
TeologiaTeologia Sistemática44 de 45
Capítulo 44: Ressurreição, juízo final e estado eterno
Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas
Neste texto
- A Ressurreição dos Mortos
- Uma Esperança que Vem do Antigo Testamento
- A Ressurreição de Cristo É a Garantia
- O Mesmo Corpo, Transformado
- Uma Ressurreição de Todos
- O Juízo Final
- Por que Haverá um Juízo?
- O Juiz
- Quem Será Julgado?
- Um Só Juízo ou Vários?
- Qual Será o Critério?
- O Crente no Dia do Juízo
- O Estado Eterno
- O Inferno
- O Céu e a Nova Criação
- Deus Será Tudo em Todos
- A Esperança e a Vida de Hoje
- Consolo Diante da Morte
- Trabalho que Não Se Perde
- Urgência na Pregação
- Conclusão
- Fontes
Quando Cristo voltar, os mortos vão ressuscitar, o mundo será julgado e a eternidade vai começar. Mas como será o corpo da ressurreição, como Deus vai julgar cada pessoa e o que a Bíblia diz sobre o inferno, o céu e a nova criação?
A Ressurreição dos Mortos
No capítulo anterior, vimos a volta de Cristo. Antes dele, vimos que os crentes que morrem estão com o Senhor, felizes, mas ainda sem o corpo, esperando. Agora chegamos ao fim dessa espera. Desde os primeiros séculos, a Igreja confessa no Credo dos Apóstolos: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”.
Essa é a esperança cristã. A esperança dos filósofos gregos era que a alma se livrasse do corpo e ficasse livre para sempre. A esperança da Bíblia é outra: Deus vai devolver o corpo à alma, agora transformado, e o ser humano inteiro vai viver para sempre com ele.
Uma Esperança que Vem do Antigo Testamento
A ressurreição já aparece nos profetas. Isaías anunciou: “Os teus mortos viverão, junto com meu cadáver, assim ressuscitarão; festejai e sede alegres, vós que habitais no pó!” (Isaías 26:19). Daniel foi ainda mais claro: “muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e o desprezo eterno” (Daniel 12:2).
No tempo de Jesus, os saduceus negavam a ressurreição. Jesus lhes respondeu: “Errais, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mateus 22:29). E lembrou que Deus se apresentou a Moisés como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó”, séculos depois da morte deles. “Deus não é dos mortos, mas sim dos vivos!” (Mateus 22:32). Se Deus fez aliança com Abraão, a morte não pode ter a última palavra sobre ele.
A Ressurreição de Cristo É a Garantia
O fundamento da nossa esperança é a ressurreição de Jesus. Em Corinto, alguns diziam que os mortos não ressuscitam. Paulo respondeu que, nesse caso, nem Cristo teria ressuscitado, e então tudo cairia: “se Cristo não ressuscitou, então é vã nossa pregação, e vã também é vossa fé” (1 Coríntios 15:14). Mas ele ressuscitou:
“Mas de fato Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormiram. Pois dado que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um em sua ordem; Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, em sua vinda.”
(1 Coríntios 15:20-23, Bíblia Livre)
As primícias eram os primeiros frutos da colheita, sinal de que o resto viria logo atrás. A ressurreição de Jesus é o começo da colheita. A nossa vem depois, “em sua vinda”.
Calvino dizia que crer na ressurreição do corpo é difícil, e por isso a Escritura nos dá dois apoios. O primeiro é olhar para Cristo, que viveu na nossa natureza, morreu e ressuscitou nela. O que aconteceu com a Cabeça vai acontecer com os membros. O segundo é o poder de Deus, que criou tudo do nada e pode muito bem levantar o que voltou ao pó (Institutas, III.25.3-4). Paulo junta os dois quando diz que Cristo “transformará o nosso degradante corpo, para que seja conforme o seu corpo glorioso, segundo a operação do seu poder de sujeitar para si todas as coisas” (Filipenses 3:21).
O Mesmo Corpo, Transformado
Os coríntios perguntavam: “Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão?” (1 Coríntios 15:35). Paulo respondeu com a imagem da semente. Quem planta um grão de feijão põe na terra uma coisa pequena e seca. O que brota é muito diferente, mas é a mesma planta, que saiu daquela semente. “Deus lhe dá o corpo como quer, e a cada semente seu próprio corpo” (1 Coríntios 15:38).
