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A eleição condicional em Cristo

Diego Gonçalves25 min de leitura4.997 palavras

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Neste texto

Objetivos do estudo

  • Definir eleição, eleição condicional, eleição individual e eleição corporativa, com o vocabulário bíblico (bāḥar, eklegomai, eklektos, eklogē).
  • Mostrar que a Escritura apresenta Cristo como o Eleito e a eleição do povo de Deus como eleição nele.
  • Interpretar Efésios 1 e Romanos 9 a 11 no seu contexto e responder à leitura que deles faz a eleição incondicional.
  • Acompanhar a doutrina de Agostinho a Armínio, a Wesley, aos sistemáticos wesleyanos e ao debate atual, inclusive no Brasil.
  • Formular a posição arminiana clássica e wesleyana, que une a dimensão corporativa e a dimensão pessoal da eleição.

Introdução

Quem se casa recebe, junto com a aliança, uma família inteira. Já na primeira festa, a noiva ouve as histórias da casa: a bisavó que veio de Portugal, o avô que plantou café no interior, o sítio que se perdeu numa enchente. Nada daquilo começou com ela e, contudo, depois do casamento tudo aquilo passa a ser também dela, e um sobrenome que antes era de outros passa a constar dos seus documentos. Ao mesmo tempo, semanas antes da cerimônia, o nome dela já estava impresso nos convites, porque todos sabiam que ela diria “sim” no altar. O convite anunciou com certeza aquela resposta, mas não a produziu.

Paulo escreve que Deus “nos escolheu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4), e duas palavras pequenas dessa frase, “nos” e “nele”, resumem as perguntas deste estudo: quem é escolhido, e onde. A tradição reformada responde que Deus escolheu, sem considerar nenhuma condição, um número certo de pessoas, às quais dá a fé. A tradição arminiana responde que Deus escolheu Cristo e, nele, o seu povo, e que as pessoas participam dessa eleição pela fé que a própria graça torna possível; por isso falamos de eleição condicional em Cristo.

A lição 19 estudou os decretos, a presciência e os quatro decretos de Armínio e deixou para cá a exegese de Romanos 9 e a discussão sobre a eleição individual e corporativa; a lição 36 mostrou que a fé, condição da eleição, é fruto da graça que vem antes. O lugar do tema na doutrina do Espírito tem razão bíblica, porque Deus nos escolheu “para a salvação, em santificação do Espírito, e fé na verdade” (2 Tessalonicenses 2:13), e os crentes são “escolhidos segundo o pré-conhecimento de Deus Pai, por meio da santificação do Espírito” (1 Pedro 1:2). O propósito eterno do Pai, firmado no Filho, chega às pessoas no tempo pela obra do Espírito.

1. Os termos e as distinções

1.1 O vocabulário bíblico

O hebraico usa sobretudo bāḥar, “escolher”; o grego, o verbo eklegomai, “escolher para si”, o adjetivo eklektos, “escolhido”, e o substantivo eklogē, “eleição”. O artigo “Eleger” do Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, assinado por Lothar Coenen, faz três observações que orientam a discussão. Quem escolhe é quase sempre Deus, e a escolha não se apoia em qualidades do escolhido. A eleição, no Antigo Testamento, visa a um serviço e só conserva o sentido quando conduz à obediência, de modo que Deus pode rejeitar quem escolheu, como rejeitou Saul (1 Samuel 16:1). E, no Novo Testamento, eklektos aparece quase sempre no plural, para o povo de Deus; no singular, aplica-se a Cristo (Lucas 23:35; 1 Pedro 2:4, 6) e uma única vez a um membro da igreja, “Rufo, o escolhido no Senhor” (Romanos 16:13).

1.2 Três sentidos de eleição

Wesley e Richard Watson distinguem a eleição de pessoas para uma tarefa, como Ciro e os doze, que não garante a salvação, pois um dos doze “é um diabo” (João 6:70); a eleição coletiva de um povo para os privilégios da aliança, primeiro Israel e depois a igreja; e a eleição para a vida eterna, que Wesley declarou “condicional tanto quanto a condenação” (A predestinação calmamente considerada, 16-17). Muita confusão nasce de tomar um sentido pelo outro.

