
TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana3 de 30
Lição 3: A arquitetura da doutrina cristã e a ordem deste curso
Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os lugares da doutrina
- 1.1 Loci, artigos e tratados
- 1.2 A ordem também interpreta
- 2. O fundamento bíblico de uma ordem trinitária
- 2.1 A economia da salvação
- 2.2 Do Pai, por meio do Filho, no Espírito
- 3. As arquiteturas da teologia cristã
- 3.1 A regra de fé e os credos
- 3.2 Das Sentenças às Institutas
- 3.3 A ortodoxia reformada e o lugar dos decretos
- 3.4 Armínio: a predestinação em Cristo
- 3.5 Wesley e os sistemáticos metodistas
- 3.6 Dois contrastes: Finney e Cheung
- 4. A arquitetura deste curso
- 4.1 A introdução
- 4.2 A doutrina do Pai
- 4.3 A doutrina do Filho
- 4.4 A doutrina do Espírito Santo
- 4.5 Por que a salvação pertence à doutrina do Espírito
- 4.6 Em diálogo com outras arquiteturas
- 5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.
Objetivos da lição
- Explicar o que são os loci da teologia sistemática e por que a ordem das doutrinas é, ela mesma, uma interpretação da fé.
- Reconhecer o fundamento bíblico de uma ordem trinitária na economia da salvação, que vem do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo.
- Descrever as principais arquiteturas da teologia cristã, dos credos às sistemáticas medievais, reformadas, arminianas e metodistas.
- Compreender a arquitetura deste curso, construída a partir de Wiley, Pope e Watson, e o lugar que ela dá aos decretos e à doutrina da salvação.
- Explicar por que a tradição wesleyana estuda a salvação como obra do Espírito Santo, que aplica a obra de Cristo.
Introdução
Nas periferias das cidades brasileiras é comum a casa que cresceu aos poucos, conforme o dinheiro e a necessidade da família. Primeiro vieram a sala e um quarto; depois, com o casamento do filho mais velho, um cômodo no fundo do quintal; mais tarde, uma laje e uma escada por fora. Ninguém desenhou planta alguma, e cada acréscimo foi posto onde havia espaço. O resultado é o puxadinho: a casa abriga a família, mas o banheiro se abre para a cozinha e o quarto novo só tem acesso pelo antigo. Quem constrói com planta, ao contrário, decide antes onde cada cômodo deve ficar em relação ao todo.
A doutrina de muitos cristãos se parece com o puxadinho. Aprendemos uma verdade num culto, outra num estudo bíblico, uma terceira numa discussão nas redes sociais, e cada uma se acomoda onde houver lugar. Por isso convivem, no mesmo coração, a confissão de que a salvação é pela graça e a suspeita de que Deus nos aceita conforme o nosso desempenho. A pergunta desta lição, portanto, não é apenas quais são as partes da doutrina cristã, mas como elas se relacionam e em que ordem convém estudá-las.
H. Orton Wiley observou que por baixo de todo sistema teológico há uma verdade principal em torno da qual as outras se organizam, e que o estudo dos métodos de sistematização revela aquilo que cada autor considerava central na sua fé (Christian Theology, vol. 1, cap. 3). Neste sentido, a arquitetura de uma teologia já é uma confissão. Depois de definir a teologia sistemática e a sua finalidade, apresentamos nesta lição a planta do curso e as razões dela: a ordem trinitária da sistemática wesleyano-arminiana, em que a salvação aparece como obra do Espírito, que aplica a obra de Cristo.
1. Os lugares da doutrina
1.1 Loci, artigos e tratados
O nome mais antigo das partes da doutrina vem da retórica: locus (em latim, “lugar”; no plural, loci), tradução do grego topos, era o lugar onde o orador encontrava os argumentos sobre um assunto. Filipe Melanchthon aplicou o termo à teologia nos Loci communes (1521), os “lugares comuns” em que se reúne o ensino da Escritura. A teologia medieval falava em “artigos de fé” (articuli fidei), e os manuais modernos consagraram os nomes terminados em “-logia”: a bibliologia (a Escritura), a teologia propriamente dita (Deus e a Trindade), a antropologia (o ser humano), a hamartiologia (de hamartia, “pecado”, o tiro que erra o alvo), a cristologia, a pneumatologia (de pneuma, “espírito” ou “sopro”), a soteriologia (de sōtēria, “salvação”), a eclesiologia (de ekklēsia, “assembleia convocada”) e a escatologia (de ta eschata, “as últimas coisas”). Antes de todas vêm os prolegômenos (“o que se diz antes”), sobre a natureza, as fontes e o método da teologia.