Continuidade
O corpo da ressurreição é o mesmo corpo que temos hoje, e não um corpo novo feito do nada. Paulo diz que “este corpo degradável” vai se revestir de imortalidade (1 Coríntios 15:53). O túmulo de Jesus ficou vazio. O corpo que foi posto ali foi o corpo que ressuscitou, e ele ainda tinha as marcas dos pregos: “Vede minhas mãos, e os meus pés […]. Tocai-me, e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho” (Lucas 24:39). Calvino lembra uma frase de Tertuliano sobre esse texto de Paulo: o apóstolo não poderia ter falado mais claro nem se estivesse segurando a própria pele na mão (Institutas, III.25.7).
Isso quer dizer que eu vou ressuscitar como eu mesmo. Não vou virar outra pessoa nem me dissolver em Deus. Os discípulos reconheceram Jesus ressuscitado, e nós vamos nos reconhecer uns aos outros.
Transformação
Mas o corpo vai ressuscitar muito diferente. Paulo descreve a mudança em quatro pares:
“Assim também será a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo degradável, ressuscitará capaz de nunca se degradar. Semeia-se em desonra, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará em força. Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual.”
(1 Coríntios 15:42-44, Bíblia Livre)
O corpo de hoje adoece, envelhece, se cansa e morre. O da ressurreição não vai conhecer nada disso, e vai brilhar: “os justos brilharão como o sol, no Reino de seu Pai” (Mateus 13:43).
E o que quer dizer “corpo espiritual”? Alguns pensam que será um corpo feito de espírito, sem matéria, uma espécie de fantasma. Mas Jesus ressuscitado comeu peixe assado diante dos discípulos (Lucas 24:42-43). “Espiritual”, em Paulo, quer dizer guiado pelo Espírito Santo. O corpo de hoje é “natural”, preso às limitações desta vida. O da ressurreição será inteiramente cheio da vida do Espírito, sem resistência ao que é de Deus. E será livre de limites que hoje conhecemos, como o corpo de Jesus, que se pôs no meio dos discípulos estando “fechadas as portas” (João 20:19).
Armínio via a ressurreição como o último passo da nossa união com Cristo. Nesta vida, já participamos da sua ressurreição pela vida nova no Espírito. Depois dela, participaremos com o corpo:
A [conformidade com a vida de Cristo] da vida que virá é a nossa ressurreição a uma nova vida, segundo o corpo, e nossa elevação a lugares celestiais, com respeito ao homem como um todo. […] Depois desta vida, é a ressurreição de nossos corpos, a sua conformidade com o glorioso corpo de Cristo e a fruição de nossa bem-aventurança celestial.
(Jacó Armínio, Debates privados, XLVII.2-3, em As obras de Armínio, vol. 2)
Perguntas Difíceis
E os corpos que viraram pó há milhares de anos, que foram queimados ou se perderam no mar? Para Deus, isso não é problema. João viu que “o mar entregou os mortos que nele havia” (Apocalipse 20:13). O mesmo Deus que formou Adão do pó sabe refazer o que voltou ao pó. Por isso a cremação não impede a ressurreição. A Igreja sempre preferiu enterrar os seus mortos, como quem semeia, mas a esperança não depende disso.
Outras perguntas, como a idade que teremos, não têm resposta na Bíblia. Sabemos o essencial: cada um terá o seu próprio corpo, livre de tudo o que o pecado estragou, e semelhante ao corpo glorioso de Cristo. Sobre isso, veja também 1 Coríntios 15:29-58: Estudo bíblico indutivo.
Uma Ressurreição de Todos
A Bíblia ensina que não só os crentes vão ressuscitar. Jesus disse:
“Não vos maravilheis disto; porque a hora vem, em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão sua voz. E sairão os que fizeram bem, para a ressurreição de vida; e os que fizeram mal, à ressurreição de condenação.”
(João 5:28-29, Bíblia Livre)
Paulo disse diante do governador Félix que esperava a “ressurreição dos mortos, tanto dos justos como dos injustos” (Atos 24:15). Mas por que os incrédulos ressuscitam, se a ressurreição é um presente de Cristo? Calvino respondeu que eles ressuscitam para comparecer diante do tribunal do Cristo que recusaram ouvir (Institutas, III.25.9). A ressurreição deles é para o juízo, e não para a glória.
