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TeologiaArminianismo11 de 22

Um Resumo da Soteriologia Arminiana

Diego Gonçalvesatualizado 22 min de leitura4.388 palavras

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Neste texto

Os posts anteriores a este tentaram descrever a soteriologia arminiana ortodoxa. Esta é a doutrina ensinada por Jacó Armínio e John Wesley. Infelizmente, há muitos que afirmam ser arminianos, mas não seguem os ensinamentos de Armínio e Wesley, e muitas vezes nem sabem o que eles ensinaram. Muitos entendem o arminianismo como qualquer coisa que não seja calvinismo. Muitos calvinistas que o criticam também desconhecem o que a soteriologia arminiana realmente ensina e, por isso, acabam descrevendo-a de forma simplificada e até distorcida.

Retrato a óleo de Jacó Armínio, professor de teologia em Leiden, de barba, com gola branca e vestes escuras
Hieronymus van der Mij (a partir de Michiel van Mierevelt), Retrato de Jacó Armínio, século XVIII. Universidade de Leiden, Academiegebouw (Icones Leidenses 45). Domínio público, via Wikimedia Commons.

O que o Arminianismo Não É

O que é, então, o arminianismo? Ajuda começar pelo que ele não é. O arminianismo não é simplesmente qualquer coisa que não seja calvinismo. O calvinismo é um sistema teológico completo, desenvolvido inicialmente por João Calvino. Jacó Armínio foi formado na tradição de Calvino (estudou em Genebra com Teodoro Beza, sucessor de Calvino) e discordou da doutrina da predestinação dessa tradição. Ele considerava essa visão da predestinação contrária ao caráter de Deus revelado nas Escrituras. O arminianismo trata da doutrina da salvação e, ao contrário do calvinismo, não é um sistema que aborde batismo infantil, governo da igreja e muitas outras crenças distintivas dos calvinistas.

Ao contrário do que muitos pensam, a soteriologia arminiana não é semipelagianismo. O semipelagianismo ensina que o ser humano é capaz, por si só, de dar o primeiro passo na salvação, e muitos hoje defendem essa crença. Mas o arminianismo concorda com o calvinismo que a humanidade é totalmente depravada, sem capacidade inata de buscar a Deus. Para Armínio, o primeiro passo é sempre de Deus.

Tampouco o arminianismo é o mesmo que o teísmo aberto. O arminianismo afirma que Deus conhece de forma exaustiva todo o futuro, e que Ele sabia de tudo o que aconteceria antes da criação, sem por isso orquestrar cada detalhe. Os defensores do teísmo aberto sustentam que o conhecimento de Deus sobre o futuro é limitado. Segundo eles, o futuro ainda não existe, então Deus não poderia conhecê-lo; e, mesmo que pudesse, esse conhecimento limitaria as escolhas livres, tornando o futuro fixo e imutável. O arminianismo clássico rejeita essa conclusão.

Da Remonstrância ao Sínodo de Dort

A tensão entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana é tão antiga quanto as Escrituras, mas a forma clássica do debate nasceu na Holanda, no início do século XVII. Armínio foi pastor em Amsterdã e depois professor de teologia em Leiden. Ele não era um liberal nem um inimigo da Reforma. O que o incomodava era a ideia de que Deus teria decretado a perdição eterna de pessoas antes da fundação do mundo, sem qualquer consideração pelo pecado delas.

Armínio morreu em 1609. Seus seguidores reuniram as objeções num documento de cinco artigos, a Remonstrância, entregue às autoridades holandesas em 1610, e por isso ficaram conhecidos como remonstrantes. A Igreja Reformada respondeu com o Sínodo de Dort, reunido de 1618 a 1619 com delegados de várias partes da Europa. O sínodo rejeitou os artigos remonstrantes e formulou cinco pontos próprios em defesa da teologia reformada. São esses pontos que, séculos depois, ficariam conhecidos no mundo de língua inglesa pelo acrônimo TULIP.

Mais de um século depois, o debate atravessou o Canal da Mancha e ganhou novo fôlego no despertamento evangélico britânico. George Whitefield pregava ao ar livre para multidões com uma teologia abertamente calvinista. John Wesley, o pai do metodismo, defendia a universalidade da oferta da graça. Os dois trocaram cartas duras, mas mantiveram uma amizade profunda, e nenhum deles duvidava da fé do outro. Ambos sabiam que serviam ao mesmo Senhor, embora lessem a obra da redenção de modos diferentes.

