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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana4 de 23

Lição 4: A tradição arminiana: de Armínio a Wesley e ao Brasil

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1

Diego Gonçalves25 min de leitura4.956 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.

Objetivos da lição

  • Compreender o que significa falar de uma tradição teológica e por que o nome “arminiano” deve ser usado com cautela.
  • Descrever as origens do arminianismo na Igreja Reformada holandesa, com Armínio, a Remonstrância, o Sínodo de Dort e Simão Episcópio.
  • Distinguir o arminianismo clássico das derivações racionalistas dos remonstrantes posteriores e do semipelagianismo.
  • Reconhecer o que Wesley e os sistematizadores metodistas acrescentaram à herança de Armínio.
  • Conhecer o caminho do arminianismo até o Brasil e situar a posição deste curso dentro dessa tradição.

Introdução

Em muitas casas evangélicas brasileiras há uma Bíblia antiga, de capa gasta, guardada na prateleira mais alta da estante. Nas folhas em branco que vêm antes de Gênesis, mãos diferentes anotaram, ao longo de décadas, os nascimentos, os casamentos, os batismos e os falecimentos da família: a letra firme do avô, a caligrafia caprichada da tia, a esferográfica azul do neto. O livro permanece o mesmo, e cada geração escreve o seu nome na página que recebeu da anterior.

Uma tradição teológica se parece com essas páginas. A Escritura permanece a mesma, e ao lado dela as gerações de cristãos registram o modo como a receberam, a ensinaram e a viveram. Este curso se apresenta como arminiano, e é justo perguntar que família é essa, pergunta mais urgente no Brasil do que parece. Walter Brunelli observa que o movimento de santidade é arminiano e que os pentecostais, com exceção da Congregação Cristã no Brasil, também o são (Teologia para pentecostais, vol. 4); somados os metodistas, os nazarenos e boa parte dos batistas, uma parcela considerável dos evangélicos brasileiros professa uma soteriologia arminiana, muitas vezes sem conhecer o nome, a história ou os documentos dessa tradição. Ao mesmo tempo, o rótulo circula nas redes sociais como sinônimo de semipelagiano.

Nesta lição percorremos a história que vai de Armínio a Wesley e de Wesley ao Brasil. Não pretendemos erguer um panteão, porque nenhum desses homens tem autoridade ao lado da Escritura, mas saber de onde vêm as convicções que o curso defende e distinguir o arminianismo clássico das suas caricaturas e dos seus desvios.

1. Tradição, nome e critério

1.1 Aquilo que se entrega

A palavra grega que o Novo Testamento usa para “tradição” é paradosis, do verbo paradidōmi, “entregar”, e o latim a traduziu por traditio. Tradição é aquilo que passa de mão em mão. Paulo pede aos tessalonicenses: “retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por carta nossa” (2 Tessalonicenses 2:15), e orienta Timóteo a fazer o mesmo com a geração seguinte: “o que de mim ouviste entre muitas testemunhas, confia-o a pessoas fiéis, que sejam competentes para ensinar também a outros” (2 Timóteo 2:2). Judas fala da “fé que de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 1:3), e a expressão “de uma vez” (hapax) estabelece o limite: a fé apostólica foi entregue por inteiro, e as gerações seguintes não lhe acrescentam artigos, mas a recebem, a guardam e a explicam.

Neste sentido, as tradições confessionais são modos históricos de receber a única fé apostólica, e cada uma deve ser julgada por ela. A teologia protestante exprime essa relação ao chamar a Escritura de norma normans, a norma que normatiza, e as confissões e os mestres de norma normata, a norma normatizada, que só tem autoridade na medida em que concorda com a Escritura.

1.2 Um nome recebido dos adversários

O nome “arminiano”, como “luterano” e “metodista”, nasceu como rótulo dado pelos opositores. Os seguidores de Armínio se chamavam remonstrantes, e muitos ingleses que receberam o apelido de arminianos nunca tinham lido Armínio. Os coríntios já conheciam a tentação de transformar os mestres em bandeiras:

Porque dizendo um: “Eu sou de Paulo”, e outro: “Eu sou de Apolo”, por acaso não sois carnais? Ora, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão servidores, pelos quais crestes, conforme o Senhor deu a cada um? Eu plantei; Apolo regou; mas foi Deus quem deu o crescimento. De maneira que nem o que planta é algo, nem o que rega; mas sim Deus, que dá o crescimento.

