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Capítulo 8: A revelação geral
Teologia Sistemática, Parte 2: Revelação e Escritura
Neste texto
- O que É Revelação?
- Deus Se Dá a Conhecer
- Revelação Geral e Revelação Especial
- Revelação Geral e Teologia Natural
- A Revelação Geral na Escritura
- Os Céus que Falam
- A Verdade Bloqueada
- A Lei Escrita no Coração
- O Testemunho na História
- Outros Textos
- Os Meios da Revelação Geral
- A Natureza
- A Consciência
- A História e a Providência
- O que a Criação Mostra sobre Deus
- Deus Existe
- As Provas da Existência de Deus
- Os Atributos que a Criação Revela
- Os Limites da Revelação Geral
- O que Ela Não Diz
- O Problema Está em Nós
- Ela Não Salva
- A Revelação Geral na História da Igreja
- Os Pais da Igreja
- Tomás de Aquino e a Teologia Natural
- Os Reformadores
- Armínio e Wesley
- Barth e Brunner
- Para que Serve a Revelação Geral?
- Para Deixar sem Desculpa
- Para Levar a Buscar a Deus
- Minha Própria Visão
- E os que Nunca Ouviram o Evangelho?
- Conclusão
- Fontes
Deus fala de duas maneiras: pelas obras que estão diante de todos e pela Palavra que deu ao seu povo. Este capítulo trata da primeira. O que podemos saber sobre Deus sem a Bíblia, simplesmente olhando para o que ele criou?
O que É Revelação?
Deus Se Dá a Conhecer
“Revelação” é a palavra que os teólogos usam para o ato de Deus se mostrar. O Novo Testamento tem dois verbos principais para isso. O primeiro, apokalyptō, quer dizer “tirar o véu”, e dele vem o nome do último livro da Bíblia, o Apocalipse. O segundo, phaneroō, quer dizer “tornar visível”. As duas palavras dizem a mesma coisa de ângulos diferentes: Deus estava encoberto, e ele mesmo tirou o véu.
Esse é o ponto de partida de toda a teologia. Se Deus não tivesse querido se mostrar, nada saberíamos dele, porque “A Deus nunca ninguém o viu” (João 1:18). A. B. Langston, que formou gerações de pastores batistas no Brasil, definia a revelação como a manifestação que Deus faz de si mesmo. Quem se revela é o próprio Deus, e a iniciativa é sempre dele.
Revelação Geral e Revelação Especial
Os teólogos distinguem dois modos de revelação. A revelação geral é a que Deus dá a todas as pessoas, em todos os tempos e lugares, pela criação, pela consciência e pela história. Ela é geral por dois motivos: alcança todo mundo e mostra coisas gerais sobre Deus, como o seu poder e a sua bondade, sem dizer como o pecador pode ser reconciliado com ele.
A revelação especial é a que Deus deu a pessoas determinadas, pelos profetas e pelos apóstolos e, de modo definitivo, em Jesus Cristo, e que hoje temos registrada na Escritura. Ela é especial porque não chegou a todos da mesma maneira e porque anuncia o que a criação não diz: o que Deus fez para salvar o mundo. Paul Enns resume bem a relação entre as duas:
A revelação geral, embora não baste para obter a salvação, é ainda assim um antecedente importante da salvação. Ela é Deus revelando a toda a humanidade certas verdades e aspectos da sua natureza, e é uma revelação essencial e preliminar à revelação especial de Deus.
(Paul Enns, The Moody Handbook of Theology, cap. 18, tradução nossa)
Revelação Geral e Teologia Natural
Outra distinção ajuda a evitar confusão. A revelação geral é um ato de Deus: é ele quem se mostra nas suas obras. A teologia natural é um trabalho humano: é a tentativa de, partindo da criação e usando só a razão, demonstrar que Deus existe e descobrir alguma coisa sobre ele, sem recorrer à Escritura.
Uma coisa não depende da outra. Podemos afirmar com toda a firmeza que Deus se revela na natureza e, ao mesmo tempo, ter reservas sobre o quanto a razão humana, entregue a si mesma, consegue tirar dessa revelação. Esse é o caminho que seguiremos neste capítulo.