Comparando Estruturas Soteriológicas Arminianas e Calvinistas

A seguir, compararemos a soteriologia do arminianismo com o calvinismo. A soteriologia calvinista é frequentemente associada ao acrônimo TULIP, enquanto a soteriologia arminiana não possui um acrônimo universalmente aceito, embora alguns adotem o acrônimo FACTS para sua teologia.

A pergunta que moveu tanto os teólogos reformados quanto os remonstrantes é séria: como um Deus santo, soberano e justo lida com pecadores caídos sem anular a sua graça e sem transformar o chamado à conversão num convite falso? Em cada ponto, procuro descrever cada tradição como ela mesma se entende e marcar onde está, de fato, a disputa.

Depravação Total

Este é o ponto em que as duas tradições concordam. Como consequência da queda, a humanidade é totalmente depravada. Isso não significa que é tão má quanto poderia ser, mas sim que é incapaz, por seus próprios esforços, de vir a Deus para a salvação. Sem a obra da graça de Deus, não pode haver salvação.

A divergência começa logo depois, no modo como Deus vence essa incapacidade. Para o calvinista, a regeneração precisa vir antes da fé: um morto não estende a mão para receber o remédio, e por isso o Espírito Santo dá vida ao coração primeiro, concedendo tanto a capacidade quanto o desejo de crer. Para o arminiano, Deus concede a todas as pessoas a graça preveniente, ou seja, a graça que vem antes, que ilumina, convence e liberta a vontade caída para que a pessoa possa crer, sem forçá-la. A disputa não está na gravidade da queda, mas na ordem entre graça, fé e novo nascimento, e na possibilidade de resistir ao convite do evangelho.

Eleição

A soteriologia arminiana sustenta a eleição condicional. Deus elege, ou escolhe, todos aqueles que respondem com fé ao seu dom de salvação. Podemos responder, não por algo inato em nós, mas por causa da capacitação do Espírito Santo por meio da graça preveniente. A progressão lógica da salvação começa com a obra do Espírito Santo, que capacita a fé; segue-se a resposta da pessoa, que recebe a oferta de salvação; e depois vem a regeneração.

A soteriologia calvinista sustenta a eleição incondicional. Deus escolhe soberanamente alguns para a salvação, independentemente de qualquer coisa que o escolhido possa acreditar ou fazer. A ordem lógica na salvação começa com Deus escolhendo os que serão salvos; depois regenerando e concedendo fé aos escolhidos, que então exercem a fé.

O ponto em disputa é o critério da escolha. Quando Paulo diz que Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4), o que serviu de critério? Para o calvinista, Deus não olhou para o futuro para ver quem teria fé; escolheu salvar um povo por pura misericórdia, segundo o conselho soberano da sua vontade, e a fé é o fruto da eleição, e não a sua causa. Para o arminiano, a eleição é em Cristo: Deus decretou salvar os que se arrependem e creem nele e, conhecendo todo o futuro desde a eternidade, sabe quem, pela graça preveniente, creria e, pela graça subsequente, perseveraria. A fé prevista é a condição que recebe a salvação, não o mérito que causa a eleição.

Expiação

O arminianismo defende a expiação ilimitada. A obra expiatória de Cristo na cruz foi para todas as pessoas, embora seja eficaz apenas para aqueles que creem. Isso não é universalismo. Embora a expiação tenha sido para todos, apenas aqueles que creem recebem seu benefício.

O calvinismo, por outro lado, geralmente sustenta a expiação limitada. A obra expiatória de Cristo na cruz foi apenas para os eleitos. A expiação está disponível apenas para aqueles que Deus predestinou para a salvação. Alguns calvinistas rejeitam isso e aceitam a expiação ilimitada. Este também é o ponto em que os luteranos discordam dos calvinistas, rejeitando a expiação limitada.

Nenhuma das duas tradições discute o valor do sacrifício de Jesus. Ambas concordam que o sangue de Cristo tem valor infinito. A disputa está na intenção do decreto divino. O calvinista que defende a expiação particular (ou limitada quanto à intenção do Pai e do Filho) entende que a morte de Jesus não apenas tornou a salvação possível para todos em abstrato, mas garantiu a redenção eficaz dos eleitos. Jesus foi para a cruz como o bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (João 10:11), pagando a dívida de cada uma delas de modo que nenhuma se perca. O arminiano entende a intenção da cruz como universal: Cristo morreu por toda a raça humana, sem exceção, e o seu sacrifício é suficiente para o mundo inteiro e eficaz para quem o recebe pela fé, uma fé que a própria graça torna possível.

