
TeologiaTeologia Sistemática35 de 37
Lição 40: Regeneração, adoção e testemunho do Espírito
Curso de Teologia Sistemática, parte 4
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os termos e as distinções
- 1.1 Regeneração e novo nascimento
- 1.2 Adoção
- 1.3 Testemunho do Espírito e certeza
- 1.4 Distinções e ordem
- 2. Fundamentação bíblica
- 2.1 A promessa do coração novo
- 2.2 Nascer do alto: o Evangelho de João
- 2.3 Nova criação e semente imperecível
- 2.4 As marcas do nascido de Deus
- 2.5 A adoção: de Israel a todos os que creem
- 2.6 O Espírito de adoção e o seu testemunho
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 Da igreja antiga à Reforma
- 3.2 Armínio e os remonstrantes
- 3.3 Wesley e o metodismo
- 3.4 Os sistemáticos wesleyanos e o contraste com Finney e Cheung
- 3.5 O Brasil
- 4. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 4.1 Definições
- 4.2 A ordem: graça preveniente, fé e novo nascimento
- 4.3 O testemunho direto e o indireto
- 4.4 Certeza e perseverança
- 4.5 As tradições em comparação
- 4.6 Objeções e respostas
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática. Parte 4: A doutrina do Espírito Santo: a salvação, a Igreja e as últimas coisas.
Objetivos da lição
- Definir regeneração, adoção e testemunho do Espírito, com o vocabulário bíblico (anōthen, palingenesia, huiothesia, symmartyreō).
- Mostrar, a partir dos profetas, de João, de Paulo e de Pedro, que o novo nascimento e a filiação são obra do Deus triúno, recebida pela fé.
- Acompanhar a doutrina da igreja antiga à Reforma, a Armínio, a Wesley e aos sistemáticos wesleyanos.
- Formular a posição arminiana clássica e wesleyana sobre a relação entre graça preveniente, fé e novo nascimento, e sobre a certeza da salvação.
Introdução
Quem já acompanhou de perto um processo de adoção sabe que, depois de meses de visitas, relatórios e audiências na Vara da Infância, a sentença do juiz produz um efeito que surpreende muitos pais: a criança recebe uma certidão de nascimento nova. A lei brasileira manda cancelar o registro original e lavrar outro, com o nome dos pais adotivos, e proíbe que conste nas certidões qualquer observação sobre a origem do ato (Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 47). Aos olhos do cartório, aquela menina nasceu daquela família. Os pais, porém, sabem que o papel não basta, e o que eles esperam, mais do que o carimbo, é o dia em que ela vai atravessar a casa chamando “pai” sem medo de ser devolvida.
A imagem tem limites, que esta lição vai apontar, mas ajuda a entrar no tema. O evangelho anuncia que Deus nos dá o nome de filhos, o que a teologia chama de adoção; gera em nós uma vida nova, a regeneração ou novo nascimento; e põe em nosso coração o Espírito do seu Filho, que clama “Aba, Pai” e dá testemunho de que somos filhos, o testemunho do Espírito.
A lição 39 estudou o que Deus faz por nós quando cremos. Esta lição trata do que ele faz em nós no mesmo instante, e da nova relação que daí nasce. Seguimos a arquitetura do curso, que vê a aplicação da salvação como obra do Espírito (lição 33), e preparamos a lição 41, sobre a santificação, que começa no novo nascimento.
1. Os termos e as distinções
1.1 Regeneração e novo nascimento
Jesus diz a Nicodemos que é preciso nascer anōthen (João 3:3, 7), advérbio que significa “de cima” e também “de novo”. Karl Heinrich Ringwald observa que a expressão diz o mesmo que nascer “de Deus” (1 João 3:9) e que, para a mente humana, esse renascimento é “necessariamente absurdo”, porque “está além da capacidade do homem” (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, art. “Nascimento”). Pedro usa anagennaō, “gerar de novo” (1 Pedro 1:3, 23). O substantivo palingenesia, de palin, “outra vez”, e genesis, “nascimento”, aparece em Mateus 19:28, para a renovação final do mundo, e em Tito 3:5, onde Deus nos salvou “pelo banho do novo nascimento”. O latim o traduziu por regeneratio. Regeneração e novo nascimento designam, por isso, a mesma realidade: a comunicação, pelo Espírito, de uma vida nova a quem estava “morto em ofensas” (Efésios 2:5).
