
TeologiaTeologia Sistemática1 de 45
Capítulo 1: Introdução à teologia sistemática
Teologia Sistemática, Parte 1: Prolegômenos
Neste texto
- O que é Teologia
- A Palavra e o Seu Sentido
- O Conhecimento de Deus e de Nós Mesmos
- Uma Definição
- O que Torna a Teologia Sistemática
- Algumas Definições
- A Bíblia e o Sistema
- Um Pouco de História
- A Teologia Sistemática e as Outras Disciplinas
- Teologia Exegética e Teologia Bíblica
- Teologia Histórica
- Teologia Dogmática
- Teologia Prática
- Por que Estudar Teologia
- Fontes para o Estudo da Teologia
- Escritura
- A Revelação na Natureza
- Tradição
- Razão
- Experiência
- O Espírito Santo
- Como Fazer Teologia
- Seja Completo
- Deixe a Escritura Interpretar a Escritura
- Separe Conteúdo de Contexto
- Atualize o Contexto
- Garanta Coerência
- Reconheça os Limites
- Um Aviso
- A Estrutura deste Livro
- Este Livro
- Fontes
Teologia significa “conversa sobre Deus”; na verdade, é o estudo de Deus e de tudo o que se relaciona com ele. Todos os cristãos falam sobre Deus, o que faz de todos nós teólogos. Mas o que é a teologia sistemática, como ela se faz e como se relaciona com as outras formas de estudar a fé?
O que é Teologia
A Palavra e o Seu Sentido
A palavra “teologia” vem do grego e junta theos, que quer dizer Deus, e logos, que quer dizer palavra, discurso ou razão. Teologia é, portanto, falar de Deus com alguma ordem. Jacó Armínio, quando assumiu a cadeira de teologia em Leiden, em 1603, começou justamente por aí:
Mas o próprio Deus é o objeto da Teologia. A própria palavra indica isso: pois Teologia significa discurso ou argumentação a respeito de Deus.
(Jacó Armínio, Oração sobre o objeto da teologia, em As obras de Armínio, vol. 1)
Se todos os cristãos falam de Deus, todos são teólogos. Claro, isso não significa que somos bons teólogos. Ser um bom teólogo exige estudo e esforço, uma tarefa que muitos não estão dispostos a realizar. Mas é uma tarefa que vale a pena. Quanto melhor conheço a Deus e o que ele está fazendo na criação, inclusive o que está fazendo em mim, mais bem posso servi-lo.
A palavra “teologia” não aparece na Bíblia, mas aquilo que ela designa aparece em toda parte. Em Jeremias 9:23-24, Deus diz que o sábio não deve se orgulhar da sua sabedoria, nem o rico das suas riquezas. Quem quiser se orgulhar, que se orgulhe “em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço bondade, juízo, e justiça na terra”. E Jesus, orando pelos seus discípulos, disse: “E esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem tens enviado” (João 17:3). Conhecer a Deus é a própria vida eterna.
Esse conhecimento, porém, não é só informação. O verbo hebraico yada’, conhecer, é o mesmo que se usa para a intimidade entre marido e mulher. Conhecer a Deus, na Bíblia, é conviver com ele, confiar nele e obedecer-lhe. Paulo descreve o seu ministério como serviço “segundo a fé dos escolhidos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a devoção divina” (Tito 1:1). A palavra traduzida por “devoção divina” é eusebeia, a piedade, a reverência devida a Deus. A verdade que Deus revela tem uma direção: ela existe para produzir piedade.
O Conhecimento de Deus e de Nós Mesmos
João Calvino abre as Institutas da Religião Cristã com uma frase que se tornou clássica:
A verdadeira e sólida sabedoria consiste principalmente em duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Mas, embora essas duas partes estejam tão intimamente ligadas, não é fácil descobrir qual delas vem primeiro e produz a outra.
(João Calvino, Institutas, I.1.1, tradução nossa)
Calvino observa que ninguém pode olhar para si mesmo sem ser levado a pensar em Deus, porque tudo o que temos vem dele. E ninguém conhece a si mesmo de verdade sem antes contemplar a Deus, porque só diante da santidade dele percebemos a nossa miséria. Logo depois, ele acrescenta que não se pode dizer com propriedade que há conhecimento de Deus onde não há religião nem piedade (Institutas, I.2.1). Um conhecimento de Deus que não leva à adoração e à obediência fica pela metade.