Resistibilidade da Graça

A soteriologia arminiana argumenta que a graça preveniente de Deus, dada ao incrédulo, capacita a fé. A salvação é então oferecida como um presente que pode ser aceito ou rejeitado. A obra do Espírito Santo é resistível.

Em contraste, o calvinismo sustenta a graça irresistível. O Espírito Santo trabalha na vida dos eleitos para trazê-los a um relacionamento com Cristo. Esse trabalho do Espírito Santo é irresistível; todos os predestinados virão à fé.

Os reformados fazem questão de esclarecer que a graça irresistível não quer dizer que Deus arrasta as pessoas contra a vontade delas. Quando Deus decide salvar alguém, ele transforma de tal modo os afetos e os desejos do coração que a pessoa passa a vir a Cristo de boa vontade e com alegria. A luz da revelação dissipa a cegueira espiritual.

O arminiano responde com as passagens em que a graça aparece sendo resistida. Deus diz por meio de Isaías:

“Estendi minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por um caminho que não é bom, seguindo seus próprios pensamentos.”

(Isaías 65:2, Bíblia Livre)

Paulo aplica esse texto a Israel (Romanos 10:21). E Estêvão, diante do Sinédrio, acusa os seus ouvintes:

“Vós, obstinados e incircuncisos de coração e de ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo! Tal como vossos pais foram, assim também sois vós!”

(Atos 7:51, Bíblia Livre)

Para o arminiano, a resposta de amor e fidelidade que Deus pede ao ser humano pressupõe a liberdade real de dizer não. O ponto em disputa é se a graça que chama pode ser recusada por quem é chamado.

Persistência da Salvação

Este é o ponto que divide os arminianos. Todos acreditamos que aqueles que persistem em sua fé serão salvos no final. Alguns acreditam que todos os verdadeiros crentes persistirão. Outros aceitam a possibilidade de que os verdadeiros crentes possam virar as costas à graça de Deus e, como resultado, perder a salvação. Este site, com Wesley, fica com este segundo grupo: a perseverança é condicional, e a segurança está em permanecer em Cristo.

Para os calvinistas, a perseverança dos santos decorre da promessa divina. Quem foi eleito pelo Pai, redimido pelo Filho e selado pelo Espírito Santo está seguro nas mãos de Deus para sempre. O verdadeiro crente pode passar por quedas graves e por tempos de frieza espiritual, mas será corrigido e guardado pelo poder de Deus até o fim. Quem abandona a fé de forma definitiva, nessa leitura, nunca foi de fato regenerado.

Entre os arminianos, o próprio Armínio deixou a questão em aberto; os remonstrantes posteriores e Wesley afirmaram a perseverança condicional. O crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé. Jesus disse:

“Estai em mim, e eu em vós; como o ramo de si mesmo não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim vós também não, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, é lançado fora, como o ramo, e seca-se; e os colhem, e os lançam no fogo, e ardem.”

(João 15:4-6, Bíblia Livre)

Paulo põe a mesma condição diante dos colossenses: “se, de fato, permaneceis fundados e firmes na fé, e não vos afastais da esperança do evangelho que ouvistes” (Colossenses 1:23, Bíblia Livre). E a Carta aos Hebreus está repleta de advertências sérias contra a apostasia. O crente tem a garantia de que Deus nunca o abandonará; porém, se ele endurecer o coração, desprezar a graça e renunciar a Cristo, pode romper a comunhão e naufragar espiritualmente. O ponto em disputa é se a fé salvadora, uma vez recebida, pode ser abandonada.

A Soberania de Deus

Como você pode ver, existem diferenças significativas em como João Calvino e Jacó Armínio, e seus respectivos seguidores, veem a doutrina da salvação. Mas mais significativo do que essas diferenças é como eles veem o caráter de Deus. Enquanto ambos veem Deus como soberano, eles entendem a soberania de Deus de maneiras diferentes. Para o calvinista, a soberania implica controle completo e total de tudo o que acontece na criação. Se alguém é capaz de realizar alguma ação ou tomar alguma decisão que não esteja sob a direção de Deus, então Deus não é soberano.