1.2 A ordem também interpreta
A lista dos loci é quase comum a todas as tradições cristãs. O que as distingue é a ordem e o princípio que a governa, porque o lugar de uma doutrina no sistema diz de que outras ela depende e quais governa. Quem trata da predestinação logo depois dos atributos de Deus, antes da criação e da queda, dá a entender que tudo o que vem depois é execução de um decreto anterior; quem a trata depois de Cristo, como fez Armínio, dá a entender que ela é o propósito de Deus de salvar em Cristo os que creem.
Armínio formulou esse princípio ao tratar do modo de ensinar a teologia. Como as ciências práticas se ensinam em ordem analítica, a teologia deve começar pelo seu fim e expor em seguida os meios para alcançá-lo; assim, “cada artigo obterá o lugar que lhe pertence” em relação ao todo (Debates privados, II, em As obras de Armínio, vol. 2). Paulo chama a si mesmo de “sábio construtor” (1 Coríntios 3:10), e a palavra grega é architektōn, o mestre de obras que dirige a construção segundo um plano. A advertência que ele acrescenta serve a todo sistema: “cada um veja como edifica sobre ele. Pois ninguém pode pôr fundamento diferente do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Coríntios 3:10-11).
2. O fundamento bíblico de uma ordem trinitária
2.1 A economia da salvação
A Escritura não traz um índice de teologia sistemática, mas mostra uma forma recorrente no modo como Deus se revela e salva. Os discípulos batizam “em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19), e a bênção apostólica invoca “a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo” (2 Coríntios 13:14). O texto em que essa forma aparece com mais clareza é a bênção que abre a carta aos Efésios, um único período no grego (1:3-14):
Bendito seja o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor. E nos predestinou como filhos adotados por meio de Jesus Cristo para si mesmo, conforme o bom prazer de sua vontade; para louvor da glória de sua graça, a qual nos concedeu gratuitamente no Amado. Nele temos a libertação pelo seu sangue, o perdão dos pecados, conforme as riquezas da sua graça.
O Pai abençoa, escolhe e predestina; o Filho é aquele em quem tudo isso acontece e por cujo sangue temos a redenção; e o Espírito é o selo dos que creem: “depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e nele crestes, nele fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1:13). A eleição é eleição “em Cristo”, e a sua aplicação acontece quando as pessoas ouvem o evangelho e creem. Paulo chama esse plano de oikonomia (1:10), palavra que designava a administração de uma casa e que deu à teologia o termo “economia” da salvação: o modo ordenado como o Deus trino realiza na história o seu propósito. Pedro a resume ao saudar os crentes como “escolhidos segundo o pré-conhecimento de Deus Pai, por meio da santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:2), versículo que Richard Watson tomou como prova da eleição condicional.
2.2 Do Pai, por meio do Filho, no Espírito
Desses textos a Igreja antiga extraiu uma fórmula: todas as coisas vêm do Pai, por meio do Filho, no Espírito, e voltam ao Pai, no Espírito, por meio do Filho. Paulo confessa “um só Deus, o Pai, do qual são todas as coisas, e nós para ele; e um só Senhor Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas” (1 Coríntios 8:6), e diz que, por meio de Cristo, “temos acesso ao Pai por um mesmo Espírito” (Efésios 2:18). Jesus descreve o Espírito com a mesma lógica: “Ele me glorificará, porque tomará do que é meu, e vos anunciará” (João 16:14). O Espírito não traz uma segunda mensagem ao lado de Cristo, mas toma o que é de Cristo e o aplica ao coração. Basílio de Cesareia, em Sobre o Espírito Santo (c. 375), defendeu que se desse glória ao Pai “com” o Filho e “com” o Espírito, e não apenas “por meio do” Filho “no” Espírito: a segunda forma descreve a ordem em que a graça nos alcança, e a primeira confessa a igualdade das pessoas. A ordem deste curso descreve o caminho da graça, e não uma hierarquia entre as pessoas divinas.
Uma ressalva é indispensável. A teologia ocidental, desde Agostinho, ensina que as obras da Trindade para fora são indivisas (opera Trinitatis ad extra indivisa sunt). Na criação, “pela palavra do SENHOR foram feitos os céus; e todo o seu exército foi feito pelo sopro de sua boca” (Salmos 33:6); na redenção, Cristo “pelo Espírito eterno, ofereceu a si mesmo, imaculado, a Deus” (Hebreus 9:14); na aplicação da salvação, “ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer” (João 6:44). Ao falar da criação como obra do Pai, da redenção como obra do Filho e da santificação como obra do Espírito, fazemos o que a tradição chama de “apropriação”: atribuímos de modo especial a uma pessoa a obra que convém ao seu lugar na economia, sem excluir as outras. A divisão trinitária do curso não reparte Deus em três departamentos; ela acompanha o caminho que o próprio Deus percorreu ao revelar-se e ao salvar-nos.