A igreja antiga já pensava assim. Evágrio Pôntico, no século 4, dizia que o teólogo é aquele que ora de verdade, e que quem ora de verdade é teólogo. Agostinho e, depois dele, Anselmo de Cantuária descreveram a teologia como a fé que busca entendimento. O ponto de partida é a fé, e não a dúvida. Cremos em Deus e, porque cremos, queremos entender melhor aquilo em que cremos.
Uma Definição
Muitas definições foram propostas ao longo dos séculos. A de Armínio, nos debates que preparou para os seus alunos em Leiden, junta bem o que vimos até aqui:
Teologia pode ser definida como a doutrina ou ciência da verdade que é segundo a piedade, que Deus revelou ao homem, a fim de que este possa conhecer ao Senhor e as coisas divinas; possa crer nele e possa, pela fé, realizar para ele atos de amor, temor, honra, adoração e obediência, e obter dele bem-aventurança, pela união com o Senhor, para a glória divina.
(Jacó Armínio, Debates privados, I.3, em As obras de Armínio, vol. 2)
Há três coisas nessa definição que valem para todo este livro. A primeira é que a teologia depende da revelação: ela trata do que Deus revelou, e não do que imaginamos sobre ele. A segunda é que ela tem um fim prático: conhecer a Deus, crer nele, amá-lo e obedecer-lhe. A terceira é que esse fim é a comunhão com Deus, para a glória dele.
Os teólogos protestantes do século 17 acrescentaram uma distinção útil. Só Deus conhece a si mesmo de modo perfeito, e esse conhecimento eles chamaram de teologia arquetípica, a original. O que nós temos é uma cópia, uma teologia ectípica, verdadeira, porque vem de Deus, mas limitada, porque é recebida por criaturas. Por isso também a chamaram de “teologia dos peregrinos”, de quem ainda está a caminho. Paulo diz o mesmo de modo mais simples: “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei assim como sou conhecido” (1 Coríntios 13:12).
O que Torna a Teologia Sistemática
A teologia sistemática é um ramo específico da teologia que examina todas as doutrinas da igreja e as organiza de modo que se encaixem em harmonia. A palavra “sistemática” vem do grego synistēmi, que significa pôr junto, organizar. Um sistema é um todo formado de partes que se ligam umas às outras.
Por que isso é necessário? Porque as doutrinas cristãs dependem umas das outras. Quem e o que entendemos que Deus é afetará praticamente todas as outras doutrinas que temos. O que entendemos sobre o pecado vai determinar o que cremos sobre a obra de Cristo e sobre a salvação. Entender bem uma doutrina exige entender melhor muitas outras. A teologia sistemática estuda as principais doutrinas numa estrutura que as une num todo coeso e coerente.
Algumas Definições
Paul Enns, no Manual Moody de Teologia, reúne três definições que mostram as escolhas envolvidas. Lewis Sperry Chafer definia a teologia sistemática como a tarefa de reunir, organizar, comparar, expor e defender todos os fatos, “de toda e qualquer fonte”, a respeito de Deus e das suas obras. Charles Hodge preferia restringir a teologia aos fatos da revelação divina, e acrescentava que todos eles estão na Bíblia. Millard Erickson, por sua vez, a descreve como a disciplina que procura dar uma exposição coerente das doutrinas da fé cristã, baseada principalmente nas Escrituras, situada no contexto da cultura, expressa numa linguagem atual e relacionada com as questões da vida.
A diferença entre Chafer e Hodge está nas fontes. Para um, a teologia pode recolher informação de qualquer lugar; para o outro, só a Escritura fornece o material. Minha própria visão fica entre os dois. A Escritura é a única norma da teologia, aquilo que decide. Mas lemos a Escritura com a ajuda de outras coisas: o que a igreja aprendeu ao longo dos séculos, a razão que Deus nos deu e a experiência cristã. Voltaremos a isso quando tratarmos das fontes.