Essa questão de entender a soberania de Deus levou Jacó Armínio a rejeitar a soteriologia do calvinismo. Ele via o determinismo divino (Deus determina tudo) como fazendo de Deus o autor do pecado. E isso, para ele, removia qualquer responsabilidade real pelo pecado da humanidade. Se uma pessoa só pode agir de acordo com os decretos de Deus, então quando peca é resultado do decreto de Deus; é o que Deus queria que fizesse. Para Armínio, Deus era soberano sobre toda a sua criação. Mas essa soberania incluía a vontade permissiva de Deus, permitindo que a humanidade agisse em desacordo com a vontade desejada de Deus. Mas, mesmo permitindo o mal, Deus o usa para realizar seu propósito. Nossas escolhas humanas nunca são inesperadas ou permitidas a interferir no propósito de Deus na criação.

A Doutrina da Predestinação

A outra questão que Armínio tinha com o calvinismo de sua época está na doutrina relacionada da predestinação. Calvino modelou sua doutrina da predestinação a partir de Agostinho. Deus escolheu alguns para a salvação antes da criação, independentemente de qualquer coisa que o indivíduo possa ser ou fazer. Deus escolhe alguns para a salvação incondicionalmente, segundo o beneplácito da sua vontade. Alguns calvinistas também argumentam que Deus escolheu especificamente o restante da humanidade para uma eternidade no inferno. Outros argumentam contra essa dupla predestinação, mas o resultado é o mesmo. Se você não está entre os escolhidos, está entre os condenados. Armínio dizia que essa doutrina é “repugnante à natureza de Deus” (Declaração de Sentimentos, 1608), e Wesley chegou a dizer que ela representa Deus como pior que o diabo (Sermão 110, A graça livre): seriam humanos criados sem nenhuma esperança real de escapar das chamas do inferno.

Em vez disso, Armínio, apelando às Escrituras e aos primeiros pais da igreja, argumentou que Deus ama toda a humanidade. E que ele capacita todos a crer. Aqueles que ele prevê que responderão em fé, ele elege, enquanto aqueles que não respondem são condenados. Mas essa condenação é resultado da rejeição da graça de Deus, não uma ação arbitrária da parte de Deus. O calvinista argumentará que minha escolha de aceitar a oferta de graça de Deus é uma ação minha, o que tornaria a salvação pelo menos parcialmente baseada em meus próprios esforços. Mas Armínio respondeu que um presente gratuito recebido ainda é um presente gratuito. Aceitar o presente não constitui de forma alguma um mérito da minha parte.

Livre-Arbítrio

Os calvinistas acusam os arminianos de se concentrarem no livre-arbítrio humano, embora também o aceitem de certa forma, com outro nome: “livre-agência”. Mas Armínio não falou de livre-arbítrio para elevar a humanidade. Falou para que as pessoas fossem responsáveis por seu próprio pecado, e não Deus. E esse arbítrio, depois da queda, só é livre para o bem quando a graça o liberta. A salvação não é menos uma obra de Deus porque, libertado por ela, posso aceitá-la ou rejeitá-la.

Resumo da Soteriologia Arminiana

Conforme expresso anteriormente, o arminianismo não é um sistema teológico completo. Em vez disso, é uma forma particular de entender a soteriologia, a doutrina da salvação. Deus é nosso criador e ele ama todos aqueles dentro de sua criação. Deus criou o homem como um agente moral livre com a capacidade de fazer escolhas reais. Em particular, a escolha entre obedecer a Deus e desobedecê-lo. Deus sabia as escolhas que a humanidade faria e planejou em torno delas. Mas ele não causou a desobediência de Adão e Eva e a queda no pecado. Isso foi uma escolha que eles fizeram livremente por si mesmos.

Somos um Povo Caído

Quando nossos primeiros pais desobedeceram a Deus e caíram de seu estado de graça, eles e toda a sua descendência perderam a capacidade de funcionar no reino espiritual. Não podíamos mais andar com Deus no jardim. Não podíamos mais encontrá-lo. E, de fato, não podíamos mais nem buscá-lo ou desejá-lo. Como resultado da queda, nos tornamos totalmente incapazes de desejar ou efetuar um retorno a Deus. A humanidade continuou como agentes morais livres, fazendo o bem e o mal e tomando decisões livres no reino físico. Mas estávamos totalmente mortos no reino espiritual. E, pior ainda, enfrentávamos a condenação eterna.