A Revelação Geral na Escritura
A ideia de que Deus fala a todos por meio do que fez não é invenção de filósofos. Ela aparece em vários lugares da Bíblia.
Os Céus que Falam
O texto clássico é o Salmo 19:
Os céus declaram a glória de Deus; e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Dia após dia ele fala; e noite após noite ele mostra sabedoria. Não há língua, nem palavras, onde não se ouça a voz deles. Por toda a terra sai sua corda, e suas palavras até o fim do mundo; para o sol ele pôs uma tenda neles.
O salmista usa para os céus os verbos da fala. É uma pregação sem palavras, mas que nunca para e não conhece fronteira de língua. O ribeirinho da Amazônia, o vaqueiro do sertão e o astrônomo no observatório ouvem a mesma voz.
O salmo, porém, não termina aí. A partir do versículo 7, o assunto muda: “A lei do SENHOR é perfeita, e restaura a alma”. Nos primeiros versículos, quem aparece é “Deus”, em hebraico El, o nome comum da divindade. Dali em diante aparece “o SENHOR”, o nome pessoal com que Deus se revelou a Israel na aliança. A mudança ensina alguma coisa. Os céus mostram que há um Deus glorioso, mas só a sua Palavra diz quem ele é e restaura a alma. O Salmo 19 contém, em pequeno, a doutrina deste capítulo e a do próximo.
A Verdade Bloqueada
O texto mais importante do Novo Testamento sobre o assunto está no começo de Romanos:
Porque a ira de Deus se manifesta do céu contra toda irreverência e injustiça das pessoas que bloqueiam a verdade pela injustiça; pois o que se pode conhecer de Deus é evidente a eles, porque Deus lhes manifestou. Pois as suas características invisíveis, inclusive o seu eterno poder e divindade, desde a criação do mundo são entendidas e claramente vistas por meio das coisas criadas, para que não tenham desculpa; Porque, ainda que tenham conhecido Deus, não o glorificaram como Deus, nem foram gratos; em vez disso, perderam o bom senso em seus pensamentos, e seus tolos corações ficaram em trevas.
Quatro coisas chamam a atenção nesse texto. Em primeiro lugar, quem toma a iniciativa é Deus: “Deus lhes manifestou”. Em segundo lugar, o conteúdo é limitado, mas real. O que se vê nas coisas criadas é “o seu eterno poder e divindade”, e não a Trindade, a encarnação ou o perdão dos pecados. Em terceiro lugar, a reação humana é bloquear a verdade. As pessoas sabiam que Deus existe, mas não o glorificaram nem lhe agradeceram, e acabaram trocando “a glória de Deus indestrutível por semelhança de imagem do ser humano destrutível” (Romanos 1:23). Em quarto lugar, o resultado é que ninguém tem desculpa.
Paulo está fazendo um diagnóstico da humanidade. Todos receberam luz bastante para serem responsáveis diante de Deus, e ninguém, por si mesmo, fez dessa luz o uso que devia. Por isso o argumento termina, no capítulo 3, com a conclusão de que “todos pecaram, e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23) e precisam da justiça que vem pela fé em Cristo.
A Lei Escrita no Coração
No capítulo seguinte, Paulo fala dos gentios, que não receberam a lei de Moisés:
Pois quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente as coisas que são da Lei, estes, ainda que não tenham a Lei, são lei para si mesmos. Eles mostram a obra da Lei escrita em seus corações, dando-lhes testemunho juntamente a sua consciência, e os pensamentos, ora acusando-os, ora defendendo-os. Isso acontecerá no dia em que Deus julgará os segredos dos seres humanos por meio de Cristo Jesus, conforme o meu Evangelho.
Os gentios não tinham as tábuas do Sinai, mas não estavam sem lei. Deus escreveu no coração deles a obra da lei, e a consciência dá testemunho dela, ora acusando, ora defendendo. Por isso Paulo pode dizer que “todos os que sem Lei pecaram, sem Lei também perecerão” (Romanos 2:12). Ninguém será julgado por uma luz que não recebeu, mas todos serão julgados pela luz que receberam. E o juiz será Cristo Jesus.
