos pontos disputados entre eles, o da perseverança.

Pontos de Concordância

Antes de olhar a divergência, vale ver quanto os protestantes têm em comum.

  • A salvação é obra da graça de Deus, do começo ao fim. Quem persevera persevera porque Deus o sustenta.
  • Deus é fiel e poderoso para guardar o seu povo, e nenhum inimigo de fora pode arrancar o crente das mãos de Cristo.
  • A Bíblia manda o crente permanecer em Cristo e contém advertências sérias contra a queda. Essas advertências devem ser levadas a sério.
  • Há pessoas que professam a fé, participam da igreja por um tempo e depois abandonam Cristo.
  • Quem abandona Cristo e morre na incredulidade não será salvo.
  • O crente que peca não perde tudo a cada tropeço. Ele tem um advogado junto ao Pai e pode voltar pela confissão (1 João 1:9; 2:1).
  • Ninguém deve usar a segurança como desculpa para pecar.

Pontos de Desacordo

  • Todos os que creram de verdade certamente vão perseverar até o fim?
  • Quem abandona a fé tinha fé verdadeira, ou só parecia ter?
  • Para que servem as advertências da Bíblia, se o crente verdadeiro não pode cair?
  • A segurança do crente se apoia num decreto eterno de Deus ou na união com Cristo pela fé, que pode ser rompida pela incredulidade?

O que a Bíblia Diz

Deus Guarda os Seus

A Bíblia está cheia de promessas sobre a fidelidade de Deus para com os que creem. A mais conhecida está em João 10, onde Jesus fala das suas ovelhas:

Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem. E eu lhes dou a vida eterna, e para sempre não perecerão, e ninguém as arrancará de minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior que todos; e ninguém pode arrancá-las da mão de meu Pai.

(João 10:27-29, Bíblia Livre)

As três pessoas da Trindade participam dessa guarda. O Pai começou a obra e vai terminá-la: “aquele que começou a boa obra em vós irá completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Ele é “poderoso para vos guardar de tropeçar, e vos apresentar irrepreensíveis com alegria diante de sua glória” (Judas 24). O Filho intercede pelos seus: ele “pode salvar de maneira completa os que se aproximam de Deus por meio dele, visto que ele vive para sempre para interceder por eles” (Hebreus 7:25). Quando Satanás pediu para peneirar os discípulos, Jesus disse a Pedro: “eu roguei por ti, que tua fé não se acabe” (Lucas 22:32). E o Espírito é o selo de Deus no crente, “a garantia da nossa herança” (Efésios 1:13-14).

Paulo termina Romanos 8 com uma lista de tudo o que poderia ameaçar o crente, e conclui que “nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem o presente, nem o futuro, nem poderes, nem altura, nem profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8:38-39).

Pedro junta duas coisas numa frase só. Os crentes estão “pela fé […] guardados no poder de Deus para a salvação, pronta para se revelar no último tempo” (1 Pedro 1:5). Quem guarda é o poder de Deus. E esse poder guarda por meio da fé.

O Chamado a Permanecer

Ao lado das promessas, a Bíblia chama os crentes a continuar. Jesus disse: “o que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mateus 24:13). Na imagem da videira, ele falou do perigo de não permanecer:

Estai em mim, e eu em vós; como o ramo de si mesmo não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim vós também não, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, é lançado fora, como o ramo, e seca-se; e os colhem, e os lançam no fogo, e ardem.

(João 15:4-6, Bíblia Livre)

Muitas vezes as promessas vêm com um “se”. Paulo diz aos colossenses que Cristo os reconciliou para apresentá-los santos e irrepreensíveis, “se, de fato, permaneceis fundados e firmes na fé, e não vos afastais da esperança do evangelho” (Colossenses 1:23). Aos coríntios, ele lembra que são salvos pelo evangelho “se retiverdes a palavra” que ele anunciou (1 Coríntios 15:2). Aos cristãos de Roma, que não eram judeus, ele fala dos ramos de Israel que foram cortados da oliveira:

É verdade. Por causa da incredulidade eles foram quebrados, e tu, por causa da fé estás firme. Não tenhas orgulho, mas sim temor, pois, se Deus não poupou os ramos naturais, ele poderá não poupar a ti também. Olha, pois, a bondade e severidade de Deus; a severidade sobre os que caíram, mas a bondade de Deus sobre ti, se continuares na bondade; de outra maneira, também tu serás cortado fora.

(Romanos 11:20-22, Bíblia Livre)

A Carta aos Hebreus diz o mesmo: “nós temos nos tornado participantes de Cristo, se, de fato, mantivermos firme a confiança do princípio até o fim” (Hebreus 3:14).