Deus Providenciou os Meios de Reconciliação

Mas a queda do homem não diminuiu o amor de Deus pela humanidade. Nossa queda foi antecipada antes da criação. E, por causa do amor e da graça de Deus, os meios de reconciliação também foram planejados antes da criação. Esses meios de reconciliação tinham duas partes. A primeira foi o sacrifício expiatório oferecido por Jesus, Deus encarnado. A morte de Jesus na cruz serve para pagar a penalidade pelos pecados de todo o mundo. Jesus morreu no lugar de todos, e esse sacrifício se aplica aos que respondem a ele com fé.

E isso nos leva à segunda parte dos meios de reconciliação. Em minha própria natureza, não sou capaz de responder a Deus com fé; minha natureza caída não tem essa capacidade. Mas Deus trabalha graciosamente na vida das pessoas para capacitá-las a crer. Ele liberta as nossas vontades depravadas para que possam receber o presente que ele oferece.

A Salvação é um Presente Oferecido Gratuitamente

Deus agora nos oferece os meios de salvação, o sacrifício de Jesus. E ele nos dá a capacidade de aceitar seu presente oferecido gratuitamente. Se eu o receber pela fé, sou salvo e meu espírito nasce de novo, capaz de buscar e conhecer a Deus. Se eu rejeitar o presente da salvação, continuo rumo à condenação e destruição. Só se eu receber o presente de Deus serei libertado da condenação em que nasci. O presente da salvação que Deus me oferece é totalmente obra dele. Minha aceitação de seu presente oferecido gratuitamente não diminui de forma alguma o presente de sua parte. Nem de forma alguma me torna digno dele.

Desde a criação, Deus predestinou que aqueles que, como um ato de fé, aceitarem seu presente de salvação, serão adotados em sua família. E compartilharão eternamente as bênçãos da filiação. A escolha de Deus por nós não é arbitrária. Em vez disso, é baseada em seu conhecimento de quem responderia a ele com fé. Uma fé que a sua graça capacita. Aqueles que se encontram condenados não têm ninguém a culpar, senão a si mesmos. A graça de Deus capacita todos a crer, e a expiação de Jesus é suficiente para todos. Mas essa expiação é aplicada apenas àqueles que respondem com fé.

Os Cinco Solas

Cinco princípios fundamentais surgiram da Reforma Protestante e, de muitas maneiras, definem o que significa ser protestante. Para o arminiano, assim como para todos os verdadeiros protestantes, essas verdades fornecem a estrutura para o que acreditamos e praticamos.

  • Sola Scriptura: A Escritura sozinha é nossa fonte de autoridade. Embora possamos recorrer a fontes humanas para fornecer entendimento ou esclarecimento, a Escritura sozinha é autoritária. A tradição humana e da igreja, bem como credos ou confissões, são secundários à Escritura.
  • Sola Gratia: A salvação é somente pela graça. É unicamente por causa da ação graciosa de Deus em nosso favor que podemos ser salvos. A graça de Deus nos capacita a crer e responder com fé. E sua graça continua a trabalhar em nossas vidas através da regeneração, santificação e glorificação.
  • Sola Fide: A salvação é também somente pela fé. Não há nada que nós, como humanos, possamos fazer para ganhar o favor de Deus ou nos tornar de qualquer maneira aceitáveis a Deus. Todos que vêm a Deus com fé são regenerados.
  • Solus Christus: Cristo sozinho fez tudo o que é necessário para minha salvação. Não há nada que eu possa fazer para adicionar ao que ele fez.
  • Soli Deo Gloria: Toda a glória somente a Deus. Porque minha salvação é totalmente uma obra de Deus, toda a glória por ela deve ir para Deus. E toda a minha vida deve ser vivida de maneira a trazer glória a Deus.

Podemos entender alguns desses Solas de forma um pouco diferente de outros protestantes, em particular o papel da fé: para nós, a graça é resistível, e a fé é a mão vazia que recebe o que a graça oferece. Mas os arminianos ortodoxos mantêm firmemente esses cinco Solas e, assim, estão firmemente no campo protestante.

O Debate na Vida da Igreja

Essas distinções não ficam presas aos livros de teologia. Elas afetam o modo como vivemos a fé na igreja local e no campo missionário.