Uma ou Duas Ressurreições?
Aqui os cristãos se dividem por causa do milênio, que vimos no capítulo anterior. Os pré-milenistas leem Apocalipse 20:4-6 de modo literal e veem duas ressurreições do corpo separadas por mil anos: a dos crentes, na volta de Cristo, e a dos incrédulos, no fim do milênio. Os dispensacionalistas, como Paul Enns, separam ainda mais etapas, começando pela ressurreição da Igreja no arrebatamento.
Amilenistas e pós-milenistas creem numa só ressurreição geral, no último dia. Jesus fala de uma mesma “hora” para todos os que estão nos sepulcros (João 5:28-29) e diz que ressuscita os que creem “no último dia” (João 6:40). Este site é amilenista e fica com essa leitura: haverá uma só ressurreição de todos os mortos, na volta de Cristo, seguida do juízo e da nova criação. A “primeira ressurreição” de Apocalipse 20 é a vida que os crentes já recebem de Cristo e na qual os que morreram reinam com ele agora. Os argumentos estão no Capítulo 43.
O Juízo Final
Depois da ressurreição vem o juízo. “Deus trará a julgamento toda obra, até mesmo tudo o que está encoberto, seja bom ou mal” (Eclesiastes 12:14).
Por que Haverá um Juízo?
Porque Deus é justo. Neste mundo, muita coisa fica sem resposta. O corrupto morre rico, o assassino nunca é preso, a criança abusada nunca vê justiça. Se não houvesse juízo, o mal teria a última palavra. Mas Paulo diz que há um “dia da ira e da manifestação do justo julgamento de Deus, que recompensará a cada um segundo as suas obras” (Romanos 2:5-6).
Por isso o juízo é também uma boa notícia. Os mártires do Apocalipse clamam: “Até quando, Santo e Verdadeiro Soberano, não julgas e vingas nosso sangue daqueles que habitam sobre a terra?” (Apocalipse 6:10). O salmista chama a criação inteira para cantar “diante do SENHOR; porque ele vem; porque ele vem para julgar a terra. Ele julgará ao mundo com justiça, e aos povos com sua verdade” (Salmos 96:13). Para quem sofre injustiça, saber que Deus vai julgar é um consolo. Por isso o crente pode deixar a vingança com Deus: “A mim pertence a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor” (Romanos 12:19).
O Juiz
Quem vai julgar é Jesus. “O Pai a ninguém julga, mas todo o juízo deu ao Filho” (João 5:22). E Jesus explicou por quê: o Pai “deu-lhe poder, para fazer juízo, porque é o Filho do homem” (João 5:27). O juiz do mundo é um homem, que viveu entre nós, foi tentado como nós e morreu por nós. No Areópago, Paulo disse que Deus “julgará ao mundo em justiça por meio do homem a quem determinou; dando certeza a todos, tendo-o ressuscitado dos mortos” (Atos 17:31).
Isso é terrível para quem desprezou a sua graça, mas é um grande consolo para os que confiaram nele. O juiz diante de quem vamos estar é o nosso Salvador.
Quem Será Julgado?
Todos. Cristo “irá julgar os vivos e os mortos” (2 Timóteo 4:1). João viu “os mortos, grandes e pequenos, estarem de pé diante de Deus” (Apocalipse 20:12). Ninguém fica de fora. “Com Deus não há acepção de pessoas” (Romanos 2:11).
Os anjos caídos também estão reservados “até o julgamento do grande dia” (Judas 6), e os crentes terão parte nesse juízo: “Não sabeis que julgaremos aos anjos?” (1 Coríntios 6:3).
E os crentes também comparecem. “Todos nós seremos apresentados diante do tribunal de Deus […] de maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Romanos 14:10-12). “Todos devemos comparecer diante do Tribunal de Cristo, para que cada um receba o pagamento das coisas que fez no corpo, seja bem ou mal” (2 Coríntios 5:10).
Um Só Juízo ou Vários?
Os dispensacionalistas falam de vários juízos em tempos diferentes. Paul Enns, por exemplo, coloca o tribunal de Cristo para os crentes logo depois do arrebatamento, o juízo de Israel e o das nações (Mateus 25) no começo do milênio, e o juízo do grande trono branco, só para os incrédulos, mil anos depois.
