
TeologiaTeologia Sistemática21 de 45
Capítulo 21: A doutrina da humanidade
Teologia Sistemática, Parte 4: O ser humano e o pecado
Neste texto
- Duas Respostas para Quem Somos
- Fruto do Acaso
- Criados por Deus
- A Origem do Ser Humano
- O que Gênesis 1 Ensina
- O que Gênesis 2 Acrescenta
- Quando Isso Aconteceu?
- O que É Artigo de Fé
- Adão e Eva
- Foram Pessoas Reais?
- Homem e Mulher
- A Unidade da Raça Humana
- Um Só Sangue
- O que Isso Muda
- Como o Ser Humano Foi Criado
- Bom e Reto
- Livre e Responsável
- Dependente de Deus
- De Onde Vem a Alma de Cada Pessoa?
- A Dignidade do Ser Humano
- Feitos à Imagem de Deus
- A Moeda de César
- Uma Dignidade que a Queda Não Apaga
- Coroado de Glória e Honra
- A Vocação do Ser Humano
- Para Deus
- Para o Próximo
- Para Cuidar da Criação
- No Trabalho
- No Descanso
- A Vocação Cumprida em Cristo
- Conclusão
- Fontes
A doutrina da humanidade procura responder a perguntas que quase todos nós já fizemos. Quem sou eu? Por que estou aqui? O que o futuro reserva para mim? Existe um propósito para a criação, e para a humanidade em particular?
Duas Respostas para Quem Somos
As respostas importam, e a resposta de cada um depende do que ele crê sobre Deus. Depende também do que ele crê sobre a Bíblia: ela é um guia confiável sobre o que Deus fez, está fazendo e fará? Ou é apenas um texto religioso antigo, sem relevância para os dias de hoje?
Fruto do Acaso
Alguns dirão que não há Criador. Somos mero produto do acaso, não temos propósito para existir, e a nossa vida é apenas um ponto na linha do tempo. Nesse caso, nada do que eu fizer terá importância no final. Aproveitar ao máximo a minha breve existência deve ser o meu único objetivo. E, se outros atrapalharem isso, nada me impediria de tirá-los do caminho. Poucos dos que pensam assim seguem esse raciocínio até o fim, mas essa é a conclusão lógica.
Criados por Deus
Mas e se Deus existe e nos criou com um propósito? E se a Bíblia é de fato a sua palavra? Então temos uma visão bem diferente da humanidade e do nosso lugar no mundo. Ser criatura de um Deus que sabe o que faz é muito diferente de ser um subproduto improvável do acaso. Quem eu sou tem significado, e o que eu faço importa, não só agora, mas por muito tempo depois que esta breve vida chegar ao fim.
Creio que a segunda resposta é a verdadeira, e este capítulo parte dela. Também creio que não conseguimos entender quem somos sem olhar para Deus. João Calvino, o reformador de Genebra, abriu a sua obra mais conhecida com esta observação:
A verdadeira e sólida sabedoria consiste principalmente em duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Mas, embora as duas estejam tão ligadas, não é fácil descobrir qual delas vem primeiro e produz a outra.
(João Calvino, Institutas, I.1.1, tradução nossa)
Quem olha para si mesmo com honestidade acaba levantando os olhos para Deus. E quem conhece a Deus passa a se ver de outro jeito. Nos capítulos anteriores, estudamos Deus, a sua obra na criação e na providência e as criaturas espirituais. Agora chegamos à criatura que Deus fez por último, no sexto dia.
A Origem do Ser Humano
De onde viemos? Como chegamos aqui? A Bíblia nos diz que Deus nos fez de propósito. Ele nos formou do pó da terra, deu-nos o seu fôlego, fez-nos à sua imagem, falou conosco e nos colocou num jardim (Gênesis 1 e 2).
O que Gênesis 1 Ensina
O primeiro relato da criação coloca o ser humano no ponto mais alto da obra de Deus:
“E disse Deus: Façamos ao ser humano à nossa imagem, conforme nossa semelhança; e domine os peixes do mar, e as aves dos céus, e os animais, e toda a terra, e todo animal que anda arrastando sobre a terra. E criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou; e disse-lhes Deus: Frutificai e multiplicai, e enchei a terra, e subjugai-a, e dominai os peixes do mar, as aves dos céus, e todos os animais que se movem sobre a terra.”