1.2 Adoção
Huiothesia, de huios, “filho”, e thesis, “colocação”, ocorre cinco vezes, todas em Paulo (Romanos 8:15, 23; 9:4; Gálatas 4:5; Efésios 1:5). G. Braumann registra que é “um termo técnico legal”, que significa “a aceitação da criança como sendo daquele que a adotou” (Dicionário internacional, art. “Criança”). No direito romano, o adotado recebia o nome do novo pai e passava a herdeiro. Paulo encheu o termo de conteúdo bíblico, porque Israel já era chamado “meu filho, meu primogênito” (Êxodo 4:22).
1.3 Testemunho do Espírito e certeza
Em Romanos 8:16, o Espírito “dá testemunho com o nosso espírito”. O verbo symmartyreō, “testemunhar junto”, é exclusivo de Paulo (Romanos 2:15; 8:16; 9:1) e descreve dois testemunhos que se reforçam. A teologia chama de certeza (certitudo) ou segurança da salvação o conhecimento que o crente tem de que está em paz com Deus.
1.4 Distinções e ordem
Neste sentido, distinguimos quatro realidades. A justificação é uma mudança relativa, na relação da pessoa com Deus; a regeneração, uma mudança real, na própria pessoa; a adoção, uma mudança de condição, pela qual o perdoado passa a filho e herdeiro; e a santificação é o crescimento dessa vida nova até o amor perfeito. Wesley chamou a justificação de “a grande obra que Deus faz por nós, perdoando os nossos pecados”, e o novo nascimento, de “a grande obra que Deus realiza em nós, renovando a nossa natureza decaída”; nenhuma “é anterior à outra no tempo”, mas, na ordem do pensamento, “a justificação precede ao novo nascimento” (sermão O novo nascimento, introdução, em Coletânea da teologia de João Wesley).
Uma observação de vocabulário evita confusões. Armínio e a Remonstrância às vezes chamam de “regeneração” a libertação da vontade que a graça opera antes da fé: para querer o bem, é necessário “que ele seja regenerado e renovado por Deus, em Cristo, pelo seu Espírito Santo” (Remonstrância, art. 3). Abner Hernández mostra que essa obra inicial, em Armínio, é dada a todos e pode ser recusada, e por isso não coincide com a regeneração irresistível dos reformados. Randy Maddox explica que Wesley falava de graus de regeneração: o incipiente e universal, que é a própria graça preveniente; o novo nascimento, que acompanha a fé; e a renovação progressiva da santificação (Responsible Grace, cap. 7). Doravante, “regeneração” designa aqui o segundo grau.
2. Fundamentação bíblica
2.1 A promessa do coração novo
Moisés prometeu que o Senhor circuncidaria o coração do seu povo, “para que ames ao SENHOR teu Deus com todo teu coração” (Deuteronômio 30:6), e Jeremias anunciou a lei escrita “em seus corações” (Jeremias 31:33). Ezequiel uniu o coração novo ao dom do Espírito:
E vos darei um novo coração, e porei um novo espírito dentro de vós; e tirarei de vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei meu Espírito dentro de vós, e farei com que andeis em meus estatutos, guardeis meus juízos, e os pratiqueis.
O sujeito de todos os verbos é Deus, e a obediência que vem depois é fruto do Espírito que habita dentro.
2.2 Nascer do alto: o Evangelho de João
Diante do espanto de Nicodemos, Jesus explicou:
Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo, que aquele que não nascer de água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido de carne, carne é; e o que é nascido do Espírito, espírito é. Não te maravilhes de que te disse: necessário vos é voltar a nascer. O vento sopra onde quer, e ouves o seu som; porém não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
A “água e o Espírito” remetem à promessa de Ezequiel 36, que um mestre em Israel devia conhecer. O vento mostra a soberania da obra. O prólogo já unira a fé e a filiação: “a todos quantos o receberam, deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem em seu nome. Os quais não são gerados de sangue, nem de vontade da carne, nem de vontade de homem, mas sim de Deus” (João 1:12-13). O texto exclui a ascendência e a decisão humana como causa do nascimento e, ao mesmo tempo, apresenta os que creem como os que recebem o direito de ser filhos.
