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TeologiaTeologia Sistemática45 de 45

Capítulo 45: Conclusão

Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas

Diego Gonçalves23 min de leitura4.555 palavras

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Neste texto

Chegamos ao último capítulo deste livro. Depois de tantas doutrinas, que caminho percorremos, o que liga tudo o que vimos e o que devemos fazer agora com isso?

O Caminho Percorrido

No primeiro capítulo, dissemos que a teologia sistemática reúne o ensino da Bíblia sobre cada assunto e mostra como as doutrinas se ligam umas às outras. Por isso o livro seguiu uma ordem. Cada parte se apoiou na anterior, como os andares de uma casa. Antes de olhar para o que une tudo, vale lembrar, em poucas palavras, o que cada parte ensinou.

As Questões Preliminares

A primeira parte tratou das perguntas que vêm antes de todas as outras. O que é teologia? Para que ela serve? De onde ela tira o que ensina? Vimos que teologia é falar de Deus com ordem, e que todo cristão, de algum modo, é teólogo (Capítulo 1). Vimos que ela existe para firmar a fé, servir à igreja e defender a verdade (Capítulo 2), e que a igreja, ao longo dos séculos, organizou a doutrina em grandes temas, que são as partes deste livro (Capítulo 3).

Também vimos que o evangelho fala a língua de cada povo sem perder a sua verdade (Capítulo 4). E vimos a regra que guiou todo o resto: a Escritura é a fonte primeira e a norma final da teologia. A tradição, a razão e a experiência ajudam, mas ficam debaixo dela (Capítulos 5 e 6). As doutrinas nascem do estudo cuidadoso da Bíblia inteira, e os credos e as confissões são resumos desse estudo, sempre abaixo da Palavra (Capítulo 7).

Deus Fala

A segunda parte perguntou como podemos conhecer a Deus. A resposta é que ele mesmo se deu a conhecer. A criação e a consciência mostram a todas as pessoas que Deus existe e que é poderoso, e isso deixa todos sem desculpa. Mas essa revelação geral não basta para salvar (Capítulo 8). Por isso Deus falou de modo especial, pelos profetas, pelos apóstolos e, acima de tudo, pelo seu Filho. Essa revelação foi escrita e guardada para nós (Capítulo 9).

A Bíblia é Palavra de Deus escrita por homens. Ela é inspirada, verdadeira, suficiente e clara no que é necessário para a salvação (Capítulo 10). A igreja reconheceu os livros que Deus tinha dado, sem criar ela mesma a lista (Capítulo 11). E, para entender esses livros, precisamos lê-los no seu sentido natural, no seu contexto, comparando Escritura com Escritura e pedindo a luz do Espírito (Capítulo 12).

O Deus que Fala

A terceira parte olhou para o próprio Deus. Vimos que há boas razões para crer que ele existe, mas que conhecê-lo de verdade é mais do que saber coisas sobre ele (Capítulo 13). Vimos os seus atributos: ele é eterno, imutável, todo-poderoso, onisciente, santo, justo, fiel e amoroso (Capítulo 14). Ele está acima de toda a criação e, ao mesmo tempo, perto de cada um de nós (Capítulo 15). E ele é um só Deus em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Capítulo 16).

Depois vimos o que Deus decidiu e o que ele faz. Os protestantes divergem sobre a predestinação, e voltaremos a isso adiante (Capítulo 17). Mas todos confessam que Deus criou todas as coisas do nada e que as governa com sabedoria (Capítulo 18). Também enfrentamos a pergunta mais dura de todas: por que Deus permite o mal? A Bíblia não responde a tudo, mas mostra a resposta de Deus na cruz e na nova criação (Capítulo 19). Por fim, vimos os anjos, Satanás e os demônios, sempre lembrando que Cristo já os venceu (Capítulo 20).

O Ser Humano e a Queda

A quarta parte perguntou quem somos. Fomos criados por Deus, homem e mulher, à sua imagem, com dignidade e com uma tarefa no mundo (Capítulo 21). Somos corpo e alma, criados para viver em comunhão com Deus, com o próximo e com a criação (Capítulo 22).