O Testemunho na História
O livro de Atos mostra Paulo usando a revelação geral na pregação aos pagãos. Em Listra, quando o povo quis oferecer sacrifícios a ele e a Barnabé, Paulo anunciou “o Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar, e tudo quanto neles há”, o qual “não tenha deixado a si mesmo sem testemunho, fazendo o bem desde o céu, dando-nos chuvas, e tempos frutíferos, e enchendo nossos corações de alimento e alegria” (Atos 14:15-17). A chuva que molha a roça e a colheita que enche a mesa são testemunhas de Deus.
Em Atenas, Paulo começou por um altar dedicado “AO DEUS DESCONHECIDO” (Atos 17:23). Disse aos filósofos que Deus fez de um só sangue todas as nações, determinou os tempos e os limites da morada delas, e fez isso “Para que buscassem ao Senhor, se talvez pudessem apalpá-lo e encontrá-lo, apesar dele não estar longe de cada um de nós. Porque nele vivemos, e nos movemos, e somos” (Atos 17:27-28). O verbo traduzido por “apalpar” descreve o gesto de quem procura alguma coisa no escuro com as mãos. É uma boa imagem da revelação geral: ela desperta a busca, mas a busca é às apalpadelas. Por isso Paulo não terminou o discurso no Criador. Terminou chamando os atenienses ao arrependimento e anunciando o homem que Deus ressuscitou dos mortos (Atos 17:30-31).
Outros Textos
Jó pergunta: “Quem entre todas estas coisas não entende que a mão do SENHOR faz isto?” (Jó 12:9). O Pregador diz que Deus “pôs a sensação de eternidade no coração deles” (Eclesiastes 3:11). E João diz do Verbo: “Esta era a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9).
Os Meios da Revelação Geral
A partir desses textos, a teologia costuma falar de três meios pelos quais Deus se revela a todos.
A Natureza
O primeiro é a natureza. “Como são muitas as suas obras, SENHOR! Tu fizeste todas com sabedoria” (Salmos 104:24). A ordem, a beleza e a grandeza do mundo falam do seu Autor. Isaías manda o povo levantar os olhos para o céu estrelado e ver “quem criou estas coisas” (Isaías 40:26). Calvino dizia que Deus se manifesta de tal modo na construção do mundo que as pessoas não podem abrir os olhos sem serem obrigadas a vê-lo, e que não há canto do universo em que não brilhe ao menos alguma faísca da sua glória (Institutas, I.5.1).
Isso vale para o céu de uma noite sem lua no interior e vale para o corpo humano, com o coração que bate sem que mandemos e o cérebro que pensa sobre tudo isso. Quanto mais a ciência conhece o mundo, mais motivos o crente tem para louvar a Deus.
A Consciência
O segundo meio é a consciência. A palavra grega usada por Paulo é syneidēsis, que quer dizer “saber junto”. É o conhecimento que temos de nós mesmos como testemunhas das nossas próprias ações. O Antigo Testamento atribui essa função ao coração. Depois de cortar a ponta do manto de Saul na caverna, “o coração de Davi lhe golpeava” (1 Samuel 24:5). Em Romanos 2:15, a consciência funciona como um tribunal. Ela não faz a lei, porque só Deus a faz, mas julga se a conduta está de acordo com ela.
Em toda parte, os seres humanos sabem que há diferença entre o bem e o mal e se acusam quando fazem o mal. As culturas divergem em muita coisa, mas em nenhuma se louva a traição ao amigo. E esse senso do dever aponta para alguém diante de quem somos responsáveis.
Wesley chamou a atenção para a origem dessa luz. Nas suas notas sobre Romanos 1:19, ele diz que Deus manifestou aos gentios o que deles se pode conhecer “pela luz que ilumina a todo homem que vem ao mundo”. E num sermão sobre a consciência, aceitava que se falasse em “consciência natural”, porque ela se encontra em todas as pessoas, mas lembrava João 1:9:
[…] embora num sentido possa ser chamado natural por achar-se em todos os homens, não é, todavia, natural, propriamente falando-se, mas um dom sobrenatural de Deus acima de todos os seus dotes naturais. Não, não é a natureza, mas o Filho de Deus que é “a verdadeira luz que alumia a todo homem que vem ao mundo”.