(Gênesis 1:26-28, Bíblia Livre)
Há algumas coisas que chamam a atenção nesse texto. Nos dias anteriores, Deus disse “Haja luz”, “Haja expansão”, “Produza a terra”. Aqui ele diz “Façamos”. É como se Deus parasse para tomar uma decisão especial. Muitos Pais da Igreja viram nesse plural um primeiro sinal da Trindade. De todo modo, o texto mostra que o ser humano não é só mais um animal da lista.
O verbo hebraico bara, “criar”, que na Bíblia só tem Deus como sujeito, aparece três vezes no versículo 27. A imagem de Deus é dada ao homem e à mulher, sem que um a tenha mais do que o outro. E a criação do ser humano termina com uma bênção e uma tarefa. Logo depois, Deus olha para tudo e vê que “era bom em grande maneira” (Gênesis 1:31).
O que Gênesis 2 Acrescenta
O segundo relato chega mais perto. Gênesis 1 mostra a grandeza do ser humano; Gênesis 2 mostra a sua fragilidade e a sua dependência:
“Formou, pois, o SENHOR Deus ao homem do pó da terra, e assoprou em seu nariz sopro de vida; e foi o homem em alma vivente.”
(Gênesis 2:7, Bíblia Livre)
O verbo “formou” é o verbo do oleiro, que molda o barro com as mãos. O nome do homem, adam, lembra a palavra adamah, “solo”. Fomos tirados da terra e, por causa do pecado, voltaremos a ela (Gênesis 3:19). Isso nos ensina humildade. Mas o homem só se torna “alma vivente” quando Deus sopra nele o fôlego de vida. Nenhum outro ser recebe esse sopro dado de tão perto.
Gênesis 2 conta ainda que Deus pôs o homem no jardim do Éden “para que o lavrasse e o guardasse” (Gênesis 2:15), deu-lhe uma ordem (Gênesis 2:16-17) e disse: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). Os dois relatos se completam, e Jesus os lia juntos quando falou do casamento (Mateus 19:4-5). O site estuda os dois capítulos em Imagem de Deus em Gênesis 1 e 2: identidade e vocação.
Quando Isso Aconteceu?
Segundo a ciência, os primeiros seres humanos modernos apareceram há cerca de 200 mil anos. Já as cronologias que se fazem a partir das genealogias da Bíblia costumam colocar a criação de Adão por volta de 4.000 a.C. A distância é grande. Mas há um detalhe a lembrar: muitos estudiosos evangélicos, desde o século XIX, observam que as genealogias bíblicas pulam gerações e não foram feitas para servir de calendário. Mesmo assim, a questão continua em aberto.
No Capítulo 18 vimos as várias maneiras como os cristãos leem os dias de Gênesis 1. Aqui a pergunta é mais específica: como surgiu o ser humano?
Criação Direta
Fiat é a palavra latina para “faça-se” (Fiat lux, “haja luz”, em Gênesis 1:3): Deus quer, ordena, e a coisa acontece. Nesta visão, Deus criou Adão e Eva de forma direta e imediata, como adultos já formados, e deles vem toda a humanidade atual. Esta é a visão de quase todos os que defendem uma terra jovem, mas também de alguns que aceitam que a terra é muito antiga.
Criacionismo Progressivo
Esta visão aceita que a terra é antiga, mas diz que Deus criou diretamente, em diferentes momentos da história, os grandes tipos de vida. A partir desses atos de criação, a vida se diversificou dentro de cada tipo. O ser humano, nesta visão, é fruto de um ato especial de Deus, e não de um ancestral animal.
Evolução Teísta
A evolução teísta aceita a explicação científica de que todas as formas de vida vieram de um ancestral comum. Mas diz que esse processo não foi cego: Deus estava por trás dele, guiando-o para o fim que ele queria. Há defensores desta visão que creem num Adão e numa Eva reais, escolhidos por Deus num momento da história, e há os que veem Adão apenas como figura da humanidade.
Evolução Naturalista
Esta visão está no extremo oposto da criação direta. Ela rejeita qualquer autoridade da Bíblia e se apoia apenas nas descobertas científicas. O ser humano seria uma entre milhões de formas de vida que surgiram por processos puramente naturais, sem nenhum Criador e sem nenhum propósito. Esta visão não cabe na fé cristã.