A Bíblia e o Sistema
Alguns cristãos desconfiam da teologia sistemática. Eles pensam que organizar a Bíblia em tópicos é impor a ela uma ordem que não é dela. A preocupação é legítima, porque é possível montar um sistema e depois usar a Bíblia só para enfeitá-lo. Mas a própria Escritura nos convida a reunir o seu ensino. No caminho de Emaús, Jesus, “começando de Moisés, e por todos os profetas, lhes declarava em todas as Escrituras o que estava escrito sobre ele” (Lucas 24:27). Ele reuniu o que toda a Escritura dizia sobre um tema. Paulo lembrou aos presbíteros de Éfeso: “Porque eu não deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus” (Atos 20:27). E mandou Timóteo guardar um padrão de ensino: “Preserva o exemplo das sãs palavras que tens ouvido de mim” (2 Timóteo 1:13). A palavra traduzida por “exemplo” é hypotypōsis, um esboço, um modelo.
A Bíblia não foi escrita na forma de um esboço doutrinário. É uma coleção de livros, escritos ao longo de muitos séculos, com história, poesia, lei, profecia e cartas. Mas a mensagem desses livros é uma só, porque um só Deus fala por eles. John Wesley, que se dizia “homem de um só livro”, escreveu no prefácio das suas notas sobre o Novo Testamento:
A Escritura do Antigo e do Novo Testamento é, portanto, um sistema sólido e precioso de verdade divina. Cada parte dela é digna de Deus, e todas juntas formam um só corpo, no qual não há falta nem excesso.
(John Wesley, Notas explicativas sobre o Novo Testamento, prefácio, 10, tradução nossa)
Se a Escritura é um só corpo, faz sentido estudar como as suas partes se ligam. A teologia sistemática não acrescenta uma unidade que a Bíblia não tem; ela procura mostrar a unidade que já está lá.
Um Pouco de História
Os primeiros cristãos já resumiam a fé em pequenas fórmulas, como a “regra de fé” citada por Ireneu e Tertuliano, que deram origem ao Credo dos Apóstolos. Na Idade Média, Pedro Lombardo reuniu nas Sentenças o ensino dos Pais sobre cada tema, e Tomás de Aquino escreveu a Suma teológica.
Na Reforma, Filipe Melanchthon publicou em 1521 os Lugares comuns (Loci communes), a primeira teologia protestante organizada por temas. A palavra latina loci, lugares, deu nome ao método: cada doutrina é um “lugar” onde se reúne o que a Escritura ensina sobre ela. Calvino escreveu as Institutas, que cresceram de um pequeno livro em 1536 até a edição final de 1559. No prefácio dessa última edição, ele explicou para que serviam:
Meu propósito nesta obra foi preparar e instruir os estudantes de teologia para a leitura da palavra divina, para que tenham fácil acesso a ela. Penso ter oferecido um resumo e uma disposição tão ordenada de todas as partes da religião que ninguém terá dificuldade em saber o que buscar principalmente na Escritura, e a que fim referir tudo o que ela contém.
(João Calvino, Institutas, “Ao leitor”, 1559, tradução nossa)
Essa é uma boa descrição do lugar da teologia sistemática. Ela não substitui a Bíblia, mas prepara o leitor para lê-la melhor, mostrando onde cada parte se encaixa no todo.
A Teologia Sistemática e as Outras Disciplinas
O estudo da teologia costuma ser dividido em quatro áreas: a teologia exegética, a histórica, a sistemática e a prática. A teologia sistemática não trabalha sozinha. Ela depende das outras e as serve, e a melhor maneira de entendê-la é ver como se relaciona com cada uma.
Teologia Exegética e Teologia Bíblica
Exegese vem do grego exēgeomai, explicar, e é o estudo cuidadoso de um texto bíblico: as palavras, a gramática, o contexto histórico e literário. Lutero chegou a dizer que a teologia não é outra coisa senão a gramática da língua do Espírito Santo. Não há boa teologia sem a leitura atenta do texto.
