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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana18 de 30

Lição 18: A Trindade

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 2

Diego Gonçalves25 min de leitura4.997 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 2: A doutrina do Pai: Deus, seus decretos e suas obras; o ser humano e o pecado.

Objetivos da lição

  • Definir a doutrina da Trindade e explicar os termos com que a igreja a formulou.
  • Reunir o testemunho bíblico que levou a igreja a confessar um só Deus em três pessoas.
  • Acompanhar a formação da doutrina até os concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381) e identificar as heresias que ela recusou.
  • Estudar a defesa que Armínio fez da divindade do Filho (Declaração de Sentimentos, art. VIII) e a recepção da doutrina em Wesley e na teologia wesleyana.
  • Tirar as consequências da doutrina para a adoração, a salvação e a vida da igreja.

Introdução

Em quase toda igreja evangélica do Brasil há um domingo em que alguém desce às águas do batismo. O pastor ergue a mão, a igreja faz silêncio e se ouve a fórmula que atravessou vinte séculos: “eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Ouvimos essas palavras tantas vezes que deixamos de perceber que falam de um só nome e, no entanto, nomeiam três. Quem é batizado nesse nome entra na vida cristã confessando, ainda que não saiba explicá-lo, o mistério central da fé.

A doutrina da Trindade é, por isso, a mais cristã de todas as doutrinas sobre Deus. Ela não nasceu de uma especulação de gabinete, mas da necessidade de dizer com fidelidade quem é o Deus que se revelou em Jesus Cristo e que habita em nós pelo Espírito. Neste sentido, não se trata de um enigma aritmético, e sim da resposta da igreja à pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mateus 16:15).

Na lição 17 dissemos que a relação entre o Pai acima de nós, o Filho conosco e o Espírito em nós seria o tema desta lição. A Trindade vem antes dos decretos (lição 19) por uma razão de ordem: o primeiro decreto de Armínio é a designação do Filho como Mediador, e não se pode falar do Filho enviado sem saber quem é o Filho. A própria arquitetura deste curso, que segue Wiley, Pope e Watson na divisão entre doutrina do Pai, do Filho e do Espírito, repousa sobre ela.

1. Os termos da doutrina

1.1 Definição

A doutrina da Trindade afirma que há um só Deus verdadeiro, que subsiste eternamente em três pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, iguais em essência, poder e glória. Três afirmações a compõem: há um só Deus; o Pai, o Filho e o Espírito são, cada um, plenamente Deus; os três são distintos entre si. Quem nega a primeira cai no triteísmo; quem nega a segunda, no arianismo ou no adocionismo; quem nega a terceira, no modalismo.

A palavra “Trindade” não está na Escritura. O grego trias aparece por volta de 180 com Teófilo de Antioquia (A Autólico, II, 15), e o latim trinitas, com Tertuliano. A igreja usou palavras que não estão na Bíblia para guardar o sentido do que está nela, e Armínio, embora aceitasse os termos recebidos, declarou não se alegrar “em inventar novas frases” neste artigo (Apologia, art. XXI).

1.2 Essência e pessoa

A essência (grego ousia, latim essentia ou substantia) é aquilo que Deus é, a natureza divina com todos os atributos da lição 16. Ela é uma só e não se divide, porque Deus é simples: o Pai não tem um terço da divindade, mas toda ela, e o mesmo vale para o Filho e para o Espírito. A pessoa (grego hypostasis, latim persona) designa cada um dos três que possuem essa essência de modo próprio e incomunicável.

McGrath lembra que persona designava a máscara do ator e sugere que Tertuliano pensasse em três “papéis” de um só Deus no drama da redenção (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 10). A leitura é discutida, e Armínio afastou esse sentido de modo expresso: a pessoa não é “um personagem [aparecendo com uma máscara]”, mas “uma subsistência não dividida e incomunicável, de uma natureza que é viva, inteligente, disposta, poderosa e ativa” (Disputas públicas, V, 2, em As obras de Armínio, vol. 1). Também não se deve projetar sobre Deus a noção moderna de indivíduo isolado, que levaria a três deuses. A pessoa divina se define pela relação: o Pai é Pai do Filho, o Filho é Filho do Pai, o Espírito é o Espírito do Pai e do Filho.