1 Coríntios 3:4-7

Armínio pensava assim. Na oração Sobre a reconciliação das dissensões religiosas entre os cristãos (1606), lamentou a discórdia que disputa “sobre o próprio altar” e propôs que as partes, se não chegassem a acordo, se reconhecessem como irmãs (As obras de Armínio, vol. 1). Usamos o nome, portanto, como designação histórica, e não como marca de partido.

1.3 O critério: a graça

Se o nome não basta, é preciso um critério. Arminiano, no sentido clássico, é quem confessa com Armínio e com a Remonstrância de 1610 que o ser humano caído não pode, por si mesmo, pensar, querer ou fazer nada de verdadeiramente bom; que a graça de Deus em Cristo é o princípio, o progresso e o cumprimento de todo bem; que essa graça alcança todas as pessoas, porque Cristo morreu por todos, mas pode ser resistida; e que Deus elegeu em Cristo os que, pela graça, haveriam de crer e perseverar. Esse critério o separa do pelagianismo, que dispensa a graça, e do semipelagianismo, que deixa ao ser humano o primeiro passo. A história mostra que nem todos os que levaram o nome guardaram o critério, e que muitos que nunca usaram o nome o guardaram.

2. Antes de Armínio

Armínio não inventou a doutrina da graça resistível. Flávyo Henrique Costa Santos dedica dois capítulos do Manual de teologia arminiana (2021) a mostrar que os pais anteriores a Agostinho afirmaram ao mesmo tempo a necessidade da graça e a responsabilidade humana. O Concílio de Orange (529) condenou o semipelagianismo ao declarar que até o começo da fé é dom da graça, e rejeitou a predestinação ao mal. Abner Hernández mostrou que, ao afirmar a graça antes de todo querer humano e, contra o último Agostinho, a possibilidade de recusá-la, Armínio se coloca em continuidade com Orange e com Melanchthon (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius, 2017).

O contexto imediato é a Igreja Reformada dos Países Baixos no fim do século XVI, que tinha por padrões a Confissão Belga (1561) e o Catecismo de Heidelberg (1563). Entre os seus pastores, a predestinação supralapsária de Teodoro de Beza, sucessor de Calvino em Genebra, segundo a qual Deus decretou salvar uns e condenar outros antes de considerar a criação e a queda, convivia com formas mais brandas e com críticos declarados. A controvérsia arminiana nasceu dentro dessa igreja, e não contra ela (veja O arminianismo é reformado?).

3. Armínio, a Remonstrância e o Sínodo de Dort

3.1 Jacó Armínio (1560-1609)

Jacó Armínio nasceu em Oudewater, na Holanda, em 1560, e perdeu a família no massacre da cidade pelas tropas espanholas, em 1575. Estudou em Leiden e em Genebra, onde ouviu Beza, e foi pastor em Amsterdã por quinze anos. Em 1603 assumiu uma cadeira de teologia em Leiden, onde o colega Francisco Gomaro defendia a predestinação supralapsária, e em 30 de outubro de 1608 expôs o seu pensamento aos Estados da Holanda na Declaração de Sentimentos. Morreu em Leiden em 1609, sem ver o desfecho do debate (veja a biografia de Jacó Armínio).

A teologia de Armínio começa pela ruína humana. Na Declaração, o ser humano caído “não é capaz, de si mesmo e por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom”, e nas Disputas públicas a vontade, para o verdadeiro bem, não está apenas ferida, mas presa, destruída e perdida. Dessa ruína nasce a centralidade da graça preveniente, obra pessoal do Espírito Santo que liberta a vontade e torna a fé possível. Armínio atribuía à graça o começo, a continuação e a consumação de todo bem e reduzia a controvérsia com os calvinistas a uma pergunta sobre o modo como ela opera: “se ela é irresistível ou não”. A fé é a mão do mendigo que se estende para receber a esmola e não acrescenta mérito algum ao presente (veja A graça preveniente em Armínio). Sobre a justificação, Armínio declarou não ensinar nada diferente das igrejas reformadas. A divergência estava na predestinação, que ele definiu a partir de Cristo: o primeiro decreto de Deus acerca da salvação designa o Filho como Mediador, e a eleição das pessoas segue a presciência de quem, pela graça, haveria de crer e perseverar.