A maior parte da Igreja, com os Pais, os reformadores, Armínio e Wesley, entende que haverá um só juízo geral, no último dia, com aspectos diferentes para crentes e incrédulos. Na parábola das ovelhas e dos bodes, “serão ajuntadas diante dele todas as nações, e separará as pessoas umas das outras” (Mateus 25:32). Os dois grupos estão diante do mesmo trono, no mesmo dia. E no grande trono branco há dois tipos de livro: os livros das obras e “o livro da vida” (Apocalipse 20:12). Se ali só houvesse incrédulos, o livro da vida não precisaria ser aberto.
Por isso cremos, como dissemos no capítulo anterior, que haverá um só juízo, na única volta de Cristo. O tribunal de Cristo, o juízo das nações e o grande trono branco são três maneiras de descrever o mesmo grande dia.
Qual Será o Critério?
As Obras e o Livro da Vida
A Bíblia diz muitas vezes que cada um será julgado “segundo as suas obras” (Romanos 2:6; Apocalipse 20:12). No Capítulo 41, vimos que isso não contradiz a salvação pela graça. Ninguém se salva por boas obras. Mas as obras mostram o que havia no coração. A fé verdadeira age pelo amor, e o juízo vai mostrar isso diante de todos.
O que decide o destino de cada um é o livro da vida: “todo aquele que não fosse achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:15). E o livro da vida é do Cordeiro (Apocalipse 21:27). Quem está em Cristo pela fé está escrito nele.
Tudo Será Revelado
O juízo vai alcançar o que hoje está escondido. Deus “julgará os segredos dos seres humanos por meio de Cristo Jesus” (Romanos 2:16). O Senhor “trará à luz as coisas ocultas nas trevas, e manifestará as intenções dos corações” (1 Coríntios 4:5). Até as palavras contam: “de toda palavra imprudente que as pessoas falarem, dela prestarão contas no dia do juízo” (Mateus 12:36). Muitos que pareciam piedosos vão ouvir: “Nunca vos conheci” (Mateus 7:23). E muitos que serviram sem ninguém ver vão ouvir que o que fizeram aos pequeninos foi feito ao próprio Cristo (Mateus 25:40).
Segundo a Luz Recebida
Deus vai julgar cada um de acordo com o que recebeu. Jesus disse que o servo que conhecia a vontade do seu senhor e não a fez “será muito espancado”, e o que não sabia “será pouco espancado”. “E a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá” (Lucas 12:47-48).
E os que nunca ouviram falar de Cristo? Paulo diz que os gentios, que não tinham a Lei de Moisés, têm a obra da Lei escrita no coração e uma consciência que ora os acusa, ora os defende (Romanos 2:14-15). Deus não vai cobrar de ninguém o que a pessoa nunca recebeu. Mas ninguém viveu à altura nem da luz que recebeu, e por isso todos precisam da graça (Romanos 3:23). A Bíblia não nos dá detalhes de como Deus vai tratar cada caso, e não devemos inventar. Sabemos que o Juiz de toda a terra fará o que é justo (Gênesis 18:25). E sabemos qual é a nossa tarefa: levar o evangelho a quem ainda não ouviu.
O Crente no Dia do Juízo
O crente pode pensar no juízo sem pavor. “Agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). Jesus prometeu que quem crê “tem vida eterna, e não virá em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24). O crente que permanece em Cristo vai comparecer diante do tribunal já perdoado, coberto pela justiça do próprio Juiz.
Mas ele vai prestar contas. O juízo vai mostrar como usou a vida, os dons e as oportunidades que recebeu. Em 1 Coríntios 3:12-15, Paulo diz que a obra de cada um será provada pelo fogo. Uns receberão recompensa. Outros serão salvos, “todavia, como que passado pelo fogo”, vendo boa parte do que fizeram virar cinza.
O Novo Testamento fala dessas recompensas como coroas: “a coroa da justiça”, que o Senhor dará “a todos os que amarem a sua vinda” (2 Timóteo 4:8), a coroa da vida (Tiago 1:12) e a coroa da glória (1 Pedro 5:4). Calvino entendia que haverá graus de glória no céu, assim como Deus distribui os dons de modo diferente nesta vida: “os que conduzem muitos à justiça brilharão como as estrelas, para todo o sempre” (Daniel 12:3; Institutas, III.25.10). Ninguém vai sentir inveja, porque todos estarão plenamente felizes. Mas a fidelidade de hoje tem peso na eternidade. Ao servo fiel, o senhor diz: “Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te porei” (Mateus 25:21).