As Advertências

A Bíblia também traz avisos muito fortes, quase sempre dirigidos a quem está dentro da igreja. O autor de Hebreus escreve a irmãos: “Cuidado, irmãos, para que nunca haja em algum de vós coração mau e infiel, que se afaste do Deus vivo” (Hebreus 3:12). Mais adiante vem o texto mais discutido:

Pois é impossível que os que uma vez foram iluminados, e experimentaram o dom celestial, e foram feitos participantes do Espírito Santo, e experimentaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo futuro; e então caíram, outra vez renová-los para o arrependimento, porque estão novamente crucificando o Filho de Deus para si mesmos, e o expondo à vergonha pública.

(Hebreus 6:4-6, Bíblia Livre)

Em Hebreus 10:26-29, o aviso é sobre quem, “depois de havermos recebido o conhecimento da verdade”, persiste em pecar por vontade própria e chega a desprezar “o sangue do Testamento no qual ele foi santificado”. Pedro fala de pessoas que escaparam das imundícies do mundo “por causa do conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo” e depois se envolveram nelas de novo, e diz que “o fim será pior que o começo” (2 Pedro 2:20). Paulo escreve que os gálatas que buscavam ser justos pela Lei estavam desligados de Cristo: “da graça caístes” (Gálatas 5:4). E ele fala de pessoas reais: Himeneu e Alexandre rejeitaram a fé e a boa consciência “e naufragaram na fé” (1 Timóteo 1:19-20).

O Antigo Testamento já tinha o mesmo tipo de aviso: “se o justo se desviar de sua justiça, e passar a praticar maldade […] por causa deles morrerá” (Ezequiel 18:24).

Os que Saíram

Por fim, a Bíblia mostra que nem toda profissão de fé é verdadeira. Na parábola do semeador, os que estão sobre a pedra “recebem a palavra com alegria, mas esses não têm raiz, pois creem por algum tempo, mas no tempo da tentação se desviam” (Lucas 8:13). Jesus avisou que muitos dirão “Senhor, Senhor” no último dia, e ouvirão: “Nunca vos conheci” (Mateus 7:21-23). E João escreveu sobre um grupo que deixou a igreja:

Eles saíram de nós, mas não eram dos nossos, pois se fossem dos nossos, continuariam conosco; mas o que aconteceu foi para tornar claro que todos eles não eram dos nossos.

(1 João 2:19, Bíblia Livre)

Todos esses textos estão na Bíblia, e todos os protestantes os aceitam. A divergência está em como encaixá-los.

As Posições Protestantes

A Visão Reformada

A tradição reformada ensina que todos os que foram verdadeiramente regenerados vão perseverar até o fim. O Sínodo de Dort (1619) dedicou a essa doutrina o último dos seus cinco capítulos. A Confissão de Westminster (1647) ensina que aqueles que Deus aceitou em Cristo, chamou de modo eficaz e santificou pelo seu Espírito não podem cair do estado de graça, nem totalmente nem para sempre, mas certamente vão perseverar nele até o fim e ser salvos. Isso não quer dizer que o crente nunca caia em pecado grave, como aconteceu com Davi e com Pedro. Mas Deus sempre traz os seus de volta antes do fim.

Para os reformados, essa certeza vem da eleição. Deus escolheu os seus desde a eternidade, Cristo morreu por eles, e o Espírito os chamou de modo que eles não resistiram. Se Deus começou tudo isso, ele vai terminar. Calvino apoiava essa segurança na oração de Cristo pelos seus:

Não se pode duvidar de que, quando Cristo intercede por todos os eleitos, pede por eles o mesmo que pediu por Pedro: que a fé deles não desfaleça. Daí concluímos que eles estão fora de todo perigo de cair, porque as súplicas do Filho de Deus pela perseverança deles na piedade não foram rejeitadas.

(João Calvino, Institutas, III.24.6, tradução nossa)

E as advertências? Os reformados dão duas respostas, que muitas vezes andam juntas. A primeira é que as advertências são um dos meios que Deus usa para guardar os seus. O crente verdadeiro ouve o aviso, teme e continua firme. A segunda é que as pessoas que caem nunca tiveram uma fé verdadeira. Calvino ensinava que pessoas não regeneradas podem ser tocadas pelo evangelho, “provar” os dons do céu, como diz Hebreus 6, e ter uma fé passageira, como os ouvintes da parábola de Lucas 8. Por fora, elas parecem crentes. Mas a fé delas nunca teve raiz (Institutas, III.2.11). Quando saem, mostram que não eram “dos nossos”, como diz 1 João 2:19.