Mas essa história teve uma queda. O pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte (Romanos 5:12). O pecado vai além dos atos errados: ele é rebelião contra Deus e estragou tudo em nós (Capítulo 23). Nascemos inclinados ao mal, e ninguém consegue, por si mesmo, voltar para Deus. Os protestantes explicam de modos diferentes como o pecado de Adão chega até nós, mas concordam que, sem a graça, estamos perdidos (Capítulo 24).

Cristo, o Salvador

A quinta parte é o centro do livro. Deus não nos deixou na queda. O Filho eterno se fez homem. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, numa só pessoa, como a igreja confessou em Niceia e em Calcedônia (Capítulo 25). Quando se fez homem, ele se esvaziou, mas não deixou de ser Deus. Ele assumiu a forma de servo (Capítulo 26). Ele desceu até a cruz e a sepultura e foi exaltado na ressurreição, na ascensão e no trono à direita do Pai (Capítulo 27).

Cristo é o nosso Profeta, que nos revela o Pai, o nosso Sacerdote, que se ofereceu por nós e intercede por nós, e o nosso Rei, que nos governa e nos protege (Capítulo 28). Na cruz, ele tomou o nosso lugar, levou o castigo do nosso pecado e nos reconciliou com Deus. “Mas Deus prova o seu amor por nós através de Cristo haver morrido por nós, quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5:8). Os protestantes discordam sobre por quem Cristo morreu, mas concordam que a sua morte é o único fundamento do perdão (Capítulo 29).

O Espírito que Aplica

A sexta parte tratou do Espírito Santo. Ele é Deus, uma pessoa, e não uma força. Ele convence do pecado, faz nascer de novo, habita no crente, guia a igreja e une os crentes a Cristo (Capítulo 30). O que Cristo conquistou, o Espírito aplica. Ele também distribui dons para a edificação da igreja e produz em nós o seu fruto, que é o caráter de Cristo. Os dons servem ao corpo, e o fruto mostra quem de fato é guiado pelo Espírito (Capítulo 31).

A Salvação

A sétima parte mostrou como Deus aplica ao pecador a obra de Cristo. A salvação tem três tempos: fomos salvos da culpa do pecado, estamos sendo salvos do seu poder e seremos salvos da sua presença. E tudo isso acontece em união com Cristo (Capítulo 32). Deus chama pelo evangelho, e o pecador responde com arrependimento e fé (Capítulo 33). Deus justifica quem crê: perdoa os seus pecados e o aceita como justo por causa da justiça de Cristo, e não por causa das suas obras (Capítulo 34).

Na mesma hora, o crente nasce de novo, é adotado como filho e pode ter certeza da sua salvação pelo testemunho do Espírito (Capítulo 35). Começa então a santificação, a obra pela qual Deus nos faz parecidos com Cristo (Capítulo 36). E a Bíblia nos chama a permanecer na fé até o fim (Capítulo 37). Esta é a parte em que os protestantes mais divergem. Mas todos confessam juntos que a salvação é pela graça, por meio da fé, somente em Cristo.

A Igreja

A oitava parte mostrou que Deus não salva pessoas para viverem sozinhas. Ele reúne um povo. A Igreja é o corpo de Cristo, una, santa, católica e apostólica, e se reconhece pela pregação fiel da Palavra, pelos sacramentos e pela disciplina (Capítulo 38). Cristo deu à igreja o batismo, sinal de entrada, e a Ceia, alimento do caminho (Capítulo 39). E deu também ministros, uma forma de governo e uma missão: fazer discípulos de todas as nações (Capítulo 40).

A Esperança

A nona parte olhou para o fim. A história caminha para a volta de Cristo (Capítulo 41). Quem morre em Cristo vai estar com ele e espera a ressurreição do corpo (Capítulo 42). Jesus vai voltar de modo pessoal, visível e glorioso (Capítulo 43). Então os mortos vão ressuscitar, o mundo será julgado, e Deus fará novos céus e nova terra, onde vai morar com o seu povo para sempre (Capítulo 44).