Sobre isso, veja também Juízo final segundo Jesus: ovelhas, bodes e a cruz.
O Estado Eterno
Depois do juízo, começa o estado eterno, e só há dois destinos. “E estes irão ao tormento eterno, porém os justos à vida eterna” (Mateus 25:46). Não existe um terceiro lugar, nem um caminho de volta. Vamos começar pelo destino mais duro.
O Inferno
Jesus falou mais do inferno do que qualquer outro autor da Bíblia, e falou porque nos ama e não quer que ninguém vá para lá.
O que a Bíblia Diz
A palavra que Jesus usa é geena, o nome do vale de Hinom, ao sul de Jerusalém. Ali, no tempo dos reis maus de Judá, crianças tinham sido queimadas em sacrifício a deuses pagãos (Jeremias 7:31). Mais tarde, o lugar virou depósito de lixo, onde o fogo queimava sem parar. Jesus usou esse nome para o castigo final.
Ele descreve o inferno com várias imagens. É “o fogo que nunca se apaga” (Marcos 9:43). É o lugar “onde seu verme não morre” (Marcos 9:48). São “as trevas de fora”, onde “haverá pranto e ranger de dentes” (Mateus 8:12). O Apocalipse fala do “lago que queima com fogo e enxofre, que é a segunda morte” (Apocalipse 21:8). Paulo diz que os que não conhecem a Deus “serão punidos com o castigo da eterna perdição, longe da face do Senhor, e da glória de sua força” (2 Tessalonicenses 1:9).
O inferno não foi feito para os seres humanos. Jesus diz que ele foi “preparado para o Diabo e os seus anjos” (Mateus 25:41). Os que vão para lá são os que escolheram ficar do lado do diabo contra Deus até o fim.
Longe da Presença de Deus
As imagens são fortes, e algumas parecem não combinar entre si. O fogo ilumina, mas o inferno também é chamado de trevas. Isso mostra que Jesus usava figuras para descrever uma realidade que palavras humanas não alcançam. Mas as figuras servem para mostrar que a realidade é pior, e não mais leve. Calvino disse que o centro de tudo é a separação de Deus:
O tormento dos ímpios nos é apresentado com imagens tiradas das coisas do corpo: trevas, choro e ranger de dentes, fogo que não se apaga, um verme que rói o coração sem parar. […] Essas imagens devem fixar a nossa atenção, acima de tudo, na desgraça de estar separado da presença de Deus.
(João Calvino, Institutas, III.25.12, tradução nossa)
Tudo o que é bom vem de Deus. Neste mundo, até quem vive longe dele recebe muitas coisas boas, porque ele “faz seu sol sair sobre maus e bons” (Mateus 5:45). No inferno, essa bondade comum acaba. A pessoa fica para sempre com o que escolheu: a vida sem Deus. “Esta é a condenação: que a luz veio ao mundo, e as pessoas amaram mais as trevas que a luz” (João 3:19).
Um Castigo Eterno
A Bíblia diz que o castigo do inferno não tem fim. O argumento mais forte vem de Mateus 25:46, onde a mesma palavra grega, aionios, descreve o castigo dos ímpios e a vida dos justos. Wesley chamou a atenção para isso:
É a mesma palavra que se usa na primeira e na segunda parte da frase. Segue-se que ou o castigo dura para sempre, ou a recompensa também vai acabar. E isso nunca, a não ser que Deus pudesse acabar, ou que a sua misericórdia e a sua verdade pudessem falhar.
(John Wesley, sermão O grande julgamento, III.1, tradução nossa)
Há graus de castigo, como vimos (Lucas 12:47-48). Mas o castigo é eterno para todos os que estão ali. Por isso a Bíblia insiste tanto em que o tempo de buscar a Deus é agora: “eis agora o tempo agradável, eis agora o dia da salvação” (2 Coríntios 6:2).