3.2 A Remonstrância (1610)

Em 1610, quarenta e seis ministros assinaram um documento dirigido aos Estados da Holanda, redigido sobretudo por Johannes Uytenbogaert. O título latino, Remonstrantia, vem de remonstrare, “expor, apresentar razões”, e deu aos signatários o nome de remonstrantes. Os cinco artigos (veja a tradução da Remonstrância) tratam da eleição em Cristo dos que creem e perseveram, da morte de Cristo por todos, da incapacidade humana sem a graça, do caráter resistível da graça e da permanência em Cristo. O terceiro e o quarto desfazem a acusação de pelagianismo: o ser humano “não tem a graça salvadora de si mesmo, nem pela força do seu livre-arbítrio”, e a graça de Deus é “o princípio, o progresso e o cumprimento de todo bem”. O quinto deixou em aberto a possibilidade de o crente abandonar a fé. Alister McGrath observa que os arminianos entenderam a predestinação de modo coletivo, como eleição dos que creem em Cristo (Teologia sistemática, histórica e filosófica); convém acrescentar que o quarto decreto de Armínio trata também de pessoas determinadas, conhecidas de antemão por Deus.

3.3 O Sínodo de Dort (1618-1619)

A questão foi decidida em boa medida pela política. O príncipe Maurício de Nassau (que não deve ser confundido com João Maurício de Nassau, governador do Brasil holandês) tomou o partido dos contra-remonstrantes e, em 1618, mandou prender os protetores dos remonstrantes, o estadista Johan van Oldenbarnevelt, executado no ano seguinte, e o jurista Hugo Grócio. Os Estados Gerais convocaram um sínodo nacional em Dordrecht, e os remonstrantes compareceram como réus. Em janeiro de 1619, depois de semanas de impasse sobre o modo de expor a sua doutrina, o presidente os expulsou com a fórmula Dimittimini, exite, “estais dispensados, saí”. Os Cânones de Dort condenaram os cinco artigos, e os pastores remonstrantes foram depostos ou banidos.

Pela sua própria autocompreensão, o sínodo quis proteger a gratuidade da salvação ao recusar que a fé prevista fosse a causa da eleição, e os seus cânones afirmam com vigor a corrupção humana. A tradição arminiana reconhece a intenção do sínodo e concorda com ele sobre a ruína humana; diverge quanto à eleição incondicional, à expiação limitada, à graça irresistível e à perseverança incondicional, e lamenta que uma divergência entre irmãos da mesma confissão tenha sido resolvida pela força do magistrado.

4. Os remonstrantes depois de Dort

4.1 Simão Episcópio

Simão Episcópio (1583-1643), aluno de Armínio, manteve de pé o movimento que o sínodo quis encerrar. No exílio, redigiu a Confissão Remonstrante (1621), segundo a qual “a graça de Deus é o começo, o progresso e o acabamento de todo bem” (cap. 17), e que foi além de Armínio ao afirmar que o verdadeiro crente pode abandonar a fé e perder-se. Com a tolerância que se seguiu à morte de Maurício, abriu em Amsterdã, em 1634, o seminário remonstrante, onde começou as Institutiones theologicae, a primeira teologia sistemática arminiana, que ficou inacabada (veja a biografia de Simão Episcópio). Não obstante, já em Episcópio aparece uma tendência que os sucessores ampliariam: como mostrou Mark Ellis, nas Institutiones ele atribui a depravação da vontade sobretudo ao costume de pecar, e não à herança de Adão.

4.2 Hugo Grócio e a teoria governamental

Hugo Grócio (1583-1645), que fugiu da prisão de Loevestein escondido num baú de livros, escreveu contra os socinianos a Defensio fidei catholicae de satisfactione Christi (1617). Nela formulou a teoria governamental da expiação: Cristo morreu para manifestar a seriedade da lei e preservar a ordem moral do governo divino, de modo que Deus pudesse perdoar sem enfraquecer a sua autoridade. A teoria influenciou remonstrantes posteriores e parte dos metodistas, mas não corresponde ao ensino de Armínio nem ao de Wesley, que afirmaram a satisfação penal substitutiva; o curso a estudará como capítulo da história.