1.3 Condicional, mas não meritória

A eleição é condicional porque Deus decretou salvar os que creem em Cristo e perseveram. A condição, contudo, não é causa, e muito menos mérito. Armínio ensinou que a causa da eleição é somente o beneplácito de Deus, que “exclui todas as causas” que se pudessem tirar dos homens, que Cristo é “a fundação” do decreto e que os eleitos são os fiéis, não os que creriam “pelos seus próprios méritos ou força”, mas os que, “pela bondade gratuita e peculiar de Deus, creriam em Cristo” (Disputas públicas, XV, 4, 5 e 7, em As obras de Armínio, vol. 1). A fé é condição como a mão estendida do mendigo, que recebe o pão sem pagar por ele; a eleição condicional nada tem, portanto, de uma escolha dos que Deus “viu que eram bons”, nem de uma resposta a um primeiro passo humano, o que seria semipelagianismo.

1.4 Eleição individual e eleição corporativa

Os arminianos expõem essa eleição de duas maneiras. A eleição individual pela presciência, de Armínio, dos remonstrantes, de Wesley e, hoje, de Robert Picirilli e F. Leroy Forlines, afirma que Deus escolheu desde a eternidade pessoas determinadas, conhecidas de antemão como crentes. A eleição corporativa, de Robert Shank, William Klein e Brian Abasciano, afirma que Deus escolheu em Cristo um povo e que cada pessoa participa dessa eleição ao unir-se a ele pela fé; para Shank, a eleição é “primariamente corporativa, e secundariamente particular” (Eleitos no Filho, p. 45). O Manual de teologia arminiana de Flávyo Henrique Costa Santos conclui que as duas só são adequadas “se tomadas em conjunto” (cap. 6), conclusão que esto estudo adota.

2. Fundamentação bíblica

2.1 Israel e Cristo, o Eleito

A doutrina bíblica da eleição começa com um povo. Deus chamou Abraão com uma promessa que incluía “todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3), e Moisés lembrou a Israel que o Senhor o escolheu não por ser maior que os outros povos, pois eram “os menores de todos os povos”, “mas sim porque o SENHOR vos amou, e quis guardar o juramento que jurou a vossos pais” (Deuteronômio 7:7-8). Geerhardus Vos, teólogo reformado, chama essa eleição de “um meio particular cuja finalidade era universalista” (Teologia bíblica). Era eleição de um povo na pessoa do seu cabeça, Jacó, cujo nome se tornou o da nação; e era aberta e exigente, porque estrangeiras como Rute entravam no povo (“Teu povo será meu povo”, Rute 1:16), e o israelita que desprezava a aliança podia ser cortado dele.

O título de Israel passa ao Servo: “Eis aqui meu servo, a quem sustento; meu escolhido, em quem minha alma se agrada” (Isaías 42:1). Na cruz, os líderes zombam de Jesus chamando-o, sem saber o que diziam, de “o escolhido de Deus” (Lucas 23:35). Pedro reúne esses fios:

Aproximai-vos dele, que é uma pedra viva, rejeitada pelos seres humanos, mas escolhida e preciosa para Deus. Também vós, como pedras vivas, sois edificados como casa espiritual e sacerdócio santo […]. Mas vós sois a geração escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido; a fim de que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.

1 Pedro 2:4-5, 9

Cristo é a pedra “escolhida”, e os que se aproximam dele tornam-se, nele, a “geração escolhida”. Para Coenen, toda a eleição culmina no Filho, e o favor de Deus chega ao homem “de modo eficaz, na chamada que sai e o convida através de Cristo” (art. “Eleger”). Neste sentido, o Novo Testamento não conhece eleição para a salvação fora de Cristo, nem anterior a ele.

2.2 Efésios 1: escolhidos nele

A lição 19 leu Efésios 1:3-6. A continuação mostra como a eleição chega às pessoas:

Nele também fomos feitos herança, havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, para que fôssemos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo. E também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e nele crestes, nele fostes selados com o Espírito Santo da promessa.