O Universalismo
Alguns ensinam que, no fim, todos serão salvos, e que o inferno, se existir, será temporário, uma espécie de tratamento para levar o pecador ao arrependimento. Orígenes, no século 3, chegou a esperar a salvação até do diabo. A Igreja rejeitou essa ideia no século 6. Hoje ela voltou, com teólogos liberais e também com alguns evangélicos.
Os universalistas citam textos como Colossenses 1:20, onde Deus reconcilia consigo “todas as coisas”, e Filipenses 2:10-11, onde “se dobre todo joelho” e “toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor”. Mas dobrar o joelho diante de Cristo no fim não é o mesmo que ser salvo. Muitos vão reconhecer que ele é o Senhor tarde demais. E Jesus falou de Judas de um modo que não deixa lugar para o universalismo: “Bom seria a tal homem se não houvesse nascido” (Mateus 26:24). Se Judas um dia fosse salvo, por mais que sofresse antes, essa frase não seria verdadeira.
O Aniquilacionismo
Outros ensinam que os ímpios, depois de um tempo de castigo, deixam de existir. Vimos essa ideia no Capítulo 41 e a mortalidade condicional, que está ligada a ela, no Capítulo 42. Ela é ensinada por adventistas e testemunhas de Jeová e foi aceita por alguns evangélicos, como John Stott, que a defendeu com cautela. Os seus defensores lembram que o Novo Testamento fala muito em “destruição” e “perdição”. Mas a perdição de 2 Tessalonicenses 1:9 é “eterna” e acontece “longe da face do Senhor”, o que supõe alguém que continua existindo longe dele. E, em Apocalipse 20:10, o diabo, a besta e o falso profeta “serão atormentados dia e noite para todo o sempre”. A visão tradicional continua sendo a mais fiel às Escrituras.
Como um Deus de Amor Pode Fazer Isso?
Essa é a pergunta mais difícil, e não devemos responder com frieza. A Bíblia diz que Deus “quer que todas as pessoas se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Ele jura: “não tenho prazer na morte do perverso, mas sim em que o perverso se converta de seu caminho, e viva” (Ezequiel 33:11). Deus mandou o seu Filho para morrer por todos e abriu a porta para todos.
O inferno mostra que Deus leva a sério as nossas escolhas. Ele não arrasta ninguém para o céu contra a vontade. Quem passou a vida inteira dizendo a Deus “me deixa em paz” vai receber, no fim, o que pediu. E o inferno mostra a gravidade do pecado. Achamos o castigo exagerado porque achamos o pecado pequeno. Mas foi preciso a morte do próprio Filho de Deus para tirá-lo.
O Céu e a Nova Criação
O outro destino é a vida eterna com Deus. E aqui a Bíblia é muito mais rica do que as imagens populares do céu, com anjinhos sentados em nuvens.
O Céu Agora e o Céu Final
Na Bíblia, “céu” é antes de tudo o lugar onde Deus manifesta a sua presença. Jesus ensinou a orar: “Pai nosso, que estás nos céus” (Mateus 6:9). Hoje, os crentes que morreram estão ali, com Cristo, como vimos no Capítulo 42. Mas esse ainda não é o destino final.
O destino final é a nova criação. “Segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que a justiça habita” (2 Pedro 3:13). No fim da Bíblia, João não vê os salvos subindo para longe da terra. Ele vê o céu descendo:
“E eu vi um novo céu e uma nova terra; porque o primeiro céu e a primeira terra já passaram; e já não havia mar. E eu, João, vi a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu vinda de Deus, preparada como noiva, adornada para seu marido. E eu ouvi uma grande voz do céu, dizendo: ‘Eis que o tabernáculo de Deus está com os seres humanos; e com eles habitará, e eles serão seu povo, e o próprio Deus estará com eles, e será seu Deus. E Deus limpará toda lágrima dos olhos deles; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem mais haverá dor; porque as primeiras coisas já passaram.’”
(Apocalipse 21:1-4, Bíblia Livre)
No começo, Deus andava com Adão no jardim. No fim, ele vem morar com o seu povo numa criação renovada. A Bíblia começa num jardim e termina numa cidade-jardim, com o rio da vida e a árvore da vida (Apocalipse 22:1-2).
Renovada ou Destruída?
Pedro diz que, no dia do Senhor, “os céus se desfarão com grande estrondo, e os elementos queimando se dissolverão” (2 Pedro 3:10). Isso quer dizer que Deus vai destruir este mundo e criar outro do nada? Alguns teólogos, sobretudo luteranos, pensaram assim.