1.3 Consubstancial, geração e processão

O termo decisivo de Niceia foi homoousios, consubstancial, “da mesma essência”: o Filho é Deus no mesmo sentido em que o Pai é Deus. Os semiarianos propuseram homoiousios, “de essência semelhante”, e a diferença de uma letra separava o Deus verdadeiro de uma criatura muito parecida com ele. Armínio explicou a recusa: quanto à essência, as coisas se comparam “não à similitude ou à dissimilitude, mas à igualdade ou à desigualdade” (Disputas públicas, V, 16).

As pessoas se distinguem pelas relações de origem. O Pai não procede de ninguém; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito procede do Pai e, segundo a tradição ocidental, também do Filho. A geração não é acontecimento no tempo nem criação, mas comunicação eterna da mesma essência; em que a processão difere dela a Escritura não diz.

1.4 Pericórese, economia e apropriação

A pericórese (perichōrēsis) é a habitação mútua das pessoas, que estão umas nas outras sem se confundir: “eu estou no Pai, e o Pai está em mim” (João 14:11). A economia (oikonomia, “administração de uma casa”) é o modo como Deus age na criação e na redenção, e por isso se distingue a Trindade econômica, revelada na história, da Trindade imanente, Deus em si mesmo. A apropriação atribui certas obras a uma pessoa (a criação ao Pai, a redenção ao Filho, a santificação ao Espírito), sem esquecer que as obras de Deus para fora são indivisas (opera Trinitatis ad extra sunt indivisa).

2. A fundamentação bíblica

2.1 O Deus único de Israel

A doutrina da Trindade começa pelo monoteísmo, e não contra ele. O Šemaʿ declara: “Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é” (Deuteronômio 6:4). O hebraico ʾeḥād afirma a unicidade do Senhor diante dos deuses das nações, e não convém fazer dele prova direta da pluralidade de pessoas. Langston observa que o Antigo Testamento acentua a unidade de Deus porque Israel vivia cercado de nações politeístas (Esboço de teologia sistemática, 2.5).

2.2 Indícios no Antigo Testamento

Wesley via a “trindade na unidade” já no plural ʾĕlōhîm ligado ao verbo singular bārāʾ de Gênesis 1:1 (Sermão 26, Sobre o Sermão do Monte, VI, III, 7), e há o plural de Gênesis 1:26: “Façamos ao ser humano à nossa imagem”. Muitos exegetas leem esses plurais como plural de majestade ou de deliberação; servem como indício, e não como prova. Mais significativos são o Anjo do Senhor, que fala como o próprio Senhor (Gênesis 16:7-13; Êxodo 3:2-6), a Sabedoria que estava com Deus antes da criação (Provérbios 8:22-31), a Palavra e o “sopro de sua boca” pelos quais os céus foram feitos (Salmos 33:6), o Espírito que pode ser entristecido (Isaías 63:10) e a voz que diz: “agora o Senhor DEUS me enviou, e seu Espírito” (Isaías 48:16). Gregório de Nazianzo explicou a reserva: o Antigo Testamento proclamou claramente o Pai e obscuramente o Filho, e o Novo manifestou o Filho e deu a entender o Espírito (Discurso 31, 26).

2.3 A divindade do Filho

No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Esta estava no princípio junto de Deus. Por esta foram feitas todas as coisas, e sem ela não se fez coisa nenhuma do que foi feito.

João 1:1-3

O prólogo contém em germe toda a doutrina: a Palavra “era” no princípio, e por isso não começou a existir; “estava junto de Deus”, e por isso é distinta do Pai; “era Deus”, e por isso partilha a mesma divindade. O evangelho termina com a confissão de Tomé, “Senhor meu, e Deus meu!” (João 20:28), e chama o Filho de “o unigênito Deus, que está no seio do Pai” (João 1:18). Paulo diz que Cristo “é sobre todos, Deus bendito eternamente” (Romanos 9:5) e que nele “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9).