Os reformados também lembram que o nome da doutrina pode enganar. Paul Enns escreve:

Essa doutrina às vezes é chamada de “perseverança dos santos”, título pouco adequado, porque põe a ênfase na capacidade do homem de perseverar, e não na capacidade de Deus de guardar o crente. Um título melhor seria “perseverança do Senhor”.

(Paul Enns, The Moody Handbook of Theology, tradução nossa)

Uma Vez Salvo, Salvo para Sempre

Muitos batistas e outros evangélicos ensinam a segurança eterna do crente sem aceitar todos os outros pontos do calvinismo. Para eles, quem creu em Cristo uma vez nasceu de novo, recebeu a vida eterna e foi selado pelo Espírito, e nada disso pode ser desfeito. É a forma mais conhecida da doutrina entre os evangélicos.

Alguns pregadores foram além e ensinaram que mesmo quem deixa de crer continua salvo, porque o que conta é o momento em que creu. Os próprios reformados rejeitam essa versão. Para eles, a perseverança inclui continuar crendo e crescer em santidade, e quem vive longe de Cristo não tem motivo para se achar seguro.

A Visão Luterana

Os luteranos chegam a uma conclusão diferente da dos reformados. A Confissão de Augsburgo (1530), no artigo XII, condena os que negam que uma pessoa justificada pode perder o Espírito Santo. Os Artigos de Esmalcalde, escritos por Lutero, ensinam que, se um crente cai em pecado grave e deliberado, como Davi no adultério e no homicídio, a fé e o Espírito o deixam, porque o Espírito não deixa o pecado reinar. Esse crente pode voltar pelo arrependimento, como Davi voltou.

Ao mesmo tempo, os luteranos afirmam que os eleitos de Deus serão salvos. Eles não tentam explicar como as duas coisas se encaixam. Preferem dizer que o crente não deve procurar a sua segurança num decreto escondido, mas nas promessas de Deus anunciadas na Palavra e dadas no batismo e na Ceia.

Armínio lembrava isso aos seus críticos. Ele dizia que a maior parte das igrejas luteranas ensinava a possibilidade da queda, e que nem por isso os reformados deixavam de chamá-los de irmãos.

A Visão Arminiana e Wesleyana

Armínio afirmava com muita força o poder de Cristo para guardar os crentes. Na sua Declaração de sentimentos (1608), ele escreveu:

Jesus Cristo também, por seu Espírito, os assiste em todas as suas tentações e lhes oferece o pronto auxílio de sua mão; e, contanto que estejam preparados para a batalha, implorem a sua ajuda e não faltem a si mesmos, Cristo os preserva de cair.

(Jacó Armínio, Declaração de sentimentos, V)

Mas, logo em seguida, ele pediu que se examinasse nas Escrituras se um crente não pode, por negligência, abandonar a sua vida em Cristo. Disse que nunca tinha ensinado que um crente verdadeiro cai da fé e perece, mas que havia passagens bíblicas que pareciam dizer isso. Os remonstrantes, no quinto artigo da Remonstrância (1610), mantiveram a questão em aberto. Poucos anos depois, no Sínodo de Dort, eles já afirmavam que um crente verdadeiro pode cair da fé e se perder.

Armínio também fazia uma distinção importante. Ele dizia que, enquanto o crente continua crendo, ele não pode perder a salvação:

É impossível que os crentes, desde que permaneçam fiéis, venham a perder a salvação. Porque, se isso fosse possível, o poder que Deus decidiu empregar para salvar os crentes seria vencido.

(Jacó Armínio, Apologia contra trinta e um artigos, art. I e II, em As obras de Armínio, vol. 1)

Ou seja, nenhum inimigo de fora pode vencer o poder de Deus. O perigo está em outro lugar: no crente que deixa de crer. Para essa tradição, a segurança está na união com Cristo pela fé, e a própria fé é sustentada pela graça. Mas essa graça pode ser resistida, também depois da conversão.

John Wesley afirmou isso sem rodeios. Ele dizia que a Bíblia descreve como verdadeiros crentes pessoas que depois caíram:

Se as Escrituras são verdadeiras, aqueles que são santos ou justos no julgamento do próprio Deus; os que possuem a fé que purifica o coração […]; os que vivem pela fé no Filho de Deus; os que são santificados pelo sangue da aliança, podem, contudo, cair e perecer eternamente. Portanto, aquele que está em pé veja que não caia.