O que Une Todas as Doutrinas

Olhando para trás, podemos ter a impressão de que estudamos 44 assuntos separados. Mas as doutrinas cristãs formam um só corpo, porque falam de um só Deus e de uma só obra dele. Há alguns fios que passam por todos os capítulos.

O Deus Trino do Começo ao Fim

O livro começou com Deus e terminou com Deus. A Bíblia faz o mesmo. Ela abre com “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1) e fecha com aquele que está sentado no trono dizendo: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5). Paulo resume isso numa frase: “Porque dele, por ele, e para ele, são todas as coisas! A ele seja a glória eternamente! Amém!” (Romanos 11:36).

E esse Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Pai planeja a salvação, o Filho a realiza e o Espírito a aplica. Em cada parte do livro, o Deus trino esteve presente: na revelação, na criação, na redenção, na igreja e na consumação. Armínio, num discurso em Leiden, disse:

As páginas de nossa Teologia sagrada estão repletas de Deus, de Cristo, e do Espírito de ambos. Se procurarmos o objeto, Deus e Cristo, pelo Espírito, nos são indicados. Se procurarmos o autor, Deus e Cristo, pela operação do Espírito, ocorrem, espontaneamente. Se considerarmos o objetivo proposto, a nossa união com Deus e Cristo se oferece.

(Jacó Armínio, Oração sobre a certeza da teologia sagrada, em As obras de Armínio, vol. 1)

A teologia fala de Deus, vem de Deus e leva a Deus.

Cristo no Centro

Se Deus é o começo e o fim, Cristo é o centro. Paulo diz que “todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas, e nele todas as coisas se mantêm” (Colossenses 1:16-17). E o plano de Deus é “voltar a reunir todas as coisas em Cristo, tanto as que estão nos céus, quanto as que estão na terra” (Efésios 1:10).

Por isso Cristo apareceu em quase todos os capítulos. A revelação chega ao seu ponto mais alto nele, porque Deus “nestes últimos dias falou a nós por meio do seu Filho” (Hebreus 1:2). O ser humano foi criado à imagem de Deus, e Cristo é a imagem perfeita. A salvação é união com ele. A Igreja é o seu corpo. E a esperança é a sua volta. Uma teologia que perde Cristo de vista perde o seu centro, mesmo que diga muitas coisas certas.

A Graça em Cada Passo

Outro fio é a graça. Deus criou sem precisar de nada, por pura bondade. Ele sustenta o mundo e manda chuva sobre bons e maus. Quando caímos, ele veio atrás de nós. A sua graça vem antes da nossa resposta, nos perdoa, nos faz nascer de novo, nos santifica, nos guarda e, no fim, nos leva para a glória. Do começo ao fim, a salvação é obra de Deus. Paulo resumiu tudo isso numa só passagem:

“Porque a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens. Ensinando-nos que, ao renunciarmos à irreverência e aos maus desejos mundanos, vivamos neste tempo presente de maneira sóbria, justa e devota. Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo; O qual deu a si mesmo por nós, para nos libertar de toda injustiça, e para purificar para si mesmo um povo particular, zeloso de boas obras.”

(Tito 2:11-14, Bíblia Livre)

Quase tudo o que vimos está nesses quatro versículos. A graça que se manifestou é Cristo, que veio. Ela traz a salvação e nos ensina a viver de modo santo. Ela nos faz esperar a volta de Cristo. E ela forma um povo que pertence a ele. Revelação, salvação, santificação, Igreja e esperança cabem numa só frase de Paulo.

Uma História com Começo, Meio e Fim

O último fio é a própria história da Bíblia. Ela tem quatro grandes momentos: a criação, a queda, a redenção e a nova criação. As partes deste livro seguiram essa ordem. Primeiro vimos o Deus que cria. Depois, o ser humano que cai. Depois, o Cristo que redime, o Espírito que aplica a redenção e a Igreja que a anuncia. E, por fim, a nova criação que nos espera.