(John Wesley, Sobre a consciência, I.5, em Coletânea da teologia de João Wesley)
A consciência pode ser mal formada pela educação e pelo costume, e pode até ser endurecida, como a dos mentirosos que “têm a sua própria consciência cauterizada” (1 Timóteo 4:2). Mesmo assim, ela continua sendo uma testemunha de Deus dentro de cada pessoa.
A História e a Providência
O terceiro meio é a história. Deus “faz seu sol sair sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Ele “muda os tempos e as estações; ele tira os reis, e confirma os reis” (Daniel 2:21). Na queda de impérios orgulhosos, na preservação de um povo, no cuidado com que Deus sustenta a vida, quem tem olhos pode ver, ainda que vagamente, a mão de Deus agindo. Calvino observava que Deus mostra na história tanto a sua bondade para com todos quanto a sua severidade contra os maus. E, quando muitos pecados ficam sem castigo nesta vida, isso aponta para um juízo futuro (Institutas, I.5.7).
Aqui, porém, é preciso cuidado. A história é o meio mais ambíguo da revelação geral. Os justos às vezes sofrem e os maus prosperam, como sabia o salmista que confessou: “eu tinha inveja dos arrogantes, quando via a prosperidade dos perversos” (Salmos 73:3). Ler a vontade de Deus nos acontecimentos, sem a luz da Escritura, é arriscado, e muita gente já tomou por sinal de Deus o que era apenas o próprio desejo. O assunto volta nos capítulos 18 e 19, sobre a providência.
O que a Criação Mostra sobre Deus
Voltemos à pergunta do começo. Se não tivéssemos a Bíblia, o que poderíamos saber sobre Deus olhando apenas para o que ele fez?
Deus Existe
Deus existe? Creio que sim. Mas não acredito que alguém consiga prová-lo de modo conclusivo, como se prova um teorema. Há duas razões principais para crer. A primeira é a experiência: a minha e a de inúmeras pessoas, ao longo dos séculos, para quem um Deus que se importa com elas e age na vida delas é a melhor explicação para o que viveram. A segunda é que crer em Deus faz mais sentido do que a alternativa. Não consigo aceitar que este universo, com o planeta em que vivemos, a própria vida e a nossa capacidade de pensar, seja apenas o produto do acaso. Pessoas muito inteligentes aceitam isso sem dificuldade, mas eu não consigo.
As Provas da Existência de Deus
Se não é possível provar que Deus existe, por que falar de provas? Porque, ao longo dos séculos, muitos pensadores tentaram mostrar, por argumentos, que a fé em Deus é racional. Essas “provas” não convencem todo mundo, mas podem remover obstáculos para quem pensa que crer em Deus é coisa de quem não pensa. O capítulo 13 tratará delas com mais vagar.
O Argumento Cosmológico
O argumento cosmológico parte da existência do mundo. Há várias formas dele, todas centradas na causa ou na mudança. Uma das mais conhecidas é o argumento kalam, que vem dos teólogos medievais e assume esta forma:
- Tudo o que começa a existir tem uma causa.
- O universo começou a existir.
- Portanto, o universo tem uma causa.
Se as duas premissas forem verdadeiras, a conclusão também é. Há quem conteste uma delas ou as duas, mas as objeções costumam me parecer mais frágeis do que o argumento.
O Argumento Teleológico
O argumento teleológico, ou argumento do projeto, vem da palavra grega telos, “finalidade”. O universo e a vida parecem ajustados com tanta precisão que dificilmente seriam um acidente. Há quem responda que talvez existam infinitos universos e o nosso apenas tenha ganhado o prêmio de abrigar a vida. Essa resposta, no entanto, exige mais fé do que a que pretende evitar.
O Argumento Ontológico
O argumento ontológico foi formulado por Anselmo de Cantuária no século 11. Deus é, por definição, aquilo de que não se pode pensar nada maior. Ora, o que existe de fato é maior do que o que existe só no pensamento. Logo, Deus existe de fato. É o mais difícil de acompanhar, e muitos teólogos cristãos nunca se convenceram dele.