A teologia bíblica dá um passo além da exegese. Ela reúne o ensino de um livro, de um autor ou de um período da história bíblica. Fala-se, por exemplo, da teologia de Paulo, da teologia de João ou da teologia dos profetas.
Qual a diferença entre a teologia bíblica e a sistemática? Enns aponta algumas. A teologia bíblica vem antes: a exegese leva à teologia bíblica, e a teologia bíblica leva à sistemática. A teologia bíblica pergunta o que os autores bíblicos disseram; a sistemática pergunta também como isso se liga ao resto e por que é verdadeiro. A teologia bíblica olha para um autor ou para um período; a sistemática reúne tudo o que a Escritura diz sobre uma doutrina. Geerhardus Vos resumiu a diferença numa imagem: a teologia bíblica desenha uma linha de desenvolvimento, e a teologia sistemática desenha um círculo. As duas estão igualmente presas à Escritura. Muda o princípio de organização, que numa é histórico e na outra é lógico.
As duas precisam uma da outra. Sem a linha, o círculo se fecha sobre versículos tirados do lugar, como quem monta uma doutrina com frases soltas de livros diferentes, sem perguntar o que cada uma queria dizer. Sem o círculo, a linha nunca chega a dizer à igreja, de modo ordenado, o que ela deve crer sobre Deus, sobre Cristo ou sobre a salvação.
Teologia Histórica
A teologia histórica estuda como a igreja entendeu e formulou a sua fé ao longo dos séculos. Ela acompanha, por exemplo, os debates sobre a pessoa de Cristo que levaram aos concílios de Niceia, em 325, e de Calcedônia, em 451. Mostra como a doutrina da justificação pela fé foi redescoberta na Reforma.
A teologia sistemática precisa da histórica por duas razões. A primeira é que ninguém lê a Bíblia do zero. A doutrina da Trindade, tal como a confessamos hoje, chegou até nós pelo trabalho de muitas gerações que leram a Escritura antes de nós. A segunda é que a história nos protege da ilusão de que as perguntas começaram ontem. Quase todos os erros que aparecem hoje já apareceram antes, e a igreja já pensou sobre eles.
Wesley descreveu assim o seu próprio jeito de estudar, e a descrição mostra bem como a Escritura e a tradição trabalham juntas:
Procuro então as passagens paralelas da Escritura, “comparando as coisas espirituais com as espirituais”, e medito nelas com toda a atenção e seriedade de que minha mente é capaz. Se ainda resta alguma dúvida, consulto os que têm experiência nas coisas de Deus, e depois os escritos pelos quais, mesmo mortos, eles ainda falam. E o que assim aprendo, isso ensino.
(John Wesley, Sermões, prefácio, 5, tradução nossa)
Primeiro a Escritura, comparada consigo mesma. Depois os irmãos vivos e os mortos, que nos ajudam a entender. É assim que a teologia histórica serve à sistemática.
Teologia Dogmática
A palavra “dogma” vem do grego e significa decisão ou decreto. No Novo Testamento, ela é usada para o decreto de César Augusto (Lucas 2:1) e para as decisões do concílio de Jerusalém (Atos 16:4), que os apóstolos apresentaram assim: “Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (Atos 15:28). Na teologia, a palavra passou a indicar a doutrina confessada oficialmente por uma igreja.
A teologia dogmática, então, expõe a doutrina tal como uma igreja ou tradição a confessa. Alguns autores usam “dogmática” e “sistemática” como sinônimos. Outros reservam “dogmática” para a exposição de uma confissão específica, como a luterana, a reformada ou a metodista. Para os protestantes, de todo modo, a autoridade final da dogmática não é a igreja, mas a Escritura. As confissões são valiosas, mas estão abaixo da Bíblia e são corrigidas por ela.
Teologia Prática
A teologia prática trata da vida e da missão da igreja: a pregação, o culto, o cuidado pastoral, a educação cristã e a evangelização. Ela pergunta como aquilo que cremos deve se mostrar no que fazemos.