No evangelismo, às vezes se repete o mito de que calvinistas não se importam com missões, porque Deus já escolheu quem vai salvar. A história desfaz isso com facilidade. William Carey, pioneiro das missões modernas na Índia, era um calvinista convicto. Ele entendia que Deus ordena não só o fim, a salvação dos eleitos, mas também os meios, a proclamação incansável da igreja. A certeza de que Deus tem o seu povo em todas as tribos deu a Carey coragem para perseverar por anos sem ver um único convertido. O arminianismo, por sua vez, alimenta a urgência: a convicção de que cada pessoa ao nosso redor está diante de uma escolha real e definitiva dá peso a cada apelo e a cada conversa sobre o evangelho.

Na relação com a cultura, a tradição reformada consolidou a convicção de que cada parte da realidade pertence a Cristo e incentivou o cristão a ocupar a ciência, a arte, a economia e a política com seriedade vocacional. A herança arminiana-wesleyana destacou a santidade prática, a busca da pureza de coração e o compromisso com a justiça e com o alívio do sofrimento dos pobres. Ao lado de evangélicos de outras linhas, ela contribuiu para a abolição da escravidão no Império Britânico, causa que Wesley defendeu.

Quando tiramos das duas correntes os estereótipos, sobram duas tradições que guardam verdades preciosas. O calvinismo nos lembra que a salvação pertence ao Senhor do início ao fim, quebra o orgulho humano e nos ensina a descansar com gratidão num Pai que nos amou quando estávamos mortos. O arminianismo, que confessa com a mesma convicção que a salvação é obra de Deus do começo ao fim, nos adverte que a graça pode ser resistida e que a resposta que ela mesma torna possível importa de verdade. Ele nos impede de tratar a graça como licença para a acomodação, leva a sério o chamado sincero de Cristo a todas as pessoas e mantém acesa uma vida de vigilância, oração e temor. A igreja madura não precisa transformar esse debate histórico numa guerra entre irmãos. O mesmo evangelho que nos põe de joelhos diante da majestade de Deus nos envia ao mundo para anunciar a reconciliação a todo aquele que crê.

Conclusão

Acredito que a soteriologia de Armínio é mais fiel às Escrituras do que a de João Calvino. Ou Martinho Lutero, nesse caso. E acredito que representa melhor o caráter de Deus. Mas também acredito que os protestantes de todos os tipos são devedores a Lutero e Calvino, bem como a outros reformadores iniciais, por ajudar a igreja a recuperar as doutrinas expressas pelos 5 Solas.

Tenho sérias objeções às implicações que vejo nas visões calvinista e luterana da predestinação para o caráter de Deus. Mas considero os calvinistas e os luteranos verdadeiros crentes, irmãos e irmãs na fé. Às vezes, posso ter parecido antagonista em relação à doutrina calvinista, mas isso foi principalmente para ilustrar as diferenças entre as duas. Mas também devo confessar pelo menos alguma irritação com os ataques desinformados dos calvinistas contra a soteriologia arminiana. Digo desinformados porque, na maioria das vezes, estão realmente atacando um espantalho, e não a soteriologia arminiana em si. Espero não ter sido culpado disso. E espero que esta série de posts ajude a esclarecer algumas das desinformações que são tão abundantes em relação à soteriologia arminiana.

Uma Nota Final

Um último ponto a ser feito. Usei bastante o rótulo arminiano durante esta série de posts. Mas arminiano é um rótulo que apenas descreve uma estrutura particular para a doutrina da salvação. Mais propriamente, trata-se de uma soteriologia arminiana. Em todos os outros aspectos, Armínio ensinou de forma muito alinhada com João Calvino e seus seguidores.

Chegamos ao fim!

Este artigo conclui uma série de posts que descreveram a soteriologia arminiana conforme ensinada por Jacó Armínio e John Wesley. Tratei de seis ensinamentos específicos do arminianismo:

Sobre as Fontes

Sou grato à Sociedade dos Arminianos Evangélicos por este esboço e utilizei muitos de seus recursos. Usei também Teologia Arminiana: Mitos e Realidades, de Roger Olson, e Cristianismo Clássico: Uma Teologia Sistemática, de Thomas Oden, além dos Cinco Artigos da Remonstrância, de alguns sermões de John Wesley e, obviamente, das obras de Jacó Armínio.

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