4.3 Limborch e o arminianismo “da cabeça”

Os sucessores de Episcópio, Étienne de Courcelles e Philipp van Limborch (1633-1712), editaram as obras do mestre e continuaram o seu sistema. A Theologia christiana (1686) de Limborch foi por décadas o manual remonstrante, e o próprio Limborch, amigo de John Locke, foi o destinatário da Carta sobre a tolerância (1689). Nessa geração, porém, a ênfase na razão e na moral prática foi enfraquecendo a doutrina do pecado original e da graça preveniente. William Burt Pope distinguia Armínio dos remonstrantes posteriores, que a seu ver deram força demais à “liberdade inata” da vontade, e Roger Olson popularizou a distinção entre os arminianos “de coração”, herdeiros evangélicos de Armínio, e os arminianos “de cabeça”, que conservaram o nome e abandonaram a substância (Teologia arminiana: mitos e realidades). Em suma, o nome de uma tradição não garante a sua fidelidade, e cada geração precisa voltar ao critério da graça.

5. A Inglaterra antes de Wesley

Na Inglaterra do século XVII, “arminiano” designava muitas vezes os clérigos ligados ao arcebispo William Laud, mais preocupados com a ordem litúrgica do que com a doutrina da graça. Havia, porém, uma corrente evangélica de graça universal: os batistas gerais, de Thomas Helwys a Thomas Grantham, que no Christianismus primitivus (1678) uniu a graça oferecida a todos à satisfação penal e à imputação da justiça de Cristo, e bispos como Jeremy Taylor, cujo Holy Living (1650) marcou o jovem Wesley. Maddox mostra que Wesley leu pouco do próprio Armínio e que a maior parte do que ele chamava de arminianismo era uma tradição inglesa nativa, absorvida na formação anglicana e na leitura dos pais gregos (Responsible Grace, cap. 3). O arminianismo inglês foi, assim, uma corrente paralela, que se encontrou com a de Armínio.

6. John Wesley e o metodismo

6.1 Wesley, arminiano por convicção

John Wesley (1703-1791) recebeu em Oxford, com o irmão Charles e os amigos do Clube Santo, o apelido de “metodistas”, pela disciplina com que ordenavam a oração, o estudo e as obras de misericórdia. Em 24 de maio de 1738, numa reunião em Aldersgate, Londres, enquanto alguém lia o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos, sentiu o coração “estranhamente aquecido” e recebeu a certeza de que Cristo havia tirado os seus pecados (veja John Wesley: vida e legado). O sermão A graça livre (1739), contra a predestinação incondicional, levou à separação entre ele e George Whitefield, que permaneceram, não obstante, amigos.

Wesley assumiu o nome que os adversários lhe davam. Em Pergunta: o que é um arminiano? (1770), explicou que os arminianos não negam o pecado original nem a justificação pela fé, que ninguém afirmou o pecado original com mais força do que Armínio, “nem o próprio João Calvino”, e que a diferença em relação aos calvinistas está na predestinação incondicional, na graça irresistível e na perseverança final incondicional. Em 1778 deu à revista do movimento o título de The Arminian Magazine, e na carta a John Newton de 1765 escreveu que pensava sobre a justificação como Calvino e que nisso não diferia dele “nem um fio de cabelo”. No sermão Sobre operar a própria salvação (1785), Wesley comenta o texto de Paulo aos filipenses:

Portanto, meus amados, assim como sempre obedecestes, não somente na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir, conforme a sua boa vontade.

Filipenses 2:12-13

Wesley lê o versículo 13 como fundamento do 12: porque Deus opera, nós podemos e devemos operar. A salvação começa pela graça preveniente, da qual nenhum ser humano está inteiramente desprovido, e aquilo que se costuma chamar de consciência natural é, na verdade, graça de Deus.

6.2 O que Wesley acrescentou

Seria um erro reduzir Wesley a um repetidor de Armínio. José Gonçalves Salvador, historiador metodista brasileiro, insistiu em Arminianismo e metodismo (1958) que Wesley chegou às suas conclusões quase sem contato com os remonstrantes e que o metodismo é “um sistema teológico peculiar”. O centro da herança wesleyana é o amor santo de Deus, que alcança, perdoa e transforma, e a vida cristã aparece nela como caminho da salvação (via salutis), todo ele obra da graça: preveniente, convencedora, justificadora e santificadora. A esse caminho pertencem o novo nascimento; o testemunho do Espírito, pelo qual o crente pode saber que é filho de Deus (Romanos 8:16); a perfeição cristã ou inteira santificação, recebida pela fé como dom; os meios de graça; e a santidade social, que Wesley resumiu ao escrever que o evangelho de Cristo “não conhece religião senão a social, nem santidade senão a social” (prefácio dos Hinos e poemas sacros, 1739). Wesley também ensinou a perseverança condicional, sem renunciar à certeza real do crente que permanece em Cristo.