O que É Artigo de Fé
Creio que a ciência tem muito a nos ensinar sobre a criação, e não estou disposto a rejeitá-la como ferramenta de aprendizado. Também creio que o meu Criador inspirou a Bíblia, que nos ensina sobre as questões espirituais, inclusive sobre de onde viemos. Por isso não faço de nenhuma cronologia um artigo de fé.
Mas há coisas que nenhuma dessas leituras pode negar sem se afastar da Escritura. O ser humano existe porque Deus quis. Ele foi criado por um ato especial de Deus, que o formou e lhe deu o seu fôlego. E toda a humanidade descende de um primeiro casal real, Adão e Eva. Uma leitura que precise abrir mão de alguma dessas verdades vai contra o ensino da Bíblia.
Adão e Eva
Foram Pessoas Reais?
Nenhuma conversa sobre a origem humana está completa sem Adão e Eva. Foram um casal real, do qual todos descendemos? Ou são personagens de uma história, que representam a humanidade?
A Bíblia trata Adão como pessoa real. Gênesis 5 começa com as palavras “Este é o livro das gerações de Adão” (Gênesis 5:1), e a lista segue, de pai para filho, até Noé. Lucas, ao contar a genealogia de Jesus, sobe de geração em geração até chegar ao primeiro homem e escreve: “filho de Adão, e Adão de Deus” (Lucas 3:38). Jesus falou do casal que Deus criou “no princípio” (Mateus 19:4). E o apóstolo Paulo construiu dois dos seus argumentos mais importantes sobre Adão:
“Portanto, assim como por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os seres humanos, porque todos pecaram.”
(Romanos 5:12, Bíblia Livre)
“Porque assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados” (1 Coríntios 15:22). Paulo coloca Adão e Cristo lado a lado. Um trouxe o pecado e a morte; o outro trouxe a justiça e a vida (Romanos 5:18-19). Se o primeiro fosse apenas um símbolo, o argumento de Paulo sobre a entrada do pecado na história perderia o seu apoio. Por isso afirmamos, com a tradição cristã, que Adão e Eva foram pessoas reais, os pais de toda a humanidade. O site conta a história dele em Adão: o pai de todos os seres humanos.
Homem e Mulher
Deus não criou um ser humano solitário. “Não é bom que o homem esteja só”, disse ele, “farei para ele ajuda idônea para ele” (Gênesis 2:18). A palavra hebraica traduzida por “ajuda” é usada na Bíblia até para Deus, o socorro do seu povo (Salmos 121:1-2). Ela não indica alguém inferior, mas alguém que supre o que falta. Quando viu a mulher, Adão se alegrou: “Esta é agora osso de meus ossos, e carne de minha carne” (Gênesis 2:23).
Homem e mulher são diferentes e foram feitos um para o outro. Mas os dois têm a mesma dignidade, os dois carregam a imagem de Deus (Gênesis 1:27) e os dois receberam juntos a bênção e a tarefa de cuidar da terra (Gênesis 1:28). O Novo Testamento confirma isso quando chama marido e mulher de “herdeiros da graça da vida” (1 Pedro 3:7).
Foi também na criação que Deus estabeleceu o casamento: “deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se achegará à sua mulher, e serão uma só carne” (Gênesis 2:24). Jesus voltou a esse texto para ensinar sobre o casamento e concluiu: “o que Deus juntou, o ser humano não separe” (Mateus 19:6). O casamento faz parte do plano de Deus desde o princípio, e não é invenção da cultura nem da lei civil. O site estuda essa passagem em Gênesis 2:18-25: as bases do casamento.
A Unidade da Raça Humana
Um Só Sangue
Se todos descendemos de Adão e Eva, então a humanidade é uma só família. Paulo disse isso aos filósofos de Atenas:
“E de um sangue ele fez toda nação humana, para habitarem sobre a face da terra, determinando os tempos desde antes ordenados, e os limites da morada deles; para que buscassem ao Senhor, se talvez pudessem apalpá-lo e encontrá-lo, apesar dele não estar longe de cada um de nós.”
(Atos 17:26-27, Bíblia Livre)
Não há raças superiores e raças inferiores. Há uma só raça humana, com muitos povos, línguas e cores. O profeta Malaquias tirou daí uma lição prática: “Não temos todos um mesmo Pai? Não foi um mesmo Deus que nos criou? Por que, então, traímos cada um a seu irmão?” (Malaquias 2:10).