3. As arquiteturas da teologia cristã
3.1 A regra de fé e os credos
A primeira arquitetura da doutrina cristã foi trinitária. Ireneu de Lião resumiu a “regra de fé” na confissão de um só Deus Pai, criador de todas as coisas, de um só Cristo Jesus, o Filho de Deus encarnado para a nossa salvação, e do Espírito Santo, que falou pelos profetas (Contra as heresias, I, 10, 1). O Credo Apostólico expande a fórmula batismal em três artigos, e o Credo Niceno-Constantinopolitano (381) segue o mesmo plano. Wiley observa que a concepção trinitária foi um dos primeiros princípios de sistematização da Igreja e nunca deixou de ser usada. Um detalhe interessa de modo particular a este curso: depois de “Creio no Espírito Santo”, o Credo confessa a Igreja, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição do corpo e a vida eterna, como frutos da obra do Espírito. A quarta parte do curso segue essa ordem.
3.2 Das Sentenças às Institutas
Orígenes, no século III, escreveu Dos princípios, a primeira tentativa de expor a fé como um todo ordenado. Pedro Lombardo organizou os Quatro livros de sentenças (c. 1150) em Deus e a Trindade; a criação, a queda e a graça; a encarnação e as virtudes; os sacramentos e as últimas coisas. Tomás de Aquino adotou na Suma teológica um movimento de saída e de retorno (exitus et reditus): Deus e a procedência das criaturas, o movimento da criatura racional para Deus e Cristo, que como homem é o nosso caminho até ele.
Os Loci communes de Melanchthon, em 1521, seguiam a ordem dos temas de Romanos (as forças humanas, o pecado, a lei, o evangelho, a graça, a justificação) e deixavam de lado as especulações sobre a divindade; as edições posteriores acrescentaram a doutrina de Deus, e Alister McGrath observa que o material novo foi incluído sem que a estrutura fosse repensada (Teologia sistemática, histórica e filosófica). Lutero, no Catecismo menor (1529), explicou o Credo em três artigos, da criação, da redenção e da santificação, e confessou no terceiro que não pode crer em Cristo “por minha própria razão ou força”, mas que o Espírito Santo o chamou pelo evangelho. A tradição arminiana subscreve essa confissão: o pecador não dá o primeiro passo. Calvino deu às Institutas (1559) quatro livros: o conhecimento de Deus criador, o conhecimento de Deus redentor em Cristo, o modo como recebemos a graça de Cristo e os meios externos (a Igreja e os sacramentos). Wiley chama esse arranjo de “essencialmente trinitário”, e o terceiro livro começa pela operação secreta do Espírito, que une a Cristo os que creem. A atribuição da salvação ao Espírito não é, portanto, invenção wesleyana; os wesleyanos a levaram à estrutura de todo o sistema.
3.3 A ortodoxia reformada e o lugar dos decretos
McGrath observa que Calvino procedia de modo analítico e indutivo, a partir de Cristo, enquanto Teodoro de Beza, seu sucessor em Genebra, procedia de modo sintético e dedutivo, a partir dos decretos da eleição e da reprovação, que assim se tornaram o princípio determinante do sistema. Na arquitetura que se tornou padrão na tradição reformada, e que Louis Berkhof ainda segue na Teologia sistemática (1938), os decretos são estudados dentro da doutrina de Deus, antes da criação, e a soteriologia vem adiante como “aplicação da obra da redenção”. Pela sua própria autocompreensão, essa ordem confessa a soberania de Deus sobre toda a história, e a teologia arminiana reconhece essa intenção. A divergência está no conteúdo do decreto e, daí, no seu lugar.
3.4 Armínio: a predestinação em Cristo
Armínio estudou em Genebra sob Beza, a partir de 1582, e conhecia esse método por dentro. Nos Debates privados, esboço de um sistema em setenta e nove teses, ele recusa as divisões correntes no seu tempo, entre elas a partição em conhecimento de Deus e do homem, que abre as Institutas, e o plano de Tomás (Debates privados, II, 5). A sua própria ordem é reveladora: a teologia, a religião e a Escritura; Deus e os seus atributos; a criação, os anjos, o ser humano à imagem de Deus e a providência; a aliança, o pecado e os seus efeitos; a restauração do ser humano; a pessoa, os ofícios e os estados de Cristo. Só então, no quadragésimo debate, vem a “predestinação dos cristãos”, seguida da vocação, do arrependimento, da fé, da união com Cristo, da justificação, da santificação e da Igreja.