O argumento mais forte, porém, está na adoração. Em Isaías 45:23 o Senhor jura que “a mim se dobrará todo joelho”; em Filipenses 2:10-11 Paulo aplica o texto a Jesus, diante de quem “se dobre todo joelho”. Em 1 Coríntios 8:6 o apóstolo reescreve o próprio Šemaʿ: “para nós há só um Deus, o Pai, do qual são todas as coisas, e nós para ele; e um só Senhor Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele”. O “um Deus” e o “um Senhor” da confissão de Israel são repartidos entre o Pai e Jesus, sem que haja dois deuses. Richard Bauckham chamou isso de “monoteísmo cristológico”, e Larry Hurtado mostrou que a devoção a Jesus como Senhor surgiu cedo, entre judeus monoteístas. Armínio, com a antiguidade ortodoxa, provava a divindade do Filho pelos nomes divinos que recebe, pelos atributos divinos que possui, pelas obras divinas que realiza e pelos textos sobre o Senhor que o Novo Testamento aplica a Cristo (Disputas públicas, V, 9-13).

2.4 A divindade e a personalidade do Espírito

Quando Ananias mentiu “ao Espírito Santo”, Pedro lhe disse que não tinha mentido “aos seres humanos, mas sim a Deus” (Atos 5:3-4). O Espírito “investiga todas as coisas” (1 Coríntios 2:10), reparte os dons “como quer” (1 Coríntios 12:11), pode ser entristecido (Efésios 4:30) e intercede por nós (Romanos 8:26). Jesus o chama de “outro Consolador” (João 14:16), e o grego allos indica outro da mesma espécie que o próprio Jesus. Armínio insistiu que o Espírito não é “uma maneira de descrever as qualidades e propriedades” de Deus, porque seria absurdo pôr uma qualidade “na mesma série com duas subsistências ou pessoas” na fórmula batismal (Disputas públicas, VI, 4 e 7).

2.5 Os textos trinitários

E tendo Jesus sido batizado, subiu logo da água. E eis que os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, dizendo: Este é o meu Filho amado, em quem me agrado.

Mateus 3:16-17

O Filho está na água, o Espírito desce, o Pai fala: não há um só ator trocando de papel. A ordem missionária manda batizar “em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19), com “nome” no singular. A bênção apostólica une “a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo” (2 Coríntios 13:14), e Pedro saúda os eleitos “segundo o pré-conhecimento de Deus Pai, por meio da santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:2). O fundamento da doutrina não está em versículos isolados, mas no padrão de toda a ação divina no Novo Testamento (McGrath, cap. 10), que Paulo resumiu numa linha: “por meio dele ambos temos acesso ao Pai por um mesmo Espírito” (Efésios 2:18).

Um texto deve ficar de fora: a frase de 1 João 5:7 sobre três que testemunham “no céu” não consta dos manuscritos gregos antigos, e a Bíblia Livre traduz apenas “Pois são três os que dão testemunho”. Wesley pregou sobre a forma longa, comum no seu tempo, mas a doutrina não depende do acréscimo.

3. Desenvolvimento histórico

3.1 As primeiras heresias

A igreja adorava Jesus como Senhor muito antes de possuir uma fórmula técnica, e Ireneu de Lyon, contra os gnósticos, ensinou que o único Deus age pelas suas “duas mãos”, o Filho e o Espírito (Contra as heresias, IV, 20, 1). As primeiras tentativas de explicar a relação entre o Deus único e o Cristo adorado produziram, porém, dois desvios. O adocionismo fez de Jesus um homem adotado como Filho, e a sua forma mais conhecida, a de Paulo de Samósata, foi condenada em Antioquia em 268. O modalismo, de Noeto, Práxeas e Sabélio, fez do Pai, do Filho e do Espírito três modos sucessivos de uma só pessoa, e daí veio o patripassianismo: se o Filho é o Pai com outro nome, foi o Pai quem sofreu na cruz. Tertuliano ironizou que Práxeas havia “posto em fuga o Paráclito e crucificado o Pai” (Contra Práxeas, 1) e, nesse tratado, formulou a linguagem que a tradição latina resumiria como “uma substância, três pessoas”.

3.2 Ário e Niceia

No início do século IV, Ário, presbítero em Alexandria, ensinou que só o Pai é Deus em sentido próprio e que o Filho é a primeira e mais excelente das criaturas; o seu lema era “houve quando ele não era”. O bispo Alexandre e o diácono Atanásio responderam que, se tudo foi feito por meio do Filho (João 1:3), o Filho não pertence à criação, e que, se o Pai é eternamente Pai, o Filho é eternamente Filho. O argumento de fundo era soteriológico: somente Deus pode salvar, e nenhuma criatura pode reconciliar com Deus outras criaturas (Atanásio, Sobre a encarnação do Verbo). O Concílio de Niceia (325) declarou o Filho “gerado, não feito, consubstancial ao Pai”. Seguiram-se mais de cinquenta anos de concílios rivais e exílios, cinco deles sofridos por Atanásio; a história está contada no texto do site Concílio de Niceia: por que ainda importa quem é Jesus.