2.3 Nova criação e semente imperecível
Paulo usa a imagem da criação: “se alguém está em Cristo, uma nova criatura é; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17). Em Tito 3:4-7, Deus nos salvou “não pelas obras de justiça que nós tivéssemos feito, mas sim segundo sua misericórdia”, pelo “banho do novo nascimento, e da renovação do Espírito Santo”, para que, “ao termos sido justificados por sua graça”, sejamos “feitos herdeiros”. O parágrafo é trinitário e reúne os três temas desta lição. Pedro acrescenta o instrumento: nascemos de novo “não de semente que perece, mas sim imperecível, pela viva palavra de Deus” (1 Pedro 1:23). O Espírito gera pela mesma Palavra que chama à fé.
2.4 As marcas do nascido de Deus
A Primeira Carta de João descreve o nascido de Deus pelas suas marcas. Ele crê: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1 João 5:1). Ele ama: “sabemos que já passamos da morte para a vida, pois amamos os irmãos” (3:14). Ele não vive no pecado, “pois a sua semente reside nele” (3:9), e vence o mundo pela fé (5:4). Wesley leu nesses textos o “grande privilégio dos que são nascidos de Deus” (sermão 19): o nascido de Deus não peca voluntariamente enquanto guarda a fé e o amor, ainda que não esteja livre de fraquezas e tentações.
2.5 A adoção: de Israel a todos os que creem
Deus chamou Israel do Egito como a um filho (Oseias 11:1), e Paulo conta a adoção entre os privilégios dos israelitas (Romanos 9:4). Em Cristo, ela se estende a todos: “todos vós sois filhos de Deus por meio da fé em Cristo Jesus” (Gálatas 3:26). O texto central é Gálatas 4:
Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para redimir os que estavam sob a Lei, a fim de que nós recebêssemos a adoção como filhos. E, como sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Aba, Pai!” Portanto, tu já não és mais servo, mas sim filho; e se és filho, também és herdeiro por meio de Deus.
O Pai envia o Filho para nos redimir e o Espírito do Filho para habitar em nós. A adoção nasce do amor do Pai, que “nos predestinou como filhos adotados por meio de Jesus Cristo” (Efésios 1:5), eleição em Cristo estudada na lição 37, e será consumada no futuro, porque ainda gememos, “esperando a adoção, isto é, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23).
2.6 O Espírito de adoção e o seu testemunho
Romanos 8 é a passagem clássica do testemunho:
Pois todos quantos são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Pois não recebestes o espírito de escravidão, para voltardes ao medo; mas recebestes o Espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus.
Abba era a palavra aramaica com que o filho chamava o pai em casa. O Dicionário internacional (art. “Pai”) observa que a literatura devocional do judaísmo antigo não a usa para se dirigir a Deus, e que Jesus orava assim (Marcos 14:36). Quando a igreja clama “Aba”, ora com as palavras do Filho, porque recebeu o Espírito do Filho. João acrescenta que “quem crê no Filho de Deus tem testemunho em si” (1 João 5:10).
3. Desenvolvimento histórico
3.1 Da igreja antiga à Reforma
Desde o século II, a igreja ligou o novo nascimento ao batismo: Justino Mártir descreveu os batizandos como pessoas “regeneradas” do mesmo modo que os cristãos o foram (I Apologia, 61). Agostinho ensinou que o batismo regenera, mas que ninguém pode saber, nesta vida, se recebeu o dom da perseverança. O Catecismo da Igreja Católica conserva a convicção antiga: “Pelo Batismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus” (n. 1213).
Lutero ensinou que o batismo dá a salvação “a todos os que creem”, porque não é a água que o faz, mas a Palavra unida à água e a fé que confia nela (Catecismo menor, IV). Calvino interpretou o arrependimento “como regeneração, cujo único fim é restaurar em nós a imagem de Deus” (Institutas, III, 3, 9), e definiu a fé como “um firme e certo conhecimento da benevolência divina para conosco” (III, 2, 7), de modo que a certeza pertence à própria fé. O Concílio de Trento respondeu que “ninguém pode ter certeza por meio de uma fé absoluta, acima de dúvidas, se alcançou a graça de Deus ou não” (sessão VI, cap. 9), porque temia, explica Alister McGrath, que a justificação passasse a depender da confiança humana (Teologia sistemática, histórica e filosófica).