Efésios 1:11-13

Em primeiro lugar, “em Cristo”, “nele” e “no Amado” aparecem cerca de dez vezes em doze versículos: Deus não escolheu primeiro indivíduos para depois lhes providenciar um Salvador. Armínio, contra William Perkins, chamou Cristo de “por assim dizer, a causa meritória, com respeito à qual foi feita a eleição” (Exame do panfleto de Perkins, em As obras de Armínio, vol. 3). Em segundo lugar, Paulo passa do “nós” que “primeiro esperamos em Cristo” ao “vós” que ouvistes e crestes, e o capítulo seguinte explica que os gentios, antes “excluídos da comunidade de Israel” (2:12), se tornaram “membros de um mesmo corpo” (3:6); a carta celebra a formação, em Cristo, de um só povo eleito de judeus e gentios. Em terceiro lugar, a eleição “antes da fundação do mundo” e a fé no tempo aparecem juntas, e Armínio concluiu que Deus “não reconhece como seu e não escolhe para a vida eterna nenhum pecador, a menos que o considere como um crente em Cristo, e feito um só, com Ele, pela fé” (Exame do panfleto de Perkins).

2.3 Romanos 9: a palavra de Deus não falhou

A leitura arminiana de Romanos 9 começa pela pergunta do próprio Paulo, que confessa “grande tristeza” (9:2) pelos israelitas que rejeitavam o Messias. A questão é a fidelidade de Deus: se o povo eleito rejeitou o Cristo, teria falhado a palavra de Deus?

Não que a palavra de Deus tenha falhado; porque nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas. Nem por serem descendentes de Abraão são todos filhos […]. Isto é, não são os filhos da carne que são os filhos de Deus; mas sim os filhos da promessa que são contados como descendência. […] (pois, como não eram ainda nascidos, não haviam feito bem ou mal, para que o propósito de Deus, segundo a escolha, continuasse; não pelas obras, mas por causa daquele que chama), foi dito a ela: O mais velho servirá o mais jovem; como está escrito: “Amei Jacó, mas odiei Esaú”.

Romanos 9:6-8, 11-13

Segundo Armínio, Paulo responde aos judeus que reivindicavam o título de povo de Deus pela aliança e julgavam contrário ao decreto divino que só os crentes em Cristo fossem contados como tal: a promessa nunca abrangeu “todos os israelitas, universalmente, sem eleição e distinção”, mas os “filhos da promessa”, e os excluídos são os que procuravam ser justificados “pelas obras da lei” (Exame do panfleto de Perkins). O fecho do capítulo confirma essa leitura: Israel não alcançou a justiça “porque não a buscavam pela fé, mas sim, como que pelas obras” (9:32). Wesley chegou à mesma conclusão, lembrando que o propósito de Paulo era mostrar que a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios concordavam com a palavra de Deus, e que o resumo do capítulo não diz uma palavra sobre reprovação pessoal (Romanos: notas explicativas, cap. 9).

Jacó e Esaú apontam na mesma direção. O oráculo diz a Rebeca: “Duas nações há em teu ventre” (Gênesis 25:23), e Esaú nunca serviu pessoalmente a Jacó; foram os edomitas que se sujeitaram a Israel. A frase do versículo 13 vem de Malaquias, que fala de Edom e da sua terra: “e odiei a Esaú; e tornei seus montes em desolação” (Malaquias 1:3). “Odiar”, no idioma bíblico, exprime muitas vezes preferência: Jacó amava Raquel “mais que a Lia”, e a Bíblia Livre traduz por “mal-amada” a palavra hebraica que chama Lia de “odiada” (Gênesis 29:30-31). Wesley anotou que o versículo não trata das pessoas de Jacó e Esaú nem do estado eterno deles (Romanos: notas explicativas, 9:13). E o “não pelas obras” exclui o mérito sem tornar a fé indiferente, porque, como lembrou Armínio, o propósito “segundo a eleição” é um propósito de graça em Cristo, e a promessa “é pela fé, para que seja conforme a graça” (Romanos 4:16; Debate amistoso com Francisco Júnio, em As obras de Armínio, vol. 3).