Seria um erro pensar na teologia sistemática como teoria e na prática como aplicação, como se uma fosse para os estudiosos e a outra para os pastores. Armínio dizia que a teologia não é uma ciência teórica, mas prática, porque exige a ação do ser humano por inteiro, e não só o assentimento da mente (Debates privados, I.5). Wesley pensava do mesmo modo. Ele nunca escreveu uma teologia sistemática; a sua teologia está nos sermões, nos hinos, nas cartas e nas notas sobre a Bíblia, todos escritos para formar a vida dos crentes. Tiago diz: “sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando a vós mesmos” (Tiago 1:22). E Paulo escreveu a Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nessas coisas; porque, se fizeres isso, salvarás tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Timóteo 4:16). A doutrina e a vida andam juntas.
Por que Estudar Teologia
O próximo capítulo trata com mais calma da finalidade da teologia sistemática. Por ora, basta lembrar algumas razões. O acrônimo inglês PEACE (“paz”) ajuda a lembrá-las: polêmica, exegese, apologética, catequese e evangelização. A teologia ajuda a identificar e combater as doutrinas falsas, que muitas vezes parecem boas na superfície (Gálatas 1:6-9). Ajuda a explicar e interpretar as Escrituras. Ajuda a defender a fé diante dos de fora e a firmar os de dentro que passam por dúvidas (1 Pedro 3:15). Ajuda a ensinar aos novos convertidos os fundamentos da fé. E torna mais eficaz o anúncio do evangelho, porque nos faz entender melhor a condição de quem ouve e a provisão que Deus fez para redimi-lo. Para uma leitura mais breve sobre o assunto, veja O que é Teologia e por que ela importa para todo cristão.
Fontes para o Estudo da Teologia
Existem muitas fontes que as pessoas usam para formar a sua teologia, algumas boas, outras nem tanto, e algumas terríveis. A tradição cristã costuma falar de quatro: a Escritura, a tradição, a razão e a experiência. Os anglicanos já falavam das três primeiras, e Wesley acrescentou a experiência, num arranjo que mais tarde recebeu o nome de Quadrilátero Wesleyano. Mas as quatro, de um modo ou de outro, aparecem em toda teologia, e o que distingue os protestantes é a ordem entre elas.
Escritura
Deveria ser óbvio que a Bíblia é a nossa principal fonte de teologia. Afinal, o que pode ser um guia melhor para conhecer a Deus e a sua obra do que o texto que ele nos deu? Paulo escreveu a Timóteo:
Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir, e para instruir na justiça; para que o homem de Deus seja completo, plenamente instruído para toda boa obra.
Esse é o princípio que os reformadores chamaram de sola Scriptura, somente a Escritura. Ele não quer dizer que a Bíblia é a única coisa que lemos, mas que ela é a norma suprema, aquela pela qual todas as outras fontes são medidas. Os judeus de Bereia foram elogiados porque, ao ouvirem a pregação de Paulo, examinavam “a cada dia as escrituras, para ver se estas coisas eram assim” (Atos 17:11). Nem a palavra de um apóstolo ficou isenta desse exame.
No entanto, a Bíblia não é um livro de teologia sistemática. Ela contém teologia, mas não no formato que gostaríamos de ter. A Bíblia é a história da relação de Deus com a humanidade, contada em culturas que nos são estranhas, e às vezes é difícil de acompanhar.
Nunca será demais ressaltar a importância da Bíblia na construção da nossa teologia. Embora às vezes seja difícil de entender, ela deve ser a base sobre a qual a teologia se apoia. Se a tradição, a razão ou a experiência parecem estar em desacordo com a Bíblia, devemos dar precedência à Bíblia. Pode ser que tenhamos entendido mal o que ela ensina, mas ela continua verdadeira.
A Revelação na Natureza
Enns lembra que a natureza também fala de Deus. “Os céus declaram a glória de Deus”, diz o Salmo 19:1, e Paulo afirma que os atributos invisíveis de Deus, o seu eterno poder e a sua divindade, se entendem pelas coisas criadas (Romanos 1:20). Essa revelação geral é real e deixa todos sem desculpa. Mas ela não basta para nos dar a conhecer o Deus que salva em Cristo. Para isso precisamos da revelação especial, que temos nas Escrituras. Calvino comparava a Escritura a óculos, que juntam as noções confusas que temos de Deus e nos deixam ver com clareza o Deus verdadeiro (Institutas, I.6.1). A segunda parte deste livro trata com mais calma da revelação.