A ortodoxia reformada colocou a regeneração antes da fé: na vocação eficaz, o eleito é “inteiramente passivo” até ser vivificado (Confissão de Westminster, X, 2). A mesma confissão dedicou um capítulo à adoção (XII) e afirmou que a “segurança infalível” não pertence à essência da fé (XVIII, 3).
3.2 Armínio e os remonstrantes
Armínio tratou os três temas juntos. Nas Disputas privadas, contou entre os benefícios da comunhão com a vida de Cristo “a adoção como filhos de Deus” e a comunicação do Espírito, que contém “a nossa regeneração, pelo esclarecimento da mente e a renovação do coração”, o “auxílio perpétuo do Espírito Santo” e o “testemunho do mesmo Espírito, em nossos corações”, razão pela qual ele é chamado “Espírito de adoção” (XLVII, 5, em As obras de Armínio, vol. 2). Tudo flui da união com Cristo, que é “o primeiro e imediato efeito” da fé (XLV, 1).
No Debate amistoso com Francisco Júnio, Armínio sustentou que “aqueles que creem são adotados, e não aqueles que são adotados recebem o dom da fé”, e que justificação e adoção são dadas ao mesmo tempo, mas que, “na ordem da natureza, a justificação é anterior à adoção”, porque o reconciliado é que é feito filho (em As obras de Armínio, vol. 3). Nas Disputas públicas, observou que a obra da regeneração “não é completa em um só momento, mas avança e é promovida de tempos em tempos”, porque a carne ainda cobiça contra o Espírito (XI, 13, em As obras de Armínio, vol. 1).
Sobre a certeza, a Declaração de sentimentos (1608) afirma que o crente pode, “se o seu coração não o condena, estar agora realmente seguro de que é filho de Deus”, certeza produzida pela ação do Espírito, pelos frutos da fé, pela consciência e pelo “testemunho do Espírito de Deus, que testifica juntamente com a sua consciência” (VI). Armínio não a igualou, porém, à certeza de que Deus existe, porque “maior é Deus que o nosso coração” (1 João 3:20). A certeza que ele afirmou diz respeito ao estado presente do crente.
3.3 Wesley e o metodismo
Na noite de 24 de maio de 1738, na rua Aldersgate, Wesley sentiu o coração “aquecer-se de maneira estranha” e registrou: “recebi a certeza de que Ele tinha tirado os meus pecados, sim os meus” (Diário; veja a conversão de John Wesley). No sermão O novo nascimento (1760), descreveu o homem natural como quem “tem olhos mas não vê”, e o nascido de Deus como quem passa a viver numa “espécie de respiração espiritual”: “A graça desce ao seu coração; orações e louvores sobem ao céu” (II, 4). Distinguiu o novo nascimento da santificação, da qual ele é “a entrada”, como a criança nasce num momento e cresce devagar (IV, 3), e do batismo, porque “um é obra externa, o outro é interna”, e muitos batizados continuam “servos do pecado” (IV, 1-2).
O testemunho do Espírito valeu a Wesley a acusação de “entusiasmo”, isto é, de fanatismo. Ele o definiu como “uma impressão interna sobre a alma onde o Espírito de Deus dá diretamente testemunho com o meu espírito de que sou filho de Deus; que Jesus Cristo me amou e deu-se a si mesmo por mim, e que todos os meus pecados são apagados e eu, eu mesmo, sou reconciliado com Deus” (sermão O testemunho do Espírito, I, I, 7). Vinte anos depois, no segundo sermão sobre o tema (1767), manteve a definição e esclareceu que o Espírito não testifica necessariamente por uma voz, mas pela sua “influência imediata” (II, II, 2-4). Ao testemunho direto do Espírito juntou o indireto, do nosso espírito, que é a consciência de ter os frutos do Espírito (sermão 12), e advertiu: “ninguém descanse sobre algum suposto testemunho do Espírito separado dos seus frutos”, nem “sobre qualquer fruto do Espírito sem o testemunho” (O testemunho do Espírito, II, conclusão). Quando um pregador reduziu o testemunho aos frutos, Wesley temeu uma volta “à justificação pelas obras” (carta a Samuel Furly). Don Thorsen lembra que Wesley tinha essa doutrina por uma parte principal do testemunho que Deus confiou aos metodistas, e que nisso ele se afastava de Calvino, para quem a certeza repousa sobretudo na promessa objetiva (Calvin vs. Wesley).