3.3 Os capadócios e Constantinopla

Depois de Niceia, os pneumatômacos tomaram o Espírito Santo por criatura. Basílio de Cesareia respondeu com o tratado Sobre o Espírito Santo (c. 375), e ele, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa fixaram a distinção entre ousia, a essência comum, e hypostasis, a pessoa. O Concílio de Constantinopla (381) acrescentou ao credo que o Espírito é “o Senhor, que dá a vida, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Gregório de Nazianzo deixou, no discurso que pregou sobre o batismo, a frase que melhor guarda o equilíbrio da doutrina: mal pensa no Um, é iluminado pelo esplendor dos Três; mal distingue os Três, é reconduzido ao Um (Discurso 40, 41).

3.4 Agostinho e o Ocidente

Agostinho, em A Trindade (c. 400-420), partiu da unidade da essência, buscou na alma analogias como a memória, a inteligência e a vontade e apresentou o Espírito como o vínculo de amor entre o Pai e o Filho; daí veio a convicção ocidental de que o Espírito procede do Pai “e do Filho”, o Filioque, que o Concílio de Toledo (589) inseriu no credo. Os gregos viram no acréscimo uma alteração unilateral de um texto ecumênico e um risco para o princípio do Pai como fonte única da divindade, e a controvérsia contribuiu para o cisma de 1054 (McGrath, cap. 10).

3.5 A Reforma e Armínio

Os reformadores receberam os credos antigos, e Calvino dedicou à Trindade um capítulo das Institutas (I, 13); os socinianos, com o Catecismo Racoviano (1605), negaram a divindade do Filho. Miguel Serveto foi queimado em Genebra em 1553, e Wesley, que achava “muito boas” as palavras “Trindade” e “pessoa”, julgava muito duro ser queimado vivo por não usá-las, “especialmente num fogo lento, feito de lenha verde e úmida” (citado por Don Thorsen, Calvin vs. Wesley, cap. 1).

Foi nesse ambiente que Armínio enfrentou uma controvérsia que surpreende quem o conhece apenas pela fama de inimigo da ortodoxia. Calvino tinha chamado o Filho de autótheos, “Deus por si mesmo”, e Lucas Trelcatius, o Moço, levou a expressão adiante. Numa disputa em Leiden, um estudante sustentou que o Filho tem a essência divina “de si mesmo, e não do Pai”. Armínio respondeu que a palavra podia significar “aquele que é verdadeiramente Deus”, e nesse sentido se aplicava ao Filho “com grande propriedade e correção”, ou “aquele que é Deus por si mesmo”, e nesse sentido estava em desacordo com “a palavra de Deus e com toda a Igreja antiga, tanto grega como latina, a qual sempre ensinou que o Filho tem a sua divindade do Pai por geração eterna” (Declaração de Sentimentos, art. VIII; ver a tradução no site).

O argumento é rigoroso. Se o Filho tivesse a essência de si mesmo, haveria três que a possuem lado a lado, e portanto três deuses, porque a origem de uma pessoa a partir de outra é “o único fundamento de que jamais se fez uso para defender a unidade da essência divina na Trindade de pessoas”; e, como é próprio do Pai não receber a divindade de ninguém, um Filho que também não a recebesse seria o próprio Pai, o que é sabelianismo. Daí o “duplo ternário” de Armínio: ser Deus é ter a essência divina; ser o Pai é tê-la de ninguém; ser o Filho é tê-la do Pai (Declaração, art. VIII; Apologia, art. XXI). Os reformados que defendem o autótheos entendem que Calvino afirmava apenas que a essência divina não é derivada, enquanto a pessoa do Filho é gerada, e a divergência fica como divergência; no ponto em discussão, porém, Armínio estava ao lado de Niceia e dos capadócios, e o próprio Gomaro, o seu maior adversário, ensinara o mesmo (Declaração, art. VIII).