(John Wesley, Pensamentos sérios sobre a perseverança dos santos, 30, em Coletânea da teologia de João Wesley)

Wesley não ensinava que o crente perde a salvação a cada pecado. Ele falava de quem abandona a fé, e sabia que muitos que se desviam voltam. No sermão Chamado aos transviados, ele conta que conheceu muitas pessoas que caíram e foram restauradas por Deus. Mas avisa que ninguém deve usar essa misericórdia como permissão para pecar.

Essa é também a posição da maior parte das igrejas metodistas, nazarenas, wesleyanas e pentecostais, entre elas as Assembleias de Deus, e de muitos batistas, como os batistas do livre-arbítrio.

Avaliando as Posições

As Promessas

As promessas de segurança são verdadeiras e preciosas, e todo crente pode tirar força delas. Mas vale reparar no que elas dizem. Em João 10, as ovelhas que ninguém arranca da mão de Cristo são as que “ouvem minha voz” e “me seguem”. Os verbos estão no presente: são as que continuam ouvindo e seguindo. A promessa é que nenhum inimigo vai tirá-las de lá. O texto não trata da ovelha que para de seguir.

Romanos 8 faz uma lista de coisas de fora: a morte, os anjos, os poderes, o presente, o futuro, “qualquer outra criatura”. Nada disso pode nos separar do amor de Deus. A lista não fala da incredulidade do próprio crente. E Pedro diz que somos guardados pelo poder de Deus “pela fé”. O meio da guarda é a fé, e por isso a Bíblia nos chama a continuar crendo.

As Advertências

As advertências são o ponto mais difícil para a visão reformada. É verdade que Deus usa os avisos para guardar os seus, e isso todos podem aceitar. Mas é difícil entender um aviso sobre um perigo que não pode acontecer. Além disso, os textos descrevem as pessoas com palavras que, em outros lugares, servem para os crentes verdadeiros. Hebreus 6 fala de quem foi feito “participante do Espírito Santo”. Hebreus 10 fala do “sangue do Testamento no qual ele foi santificado”. Pedro fala de quem escapou do mundo “por causa do conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo”.

Ao mesmo tempo, a visão reformada tem razão num ponto. Há falsas conversões, como mostram Lucas 8, Mateus 7 e 1 João 2:19. Nem todo mundo que sai da igreja tinha fé verdadeira. Mas um texto que diz que alguns nunca foram de Cristo não prova que nenhum crente verdadeiro pode se afastar. As duas coisas acontecem.

O que é Apostasia

É importante dizer com clareza do que estamos falando. A palavra apostasia vem do grego e quer dizer afastar-se, desertar. A apostasia de que a Bíblia fala é o abandono de Cristo, uma incredulidade que endurece o coração (Hebreus 3:12-13). O crente que tropeça, sente o peso do pecado e corre para Deus não é apóstata. A própria tristeza dele é sinal de que o Espírito ainda trabalha no seu coração.

Hebreus 6 diz que é “impossível” renovar para o arrependimento os que caíram. Alguns entendem que quem chega a esse ponto não pode mais voltar. Outros entendem que é impossível enquanto a pessoa continua rejeitando Cristo, porque não há outro sacrifício. Seja como for, o texto descreve alguém que rejeita Cristo de modo consciente e público. E o próprio autor logo acrescenta, para consolar os leitores: “quanto a vós mesmos, amados, confiamos melhores coisas, relacionadas à salvação” (Hebreus 6:9).

Mais Perto do que Parece

Na prática, as duas visões chegam muito perto uma da outra. Todos concordam que quem se afasta de Cristo e morre na incredulidade não será salvo. A diferença está em como descrever essa pessoa. O reformado diz: “ele nunca foi salvo”. O arminiano diz: “ele foi salvo e se afastou”. Os dois dizem ao crente a mesma coisa: permaneça em Cristo.

A Posição Deste Site

Este site crê na perseverança condicional. O crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e nenhum poder de fora pode arrancá-lo das mãos de Deus. Mas a Bíblia adverte que é possível abandonar a fé e se perder. Essa possibilidade não tira a certeza: quem crê hoje pode saber, pelo testemunho do Espírito, que é filho de Deus, e a sua segurança está em Cristo, não no próprio esforço. Tratamos do assunto em Arminianismo: A segurança da salvação. Sobre a eleição, que está ligada a essa questão, veja o Capítulo 17: Os decretos de Deus e a predestinação.

Segurança sem Presunção

A Certeza que Deus Dá

As advertências da Bíblia não foram escritas para deixar o crente com medo o tempo todo. João escreveu a sua primeira carta “para vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna” (1 João 5:13). E Paulo diz que “o próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16). O crente pode descansar. Quem está em Cristo está seguro.