Isso nos lembra que a teologia sistemática não inventa uma ordem estranha à Bíblia. Ela segue, de modo organizado, a história que a própria Bíblia conta. Também por isso o livro andou perto do Credo dos Apóstolos, que a igreja recita há tantos séculos: “Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor […]. Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna.” Em certo sentido, este livro inteiro é uma explicação dessas poucas linhas.

Onde Concordamos e Onde Divergimos

Este livro tratou da teologia protestante em geral. Em quase todas as páginas, expusemos o que as igrejas da Reforma ensinam juntas. Em alguns pontos, mostramos que elas discordam, apresentamos as posições principais e dissemos a posição deste site. Vale a pena olhar para os dois lados.

Um Grande Acordo

Os protestantes concordam no que é central. Confessam que a Escritura é a Palavra de Deus e a regra final da fé. Confessam um só Deus em três pessoas. Confessam que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou. Confessam que somos justificados pela graça, por meio da fé, somente por causa de Cristo. Confessam que o Espírito Santo faz nascer de novo e santifica, que a Igreja é o povo de Deus e que Cristo vai voltar para julgar os vivos e os mortos.

Esse acordo é muito maior do que as divergências. Armínio, num discurso sobre como reconciliar os cristãos divididos, deu um conselho que continua valendo:

Que seja acrescentada uma consideração de todos aqueles artigos da religião, a cujo respeito existe, dos dois lados, uma perfeita concordância. Talvez descubramos que são tão numerosos e de tão grande importância que, quando for feita uma comparação entre eles e outros que podem se tornar tema de controvérsia, os últimos serão poucos em número, e de pouca consequência.

(Jacó Armínio, Oração sobre a reconciliação das dissensões religiosas entre os cristãos, em As obras de Armínio, vol. 1)

Os Pontos em Disputa

Há, porém, pontos em que os protestantes não pensam igual. Ao longo do livro, apresentamos as posições reformada, luterana e arminiano-wesleyana, e às vezes também a batista e a pentecostal. Eis um resumo da posição deste site em cada um desses pontos:

  • Predestinação. Os reformados creem numa eleição incondicional. Os luteranos afirmam a eleição dos salvos sem um decreto de reprovação. Este site crê, com Armínio, que Deus escolheu em Cristo os que, pela sua graça, haveriam de crer. Veja o Capítulo 17 e A eleição condicional em Cristo.
  • Pecado original. Todos concordam que nascemos corrompidos e incapazes de nos salvar. Os reformados ensinam que a culpa de Adão é atribuída a todos os seus descendentes, e muitos batistas e pentecostais entendem que a culpa só vem com a idade do discernimento. Este site crê que nascemos pecadores, sob a justa condenação de Deus, e também que Cristo morreu por todos e que, pela graça que vem antes, Deus torna todos capazes de crer. Veja o Capítulo 24 e A Doutrina da Depravação Total.
  • Extensão da expiação. Muitos reformados ensinam que Cristo morreu só pelos eleitos. Os luteranos e os arminianos ensinam que ele morreu por todos. Este site crê que a morte de Cristo é suficiente para todos e eficaz para os que creem. Veja o Capítulo 29 e Arminianismo: expiação para todos.
  • Graça e conversão. Todos concordam que ninguém crê sem a graça. Os reformados entendem que a graça que converte não pode ser recusada. Este site crê que a graça alcança todos, liberta a vontade e torna possível crer, mas pode ser recusada. Veja o Capítulo 33 e A graça preveniente: A graça que vem antes.
  • Perseverança. Os reformados creem que todo crente verdadeiro vai perseverar até o fim. Os luteranos, os arminianos e os wesleyanos creem que um crente pode abandonar a fé. Este site crê que o crente está seguro enquanto permanece em Cristo e que isso não lhe tira a certeza. Veja o Capítulo 37 e Arminianismo: A segurança da salvação.
  • Santificação. Muitos protestantes creem que a santificação nunca se completa nesta vida. Este site crê, com Wesley, que Deus pode purificar o coração e enchê-lo de amor ainda nesta vida, como dom recebido pela fé. Veja o Capítulo 36 e Sede perfeitos: O que Wesley ensinou sobre perfeição cristã.
  • Sacramentos. Luteranos, reformados, metodistas e anglicanos batizam crianças, e batistas e pentecostais batizam só os que creem. Este site crê no batismo de crentes, por imersão ou por aspersão, e entende a Ceia como memorial, comunhão e meio de graça. Veja o Capítulo 39.
  • Milênio. Há pré-milenistas, pós-milenistas e amilenistas. Este site é amilenista: os mil anos de Apocalipse 20 representam o tempo da Igreja, e Cristo vai voltar uma só vez. Veja o Capítulo 43.