2.4 O direito do oleiro

À pergunta “há injustiça da parte de Deus?” (9:14), Paulo responde com Êxodo 33:19: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (9:15). Em Êxodo, a frase acompanha o perdão de Israel depois do bezerro de ouro, pela intercessão do mediador, e afirma que a misericórdia é livre, sem dizer que seja concedida sem condição; Wesley a parafraseou: “conforme os termos que eu próprio estabeleci” (Romanos: notas explicativas, 9:15). Por isso a salvação “não depende daquele que quer, nem daquele que se esforça, mas sim, de Deus, que se compadece” (9:16): ninguém a obtém pela vontade natural ou pelas obras, como Israel tentava, mas a recebe da misericórdia, nos termos que Deus fixou.

Faraó “agravou seu coração” (Êxodo 8:15) antes que o texto diga que “o SENHOR endureceu o coração de Faraó” (Êxodo 9:12); o endurecimento é juízo sobre uma resistência já presente, ou, como diz Wesley, Deus abandona o homem “à dureza de seu coração” (Notas, 9:18). A imagem do oleiro (Romanos 9:20-21) vem dos profetas, e em Jeremias ela é explicitamente condicional: se a nação ameaçada “se converter de sua maldade”, Deus mudará “de ideia quanto ao mal” anunciado (Jeremias 18:8). Os “vasos da ira” são suportados “com muita paciência” (9:22) e estão “preparados para a perdição” sem que Paulo nomeie quem os preparou, ao passo que dos vasos da misericórdia diz que Deus os “preparou com antecedência para a glória” (9:23). O alvo do argumento aparece em seguida: esses vasos “somos nós, aos quais ele chamou, não somente dentre os judeus, mas também dentre os gentios” (9:24). O capítulo defende, contra a confiança na descendência e nas obras, o direito de Deus de formar o seu povo segundo a fé.

2.5 O remanescente e a oliveira

Paulo ora pela salvação de Israel (10:1) e afirma que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (10:13). Há “um remanescente, escolhido pela graça” (11:5), e a imagem da oliveira mostra como a eleição do povo e a fé pessoal se articulam:

Por causa da incredulidade eles foram quebrados, e tu, por causa da fé estás firme. Não tenhas orgulho, mas sim temor, pois, se Deus não poupou os ramos naturais, ele poderá não poupar a ti também. Olha, pois, a bondade e severidade de Deus; a severidade sobre os que caíram, mas a bondade de Deus sobre ti, se continuares na bondade; de outra maneira, também tu serás cortado fora.

Romanos 11:20-22

A oliveira permanece, e os ramos entram e saem dela pela fé e pela incredulidade; o povo eleito tem raiz e continuidade, e a participação de cada um é condicional. O desfecho é universal na intenção: “Deus pôs todos debaixo da desobediência, a fim de ter misericórdia para com todos” (11:32).

2.6 A dimensão pessoal da eleição

A Escritura também fala da eleição de pessoas. Paulo saúda Rufo, “o escolhido no Senhor” (Romanos 16:13), e diz aos tessalonicenses que Deus os escolheu “desde o princípio para a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13). Jesus manda os discípulos se alegrarem “por vossos nomes estarem escritos nos céus” (Lucas 10:20), e o Apocalipse fala dos que não têm o nome escrito “no livro da vida desde a fundação do mundo” (Apocalipse 17:8), frase que só faz sentido se outros nomes estiverem escritos desde o princípio. Armínio mostrou que o “conhecer de antemão” de Romanos 8:29 pode guardar o seu sentido afetivo, porque Deus não pode “amar previamente e considerar, afetuosamente, como seu” nenhum pecador “a menos que Ele o conheça previamente, em Cristo, e o considere como um crente em Cristo” (Exame do panfleto de Perkins). Quanto a Atos 13:48, “creram todos quantos estavam determinados para a vida eterna”, Wesley observou que Lucas fala do que Deus fazia naquele momento, pela pregação, abrindo os corações como abriu o de Lídia (Atos 16:14), e não de uma ordenação desde a eternidade (Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Atos 13:48).

3. Desenvolvimento histórico

3.1 Dos Pais à Reforma

Os Pais anteriores a Agostinho ligavam a predestinação à presciência (Justino, I Apologia, 44), e o próprio Agostinho, por volta de 394, explicou a escolha de Jacó pela presciência da fé. Em 396, respondendo a Simpliciano, mudou de leitura e passou a ver na eleição a escolha gratuita de indivíduos dentro da “massa” condenada, mudança que reconheceu nas Retratações. Calvino herdou essa leitura (Institutas, III, 22), e o Sínodo de Dort declarou que a eleição não se fez com base na fé prevista, e sim para a fé (Cânones, I, 9). Os reformados, segundo a sua autocompreensão, veem na eleição incondicional a garantia de que a salvação é toda de Deus, e John Piper (The Justification of God, 1983) e Thomas Schreiner defenderam que Romanos 9 trata da salvação eterna de pessoas, e não do papel histórico de povos.