6.3 John Fletcher

O suíço John Fletcher (1729-1785), pároco de Madeley, foi o primeiro grande teólogo do arminianismo wesleyano. Quando a Conferência metodista de 1770 aprovou atas que advertiam contra o antinomianismo, a ideia de que a fé dispensa o crente da obediência, os evangélicos calvinistas acusaram Wesley de abandonar a justificação pela fé. Fletcher respondeu com os Checks to Antinomianism (1771-1775), “freios ao antinomianismo”, que defendem a graça oferecida a todos, a eleição condicional e a perfeição cristã. Wesley o quis como sucessor, mas Fletcher morreu antes do amigo (veja a biografia de John Fletcher de Madeley).

7. Os sistematizadores e a expansão

Coube aos herdeiros de Wesley dar à teologia metodista a forma de sistema. Os Artigos de Religião que Wesley resumiu dos Trinta e Nove Artigos anglicanos (1784) declaram, no artigo VIII, que, depois da queda, o ser humano não pode converter-se nem preparar-se para a fé pelas próprias forças, e que a graça de Deus por Cristo nos previne para que tenhamos boa vontade e opera conosco quando a temos. Richard Watson (1781-1833), nos Theological Institutes (1823-1829), defendeu a graça preveniente, a expiação por todos e a eleição condicional, e citou Armínio: “é impossível ao livre-arbítrio, sem a graça, começar ou completar qualquer bem verdadeiro ou espiritual”. William Burt Pope (1822-1903) afirmou no Compendium que o metodismo sustenta, “com o mais puro arminianismo”, que não resta no ser humano capacidade alguma de voltar-se para Deus, e concluiu que “a cooperação com a graça vem da graça”, fórmula que guarda a tradição ao mesmo tempo do pelagianismo e do semipelagianismo. H. Orton Wiley (1877-1961), teólogo da Igreja do Nazareno, organizou a Christian Theology (1940-1943) segundo a ordem trinitária que este curso adota, como vimos na lição 3.

Houve também divergências internas, como a adoção da teoria governamental por John Miley na sua Teologia sistemática (1892-1894). No século XX, as igrejas de santidade conservaram a ênfase na inteira santificação, o pentecostalismo herdou delas a soteriologia arminiana, Mildred Wynkoop, Thomas Oden e Roger Olson renovaram o estudo de Wesley e de Armínio, e batistas do livre-arbítrio como F. Leroy Forlines e Robert Picirilli desenvolveram o chamado arminianismo reformado.

8. O arminianismo no Brasil

8.1 A chegada pelas igrejas

O arminianismo chegou ao Brasil menos pelos livros do que pelas igrejas. O metodismo fez as primeiras tentativas no Rio de Janeiro a partir de 1835, numa missão que durou poucos anos; voltou em 1867 entre os imigrantes norte-americanos do interior paulista e firmou-se com a pregação em português de John James Ransom, chegado em 1876. Em 1930 a Igreja Metodista do Brasil tornou-se autônoma. Em 1911, os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, de origem batista, fundaram em Belém do Pará a igreja que viria a ser a Assembleia de Deus, cuja soteriologia, ensinada sobretudo pelo Conhecendo as doutrinas da Bíblia, de Myer Pearlman, é arminiana nos pontos principais, ainda que raramente use o nome. A Igreja Metodista Livre começou em São Paulo, em 1936, entre imigrantes japoneses. Entre os batistas, Zacarias de Aguiar Severa lembra a ênfase arminiana de A. B. Langston, cujo Esboço de teologia sistemática serviu por muito tempo nos seminários, e afirma que, antes que o pecador possa responder ao chamado, “Deus já tomou a iniciativa de salvá-lo” (Manual de teologia sistemática, citado por Santos).