Os textos que tratam desses pontos com mais calma estão reunidos nas séries Arminianismo e Wesleyanismo.

Divergir como Irmãos

Essas divergências são sérias. Não dá para dizer que tanto faz o que cremos sobre a graça ou sobre a salvação. Cada um deve estar convencido pela Escritura e defender o que crê com clareza. Mas a forma como discordamos também importa. Wesley pregou um sermão chamado Espírito católico, usando a palavra “católico” no sentido antigo de universal. Nele, ele escreveu:

Todo homem sábio, portanto, dará aos outros a mesma liberdade de pensar que ele deseja que lhe deem. Ele não vai insistir que os outros aceitem as suas opiniões, como não quer que insistam que ele aceite as deles. Ele suporta os que pensam diferente e faz a quem deseja se unir no amor só esta pergunta: “O teu coração é reto, como o meu coração é com o teu?”

(John Wesley, sermão Espírito católico, I.6, tradução nossa)

Com isso, Wesley não deixava a doutrina de lado, porque defendia com firmeza o que cria. Mas ele sabia que nenhum de nós entende tudo, e que crentes sinceros podem discordar em pontos importantes sem deixar de ser irmãos. Paulo nos manda guardar “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3) e seguir “a verdade em amor” (Efésios 4:15). As duas coisas andam juntas: a verdade sem amor fica dura, e o amor sem a verdade fica vazio.

A Teologia e a Vida

No começo do livro, vimos que, para Armínio, a teologia é uma ciência prática, porque ela existe para nos levar a Deus. Agora que chegamos ao fim, essa é a pergunta que fica: o que fazemos com tudo isso?

Conhecer para Adorar

Jesus disse: “E esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem tens enviado” (João 17:3). O alvo da teologia é conhecer a Deus, e conhecer a Deus leva à adoração. Não é por acaso que Paulo, depois de onze capítulos de doutrina em Romanos, termina com um hino: “A ele seja a glória eternamente! Amém!” (Romanos 11:36).

A boa teologia termina em louvor. Quando estudamos a Trindade, a encarnação, a cruz ou a ressurreição, e o nosso coração não se volta para Deus em gratidão, alguma coisa ficou pela metade. Muitos dos grandes teólogos da igreja escreveram orações e hinos, além de livros. Wesley e o seu irmão Charles ensinaram doutrina ao povo, em grande parte, pelos hinos que o povo cantava. A teologia que chega ao coração vira canto.

Conhecer para Viver

A doutrina também precisa chegar à vida. Tiago diz: “sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando a vós mesmos” (Tiago 1:22). E Paulo lembra que “o fim do mandamento é o amor que vem de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida” (1 Timóteo 1:5). Calvino disse isso com força:

É uma doutrina não da língua, mas da vida. Ela não é aprendida apenas com o entendimento e a memória, como as outras ciências, mas só é recebida de verdade quando toma conta da alma inteira e encontra morada no mais íntimo do coração.

(João Calvino, Institutas, III.6.4, tradução nossa)

Há um perigo em estudar teologia. Paulo avisa que “o conhecimento incha de orgulho, mas o amor edifica” (1 Coríntios 8:1). É possível saber muito sobre Deus e amar pouco. É possível vencer discussões e perder irmãos. Quem estudou este livro inteiro e saiu dele mais orgulhoso, mais impaciente ou mais frio aprendeu as palavras e perdeu o principal. Jesus resumiu toda a Lei em dois mandamentos: amar a Deus “com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento” e amar o próximo como a nós mesmos (Mateus 22:37-39). A teologia serve a esse amor. Ela nos ensina a amar a Deus também com a mente e nos dá motivos melhores para amar o próximo.