Nas Disputas públicas V e VI, Armínio expôs a doutrina completa: o Pai é “a fonte e a origem de toda a Divindade”, primeiro “não em relação ao tempo, mas à ordem”; o Filho foi gerado “desde toda a eternidade”, porque não se pode conceber “um Deus sem a sua palavra”; o Espírito procede do Pai e do Filho e é terceiro “na ordem, mas não em tempo ou grau”. E concluiu que, considerado na união interna das pessoas, o mistério ultrapassa “todo o entendimento humano e angelical”, mas, considerado na dispensação pela qual o Pai e o Filho, por meio do Espírito, “realizam a nossa salvação”, a contemplação é de “admirável doçura” (VI, 12). Nem toda a tradição remonstrante guardou esse equilíbrio: Simão Episcópio foi acusado de subordinacionismo, e alguns remonstrantes do século XVII se aproximaram dos socinianos. A teologia wesleyana não seguiu esse caminho.

3.6 Wesley e a teologia wesleyana

No Sermão 55, Sobre a Trindade (1775), Wesley distinguiu o fato do modo: cremos que Deus é três e um porque Deus o revelou, mas nada cremos sobre o modo, porque ele não o revelou, e “seria rejeitar o que Deus revelou porque não compreendo o que Ele não revelou” (§15, em Coletânea da teologia de João Wesley). A distinção não diminuía a doutrina: a Trindade “entra no próprio coração do cristianismo” e “está na raiz de toda religião vital”, porque não se pode honrar o Filho como se honra o Pai sem crer na sua divindade, nem receber o testemunho do Espírito sem crer na sua pessoa (Randy Maddox, Responsible Grace, cap. 5). Maddox observa que Wesley acentuava a distinção das pessoas, à maneira oriental, e que conservou o Filioque nos Artigos de Religião, mas o omitiu na Carta a um católico romano (1749). Os Artigos de 1784 confessam que, na unidade da divindade, “há três pessoas, de uma só substância, poder e eternidade” (art. I), e que o Espírito é “de uma só substância, majestade e glória com o Pai e o Filho, verdadeiro e eterno Deus” (art. IV).

Os sistemáticos wesleyanos guardaram esse patrimônio. Quando o comentarista metodista Adam Clarke negou a filiação eterna de Cristo, Richard Watson respondeu com as Observações sobre a filiação eterna de Cristo (1818) e defendeu, nos Theological Institutes, a geração eterna em termos próximos dos de Armínio; Pope e Wiley expuseram a Trindade como pressuposto de toda a obra redentora. Entre nós, Langston fez uma distinção útil para o ensino: Deus não se revelou “como” Pai, “como” Filho e “como” Espírito, à maneira de máscaras, mas “no” Pai, “no” Filho e “no” Espírito, “igualmente divinas, porém inteiramente distintas” (Esboço, 2.5).

3.7 Os séculos XIX e XX

Schleiermacher relegou a Trindade ao fim de A fé cristã; Karl Barth a pôs no início da dogmática, embora a sua preferência por “modos de ser” em lugar de “pessoas” tenha soado modalista aos críticos (Stanley Grenz e Roger Olson, A teologia do século 20, cap. 3). Karl Rahner ensinou que “a Trindade econômica é a Trindade imanente, e vice-versa”, e Jürgen Moltmann propôs uma doutrina social da Trindade, que Leonardo Boff desenvolveu em A Trindade, a sociedade e a libertação (1986). Essas propostas recuperaram a centralidade da doutrina; o risco de algumas é fazer Deus “constituir-se” como Trindade na história ou transformar a Trindade em modelo político, com tendência ao triteísmo.

4. A posição arminiana clássica e wesleyana

4.1 Afirmações

A teologia arminiana clássica e wesleyana confessa o Credo Niceno-Constantinopolitano com a igreja de todos os tempos. Em primeiro lugar, há um só Deus, simples e indivisível. Em segundo lugar, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um, plenamente Deus, consubstanciais e coeternos. Em terceiro lugar, as pessoas são distintas desde a eternidade, e não apenas na história, e se distinguem pelas relações de origem. Em quarto lugar, há entre elas uma ordem de origem, e não desigualdade de natureza, glória ou poder. Por fim, as obras de Deus para fora são obras de toda a Trindade. Quanto ao Filioque, conservamos a fórmula ocidental, que Armínio também ensinou, sem fazer dela motivo de divisão com os ortodoxos.