O Argumento Moral
Parece estar enraizado na humanidade um senso de certo e errado e de justiça, e até uma disposição para o sacrifício pelos outros. De onde vem essa moralidade? É só um traço que a evolução nos deixou? Um produto da cultura? Ou vem de um Legislador moral? As duas primeiras respostas têm dificuldade para explicar por que nos sentimos obrigados, e não apenas inclinados, a fazer o bem.
O Argumento da Religião
Em todos os tempos e lugares em que se encontraram seres humanos, encontrou-se algum vestígio de religião, algum reconhecimento de algo maior do que nós. Seria coincidência demais, a não ser que o Criador tenha posto em nós o desejo de conhecê-lo. Calvino abriu as Institutas com esse fato:
Afirmamos, como coisa que não se pode contestar, que a mente humana, até por instinto natural, possui algum senso da divindade. Pois, para que ninguém se abrigasse sob o pretexto da ignorância, Deus deu a todos alguma noção da sua existência, cuja lembrança ele renova com frequência e sem que percebam.
(João Calvino, Institutas, I.3.1, tradução nossa)
O que as Provas Conseguem Fazer
Nenhum desses argumentos tem a força de uma demonstração matemática, e nenhum produz a fé que salva, cujo objeto é o Deus que é “recompensador dos que o buscam” (Hebreus 11:6). Mesmo assim, eles mostram que a fé não é irracional. É o que o site discute também em “Por que cremos em Deus?”.
Os Atributos que a Criação Revela
O que, então, alguém poderia saber sobre Deus a partir da revelação geral? Há atributos que se podem perceber a partir do que vemos na criação, e outros que são apenas prováveis.
Poderoso
É preciso poder para produzir alguma coisa, e quanto maior a obra, maior o poder necessário. Produzir algo do tamanho da lua está muito além da nossa capacidade, e é difícil imaginar o poder necessário para trazer à existência um universo e mantê-lo funcionando. Parece seguro dizer que o Criador não tem igual em poder e é capaz de fazer o que quiser. Paulo fala exatamente do “seu eterno poder” (Romanos 1:20).
Transcendente
Espaço e tempo são limites que conhecemos bem. Tudo neste universo ocupa um lugar de cada vez, e tudo o que conhecemos atravessa o tempo numa só direção, para a frente. Mas o Criador é distinto da sua criação, independente dela e não limitado por ela. O termo para isso é transcendência.
Daí se seguem duas coisas prováveis. Quem não está limitado pelo espaço pode estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo, e quem não está limitado pelo tempo pode estar presente em todos os momentos. Admito que isso é difícil de visualizar. Mas é razoável supor que o autor do espaço e do tempo não seja prisioneiro deles. O capítulo 15 tratará da transcendência e da imanência de Deus.
Sábio
Quanto mais complexa e elegante uma obra, mais inteligência é necessária para produzi-la. Conseguimos pensar em algo mais complexo ou mais elegante do que o universo? Haveria nele alguma coisa que o seu Criador não conhecesse? Se ele é inteligente a ponto de criar o mundo e está presente em todo lugar e em todo tempo, é razoável pensar que conhece tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá. Seria onisciente.
Bom
Paulo disse aos habitantes de Listra que Deus dá testemunho de si “fazendo o bem desde o céu”, com a chuva, as colheitas, o alimento e a alegria (Atos 14:17). O Criador não fez um mundo apenas funcional. Fez um mundo com cores, sabores, música e amizade, coisas sem as quais poderíamos sobreviver e que, no entanto, ele nos deu. Isso diz alguma coisa sobre o seu caráter.
Justo
A consciência também fala de Deus. Paulo diz que os gentios conhecem “o juízo de Deus” (Romanos 1:32) e que os pensamentos deles ora os acusam, ora os defendem (Romanos 2:15). O senso de que o mal merece castigo e de que o bem deve prevalecer aponta para um Deus justo, diante de quem prestaremos contas.
Capaz de Agir no Mundo
Grande parte da argumentação contra os milagres supõe que não há Criador. Mas, se existe um Criador, a própria criação já é um milagre, e não há razão para supor que ele seja incapaz de agir no mundo que fez. Ele pode escolher não fazer milagres, mas isso é diferente de não poder fazê-los. Se houver Criador, os milagres não deveriam surpreender ninguém.