3.2 Armínio e os remonstrantes

Armínio expôs Romanos 9 em Amsterdã em 1593 e sustentou que o capítulo trata do propósito de Deus “segundo a eleição”, que inclui os que buscam a justiça pela fé; que a eleição se faz em Cristo, “como em um mediador” e “cabeça”; e que Deus elege pessoas determinadas, conhecidas como crentes, como diz o quarto decreto da Declaração de Sentimentos (1608): salvar e condenar “certas pessoas em particular”, segundo a presciência dos que, pela graça preveniente, creriam e, pela subsequente, perseverariam. Nas disputas de Leiden, juntou as duas dimensões ao definir a forma da predestinação como “a relação pré-existente e pré-ordenada e ordenação dos fiéis em Cristo, a sua Cabeça, cujo fruto eles recebem por meio de uma união real com Cristo” (Disputas públicas, XV, 8). A eleição é pessoal, porque se refere a fiéis determinados, e corporativa, porque eles são eleitos como membros de um corpo. A Remonstrância (1610, art. 1) resumiu o ensino: Deus decretou, “em Jesus Cristo”, salvar os que, “pela graça do Espírito Santo”, haveriam de crer e perseverar.

3.3 Wesley e os sistemáticos wesleyanos

Wesley definiu no seu dicionário os eleitos como todos os que verdadeiramente creem em Cristo (Randy Maddox, Responsible Grace, cap. 2). No sermão Sobre a predestinação, observou que, a rigor, não há em Deus presciência nem “pós-ciência”, porque toda a eternidade lhe está presente, e que a palavra fala de Deus segundo a maneira dos homens (citado no Manual, cap. 6).

Watson aplicou Romanos 9 à eleição de povos para privilégios religiosos, com Jacó e Esaú como nações, e tratou a eleição para a vida eterna, a partir de 1 Pedro 1:2, como eleição dos crentes (Theological Institutes). William Burt Pope escreveu que “a eleição sempre pressupõe o chamado, mas o chamado nem sempre resulta em eleição” (Compendium, vol. 2, p. 345). H. Orton Wiley falou de uma “predestinação de classe”, a dos crentes, e resumiu num debate de 1959: “não somos predestinados para a vida ou para a morte; somos predestinados para a adoção de filhos” (Efésios 1:5). A sequência mostra a tendência wesleyana de pensar a eleição a partir do povo de Deus em Cristo, sem negar o conhecimento eterno de cada pessoa.

3.4 O debate atual e o Brasil

Entre os arminianos, a leitura corporativa ganhou força com Robert Shank (Elect in the Son, 1970), William Klein (The New Chosen People, 1990) e Brian Abasciano, que lê Romanos 9 à luz de Êxodo 32 a 34, ouvindo no desejo de Paulo de ser “separado de Cristo” (9:3) o eco de Moisés, “apaga-me agora de teu livro” (Êxodo 32:32), e resume que, na eleição bíblica, os indivíduos “eram eleitos, mas só como membros do povo eleito” (Journal of the Evangelical Theological Society 49, 2006). Picirilli e Forlines preferiram a eleição individual, e Picirilli julgou que Shank se aproximava demais de negar a eleição pessoal ensinada por Armínio.

No Brasil, a leitura corporativa se difundiu entre os pentecostais pelas notas de Donald Stamps na Bíblia de estudo pentecostal, que comparam a igreja a um navio eleito rumo ao céu. Walter Brunelli afirma que, em Efésios 1, “a predestinação é claramente corporativa” (Teologia para pentecostais, vol. 3), e Vinícius Couto escreveu que Deus escolheu “não os israelitas, mas Israel”. O Manual de teologia arminiana reage ao exagero: negar a eleição de pessoas é negar vários textos, e o navio põe o corpo de Cristo “longe das pessoas”, quando nós mesmos somos o corpo (1 Coríntios 12:27). E quando Brunelli escreve que “somos eleitos porque aceitamos o convite”, é preciso acrescentar que a aceitação só é possível porque a graça veio antes.