4.2 Comparação com outras tradições

Católicos, ortodoxos, luteranos e reformados partilham conosco a fé de Niceia. Vincent Cheung mostra que a fórmula “um em essência e três em pessoa” não é contraditória (Teologia sistemática, cap. 3), mas o exemplo que escolhe é revelador: as três pessoas sabem que Cristo morreria “para salvar os eleitos”. A divergência entre arminianos e calvinistas não está na doutrina da Trindade, mas aparece na sua aplicação à salvação, porque cremos que a vontade única da Trindade é que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4-6): o Pai amou o mundo, o Filho experimentou “a morte por todos” (Hebreus 2:9) e o Espírito convence o mundo do pecado (João 16:8).

Charles Finney, que usamos apenas como contraste, afirmou a Trindade, mas descreveu a expiação como um “expediente governamental” (Teologia sistemática, aula 13). Para a tradição arminiana clássica, é a Trindade que torna a cruz inteligível: na substituição penal, Deus não pune um terceiro, mas leva ele mesmo, no Filho, a pena do pecado, porque “Deus estava em Cristo reconciliando consigo ao mundo” (2 Coríntios 5:19; lição 32).

A tradição pentecostal clássica, cujo maior ramo no Brasil são as Assembleias de Deus, é firmemente trinitária. Walter Brunelli registra, porém, que nos Estados Unidos surgiu, a partir de 1913, o movimento unicista, chamado pejorativamente de “só Jesus”, que batizava apenas “em nome de Jesus” e negava a distinção das pessoas, e que as Assembleias de Deus o condenaram em 1916 (Teologia para pentecostais, vol. 4). O unicismo, presente também entre nós, é uma forma moderna de modalismo, e Brunelli responde com os textos da igreja antiga: o Filho ora ao Pai (João 17:1), e o Espírito é “outro Consolador” (vol. 2). Fora do cristianismo histórico, as Testemunhas de Jeová ensinam uma cristologia próxima da de Ário.

4.3 A Trindade e a salvação

A parte 4 deste curso trata a salvação como obra do Espírito, que aplica a obra de Cristo segundo o propósito do Pai. A graça preveniente (lição 36) não é substância infundida nem energia impessoal: Abner Hernández mostra que, para Armínio, ela é obra pessoal do Espírito Santo, que liberta a vontade perdida para que a pessoa possa crer (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius, 2017). Wesley o disse sem ambiguidade: “toda verdadeira fé e toda a obra da salvação, todo bom pensamento, toda boa obra, vem pela operação do Espírito de Deus” (Outro apelo aos homens sensatos e religiosos, I, 6). A obra da salvação é, do começo ao fim, obra do Deus trino:

Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para redimir os que estavam sob a Lei, a fim de que nós recebêssemos a adoção como filhos. E, como sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Aba, Pai!”

Gálatas 4:4-6

5. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, a doutrina governa a adoração. Oramos ao Pai, por meio do Filho, no Espírito, “para que todos honrem ao Filho, como honram ao Pai” (João 5:23), e a doxologia “glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo” é a forma mais simples de confessar a fé de Niceia.

Em segundo lugar, guarda-nos dos unitarismos práticos. Maddox mostra que Wesley, assim como combatia o “ateísmo prático”, temia uma fé que esquecesse alguma das pessoas (cap. 5). Há um unitarismo do Pai, que reduz a fé a uma moral e esquece a necessidade da graça; um unitarismo do Filho, que se contenta com o perdão e esquece a santidade; e um unitarismo do Espírito, que busca poder e experiência e esquece que o Espírito vem formar em nós a imagem de Cristo. Os três aparecem nas igrejas brasileiras, e todos nós somos tentados por algum deles.

Em terceiro lugar, ensina-nos o cuidado com as analogias. A água que é gelo, líquido e vapor ensina o modalismo; o ovo ou o trevo ensinam que cada pessoa é uma parte de Deus; três seres humanos com a mesma natureza sugerem três deuses. Armínio lembrava que a antiguidade “tentou ilustrar esse mistério” pela fonte e o seu fluxo, pelo sol e o seu raio, sem pretender explicá-lo (Disputas públicas, V, 4), e o professor de escola bíblica não precisa ter vergonha de dizer que a Trindade é um mistério revelado, e não um problema resolvido.