Tradição
Tradição, aqui, não se refere aos costumes da nossa igreja local ou denominação, mas ao ensino da igreja ao longo dos séculos. A Bíblia não traz diretamente a formulação da Trindade que a igreja confessa hoje. Essa formulação foi construída ao longo de séculos, até os credos de Niceia e de Constantinopla, para expressar verdades contidas nas Escrituras. As duas naturezas de Cristo, as explicações da expiação e muitas outras doutrinas chegam até nós da mesma forma.
A tradição não é ruim. Ela representa o trabalho de muitos cristãos piedosos que, ao longo dos séculos, procuraram entender como Deus age. Mas ela não é infalível e tem menos autoridade do que as Escrituras. Os reformadores leram os Pais da Igreja com respeito, e usaram Agostinho em quase todas as páginas. Mas sempre os mediram pela Bíblia.
Razão
Em alguns círculos, razão e fé são vistas como adversárias, sempre em desacordo. Isso é uma pena. Deus nos deu mente e nos mandou amá-lo também com ela: “amarás, pois, ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com todas as tuas forças” (Marcos 12:30). A tradição se formou pela aplicação do pensamento à Escritura, e é apropriado que continuemos a usar a mente no estudo da Bíblia e na busca de conhecer a Deus.
Se a sua teologia se baseia apenas no que os outros lhe ensinaram, você está em terreno instável. Quando vierem as dificuldades e os desafios à fé, pode descobrir que uma teologia aceita sem pensar não o sustenta. O perigo de usar a mente é que ela também pode se colocar acima da Escritura. A razão serve bem quando organiza, compara e tira as consequências do que Deus revelou. Ela serve mal quando decide de antemão o que Deus pode ou não pode ter dito.
Experiência
A experiência pode não ser o melhor guia para a teologia, mas é uma da qual não podemos nos separar. As minhas experiências moldam quem sou e como penso. A minha experiência com Deus, e a de outros cristãos, pode me ajudar a entender melhor o que a Escritura diz. Dos quatro, é a fonte em que menos confio, porque a experiência pode ser interpretada de muitos modos, mas ela é inegavelmente parte de como fazemos teologia. Ela confirma o que a Escritura ensina; ela não cria doutrina nova.
O Espírito Santo
O Espírito Santo não está nessa lista de quatro fontes, mas não podemos fazer boa teologia sem a ajuda dele. Paulo escreveu:
Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas sim, o Espírito que provém de Deus; para que saibamos as coisas que por Deus nos são dadas; as quais também falamos, não com palavras que a sabedoria ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, interpretando coisas espirituais por meios espirituais.
Ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus, e Deus nos deu o seu Espírito para que o conheçamos. Os teólogos chamam essa obra de iluminação. O Espírito não traz revelação nova; ele abre os nossos olhos para entender a que já foi dada. Por isso a teologia começa e termina em oração. Só tenha o cuidado de não confundir o seu próprio raciocínio com a orientação do Espírito. O Espírito trabalha em nossos pensamentos, mas eles também podem operar sem ele, ou até contra ele.
Como Fazer Teologia
Se você quer desenvolver uma boa teologia, e a teologia sistemática em particular, há algumas coisas a observar. Os passos abaixo podem ajudá-lo.
Seja Completo
Há um perigo em formar a teologia independentemente da Escritura e depois recorrer à Bíblia para encontrar apoio para as nossas posições. É um caminho certo para uma teologia ruim. Primeiro, é preciso descobrir o que toda a Escritura diz sobre uma doutrina, e também o que a igreja já pensou sobre ela. Nem sempre será possível harmonizar todos os textos sobre um tema. Mas procure formar doutrinas que deem conta do maior número possível deles, e desconfie de qualquer doutrina que precise ignorar uma parte da Bíblia para ficar de pé.