Com um Propósito
Embora não haja certeza aqui, parece provável que o Criador tenha tido uma razão para fazer um universo favorável à vida. E, se esse propósito incluía seres capazes de pensar, é razoável supor que ele queira que essas criaturas tenham alguma noção dele e da razão de existirem. Agostinho expressou isso numa frase famosa: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti” (Confissões, I.1).
Os Limites da Revelação Geral
A revelação geral é real, mas tem limites. Eles são de três tipos.
O que Ela Não Diz
O primeiro limite está no conteúdo. A criação mostra o poder de Deus, mas não mostra a cruz. A consciência acusa, mas não absolve. Olhando para o céu estrelado, ninguém descobre que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, que o Filho se fez carne, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou, nem que Deus perdoa quem se arrepende e crê. A revelação geral pode levar alguém a perguntar como se aproximar de um Deus santo, mas não pode responder, porque a resposta é um nome. “Pois já que, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria, Deus se agradou de salvar os que creem por meio da loucura da pregação” (1 Coríntios 1:21).
O Problema Está em Nós
O segundo limite está na recepção. A dificuldade não está em Deus ter falado pouco na criação, mas em nós ouvirmos mal. Romanos 1 diz que os homens “bloqueiam a verdade” e que “Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura mais do que ao Criador” (Romanos 1:25). A história das religiões confirma esse diagnóstico. Ela está cheia de anseio por Deus e cheia de ídolos.
Calvino observou que a maioria de nós se contenta em admirar as obras e esquece quem as fez, e que, quando alguém chega a pensar em Deus, logo mistura essa ideia com as próprias fantasias (Institutas, I.5.11). Por isso ele dizia que precisamos da Escritura:
Assim como os velhos, ou os que têm a vista fraca, diante do mais belo livro, embora percebam que há alguma coisa escrita, mal conseguem ler duas palavras seguidas, mas, com o auxílio de óculos, começam a ler com clareza, assim a Escritura, reunindo em nossa mente as noções confusas da divindade, dissipa a escuridão e nos mostra com clareza o Deus verdadeiro.
(João Calvino, Institutas, I.6.1, tradução nossa)
A imagem é boa justamente porque não despreza o livro da criação. O livro é belo e está escrito. O defeito está nos olhos de quem lê.
Ela Não Salva
O terceiro limite está na eficácia. A revelação geral torna o ser humano responsável, mas não o salva. “E em nenhum outro há salvação; porque nenhum outro nome há abaixo do céu, dado entre os seres humanos, em quem devemos ser salvos” (Atos 4:12). E esse nome não está escrito nas estrelas. Paulo pergunta: “como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, sem haver quem pregue?” (Romanos 10:14). E conclui: “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17).
A revelação geral não abre um segundo caminho de salvação, paralelo ao evangelho. Ela mostra que todos precisam do único caminho.
A Revelação Geral na História da Igreja
Os Pais da Igreja
Os primeiros cristãos tinham de explicar a sua fé a um mundo pagão que já tinha filósofos, poetas e templos. Justino Mártir, no século 2, ensinou que o Verbo de Deus tinha semeado em todos os povos “sementes” de verdade, de modo que tudo o que de verdadeiro foi dito pelos filósofos, no fundo, pertence aos cristãos. Tertuliano falou do testemunho da alma, que, nos momentos de aperto, clama espontaneamente a Deus. E Agostinho, como vimos, descreveu a inquietação do coração humano, que só descansa em Deus. Mas os mesmos escritores denunciavam a idolatria dos pagãos, porque viam que o conhecimento natural de Deus vinha sempre misturado com erros.
Tomás de Aquino e a Teologia Natural
Na Idade Média, Tomás de Aquino deu à teologia natural a forma clássica, com as suas “cinco vias” para demonstrar a existência de Deus. Ele distinguia as verdades que a razão pode alcançar, como a existência de Deus, das que só a revelação dá a conhecer, como a Trindade. Mas reconhecia que a verdade sobre Deus investigada só pela razão chegaria a poucos, depois de muito tempo e com mistura de erros. A Igreja Católica Romana seguiu esse caminho e, no Concílio Vaticano I (1870), definiu que Deus pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas.