Em quarto lugar, a Trindade fundamenta a comunhão. Desde a eternidade o Pai ama o Filho (João 17:24), e “Deus é amor” (1 João 4:8) porque em Deus há quem ame e quem seja amado. Wesley esperava que os cristãos fossem “transcrições da Trindade” (Maddox, cap. 5), e Jesus pediu que os seus fossem um, “como tu, Pai, em mim, e eu em ti” (João 17:21).

Por fim, dá forma à missão: o Pai envia o Filho, e o Filho envia a igreja e sopra sobre ela o Espírito (João 20:21-22).

Voltemos ao batistério da igreja do bairro. Quem sobe das águas não aprendeu ali a resolver o mistério, e nenhum de nós o resolverá nesta vida. Foi, porém, recebido num nome: o do Pai que o amou antes de ele existir, o do Filho que morreu por ele e por todos, e o do Espírito que o chamou, o libertou e agora habita nele. Que o Senhor nos conceda nunca ouvir essa fórmula como costume, e que, a cada batismo, possamos dizer com Gregório que não pensamos no Um sem sermos iluminados pelos Três, nem distinguimos os Três sem sermos reconduzidos ao Um, para a glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Síntese

  1. A doutrina da Trindade afirma um só Deus que subsiste eternamente em três pessoas distintas e consubstanciais; negar a unidade leva ao triteísmo, negar a divindade das pessoas, ao arianismo, e negar a distinção, ao modalismo.
  2. A Escritura não contém a palavra, mas contém a doutrina: o monoteísmo de Israel, a inclusão de Jesus na identidade do Deus único, a divindade e a personalidade do Espírito e o padrão trinitário da ação divina.
  3. Niceia (325) e Constantinopla (381) fixaram a confissão da igreja contra Ário e os pneumatômacos, e ela é patrimônio comum de católicos, ortodoxos e protestantes.
  4. Armínio defendeu a divindade do Filho e a geração eterna com a antiguidade grega e latina e recusou o autótheos entendido como “Deus por si mesmo”, que julgava conduzir ao triteísmo ou ao sabelianismo.
  5. Wesley distinguiu o fato revelado do modo não revelado e considerou a Trindade a raiz de toda religião vital; Watson, Pope e Wiley conservaram a doutrina nicena.
  6. A salvação é, do começo ao fim, obra do Deus trino, cuja vontade alcança todos: o Pai amou o mundo, o Filho morreu por todos e o Espírito convence o mundo e liberta a vontade para crer.

Questões para revisão

  1. Quais são as três afirmações que compõem a doutrina da Trindade, e que heresia surge quando cada uma é negada?
  2. Explique os termos essência, pessoa, consubstancial, geração eterna, processão e pericórese.
  3. Como 1 Coríntios 8:6 e Filipenses 2:9-11 incluem Jesus na identidade do Deus único de Israel?
  4. Por que o modalismo e o arianismo foram rejeitados, e que argumento soteriológico Atanásio usou contra Ário?
  5. Qual era a controvérsia sobre o autótheos, e por que Armínio afirmava que o Filho tem a divindade do Pai por geração eterna?
  6. Como Wesley distinguiu o fato do modo da Trindade, e por que a considerava a “raiz de toda religião vital”?
  7. O que são os “unitarismos práticos”, e por que as analogias da água, do ovo e do trevo são inadequadas?

Bibliografia

  • AGOSTINHO. A Trindade. ATANÁSIO. Sobre a encarnação do Verbo. BASÍLIO DE CESAREIA. Sobre o Espírito Santo. GREGÓRIO DE NAZIANZO. Discursos 31 e 40. IRENEU DE LYON. Contra as heresias. TERTULIANO. Contra Práxeas.
  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Declaração de Sentimentos, art. VIII; Apologia, art. XXI; Disputas públicas V e VI).
  • BAUCKHAM, Richard. Jesus and the God of Israel. Grand Rapids: Eerdmans, 2008.
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vols. 2 e 4. Rio de Janeiro: Central Gospel.
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Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 17: Transcendência e imanência de Deus. Próxima: Lição 19: Os decretos de Deus, a presciência e a predestinação.

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