4. A posição arminiana clássica e wesleyana

4.1 Definição

Em suma, cremos que a eleição para a salvação é o decreto eterno e gracioso pelo qual Deus escolheu, em Cristo, o seu povo e, nele, cada um dos que, pela graça preveniente, haveriam de crer e, pela graça subsequente, perseverar, para fazê-los santos, filhos adotivos e herdeiros da glória. A causa da eleição é somente o amor de Deus; o fundamento é Cristo, o Mediador; a condição é a fé, que a própria graça torna possível; o fim é a santidade dos eleitos e o louvor da glória da graça; e o meio pelo qual ela chega às pessoas é a obra do Espírito, que chama, convence, liberta e sela os que creem.

4.2 Duas faces de uma só eleição

As duas leituras arminianas deixam de ser rivais quando nenhuma é tomada isoladamente. A dimensão corporativa preserva o que Romanos 9 a 11, Efésios 1 e 1 Pedro 2 dizem com clareza: Deus escolheu Cristo e, nele, um povo, e ninguém é eleito fora da Cabeça e do corpo. A dimensão pessoal preserva o que Romanos 16:13, Lucas 10:20 e Apocalipse 17:8 dizem com a mesma clareza: Deus conhece os seus pelo nome. Quando Deus escolhe Cristo, escolhe a Cabeça e o corpo, e o corpo é feito de pessoas conhecidas desde a eternidade, como resume o Manual. Isolada, a leitura corporativa reduz a eleição a um plano sem pessoas, e a individual pode sugerir um Deus espectador; mas Deus age antes da fé, pela graça que liberta a vontade, e conhece de antemão, sem causar a incredulidade de ninguém, quem responderá com fé. Por isso rejeitamos o teísmo aberto, que nega a Deus o conhecimento das decisões livres futuras.

4.3 Por que a condição não diminui a graça

A objeção mais séria afirma que a eleição condicional faz do homem o autor da diferença entre salvos e perdidos. Abasciano responde que Deus de fato escolhe: escolhe a Cabeça, o povo e a condição de entrada. Armínio acrescenta que a fé é dada por Deus, e que, a quem achasse que a sua definição deixava a fé por conta da vontade humana, bastava completar a palavra “fiéis” com “a quem Ele decidiu dar a fé” (Exame do panfleto de Perkins). Como mostrou o estudo 36, na diferença entre o que crê e o que não crê, o único ato que o homem pode chamar de inteiramente seu é a resistência; por isso a condenação lhe pertence, e a salvação pertence a Deus.

Charles Finney, lido neste curso apenas como contraste, também falou de eleição condicionada, mas supunha que “a administração mais sábia possível, do governo moral, asseguraria a livre concorrência de alguns e não de outros” (Teologia sistemática); como não admitia a incapacidade da vontade caída, a eleição se torna nele o cálculo de quem a persuasão moral alcançaria. A eleição arminiana parte do ponto oposto: a vontade está presa até que a graça a liberte.

4.4 As tradições em comparação

TradiçãoObjeto da eleiçãoRelação com a fé
Reformada (Dort)Um número certo de pessoas, sem condição previstaA fé é fruto da eleição
Luterana (Concórdia)Os filhos de Deus em Cristo, sem reprovação correspondenteA fé é dom; a perdição vem da resistência
Arminiana, ênfase pessoalPessoas conhecidas como crentes em CristoA fé, dom da graça, é condição
Arminiana, ênfase corporativaO povo de Deus em CristoA fé une a pessoa ao povo eleito

A divergência fica marcada como divergência: cremos que Deus elege em Cristo os que, pela graça, creem, e não que elege alguns, sem condição, para que somente eles possam crer.

4.5 Objeções e respostas

A primeira objeção recorre a Romanos 9:16. Concordamos que a salvação não depende da vontade natural nem das obras, mas o versículo nada diz contra a fé, que o mesmo capítulo apresenta como o caminho pelo qual os gentios alcançaram a justiça (9:30); a fé não se apresenta a Deus como título, mas como mão vazia.