O que Isso Muda
Essa verdade condena todo racismo. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e ainda convive com o desprezo pelos negros, pelos indígenas e pelos pobres. Quem crê que Deus fez todas as nações de um só sangue não pode tratar ninguém como gente de segunda classe. No século XVIII, John Wesley, o pregador inglês que deu origem ao movimento metodista, escreveu Pensamentos sobre a escravidão (1774). Na última carta da sua vida, em 1791, ele animou o deputado William Wilberforce a continuar a luta contra o tráfico de escravos.
A unidade da raça também explica por que o pecado de Adão atingiu todos nós e por que a obra de Cristo pode alcançar pessoas de todos os povos. Como Adão é o pai de todos, a morte “passou a todos os seres humanos” (Romanos 5:12). E, como Cristo se fez um de nós, há um só evangelho para todas as nações. Em Cristo “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea. Pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).
Como o Ser Humano Foi Criado
Bom e Reto
Deus não criou o ser humano já inclinado ao mal. “Deus fez os homens corretos, porém foram eles que buscaram muitos desejos ruins” (Eclesiastes 7:29). Adão saiu das mãos de Deus bom, reto, em paz com Deus, com a mulher e com o resto da criação. A teologia chama esse estado de justiça original: a retidão que o ser humano tinha desde a sua origem. O mal que conhecemos hoje veio depois, com a queda, e não da criação.
Livre e Responsável
Desde o início, Deus tratou o ser humano como alguém capaz de escolher. Adão recebeu uma ordem clara: podia comer de toda árvore do jardim, menos da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:16-17). Ele podia obedecer ou desobedecer. Uma ordem só faz sentido para quem é capaz de cumpri-la ou de quebrá-la. Ninguém dá ordens a uma pedra.
Aqui as grandes tradições protestantes concordam. Calvino, que tanto destacou a soberania de Deus, escreveu sobre Adão antes da queda:
Nessa integridade, o homem tinha livre-arbítrio, pelo qual, se quisesse, poderia ter alcançado a vida eterna. […] Adão, portanto, poderia ter ficado de pé se quisesse, pois caiu unicamente pela sua própria vontade.
(João Calvino, Institutas, I.15.8, tradução nossa)
Jacó Armínio, o teólogo holandês, ensinou o mesmo. Para ele, depois de concluída a criação, ainda estava no poder do homem permanecer obediente, porque Deus lhe tinha dado “força e poder suficientes” (Declaração de Sentimentos, I.3.IX). Adão caiu porque quis, e não porque Deus o empurrou.
A soberania de Deus fica ameaçada porque ele criou seres capazes de escolher? Não creio. Um pai pode deixar o filho pequeno escolher o sabor do sorvete sem deixar de ser o pai e de ter a última palavra em casa. Da mesma forma, Deus continua soberano sobre mim e sobre toda a criação, mesmo tendo me dado a capacidade de escolher. Tratamos disso no Capítulo 19. O que aconteceu com essa liberdade depois da queda é assunto dos capítulos sobre o pecado.
Dependente de Deus
Mesmo no Éden, Adão não era independente. Tudo o que ele tinha era presente: a vida, o fôlego, o jardim, o alimento, a companhia e o próprio conhecimento de Deus. Armínio observou que os dons do estado original, como o conhecimento de Deus e a santidade da vontade, eram dádivas que a natureza não exigia (Debates privados, XXVI.8). Paulo disse o mesmo de todos nós: Deus “é que dá a todos vida, respiração, e todas as coisas” (Atos 17:25). O ser humano foi feito para viver em comunhão com Deus, e nunca por conta própria.
De Onde Vem a Alma de Cada Pessoa?
Adão recebeu o fôlego diretamente de Deus. Mas e os seus filhos e netos? De onde vem a alma de cada pessoa que nasce? Os cristãos deram três respostas a essa pergunta.
Preexistência
Alguns, como Orígenes, no século III, ensinaram que as almas já existiam antes do corpo e foram depois colocadas nele. A Igreja rejeitou essa ideia. Não há nada na Bíblia que a apoie, e ninguém se lembra de ter vivido antes de nascer.