8.2 Uma tradição sem nome

Durante a maior parte do século XX, porém, o nome “arminiano” foi pouco conhecido ou usado de modo pejorativo. Salvador escreveu Arminianismo e metodismo porque os metodistas brasileiros quase nada sabiam de Armínio e lhe atribuíam ideias que não eram dele, e a sua conclusão vale para toda a tradição: “A iniciativa é de Deus e também a sua realização”. Wellington Mariano observa que as duas obras mais declaradamente arminianas publicadas no país, a Introdução à teologia cristã de Wiley e Culbertson e os Fundamentos da teologia armínio-wesleyana de Mildred Wynkoop, estavam fora de circulação, enquanto livros de soteriologia arminiana, como o de Pearlman, não usavam o rótulo (citado por Santos, Manual, cap. 13).

Nesse vazio entraram leituras equivocadas. A Teologia sistemática de Charles Finney, publicada pela CPAD em 2001, foi recebida em parte do meio pentecostal como teologia de avivamento, e a apresentação da edição brasileira declarava que ela “não é calvinista nem arminianista”. A afirmação é exata em sentido diverso do pretendido: Finney trata o pecado como ato voluntário, e não como corrupção da natureza, e segue o modelo governamental da expiação, de modo que a sua teologia fica aquém do arminianismo clássico, na direção do semipelagianismo. Santos conta que interlocutores calvinistas lhe recomendavam ler Finney, como se ele representasse a teologia de Armínio. No polo oposto, Vincent Cheung descreve a teologia arminiana, “em todas as suas variantes”, como uma eleição em que Deus apenas escolhe os que previu que o escolheriam (Teologia sistemática); a caricatura omite a graça preveniente, sem a qual, para Armínio, ninguém poderia crer.

8.3 O despertar recente

A partir do fim da década de 1990, a difusão do novo calvinismo pela internet provocou, por reação, um despertar arminiano. Mariano escreve que o calvinismo foi, desse modo, “responsável pelo avivamento arminiano no Brasil, resultado do efeito pendular” (em Couto, org., Soberania divina e responsabilidade humana, 2019). O site arminianismo.com, criado em 2006 por Paulo César Antunes, reuniu traduções e debatedores, e em 2013 veio o que Santos chama de “virada da chave”: a publicação, pela Editora Reflexão, de Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, na tradução de Wellington Mariano. Seguiram-se as obras de Carl Bangs, de Keith Stanglin e Thomas McCall e, pela CPAD, As obras de Armínio (2015). Autores brasileiros passaram a escrever na mesma linha: Mariano afirma em O que é teologia arminiana? (2015) que “o primeiro passo no relacionamento salvífico entre Deus e o homem é dado por Deus”, e Thiago Titillo, Vinicius Couto, Zwinglio Rodrigues, o bispo metodista livre Ildo Mello e o próprio Santos somaram livros e conferências. Este curso, com a série sobre os teólogos arminianos, quer servir a esse trabalho.

9. A posição deste curso

O curso é, portanto, arminiano clássico, de tendência wesleyana, e protestante. Segue Armínio e a Remonstrância na depravação total, na graça preveniente universal e resistível, na expiação por todos e na eleição condicional em Cristo; segue Armínio e Wesley na justificação pela imputação da justiça de Cristo e na expiação como satisfação penal substitutiva; segue os remonstrantes posteriores e Wesley na perseverança condicional, acompanhada da certeza real que o testemunho do Espírito dá ao crente; e segue Wesley, Fletcher, Watson, Pope e Wiley na inteira santificação e no caminho da salvação. Afirma, com toda a tradição clássica, a presciência exaustiva de Deus, rejeitando o teísmo aberto, e recusa os desvios que a história registrou: o racionalismo dos remonstrantes tardios, a teoria governamental como posição própria e a teologia de Finney.

A divergência com as tradições reformada e luterana é real e será marcada como divergência ao longo do curso, mas ocupa um ponto da soteriologia, e não o edifício inteiro. Wesley pregou, no sermão O espírito católico (1750), a firmeza nas convicções unida ao amor aos que pensam diferente, e Paulo nos dá a medida:

Procurai guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo, e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança do vosso chamado. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus, e Pai de todos, que é acima de todos, por meio de todos, e em todos.

Efésios 4:3-6

10. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, conhecer a tradição nos protege da caricatura. Quem sabe o que Armínio, a Remonstrância e Wesley ensinaram não aceita que o arminianismo seja descrito como religião do livre-arbítrio, e também não o defende com frases semipelagianas como “Deus fez a parte dele; agora é a sua”. A graça vem antes, liberta e capacita, e quem crê responde pela graça.