A segunda vem de Vincent Cheung, lido apenas como contraste, para quem, com base em Romanos 9:13, “é melhor dizer que Deus ama os eleitos mas odeia os réprobos” (Teologia sistemática). A frase de Malaquias fala de nações e de preferência histórica, e o próprio Paulo cita Oseias para dizer que Deus chamará “Amada” a que não era amada (9:25); o Deus de Romanos quer “ter misericórdia para com todos” (11:32) e “quer que todas as pessoas se salvem” (1 Timóteo 2:4).

A terceira pergunta se a eleição condicional tira a segurança do crente. Ela a põe no lugar certo: quem está em Cristo pela fé está entre os eleitos e não precisa investigar um decreto oculto, e por isso Pedro manda “confirmar vosso chamamento e escolha” (2 Pedro 1:10). A eleição, porém, não autoriza a presunção, porque o ramo permanece “se continuares na bondade” (Romanos 11:22), tema do estudo 42.

5. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, a doutrina dá ao crente uma certeza centrada em Cristo: ninguém precisa perguntar se o seu nome está numa lista secreta, mas se está em Cristo, e a essa pergunta respondem a promessa e o testemunho do Espírito (lição 40). Em segundo lugar, ela sustenta a evangelização, porque podemos dizer a qualquer pessoa, no bairro, no presídio ou na aldeia, que há lugar para ela no povo de Deus. Em terceiro lugar, ela nos ensina humildade: “não és tu que sustentas a raiz, mas sim, a raiz a ti” (Romanos 11:18). Por fim, ela dá à igreja consciência de missão e de santidade, porque somos “geração escolhida” para anunciar as virtudes de Deus (1 Pedro 2:9) e fomos escolhidos “para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4).

Voltemos à noiva da festa de família. Ela entrou numa história que começou antes dela e passou a carregar o sobrenome de uma casa que já tinha memória e promessas; ao mesmo tempo, o nome dela estava no convite antes do “sim”, porque a família sabia o que ela responderia. Assim é a eleição em Cristo: o Pai escolheu o Filho e, nele, um povo, e conheceu desde a eternidade cada um dos que, pela graça, diriam “sim” ao seu chamado. No nosso caso, porém, há algo mais, e isso vale para todos nós: quem cortejou a noiva, abriu-lhe o coração e lhe deu forças para responder foi o próprio Noivo. Senhor, que nos escolheste em Cristo antes da fundação do mundo, guarda-nos nele pela fé, faze-nos santos e irrepreensíveis diante de ti em amor e livra-nos de nos orgulharmos da tua graça, para que a anunciemos a todos.

Síntese

  1. Na Escritura, quem elege é Deus, por amor e sem mérito do escolhido; a eleição pode ser para um serviço, para os privilégios da aliança ou para a vida eterna.
  2. Cristo é o Eleito de Deus, e a eleição do seu povo acontece nele (Isaías 42:1; 1 Pedro 2:4-9; Efésios 1:3-14).
  3. Romanos 9 a 11 trata da fidelidade de Deus diante da incredulidade de Israel e defende o direito de Deus de formar o seu povo segundo a fé, e não segundo a descendência ou as obras.
  4. A eleição para a salvação é condicional: Deus escolhe em Cristo os que creem e perseveram, e a fé, condição sem mérito, é dom da graça preveniente.
  5. A eleição corporativa e a eleição pessoal pela presciência são duas faces de uma só eleição em Cristo, como na definição de Armínio: a ordenação “dos fiéis em Cristo, a sua Cabeça”.

Questões para revisão

  1. O que o uso de eklektos no Novo Testamento ensina sobre o objeto da eleição?
  2. Quais são os três sentidos de eleição distinguidos por Wesley e Watson?
  3. Em que sentido a fé é condição da eleição sem ser causa nem mérito?
  4. Como Armínio e Wesley descrevem o propósito de Paulo em Romanos 9, e como interpretam Jacó e Esaú?
  5. Como Jeremias 18 e a oliveira de Romanos 11 contribuem para a leitura arminiana de Romanos 9?
  6. Por que esto estudo considera complementares a eleição individual pela presciência e a eleição corporativa?

Bibliografia

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