Criacionismo
Aqui a palavra não tem nada a ver com o debate sobre a evolução. Nesta visão, Deus cria diretamente a alma de cada pessoa, e os pais transmitem só o corpo. É a visão de Jerônimo, da maioria dos teólogos reformados e da Igreja Católica. Armínio também pensava assim: para ele, Deus “ainda cria, diariamente, uma nova alma, em cada corpo” (Debates privados, XXVI.3). O apoio bíblico está em textos que chamam Deus de aquele que “forma o espírito do ser humano em seu interior” (Zacarias 12:1) e de “Pai dos espíritos” (Hebreus 12:9).
Traducianismo
O nome vem do latim tradux, a muda de videira que se enterra para gerar uma nova planta. Nesta visão, a pessoa inteira, corpo e alma, é transmitida pelos pais. Tertuliano, no século III, defendeu essa ideia, e muitos luteranos a adotaram. O apoio bíblico está em que Adão “gerou um filho à sua semelhança, conforme sua imagem” (Gênesis 5:3). Essa visão ajuda a explicar como a corrupção do pecado passa de pais para filhos.
Agostinho, um dos maiores teólogos da Igreja antiga, nunca conseguiu decidir entre as duas últimas respostas. Penso que fazemos bem em seguir a sua modéstia. A Bíblia tem textos que favorecem uma e outra, e a questão não é artigo de fé. O que importa afirmar é que cada pessoa é criatura de Deus, de corpo e alma, desde o ventre da mãe.
A Dignidade do Ser Humano
Feitos à Imagem de Deus
O que dá ao ser humano o seu lugar especial na criação é que ele foi feito “à imagem de Deus” (Gênesis 1:27). O que exatamente é essa imagem será o assunto do próximo capítulo. Aqui basta dizer que ela nos faz capazes de algo que nenhum animal pode fazer. Wesley perguntou qual é a linha que separa o ser humano dos animais e respondeu: “o homem é capaz de ter contactos com Deus, as criaturas inferiores não o são” (sermão A libertação geral, I.5). Fomos feitos para conhecer, amar e obedecer a Deus.
E a imagem de Deus não é privilégio de um grupo. Toda a humanidade foi feita à imagem de Deus. Não só os cristãos de classe média, mas também quem tem outra cor de pele, outro sexo, outra escolaridade ou outra condição econômica, quem adora outro deus e até quem foi condenado por um crime. Todos foram feitos à imagem de Deus, e por isso todos devem ser tratados com respeito.
A Moeda de César
Ajuda a pensar nisso o encontro de Jesus com os fariseus e os herodianos, em Mateus 22:15-22. Eles perguntaram se era certo pagar imposto a César. Jesus pediu uma moeda e quis saber de quem era a imagem que estava nela. Responderam que era a de César. Então Jesus disse:
“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”
(Mateus 22:21, Bíblia Livre)
A imagem gravada na moeda mostrava a quem ela pertencia. Do mesmo modo, ter a imagem de Deus em nós significa que pertencemos a ele. A imagem é sinal de propriedade. A moeda vai para César; nós mesmos, por inteiro, pertencemos a Deus.
Uma Dignidade que a Queda Não Apaga
A nossa dignidade não depende do que fazemos, do que produzimos nem do que os outros pensam de nós. Ela vem do fato de que Deus nos criou. Por isso ela não se perdeu com o pecado. A imagem de Deus foi ferida pela queda, mas continua sendo imagem. Depois do dilúvio, Deus proibiu o assassinato com este argumento: “porque à imagem de Deus o ser humano foi feito” (Gênesis 9:6). E Tiago repreende quem usa a língua para amaldiçoar “os seres humanos, que são feitos à semelhança de Deus” (Tiago 3:9). Os dois textos falam de pessoas que vivem depois da queda.
Essa dignidade alcança quem a sociedade costuma esquecer. “Quem oprime ao pobre insulta ao seu Criador” (Provérbios 14:31). Ela alcança também a criança que ainda não nasceu, porque Deus nos cobriu “no ventre da minha mãe” (Salmos 139:13). E alcança o idoso, a pessoa com deficiência, o preso, o migrante e o morador de rua. Não existe pessoa sem valor. O site trata desse tema em Que tipo de pessoa eu sou? Dignidade e ruína humana.
Coroado de Glória e Honra
O Salmo 8 é como um comentário poético de Gênesis 1. Olhando para o céu estrelado, Davi se espanta com a pequenez do ser humano e, ao mesmo tempo, com a honra que Deus lhe deu:
“Quando eu vejo teus céus, obra de teus dedos; a lua e as estrelas, que tu preparaste; o que é o homem, para que tu te lembres dele? E o que é o filho do homem, para que o visites? E tu o fizeste um pouco menor que os anjos; e com glória e honra tu o coroaste. Tu o fazes ter controle sobre as obras de tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés.”