Maddox mostra que a doutrina amadureceu. Logo depois de Aldersgate, sob a influência do morávio Peter Böhler, Wesley pensava que a fé verdadeira excluía toda dúvida; a experiência pastoral o levou a distinguir a fé que justifica da plena certeza dessa fé, a “fé de um servo”, já aceita por Deus, da “fé de um filho”. Mais tarde resumiu: “Pregamos a certeza como sempre o fizemos, como um privilégio comum dos verdadeiros cristãos; mas não a impomos sob pena de condenação” (carta ao Dr. Rutherforth, 1768, em Responsible Grace, cap. 5). Maddox lembra também a fórmula de Albert Outler: somos “perdoados para participar” da vida de Deus (cap. 7).
3.4 Os sistemáticos wesleyanos e o contraste com Finney e Cheung
Richard Watson tratou a regeneração e a adoção como acompanhantes da justificação e defendeu o testemunho direto contra os que o reduziam a uma dedução tirada dos frutos (Theological Institutes, parte II). William Burt Pope reuniu as duas na ideia de filiação: pela adoção recebemos o lugar de filho, e pela regeneração, a natureza de filho (Compendium). H. Orton Wiley definiu a regeneração como a comunicação da vida divina pelo Espírito, simultânea à justificação e à adoção e distinta delas (Christian Theology, vol. 2).
Charles Finney, lido neste curso apenas como contraste, ensinou que a regeneração “é nada mais que a vontade sendo devidamente influenciada pela verdade”, uma “mudança de escolha” induzida por argumentos (Teologia sistemática, aula 17). Vincent Cheung, também lido como contraste, afirma que a regeneração, obra “monergística” nos eleitos, “precede a fé” e “é a pré-condição da fé” (Teologia sistemática). Contra Finney, cremos que o novo nascimento é obra criadora de Deus numa vontade que estava morta; contra Cheung, que a graça que vivifica é oferecida a todos e que Deus gera os seus filhos quando creem.
3.5 O Brasil
O batista A. B. Langston definiu a regeneração como “uma mudança radical, operada pelo Espírito Santo na alma humana ou na própria pessoa, por meio do evangelho”, e recusou a discussão cronológica, porque um “descrente regenerado” e um “crente não regenerado” seriam igualmente estranhos ao Novo Testamento (Esboço de teologia sistemática). O pentecostal Walter Brunelli insiste que a regeneração é “uma operação gerada inteiramente por Deus” e “um ato instantâneo, diferente da santificação, que é progressiva” (Teologia para pentecostais, vol. 3). A diferença com os pentecostais clássicos está no batismo no Espírito como segunda experiência, discutido na lição 33: a teologia wesleyana afirma que todo crente recebe o Espírito no novo nascimento, porque “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não lhe pertence” (Romanos 8:9).
Na igreja brasileira, dois desvios rondam esta doutrina. O primeiro toma o gesto pelo nascimento, como se levantar a mão no apelo ou descer às águas bastasse, ainda que nada tenha mudado no coração; o segundo, filho do legalismo, vive sem certeza nenhuma e mede a filiação pela lista de costumes cumpridos na semana (veja também Novo nascimento: o que muda quando nascemos de novo).
4. A posição arminiana clássica e wesleyana
4.1 Definições
Em suma, cremos que a regeneração é a obra do Espírito Santo pela qual o pecador que crê nasce de Deus, recebe uma vida nova e tem o entendimento, os afetos e a vontade renovados, de modo que passa a amar a Deus e a odiar o pecado; ela é instantânea no seu começo e se desenvolve na santificação. A adoção é o ato gracioso do Pai pelo qual o justificado é recebido na sua família, com o nome, a disciplina e a herança de filho, por causa do Filho unigênito. O testemunho do Espírito é a obra pela qual o mesmo Espírito dá ao filho de Deus a convicção de que é perdoado e aceito, confirmada pelo testemunho do nosso espírito, que reconhece em nós os seus frutos. O Pai adota, o Filho é o fundamento da filiação, e o Espírito regenera e testemunha. O novo nascimento não é uma reforma moral que empreendemos com ajuda de Deus, mas uma criação, e quem nasce não contribui para o próprio nascimento.