Os Reformadores
Os reformadores afirmaram a revelação geral com vigor, mas foram mais pessimistas quanto ao que o ser humano caído consegue fazer com ela. Calvino falava de um “senso da divindade” e de uma “semente da religião” em todos, e chamava o mundo de teatro da glória de Deus. Mas insistia em que, por causa do pecado, esse conhecimento é sufocado antes de dar fruto, e que o seu alcance maior é deixar o ser humano sem desculpa (Institutas, I.5.14).
A Confissão Belga (1561) diz que conhecemos a Deus por dois meios. O primeiro é a criação, conservação e governo do mundo, que está diante dos nossos olhos como um belíssimo livro, em que as criaturas são como letras que nos levam a contemplar as coisas invisíveis de Deus. O segundo, mais claro e completo, é a sua santa Palavra (art. 2). Daí vem a imagem dos “dois livros” de Deus, a natureza e a Escritura.
Armínio e Wesley
Armínio, que foi ministro sob a Confissão Belga, acompanhou essa tradição. Numa das orações que proferiu em Leiden sobre o objeto da teologia, depois de citar Atos 17 e Atos 14, ele escreveu:
Sendo respaldado por essas frases verdadeiras, eu me arrisco a afirmar que nada pode ser visto ou verdadeiramente conhecido, em qualquer objeto, exceto se nele tivermos visto e conhecido o próprio Deus.
(Jacó Armínio, O objeto da teologia, em As obras de Armínio, vol. 1)
Logo em seguida, ele lembra que todas as criaturas proclamam ter recebido a existência de outro, e que o firmamento “soa como uma trombeta” anunciando a obra das mãos de Deus. Mas Armínio também insistia em que o conhecimento de Deus que salva vem pela Palavra, que nos apresenta Cristo.
Wesley publicou um compêndio de ciências naturais, A Survey of the Wisdom of God in the Creation (1763), para mostrar a sabedoria, o poder e a bondade de Deus nas suas obras. Mas desconfiava das provas metafísicas e ensinava que o conhecimento mais importante de Deus vem pela Palavra e pelo testemunho do Espírito.
Barth e Brunner
No século 20, a questão voltou com força. Em 1934, o teólogo suíço Emil Brunner publicou Natureza e graça, defendendo que permanece no ser humano um “ponto de contato” para a revelação de Deus. Karl Barth respondeu com um opúsculo de título curto: Nein!, isto é, “Não!”. Para Barth, não existe revelação de Deus fora de Cristo, e o Espírito Santo não precisa de outro ponto de contato além do que ele mesmo cria.
Era o tempo em que muitos cristãos alemães viam a mão de Deus na ascensão de Hitler, e Barth temia esse tipo de idolatria. A advertência tem valor, mas a sua negação da revelação geral não faz justiça ao Salmo 19 nem a Romanos 1. Os céus não estão mudos.
Para que Serve a Revelação Geral?
Para Deixar sem Desculpa
Todos os protestantes concordam num ponto: a revelação geral é universal, não basta para salvar e basta para deixar o ser humano sem desculpa. É o que Paulo diz com todas as letras em Romanos 1:20. Ninguém poderá dizer no juízo que nunca teve notícia de Deus.
Para Levar a Buscar a Deus
A divergência aparece quando se pergunta se esse é o único propósito da revelação geral, e que relação ela tem com a graça.
A tradição reformada, seguindo Calvino, tende a ver no testemunho da criação sobretudo uma luz que deixa o pecador inescusável. Teólogos reformados posteriores, como Abraham Kuyper e Herman Bavinck, desenvolveram a doutrina da “graça comum”: Deus, por bondade, refreia o pecado, concede bens a todos e preserva na humanidade alguma luz moral e intelectual. Essa graça, porém, é distinta da graça salvadora, que é dada somente aos eleitos.