Deixe a Escritura Interpretar a Escritura
Os reformadores ensinavam que a Escritura é a melhor intérprete de si mesma. Os textos mais claros ajudam a entender os mais difíceis, e nenhum texto deve ser lido de modo a contradizer o ensino claro do conjunto. Esse princípio é chamado de analogia da fé. Pedro já advertia que nas cartas de Paulo “há algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e os inconstantes distorcem” (2 Pedro 3:16).
Junto com isso, é preciso lembrar que a revelação foi dada aos poucos. “Deus falou antigamente muitas vezes, e de muitas maneiras, aos ancestrais pelos profetas. Mas nestes últimos dias falou a nós por meio do seu Filho” (Hebreus 1:1-2). O Antigo Testamento é Palavra de Deus tanto quanto o Novo, mas a luz fica mais clara à medida que a história avança, e chega à sua plenitude em Cristo. Lemos o Antigo Testamento à luz do Novo.
Separe Conteúdo de Contexto
É importante lembrar que a Bíblia foi escrita por e para culturas muito diferentes do Brasil do século 21. O lugar das mulheres e dos escravos era outro. O governo e a economia do mundo bíblico nos são bastante estranhos. A educação, a tecnologia e a saúde mudaram muito. É natural ler a Bíblia como se tivesse sido escrita diretamente para nós hoje. Mas não foi. Isso não diminui o valor das Escrituras para nós, mas significa que precisamos levar em conta o contexto cultural. O conteúdo, a mensagem da Bíblia, é permanente. O contexto, a cultura em que ela foi dada, não é. Distinguir entre os dois é uma tarefa importante na formação da nossa teologia.
Atualize o Contexto
Depois de separar o conteúdo do contexto, é preciso aplicar esse conteúdo à nossa própria cultura ou à cultura que queremos alcançar. Jesus como o bom pastor diz muito a quem cresceu no campo, mas pode soar distante para quem mora numa grande cidade. Que imagem atual transmitiria a mensagem de um Salvador que conhece o seu povo, cuida dele e dá a vida por ele? A linguagem de Gênesis sobre a criação, anterior à ciência moderna, desafia uma cultura orientada pela ciência. O conteúdo, porém, de que Deus criou tudo o que existe, permanece tão verdadeiro hoje quanto era então.
Garanta Coerência
Conheço pessoas que afirmam com sinceridade que a salvação é pela graça, um presente de Deus que não se compra. Mas essas mesmas pessoas tratam as bênçãos de Deus como algo que se conquista com ofertas, campanhas e sacrifícios. As duas posições entram em conflito, e quem as sustenta raramente percebe. A teologia sistemática ajuda a enxergar esse tipo de contradição.
Teremos mistérios na nossa teologia, como o ensino de que Jesus é inteiramente Deus e inteiramente homem, ou de que Deus é um só em três pessoas. Somos finitos tentando entender o infinito. Mas um mistério é diferente de uma contradição. No mistério, afirmamos duas verdades que a Escritura ensina, mesmo sem entender como se ligam. Na contradição, afirmamos e negamos a mesma coisa ao mesmo tempo. A nossa teologia deve ser tão coerente quanto possível.
Reconheça os Limites
“As coisas secretas pertencem ao SENHOR nosso Deus: mas as reveladas são para nós e para nossos filhos para sempre” (Deuteronômio 29:29). Há coisas que Deus revelou e coisas que ele guardou para si. A boa teologia vai até onde a Escritura vai e para onde ela para. Deus mesmo diz: “Porque tal como os céus são mais altos que a terra, assim também meus caminhos são mais altos que vossos caminhos, e meus pensamentos mais altos que vossos pensamentos” (Isaías 55:9). Nunca compreenderemos a Deus por inteiro. Precisamos nos contentar com um conhecimento verdadeiro, mas limitado, e às vezes a resposta mais honesta é “não sabemos”.
Um Aviso
Existem duas maneiras de “fazer” teologia. A primeira é estudar alguma autoridade no assunto e adotar a sua posição. Erickson, Grudem, Geisler, Oden, Wiley e outros produziram volumes extensos de teologia sistemática, e vale a pena lê-los. Mas eu o encorajaria a não ficar só nisso. Use esses livros como recursos no seu estudo, sem aceitar apenas o que eles dizem.