O lugar corresponde à definição. A predestinação é “o decreto do prazer de Deus, em Cristo”, pelo qual ele decidiu justificar, adotar e dar a vida eterna aos fiéis; é “evangélica”, e a graça em que se funda “exclui toda causa” que se pudesse imaginar originada do ser humano (Debates privados, XL). Na Declaração de Sentimentos (1608), o primeiro decreto absoluto de Deus sobre a salvação do pecador é o que designa o Filho como Mediador, Redentor, Salvador, Sacerdote e Rei, e esse decreto é “o único fundamento do cristianismo”. Em suma, para Beza, Cristo é o meio de executar um decreto anterior; para Armínio, o decreto é cristológico desde o princípio. Armínio chega a antecipar a forma deste curso ao chamar Deus de Criador, Restaurador em Cristo e Glorificador (Debates privados, XXXII, 7).
3.5 Wesley e os sistemáticos metodistas
Wesley não escreveu uma teologia sistemática, mas Randy Maddox adverte que é um erro reduzir a teologia dele à ordem da salvação: os seus temas próprios só fazem sentido dentro do quadro doutrinário que ele recebeu da Igreja (Responsible Grace, introdução). Esse quadro é trinitário. Na Carta a um católico romano (1749), Wesley segue a ordem do Credo e descreve o Espírito como aquele que “ilumina o nosso entendimento, retifica a nossa vontade e afeições, renova a nossa natureza, une a nossa pessoa com Cristo” e nos dá a certeza da adoção (Coletânea da teologia de João Wesley). Toda a soteriologia wesleyana cabe nessa frase, posta no artigo do Espírito. Maddox prefere, por isso, falar do “caminho da salvação” (via salutis), expressão do próprio Wesley em O caminho bíblico da salvação (1765), em vez da “ordem da salvação” (ordo salutis) da escolástica protestante: a “ordem” sugere uma corrente de estados que se sucedem e não se perdem; o “caminho”, uma relação viva com Deus, em que se avança de graça em graça e em que é possível desviar-se.
Coube aos herdeiros de Wesley sistematizar. Richard Watson dividiu os Theological Institutes (1823-1829) em evidências, doutrinas, moral e instituições do cristianismo (veja a biografia de Richard Watson). William Burt Pope, no Compendium of Christian Theology (1880), afirmou que Deus é a fonte, o objeto e o fim da teologia, e estudou cada doutrina nos momentos bíblico, dogmático e histórico (veja a biografia de William Burt Pope). Wiley classifica Watson e Pope entre os que seguem o método sintético, que desce de Deus ao ser humano, a Cristo, à redenção e às últimas coisas. Ele próprio escolheu o método trinitário: Christian Theology (1940-1943) se divide em introdução e doutrinas do Pai, do Filho, do Espírito Santo, da Igreja e das últimas coisas, e a doutrina do Espírito abrange toda a salvação, da graça preveniente à perfeição cristã (veja a biografia de H. Orton Wiley). O leitor brasileiro encontra esse plano resumido na Introdução à teologia cristã, de Wiley e Paul T. Culbertson. Mais tarde, o metodista Thomas Oden escreveu a sua sistemática em três volumes, O Deus vivo, A Palavra da vida e A vida no Espírito (1987-1992).
Este curso toma, portanto, de Wiley a arquitetura, de Pope o modo de tratar cada doutrina e de Watson o cuidado apologético. Os três concordam na substância. Pope escreveu que o metodismo sustenta, “com o mais puro arminianismo”, que não resta no ser humano nenhuma capacidade de voltar-se para Deus, e que “a cooperação com a graça vem da graça” (Compendium, vol. 2). Qualquer que seja a ordem dos capítulos, a planta de uma sistemática arminiana não tem lugar para um cômodo em que o ser humano comece a salvação sozinho.
3.6 Dois contrastes: Finney e Cheung
A Teologia sistemática de Charles Finney (1847), na edição brasileira, começa pelas classes de verdades e passa ao governo moral, à lei moral e à obrigação moral; a expiação vem antes da depravação, e não há tratado sobre a Trindade, a pessoa de Cristo ou o Espírito Santo. O princípio organizador é o governo moral sobre agentes livres, e é coerente com ele que Finney trate o pecado como ato voluntário, e não como corrupção da natureza. No polo oposto, a Teologia sistemática de Vincent Cheung, de tendência hipercalvinista, termina numa salvação apresentada como sequência que começa pelos “eleitos” e acaba nos “preservados”, sem capítulo próprio sobre o Espírito Santo, a Igreja ou as últimas coisas. Os dois partem de princípios opostos, a liberdade moral e o decreto, mas coincidem em organizar o todo a partir de um princípio único, em vez de seguir a forma trinitária em que Deus se revelou.