Armínio concordava com isso. Na Declaração de sentimentos (VI), ele escreveu que quem crê em Cristo pode estar certo de que é filho de Deus, e pode partir desta vida sem pavor, confiando na misericórdia de Deus em Cristo.

O Temor Certo

Então, o que fazer com o “temor” de Romanos 11:20? Calvino e Wesley, que pensavam diferente sobre a perseverança, deram respostas parecidas. Calvino dizia que Paulo não combate toda segurança, mas a segurança descuidada e orgulhosa, que despreza os outros e esquece a graça recebida (Institutas, III.24.7). Wesley, nas suas notas sobre Romanos, explicava que esse temor se opõe ao orgulho e à falsa esperança, e não à confiança em Deus.

O temor de que a Bíblia fala é o de quem sabe que depende de Deus a cada dia. Esse temor tira a presunção, e deixa a paz no lugar. “Aquele que pensa estar de pé, olhe para que não caia” (1 Coríntios 10:12).

Como Perseverar

Os Meios que Deus Usa

Se a perseverança é obra da graça, Deus também nos deu os meios para continuar. Judas, que termina a sua carta louvando aquele que é “poderoso para vos guardar de tropeçar”, diz pouco antes:

Mas vós, amados, edificai a vós mesmos em vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo. Conservai a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna.

(Judas 20-21, Bíblia Livre)

Deus guarda, e nós nos conservamos no amor dele. As duas coisas andam juntas, como vimos no capítulo anterior sobre a santificação. O crente persevera ouvindo a Palavra, orando, participando da Ceia do Senhor e vivendo em comunhão com os irmãos. A Carta aos Hebreus mostra que perseverar é também tarefa da igreja: “encorajai-vos uns aos outros a cada dia, durante o tempo chamado ‘hoje’; a fim de que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado” (Hebreus 3:13). Ninguém foi feito para perseverar sozinho.

Quando Alguém se Desvia

Toda igreja conhece pessoas que se afastaram. A Bíblia não manda desistir delas. Tiago escreve: “se algum entre vós houver se desviado da verdade, e alguém o converter, saiba que aquele que converter um pecador do erro de seu caminho, salvará a sua alma da morte” (Tiago 5:19-20). O pai da parábola do filho pródigo esperava o filho na estrada e correu ao encontro dele quando ele voltou (Lucas 15:20).

Para quem se afastou e está lendo isto, a porta ainda está aberta. A promessa continua de pé: “Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9). Sobre esse lado prático do assunto, veja também Apostasia na Bíblia: O que é e como evitar a deserção da fé.

Conclusão

A Bíblia fala da perseverança de dois lados. De um lado, Deus guarda os que creem. O Pai começou a boa obra e vai completá-la, o Filho intercede pelos seus, e o Espírito é o selo e a garantia da herança. Nenhum inimigo pode arrancar o crente das mãos de Cristo. De outro lado, a Bíblia chama os crentes a permanecer em Cristo e os adverte do perigo de abandoná-lo.

Os reformados entendem que todos os verdadeiros crentes certamente vão perseverar, e que os que caem nunca tiveram fé verdadeira. Os luteranos, os arminianos e os wesleyanos entendem que um crente verdadeiro pode se afastar da fé. Este site crê, com Armínio e Wesley, que a perseverança é condicional, e que essa condição não tira a certeza de quem está em Cristo.

Mas todos dizem ao crente a mesma coisa: confie em Deus, que é fiel, e permaneça nele. “Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida” (Apocalipse 2:10).

Com este capítulo, terminamos a parte sobre a salvação. No próximo, começamos a estudar a Igreja, o povo que Deus reúne em Cristo.

Fontes

  • Armínio, Jacó. Apologia contra trinta e um artigos, art. I e II. Em As obras de Armínio, vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Armínio, Jacó. Declaração de sentimentos (1608), V e VI. Tradução no Diário do Diego.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. III.2.11; III.24.6-7.
  • Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
  • A Remonstrância (1610), artigo 5. Tradução no Diário do Diego.
  • Wesley, John. Pensamentos sérios sobre a perseverança dos santos (1751); Chamado aos transviados (sermão 86). Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
  • Wesley, John. Romanos: notas explicativas, nota a Romanos 11:20-21.

Teologia Sistemática, Parte 7: A salvação. Capítulo anterior: Capítulo 36: A santificação. Próximo capítulo: Capítulo 38: A doutrina da Igreja.

140pal/min