A segunda maneira é muito mais exigente e arriscada, mas mais gratificante. Leia as passagens relevantes na Bíblia. Estude as obras de outros teólogos. E pense. Permita que o Espírito Santo o guie. Faça perguntas e não tenha medo das respostas. O risco é que você chegue a conclusões diferentes das dos autores que leu ou dos seus professores. Só se certifique de que a sua teologia está firmada nas Escrituras e não em outra fonte. E a recompensa? A sua teologia ficará enraizada em você. Será sua, e não de outra pessoa.
A Estrutura deste Livro
Em que ordem os temas devem ser estudados? Os teólogos nunca concordaram inteiramente sobre isso. Alguns começam com Deus, porque sem ele a Bíblia não tem valor. Outros começam com a Bíblia, porque sem ela pouco podemos saber sobre Deus. É como a pergunta sobre quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. Calvino organizou a edição final das Institutas em quatro livros, que seguem de perto o Credo dos Apóstolos: Deus Criador, Deus Redentor em Cristo, a obra do Espírito na aplicação da graça e os meios externos pelos quais Deus nos chama e nos guarda, que são a igreja e os sacramentos. Armínio, por sua vez, achava que, sendo a teologia uma ciência prática, ela devia começar pelo seu fim, a bem-aventurança do ser humano em Deus, e depois tratar dos meios para chegar a ele (Debates privados, II). E acrescentava que se dava por satisfeito com qualquer exposição que concordasse com a Escritura nas coisas principais, qualquer que fosse a ordem.
Este livro segue a ordem mais comum na teologia protestante, a dos loci clássicos, em que cada doutrina se constrói sobre as anteriores. São nove partes:
- Prolegômenos, as questões preliminares, que começam com este capítulo.
- Revelação e Escritura, como Deus se dá a conhecer e o que é a Bíblia.
- Deus, a sua existência, os seus atributos, a Trindade, a criação e a providência.
- O ser humano e o pecado, quem somos e o que aconteceu conosco.
- Jesus Cristo, a sua pessoa e a sua obra.
- O Espírito Santo, a sua pessoa e a sua obra.
- A salvação, como Deus aplica a obra de Cristo aos pecadores.
- A Igreja, a sua natureza, a sua missão, o seu governo e os sacramentos.
- As últimas coisas, o que a Escritura ensina sobre a morte, a volta de Cristo e a eternidade.
Nem todas as doutrinas do cristianismo serão tratadas, mas os temas principais serão. Este é um livro de teologia protestante em geral. Ele expõe cada doutrina como as igrejas da Reforma a ensinam, com a ajuda dos Pais, dos reformadores e dos grandes teólogos. Onde os protestantes divergem entre si, como na predestinação, no batismo ou no milênio, as posições principais serão apresentadas com justiça, e a posição deste site será dita em poucas linhas, com indicação de onde ela é tratada com mais calma.
Este Livro
Em certo sentido, os capítulos deste livro são o produto de anos de estudo, de perguntas feitas e de respostas procuradas. Em muitos aspectos, lembram o que você encontraria num tratado de teologia sistemática bem maior, mas nem sempre. Não há garantia de que tudo esteja correto; provavelmente não está. Mas é o que entendi até aqui. Ao ler, não aceite nem rejeite nada sem examinar. Permita que o Espírito de Deus o guie à verdade. Concorde comigo ou não, estude as Escrituras, porque nelas você encontrará a verdade.
Fontes
- Bíblia Livre.
- Armínio, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Vol. 1, Oração sobre o objeto da teologia; vol. 2, Debates privados, I a III.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. “Ao leitor”; I.1.1; I.2.1; I.6.1.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008. Caps. 1 e 17.
- Vos, Geerhardus. Teologia bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Introdução.
- Wesley, John. Sermões, prefácio, 5; Notas explicativas sobre o Novo Testamento, prefácio, 10. Em Robert W. Burtner e Robert E. Chiles (orgs.), John Wesley’s Theology: A Collection from His Works.
Teologia Sistemática, Parte 1: Prolegômenos. Próximo capítulo: Capítulo 2: Para que serve a teologia sistemática.
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- Sistemática
- Doutrina