(Salmos 8:3-6, Bíblia Livre)
Somos pequenos diante do universo, e grandes diante de Deus. A nossa grandeza não vem do nosso tamanho, mas do cuidado de Deus por nós: ele se lembra de nós e nos visita.
A Vocação do Ser Humano
Se Deus nos criou com um propósito, qual é esse propósito? A palavra “vocação” vem do latim vocatio, “chamado”. Aqui ela não fala do chamado do evangelho ao pecador, que veremos mais adiante no livro, mas daquilo para que Deus nos fez. A Bíblia mostra que essa vocação se volta para Deus, para o próximo e para a criação.
Para Deus
Antes de tudo, fomos feitos para Deus. Ele chama o seu povo de “os que criei para minha glória” (Isaías 43:7), e Paulo diz que “todas as coisas foram criadas por ele e para ele” (Colossenses 1:16). Agostinho deu a esse propósito a sua forma mais conhecida, ao orar: “fizeste-nos para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansa em ti” (Confissões, I.1). E o Breve Catecismo de Westminster, de 1647, começa perguntando qual é o fim principal do ser humano e responde: “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.
Armínio disse o mesmo, ao terminar a sua descrição da criação do homem:
Assim foi criado o homem, para que pudesse conhecer, amar e adorar o seu Criador, e viver com Ele para sempre, num estado de bem-aventurança. Por esse ato de criação, Deus exibiu, de maneira manifesta, a glória da sua sabedoria, bondade e poder.
(Jacó Armínio, Debates privados, XXVI.10, em As obras de Armínio, vol. 2)
E Wesley pregou isso com a franqueza de um pastor, num sermão que leva o título tirado do Salmo 8, O que é o homem?:
Tendes vida sobre a terra somente para esta finalidade: conhecer, amar e servir a Deus na terra e gozá-lo por toda a eternidade. Considerai isto: não fostes criados para satisfazerdes os vossos sentidos, […] para ganhardes dinheiro ou o louvor dos homens, para procurardes a felicidade em qualquer coisa debaixo do sol.
(John Wesley, sermão O que é o homem?, 15, em Coletânea da teologia de João Wesley)
Calvino, Armínio e Wesley discordaram em muitas coisas. Nesta, falam a mesma língua. O dinheiro, o sucesso e a aprovação dos outros se tornam ídolos quando pedimos a eles o que só Deus pode dar.
Para o Próximo
Deus não nos fez para viver sozinhos. “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). Fomos feitos para a família, para a amizade e para a vida em comunidade. Jesus resumiu toda a lei em dois mandamentos: amar a Deus “com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento” e amar o próximo “como a ti mesmo” (Mateus 22:37-39). Amar a Deus e amar o próximo andam sempre juntos. Quem diz que ama a Deus e despreza o irmão ainda não entendeu para que foi criado.
Para Cuidar da Criação
Deus mandou o ser humano dominar a terra e subjugá-la (Gênesis 1:28). São palavras fortes, e muitas vezes foram usadas para justificar a exploração sem limites da natureza. Mas Gênesis 2 explica que tipo de domínio é esse: Deus pôs o homem no jardim “para que o lavrasse e o guardasse” (Gênesis 2:15). O domínio do ser humano é o do jardineiro, que cultiva e protege, e não o do saqueador.
Isso porque a terra não é nossa. “Ao SENHOR pertence a terra, e sua plenitude; o mundo, e os que nele habitam” (Salmos 24:1). Somos mordomos, administradores do que é de outro. Wesley ensinava o cristão a perguntar, antes de gastar o seu dinheiro, se estava agindo “não como proprietário, mas como mordomo dos bens do meu Senhor” (sermão O uso do dinheiro, III.4). Vale o mesmo para os rios, as florestas, os animais e tudo o que Deus nos confiou.
No Trabalho
O trabalho veio antes da queda. Adão já tinha uma tarefa no jardim antes de pecar. O pecado tornou o trabalho cansativo e muitas vezes frustrante, “no suor do teu rosto comerás o pão” (Gênesis 3:19), mas não o transformou em castigo. Logo nos primeiros capítulos de Gênesis aparecem os criadores de gado, os músicos e os ferreiros (Gênesis 4:20-22). A cultura, a arte e a técnica fazem parte do que Deus nos deu para fazer.