A maior parte da Igreja, porém, entende que Deus vai purificar e renovar a criação, e não jogá-la fora. O próprio Pedro compara o fogo final ao dilúvio, quando “o mundo anterior foi destruído, coberto com as águas” (2 Pedro 3:6). O mundo de Noé passou pelo juízo, mas a terra continuou. E, no versículo 10, a Bíblia Livre segue os manuscritos mais antigos: a terra e as obras que nela há “serão descobertas”, isto é, expostas diante de Deus. O fogo vai limpar e revelar.
Paulo diz que a criação “geme e sofre dores como as de parto” e espera “ser liberta da escravidão da degradação para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8:21-22). Dor de parto termina em vida nova. Jesus falou da “regeneração” de todas as coisas (Mateus 19:28), e Pedro, da “restauração de todas as coisas” (Atos 3:21). Wesley viu nisso uma esperança para toda a criação:
Toda a criação espera aquela manifestação final dos filhos de Deus, na qual “ela também será libertada” (não pela aniquilação; aniquilação não é libertação) “da escravidão da degradação” para uma medida da “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.
(John Wesley, sermão A libertação geral, III.1, tradução nossa)
Deus não vai entregar ao diabo a vitória de destruir a obra que, no princípio, ele viu que “era bom em grande maneira” (Gênesis 1:31). Ele vai redimir o mundo, assim como redime o nosso corpo. O mesmo corpo, transformado. A mesma terra, renovada.
Veremos a Deus
O centro da vida eterna é o próprio Deus. “Eles verão o rosto dele, e o nome dele estará em suas testas” (Apocalipse 22:4). Moisés pediu para ver a glória de Deus e só pôde ver as suas costas (Êxodo 33:18-23). Na nova criação, “veremos face a face” (1 Coríntios 13:12). Jesus prometeu isso aos limpos de coração: “eles verão a Deus” (Mateus 5:8). E, ao vê-lo, seremos transformados: “quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (1 João 3:2).
Calvino lembrou que nada pode ser comparado a isso:
Se Deus, como fonte que nunca se esgota, tem em si mesmo a plenitude de todos os bens, os que buscam o bem maior e a felicidade completa não podem desejar nada além dele. […] Se o Senhor vai dar aos seus parte na sua glória, e até dar a si mesmo para que eles o desfrutem, nesse favor está toda espécie de felicidade.
(João Calvino, Institutas, III.25.10, tradução nossa)
Por isso a nova Jerusalém não tem templo, “porque o templo dela é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Apocalipse 21:22). E João diz que o comprimento, a largura e a altura da cidade “eram iguais” (Apocalipse 21:16). A cidade é um cubo, como era o Lugar Santíssimo do templo de Salomão, onde só o sumo sacerdote entrava uma vez por ano (1 Reis 6:20). Na nova criação, a cidade inteira é o Lugar Santíssimo. Todo o povo de Deus vai viver na presença dele, sem véu.
Sem Pecado, Sem Morte, Sem Lágrimas
Deus “limpará toda lágrima” (Apocalipse 21:4). Isaías já tinha dito que ele “devorará a morte para sempre” (Isaías 25:8). Não haverá mais doença, hospital, velório nem despedida. “Não haverá mais maldição alguma” (Apocalipse 22:3). Tudo o que a queda estragou será desfeito.
E, acima de tudo, não haverá mais pecado. “De maneira nenhuma entrará nela algo que contamine, faça abominação e mentira” (Apocalipse 21:27). Ninguém mais vai lutar contra a tentação, ferir o irmão ou entristecer a Deus.
Uma Vida Cheia
A vida eterna também não será parada. “Seus servos o servirão” (Apocalipse 22:3), e “reinarão para todo o sempre” (Apocalipse 22:5). O homem foi criado para cuidar da terra em nome de Deus (Gênesis 1:28), e na nova criação essa tarefa será cumprida sem pecado.
João diz ainda que “os reis da terra trarão a ela a glória e honra deles” e que “a ela serão trazidas a glória e a honra das nações” (Apocalipse 21:24-26). O que houve de bom na história humana, purificado do pecado, terá lugar na cidade de Deus.