4.2 A ordem: graça preveniente, fé e novo nascimento
Com os reformadores, afirmamos que o pecador está morto para o bem e que só Deus o vivifica; a divergência está no lugar da regeneração. A graça preveniente, dada a todos, ilumina, convence e liberta a vontade para que a pessoa possa crer (lição 36); o Espírito chama pelo evangelho e gera a fé (lição 38); e, no instante em que o pecador crê, Deus o justifica, o regenera e o adota.
Três razões sustentam essa ordem. Em primeiro lugar, o direito de ser feito filho é dado “aos que creem em seu nome” (João 1:12), e somos filhos “por meio da fé” (Gálatas 3:26). Em segundo lugar, o Espírito é recebido pelos que creem: “nele crestes, nele fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1:13). Em terceiro lugar, o evangelho chama à fé com a promessa da vida, e não com a notícia de uma vida já dada que torna a fé inevitável. Não obstante, a fé não é causa nem mérito do novo nascimento: ela só é possível porque a graça veio antes, e apenas recebe o que Deus dá. O único ato que o homem pode chamar de inteiramente seu, nesse processo, é a resistência (Atos 7:51). A obra é de Deus do começo ao fim.
4.3 O testemunho direto e o indireto
Com Wesley, afirmamos que o crente pode saber que é filho de Deus, e que essa certeza vem do Espírito, que derrama no coração o amor do Pai. O testemunho direto livra o crente de fundar a certeza no próprio desempenho, e o indireto, dos frutos e da consciência, o livra de confundir uma emoção com a voz de Deus. O Espírito que testemunha produz “amor, alegria, paz” (Gálatas 5:22) e nunca testemunha contra a Palavra. A certeza admite graus: há crentes de fé fraca, que confiam em Cristo sem a convicção clara do perdão, e não estão debaixo da ira; há horas de tentação em que a alegria se retira sem que a filiação se perca. E vale a palavra que Armínio pôs no centro da sua doutrina: “se o nosso coração nos condena, maior é Deus que o nosso coração, e conhece tudo” (1 João 3:20).
4.4 Certeza e perseverança
A certeza do estado presente não é a garantia incondicional do futuro. O filho de Deus pode estar seguro, hoje, de que é aceito e de que nenhum poder exterior o arrancará da mão do Pai; mas o Espírito que o selou pode ser entristecido (Efésios 4:30), e “se viverdes segundo a carne, morrereis” (Romanos 8:13). A segurança é real, porque repousa em Cristo, e condicional, porque permanecemos nele pela fé; a lição 42 tratará do assunto (veja também Arminianismo: a segurança da salvação).
4.5 As tradições em comparação
| Tradição | Regeneração | Relação com a fé | Certeza |
|---|---|---|---|
| Católica | Dada no batismo, cresce pelos sacramentos | O batismo regenera | Esperança firme, sem certeza absoluta de estar na graça |
| Luterana | Pela Palavra e pelo batismo | A fé recebe o benefício do batismo | Fundada na promessa |
| Reformada (Westminster) | Irresistível, nos eleitos | Precede a fé e a produz | Possível e infalível, mas não da essência da fé |
| Arminiana wesleyana | Pelo Espírito, depois da graça preveniente | Acompanha a fé, com a justificação | Privilégio comum dos filhos, quanto ao estado presente |
Com todas essas tradições, confessamos que ninguém nasce de novo por si mesmo; com os reformadores, divergimos quanto ao alcance da graça e ao lugar da regeneração, e com os católicos, quanto ao batismo como causa do novo nascimento.
4.6 Objeções e respostas
A primeira objeção diz que, se a regeneração acompanha a fé, um morto teria crido. O morto não creu por si: a graça preveniente, obra sobrenatural do Espírito, libertou a sua vontade antes da fé. A segunda diz que o testemunho é subjetivismo; Wesley respondeu que ele vem sempre com a Palavra, a consciência reta e os frutos. A terceira diz que o batismo é o novo nascimento; o batismo é sinal e meio de graça (lição 44), mas o sinal exterior pode existir sem a graça interior. E ao crente que pergunta se está perdido porque não sente nada, respondemos com Wesley que a fé que justifica pode existir antes da plena certeza, e que o caminho é buscar a Deus nos meios de graça até que o Espírito clame no coração “Aba, Pai”.