Um Conhecimento Ainda em Parte

A teologia também precisa ser humilde. No primeiro capítulo, vimos que os teólogos antigos chamavam a nossa teologia de “teologia dos peregrinos”, de gente que ainda está a caminho. Paulo diz: “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei assim como sou conhecido” (1 Coríntios 13:12).

Ao longo deste livro, procuramos ir até onde a Escritura vai e parar onde ela para. Em muitos pontos, dissemos com clareza o que a Bíblia ensina. Em outros, apresentamos visões diferentes e dissemos qual nos parece melhor, sem fingir uma certeza que não temos. Ainda há mistérios que não entendemos: como um só Deus é três pessoas, como Cristo é Deus e homem numa só pessoa, como a soberania de Deus e a responsabilidade humana se encontram. Somos criaturas tentando falar do Criador. O que sabemos é verdadeiro, porque Deus o revelou, mas é limitado. Um dia veremos face a face, e então muitas das nossas discussões vão parecer pequenas.

Como Continuar

Este livro termina aqui, mas o estudo continua. Pedro termina a sua segunda carta assim: “Mas crescei em graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18). Ele coloca a graça e o conhecimento lado a lado, porque os dois crescem juntos.

Algumas sugestões podem ajudar quem quer continuar:

  • Leia a Bíblia inteira, e mais de uma vez. A teologia sistemática é um mapa, e a Bíblia é o território. Nenhum mapa substitui a viagem. Leia livros inteiros, e não só versículos soltos.
  • Leia os clássicos. Os credos antigos, as confissões da Reforma e os grandes teólogos, como Agostinho, Lutero, Calvino, Armínio e Wesley, já pensaram sobre quase todas as nossas perguntas. Leia-os com respeito e meça-os pela Escritura.
  • Estude dentro da igreja. A teologia não é tarefa de quem vive isolado. Converse com o seu pastor, participe da escola bíblica, ore com os irmãos e aprenda com os mais velhos na fé.
  • Faça perguntas. Não tenha medo das dificuldades. Volte aos capítulos deste livro quando precisar, mas não fique só nele. Examine tudo e retenha o que é bom.
  • Ore enquanto estuda. O Espírito que inspirou a Escritura é o mesmo que abre os nossos olhos para entendê-la. A teologia começa e termina em oração.

Uma Palavra Final

No começo deste livro, dissemos que não havia garantia de que tudo estivesse certo, e isso continua valendo. Mas procuramos ser fiéis à Escritura e ao ensino da igreja ao longo dos séculos. Se este livro ajudou você a conhecer melhor a Deus, a amar mais a Cristo e a servir melhor na igreja, ele cumpriu o seu propósito.

A teologia começa com Deus e termina em Deus. O que fica no fim de tudo é aquilo que Paulo disse sobre o último dia: Deus será “tudo em todos” (1 Coríntios 15:28). Enquanto esse dia não chega, seguimos aprendendo, crendo e esperando. E terminamos como a Bíblia termina tantas vezes, com louvor:

“E para aquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e vos apresentar irrepreensíveis com alegria diante de sua glória; Ao único Deus, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo nosso Senhor, seja a glória e majestade, poder e autoridade, agora, e para todo o sempre, Amém!”

(Judas 24-25, Bíblia Livre)

Fontes

  • Armínio, Jacó. Oração sobre a certeza da teologia sagrada; Oração sobre a reconciliação das dissensões religiosas entre os cristãos. Em As obras de Armínio, vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. III.6.4.
  • Credo dos Apóstolos.
  • Wesley, John. Espírito católico (sermão 39), I.3-6. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Organização de Robert W. Burtner e Robert E. Chiles. Nashville: Abingdon, 1954.

Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas. Capítulo anterior: Capítulo 44: Ressurreição, juízo final e estado eterno. Este é o último capítulo do livro. Todos os capítulos estão reunidos na série Teologia Sistemática.

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