Em segundo lugar, conhecer a tradição nos ensina humildade. Os remonstrantes perderam os púlpitos por causa da fé, e alguns dos seus herdeiros perderam a fé conservando o nome. Confesso que é mais fácil defender o arminianismo do que viver a santidade que Wesley pregava, e isso vale para todos nós.

Em terceiro lugar, conhecer a tradição devolve à igreja brasileira a sua própria história. Muitas congregações assembleianas, metodistas, nazarenas e batistas confessam há gerações a graça oferecida a todos sem saber que estão na companhia de Armínio, de Episcópio e de Wesley. Conhecer essa companhia as ajuda a crer com mais consciência.

Voltemos à Bíblia da família. As folhas em branco antes de Gênesis guardam os nomes de quem nos precedeu, mas o valor delas está no livro a que estão presas. A tradição arminiana é uma dessas páginas: nela estão Armínio, que levou água aos doentes de peste em Amsterdã; Episcópio, expulso de Dort; Wesley, com o coração aquecido em Aldersgate; os missionários que pregaram no Rio de Janeiro e em Belém; e, de algum modo, nós. Que o Senhor nos conceda receber com gratidão o que nos foi entregue, julgá-lo pela sua Palavra e entregá-lo fielmente aos que vierem depois, lembrando que “nem o que planta é algo, nem o que rega; mas sim Deus, que dá o crescimento” (1 Coríntios 3:7).

Síntese

  1. Tradição (paradosis) é a fé apostólica entregue de geração em geração; as tradições confessionais são modos históricos de recebê-la e estão sob a autoridade da Escritura.
  2. O arminianismo nasceu dentro da Igreja Reformada holandesa, com Armínio e a Remonstrância (1610), e se define pela primazia da graça: o ser humano caído nada pode sem ela, e ela alcança todos, mas pode ser resistida.
  3. O Sínodo de Dort condenou os remonstrantes; Episcópio sistematizou a sua teologia, Grócio formulou a teoria governamental, e os remonstrantes posteriores, como Limborch, derivaram para o racionalismo.
  4. Wesley, herdeiro também de uma tradição anglicana de graça universal, assumiu o nome de arminiano e acrescentou o caminho da salvação, o testemunho do Espírito, a perfeição cristã e a santidade social; Fletcher, Watson, Pope e Wiley deram a essa teologia a forma de sistema.
  5. No Brasil, o arminianismo chegou pelas igrejas metodistas, pentecostais, de santidade e batistas, viveu muito tempo sem nome e conhece, desde o início do século XXI, um despertar editorial e teológico.
  6. Este curso se situa no arminianismo clássico de tendência wesleyana, distinto do semipelagianismo e do racionalismo remonstrante.

Questões para revisão

  1. O que significa paradosis, e como a expressão “de uma vez” (Judas 1:3) limita a autoridade das tradições?
  2. Qual é o critério que define o arminianismo clássico?
  3. O que afirmam o terceiro e o quarto artigos da Remonstrância, e por que eles desfazem a acusação de pelagianismo?
  4. Como o Sínodo de Dort entendeu a sua própria tarefa, e em que pontos a tradição arminiana diverge dos seus cânones?
  5. Em que Episcópio, Grócio e Limborch continuaram a obra de Armínio, e em que se afastaram dela?
  6. O que Wesley acrescentou à herança de Armínio, segundo Maddox e José Gonçalves Salvador?
  7. Por que a teologia de Charles Finney não pode ser apresentada como arminiana?
  8. Por quais caminhos o arminianismo chegou ao Brasil, e o que caracteriza o despertar recente?

Bibliografia

  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • ARMÍNIO, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608). Tradução no Diário do Diego.
  • A Remonstrância (1610). Tradução e notas no Diário do Diego.
  • BANGS, Carl. Armínio: um estudo da Reforma Holandesa. São Paulo: Reflexão, 2015.
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. 4 vols. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
  • CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática. Monergismo.com, 2003. (Apenas como contraste.)
  • COUTO, Vinicius (org.). Soberania divina e responsabilidade humana. São Paulo: Reflexão, 2019.
  • EPISCÓPIO, Simão et al. The Arminian Confession of 1621. Trad. Mark A. Ellis. Eugene: Pickwick, 2005.
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Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 3: A arquitetura da doutrina cristã e a ordem deste curso. Próxima: Lição 5: Teologia e cultura.

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