Na Reforma, Martinho Lutero recuperou essa verdade. Na Idade Média, muitos achavam que só o padre, o monge e a freira tinham uma vocação. Lutero ensinou que o lavrador, a mãe de família e o sapateiro servem a Deus no seu trabalho tanto quanto o monge no mosteiro. Hoje diríamos o mesmo do professor, da enfermeira, do pedreiro, do motorista e da dona de casa. Todos são chamados a fazer “tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31). O site trata disso em Vocação e propósito: quando o chamado muda de lugar.
No Descanso
Deus também nos fez para descansar. Ele mesmo descansou no sétimo dia e deu ao seu povo um dia de repouso (Êxodo 20:9-11). Jesus explicou o sentido desse dia: “O sábado foi feito por causa do ser humano, não o ser humano por causa do sábado” (Marcos 2:27). O descanso nos lembra que não valemos pelo que produzimos e que o mundo não depende de nós para continuar girando. Os cristãos discutem qual dia guardar, e o site trata disso em Dia de culto cristão: sábado ou domingo?. Mas todos concordam que o ritmo de trabalho e descanso faz parte da criação.
A Vocação Cumprida em Cristo
O pecado frustrou essa vocação. Em vez de viver para Deus, o ser humano passou a viver para si mesmo. Em vez de servir ao próximo, passou a usá-lo. Em vez de cuidar da terra, passou a explorá-la. Mas Deus não desistiu do seu plano.
O autor de Hebreus lê o Salmo 8 e admite que “ainda não vemos todas as coisas sendo sujeitas” ao ser humano. “Porém vemos coroado de glória e de honra, por causa do sofrimento de morte, aquele Jesus, que havia sido feito um pouco menor que os anjos” (Hebreus 2:8-9). Jesus é o ser humano como Deus queria que fosse. Nele o Salmo 8 se cumpre. E Deus não só nos criou: ele assumiu a nossa natureza e morreu por nós. Essa é a medida mais alta da nossa dignidade.
Em Cristo, a vocação perdida é recuperada. Fomos “criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10). Fomos revestidos do novo homem, “que se renova em conhecimento, conforme a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:10). E o alvo final de Deus é que sejamos “conformes à imagem do seu Filho” (Romanos 8:29). O que começou em Adão chega ao seu fim em Cristo.
Conclusão
Por que a humanidade existe, afinal? Como vimos, alguns dirão que existimos sem razão: somos uma coincidência, sem propósito e sem futuro. Mas a Bíblia nos ensina que Deus nos fez de propósito. Ele nos formou do pó e nos deu o seu fôlego. Fez-nos homem e mulher, à sua imagem, todos de um só sangue. Deu a cada pessoa uma dignidade que nem o pecado apaga. E nos chamou para viver para ele, com o próximo e cuidando da sua criação.
As Escrituras indicam que esse propósito só se cumpre por completo além desta vida. A vida aqui é preparação para o que Deus tem para nós. “Quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (1 João 3:2). Nem tudo sobre esse futuro está claro, mas tenho certeza de que é bem mais do que sentar numa nuvem e tocar harpa.
Por isso posso viver a minha vida aqui, em meio a tudo o que vier, confiando que Deus está me preparando para algo além do que consigo pensar. Mesmo sem conhecer todos os detalhes do propósito para o qual fui criado, é bom saber que ele existe e que Deus o levará até o fim: “aquele que começou a boa obra em vós irá completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6).
Fontes
- Agostinho. Confissões, I.1.
- Armínio, Jacó. Debates privados, XXVI. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Armínio, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608), I.3.IX.
- Breve Catecismo de Westminster (1647), pergunta 1.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. I.1.1 e I.15.8.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008.
- Wesley, John. Sermões O que é o homem?, A libertação geral e O uso do dinheiro. Em Coletânea da teologia de João Wesley.
- Wesley, John. Pensamentos sobre a escravidão (1774).
Teologia Sistemática, Parte 4: O ser humano e o pecado. Capítulo anterior: Capítulo 20: Os anjos, Satanás e os demônios. Próximo capítulo: Capítulo 22: A imagem de Deus e a constituição do ser humano.
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