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, a doutrina corrige a pregação. O evangelho não convida apenas a mudar de hábitos ou de igreja, mas anuncia que Deus faz novas criaturas; por isso pregamos com esperança no presídio, na aldeia e no condomínio, e não confundimos o gesto do apelo com o nascimento que só o Espírito realiza. Em segundo lugar, ela dá ao crente uma identidade: o filho não precisa comprar todos os dias o direito de estar em casa, ora “Pai nosso” com liberdade e aceita a disciplina como prova de amor, porque “Deus vos trata como filhos” (Hebreus 12:7). Em terceiro lugar, ela orienta a pastoral: ao crente atormentado pela dúvida, apontamos Cristo e a promessa, e o convidamos a pedir o Espírito, que o Pai dá “a aqueles que lhe pedirem” (Lucas 11:13); ao presunçoso, lembramos que o Espírito que testemunha é santo e produz frutos. Por fim, ela nos faz esperar a adoção consumada, quando “seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (1 João 3:2).
Voltemos à menina da certidão nova. A imagem falha em dois pontos. Os pais adotivos dão o nome, mas não podem dar a natureza, e Deus faz as duas coisas, porque nos adota e nos gera de novo. E a criança adotada pode passar anos temendo ser devolvida, enquanto o Pai envia aos nossos corações o Espírito do seu Filho para nos dizer, por dentro, que já não somos servos, mas filhos. Isso vale para todos nós. Senhor, que nos geraste pela palavra da verdade, completa em nós a obra do novo nascimento, testemunha ao nosso espírito que somos teus filhos e dá-nos a graça de viver na tua casa como quem já não tem medo, até o dia em que veremos o teu Filho como ele é.
Síntese
- A regeneração ou novo nascimento é a obra do Espírito pela qual o pecador que crê recebe de Deus uma vida nova, com o entendimento, os afetos e a vontade renovados (João 3:5-8; Tito 3:5; 1 Pedro 1:23).
- A adoção é o ato gracioso pelo qual o Pai recebe o justificado na sua família, com a herança de filho, por causa de Cristo; ela é presente e será consumada na ressurreição (Gálatas 4:4-7; Romanos 8:23).
- Justificação, regeneração e adoção acontecem no mesmo instante, quando o pecador crê; na ordem lógica, a graça preveniente precede a fé, e a fé recebe, sem mérito algum, o novo nascimento e a filiação (João 1:12-13; Gálatas 3:26).
- O Espírito de adoção dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus; o testemunho direto e o indireto, dos frutos e da consciência, confirmam-se mutuamente (Romanos 8:15-16; 1 João 3:14).
- A certeza é privilégio comum dos filhos de Deus, admite graus e diz respeito ao estado presente em Cristo, e não a uma garantia incondicional do futuro (1 João 3:19-21; Efésios 4:30).
Questões para revisão
- Que sentidos tem anōthen em João 3, e por que João 1:12-13 exclui a vontade humana como causa do novo nascimento?
- O que significava huiothesia, e o que Paulo acrescenta ao termo em Gálatas 4 e Romanos 8?
- Como Wesley distinguiu o novo nascimento da justificação, da santificação e do batismo?
- Por que Armínio às vezes chama de “regeneração” a obra da graça antes da fé, e como a ideia de graus de regeneração ajuda a entender essa linguagem?
- Que razões bíblicas sustentam a tese de que a regeneração acompanha a fé, e não a precede?
- Em que consistem o testemunho direto e o indireto, e que diferença há entre a certeza do estado presente e a perseverança incondicional?
Bibliografia
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- A Remonstrância (1610). Tradução e notas. Diário do Diego, 2026.
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel.
- CALVINO, João. As institutas da religião cristã (1559), III, 2-3.
- Catecismo da Igreja Católica; Concílio de Trento, sessão VI (1547); Confissão de Fé de Westminster (1647).
- Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova (arts. “Nascimento”, de K. H. Ringwald; “Criança”, de G. Braumann; “Pai”).
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- Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática.
Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática. Anterior: Lição 39: A justificação pela fé. Próxima: Lição 41: Santificação e perfeição cristã.
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