A tradição arminiana e wesleyana entende que a luz dada a todos também tem a intenção de atrair. Ela lembra que, em Atenas, Paulo disse que Deus agiu “Para que buscassem ao Senhor” (Atos 17:27). Armínio ensinava que Deus, mesmo onde Cristo não era conhecido, revelou algo do seu poder e da sua bondade e conservou a lei escrita nas mentes, e que, se os homens tivessem usado bem essas bênçãos, teriam recebido graça ainda maior, segundo a palavra de Jesus: “a quem tem, lhe será dado” (Mateus 13:12). Wesley, como vimos, via na consciência a luz de Cristo que ilumina todo ser humano.
Minha Própria Visão
A posição deste site é a segunda. A revelação geral deixa sem desculpa quem a rejeita, mas a sua intenção é levar a buscar a Deus. E, como o ser humano caído não percebe por si mesmo nem essa luz, todo conhecimento verdadeiro de Deus fora da Escritura já é obra da graça que Deus dá a todos e que pode ser recusada. Essa graça não salva sem Cristo nem dispensa a pregação do evangelho, mas prepara o coração para ouvi-lo. O assunto é tratado com mais detalhe em “Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça” e volta na Parte 7 deste livro.
E os que Nunca Ouviram o Evangelho?
Afirmamos que “em nenhum outro há salvação” (Atos 4:12) e que ninguém é salvo pelos próprios méritos, por mais fiel que tenha sido à sua consciência. Afirmamos também que Deus julgará cada pessoa segundo a luz que recebeu (Romanos 2:12-16) e que ele “não faz acepção de pessoas” (Atos 10:34). Wesley, já idoso, recusou-se a condenar sumariamente os povos que nunca ouviram falar de Cristo e disse que era muito melhor deixá-los com aquele que os fez.
Essa prudência me parece correta. Não sabemos tudo o que Deus faz onde a Palavra ainda não chegou, mas sabemos o que ele nos mandou fazer. A pergunta de Paulo, “como crerão naquele de quem não ouviram?”, não foi escrita para alimentar especulações, e sim para mandar pregadores. Longe de deixar a Igreja descansar, a revelação geral a manda ir.
Conclusão
Então, o que podemos saber sobre Deus sem a Bíblia? Podemos saber que ele existe, que é poderoso, distinto da sua criação, sábio, bom e justo, e que criou com um propósito. Os céus declaram a sua glória, a consciência dá testemunho da sua lei, e a chuva e a colheita falam da sua bondade. Nenhuma dessas coisas pode ser provada de modo conclusivo, mas todas são razoáveis, e Deus as pôs diante de todos.
A revelação geral, porém, não basta. Ela não diz o nome de Deus, não mostra a cruz e não perdoa pecados. E nós, por causa do pecado, temos a tendência de bloquear até a luz que ela nos dá. Por isso Deus não se contentou em deixar sinais na criação. Ele falou pelos profetas e, nestes últimos dias, falou por meio do seu Filho (Hebreus 1:1-2), aquele que pôde dizer: “Quem a mim tem visto, já tem visto ao Pai” (João 14:9). É dessa revelação especial que trata o próximo capítulo.
Fontes
- Agostinho. Confissões, I.1.
- Armínio, Jacó. O objeto da teologia (oração II) e Exame do panfleto de Perkins. Em As obras de Armínio, vols. 1 e 3. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Barth, Karl. Nein! Antwort an Emil Brunner (1934).
- Brunner, Emil. Natur und Gnade (1934).
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. I.3.1; I.5.1, 7, 11 e 14; I.6.1.
- Confissão Belga (1561), art. 2.
- Concílio Vaticano I. Dei Filius (1870), cap. 2.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008. Cap. 18.
- Justino Mártir. Segunda apologia, 13.
- Langston, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP.
- McGrath, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. Cap. 7.
- Tertuliano. Sobre o testemunho da alma.
- Tomás de Aquino. Suma teológica, I, q. 1, a. 1; q. 2, a. 3.
- Wesley, John. Sobre a consciência (1788) e Sobre viver sem Deus (1790). Em Coletânea da teologia de João Wesley e John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Notas explicativas sobre a Epístola aos Romanos, 1:19. A Survey of the Wisdom of God in the Creation (1763).
Teologia Sistemática, Parte 2: Revelação e Escritura. Capítulo anterior: Capítulo 7: Como nascem as doutrinas. Próximo capítulo: Capítulo 9: A revelação especial e sua preservação.
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