E haverá comunhão. Jesus disse que “muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque, e Jacó, no Reino dos céus” (Mateus 8:11). Abraão continua sendo Abraão, e nós vamos conhecê-lo. Os que morreram no Senhor vão se reencontrar.
Calvino advertiu contra a curiosidade. Muitos querem saber todos os detalhes do céu e se interessam pouco pelo caminho que leva até lá (Institutas, III.25.11). A Bíblia diz o suficiente para nos encher de esperança e deixa o resto em silêncio: “As coisas que o olho não viu, e não subiram ao coração humano, são as que Deus preparou para os que o amam” (1 Coríntios 2:9).
Deus Será Tudo em Todos
Quando Cristo tiver vencido todos os inimigos, inclusive a morte, ele entregará o Reino ao Pai, “para que Deus seja tudo em todos” (1 Coríntios 15:28). O Filho não deixa de reinar, porque “o seu reino não terá fim” (Lucas 1:33). Mas a sua obra estará completa, e o Deus Trino vai encher toda a criação com a sua presença.
A Esperança e a Vida de Hoje
A Bíblia nunca fala dessas coisas só para responder à curiosidade. Ela sempre tira delas uma lição para agora.
Consolo Diante da Morte
Quem enterra alguém que morreu em Cristo pode chorar, mas chora com esperança. O corpo que foi para o túmulo vai ressuscitar. “Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que morreram em Jesus, Deus os trará de volta com ele” (1 Tessalonicenses 4:14). Por isso Paulo pode zombar da morte: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15:55).
Trabalho que Não Se Perde
Logo depois de falar da ressurreição, Paulo tira uma conclusão prática:
“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, imóveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.”
(1 Coríntios 15:58, Bíblia Livre)
O que fazemos para Deus nesta vida não se perde. Uma visita a um doente, uma oferta dada em segredo, um culto num lugar pequeno, uma vida de fidelidade que ninguém aplaudiu: tudo isso vai aparecer naquele dia.
Urgência na Pregação
Se há um juízo e um inferno, ninguém que conhece a Cristo pode ficar calado. “Conhecendo, pois, o temor ao Senhor, persuadimos as pessoas para a fé” (2 Coríntios 5:11). Muitos em volta de nós caminham para a eternidade sem Deus. Ainda há tempo, e a porta continua aberta.
Conclusão
Quando Cristo voltar, todos os mortos vão ressuscitar. Os crentes vão receber o mesmo corpo que tiveram nesta vida, agora transformado, imortal e glorioso, como o corpo de Jesus ressuscitado. Os incrédulos também vão ressuscitar, mas para o juízo.
Todos vão comparecer diante de Cristo, num só grande dia. Ele vai julgar com justiça, de acordo com a luz que cada um recebeu, e vai revelar até os segredos do coração. Os que estão em Cristo não serão condenados, mas vão prestar contas e receber recompensas. Os que rejeitaram a sua graça vão ficar para sempre longe da presença de Deus, num castigo eterno.
Os salvos vão viver com Deus numa criação renovada, onde não haverá pecado, morte nem lágrimas. Vão ver o rosto de Deus, servir, reinar e ter comunhão uns com os outros para sempre. E Deus será tudo em todos.
Essa é a esperança que a Igreja confessa há dois mil anos: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”. E é a oração com que a Bíblia termina: “Amém! Sim, vem, Senhor Jesus!” (Apocalipse 22:20).
No próximo capítulo, que fecha este livro, vamos olhar para o caminho que percorremos, de Deus e da sua Palavra até a nova criação.
Fontes
- Armínio, Jacó. Debates privados, XLVII. Em As obras de Armínio, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Edição de 1559. III.25.3-4, 7, 9, 10, 11 e 12.
- Credo dos Apóstolos.
- Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology. Chicago: Moody, 2008. Cap. 26.
- Wesley, John. O grande julgamento (sermão 15), III.1; A libertação geral (sermão 60), III.1. Em John Wesley’s Theology: A Collection from His Works. Organização de Robert W. Burtner e Robert E. Chiles. Nashville: Abingdon, 1954.
Teologia Sistemática, Parte 9: As últimas coisas. Capítulo anterior: Capítulo 43: A segunda vinda de Cristo e o milênio. Próximo capítulo: Capítulo 45: Conclusão.
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