4. A arquitetura deste curso
O curso tem cinquenta lições em quatro partes, além de uma página de entrada.
4.1 A introdução
A primeira parte (lições 1 a 14) trata da teologia, da tradição arminiana, das fontes, da revelação e da Escritura. Ela vem antes porque só podemos falar de Deus porque ele falou primeiro. A. B. Langston, teólogo batista que formou gerações de pastores no Brasil, observou que explicar o universo do ponto de vista de Deus é relativamente fácil, mas explicar Deus do ponto de vista do universo é impossível (Esboço de teologia sistemática).
4.2 A doutrina do Pai
A segunda parte (lições 15 a 27) estuda Deus e os seus atributos, a Trindade, os decretos e a predestinação, a criação, a providência e o problema do mal, os anjos, o ser humano e a imagem de Deus, o pecado, o pecado original e o livre-arbítrio. Wiley põe sob a doutrina do Pai a existência e os atributos de Deus, a Trindade e a criação, de onde nascem a antropologia e a hamartiologia.
Duas decisões merecem explicação. A primeira é o lugar dos decretos (lição 19): pertencem ao Pai, que “nos escolheu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4), mas vêm depois dos atributos e da Trindade, para que o decreto seja desde o começo o do Deus trino, santo e amoroso, em Cristo. Don Thorsen lembra que Wesley nunca pensou a soberania de Deus senão em relação com a sua santidade e o seu amor (Calvin vs. Wesley). A eleição condicional dos que creem volta na quarta parte (lição 37), onde Paulo a põe: entre o ouvir, o crer e o selo do Espírito. A segunda decisão é terminar a doutrina do Pai com o pecado original e a vontade escravizada (lições 26 e 27). O diagnóstico vem antes do remédio, e a tradição arminiana nunca atenuou a ruína: “ninguém há que entenda, ninguém há que busque a Deus” (Romanos 3:11). A lição sobre o livre-arbítrio mostrará que a vontade presa só se torna livre para o bem quando a graça a liberta.
4.3 A doutrina do Filho
A terceira parte (lições 28 a 32) estuda a pessoa de Cristo, a kenose, os estados de humilhação e exaltação, os ofícios de profeta, sacerdote e rei e a expiação, na ordem de Armínio: a pessoa, os ofícios e os estados, a obra que culmina na cruz. A expiação será estudada como satisfação penal substitutiva de alcance universal, conforme Armínio e Wesley; a teoria governamental de Hugo Grócio será descrita como capítulo da história, e não como posição do curso.
4.4 A doutrina do Espírito Santo
A quarta parte (lições 33 a 50) começa pela pessoa do Espírito e pelos seus dons e fruto. Segue-se o caminho da salvação: a graça preveniente, que vem antes de qualquer resposta humana e alcança todas as pessoas; a eleição condicional em Cristo; a vocação, o arrependimento e a fé; a justificação pela imputação da justiça de Cristo; a regeneração, a adoção e o testemunho do Espírito; a santificação e a perfeição cristã; a perseverança. Depois vêm a Igreja, os meios de graça e a missão, e por fim as últimas coisas, até a conclusão do curso numa teologia da graça.
Wiley dedica partes próprias à Igreja e às últimas coisas; o curso as reúne na doutrina do Espírito, seguindo o terceiro artigo do Credo e a Escritura. A Igreja é edificada “para serdes morada de Deus em Espírito” (Efésios 2:22). A ressurreição repousa no Espírito que habita nos crentes: “aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo Jesus também dará vida aos vossos corpos mortais por meio do seu Espírito” (Romanos 8:11). E Deus “também deu o penhor do Espírito” (2 Coríntios 5:5), usando arrabōn, o sinal pago como primeira parte e garantia do restante. A escatologia é a consumação daquilo que o Espírito já começou.
4.5 Por que a salvação pertence à doutrina do Espírito
A decisão mais característica da sistemática wesleyana é estudar a salvação dentro da doutrina do Espírito Santo, e há quatro razões para ela.
Em primeiro lugar, é a ordem da Escritura: Deus enviou o seu Filho “para redimir os que estavam sob a Lei”, e “enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Aba, Pai!’” (Gálatas 4:5-6). A redenção realizada e a redenção aplicada são duas missões do mesmo amor.
Em segundo lugar, essa ordem guarda o princípio de que a obra da salvação é de Deus, do começo ao fim. Quando a soteriologia se separa do Espírito e vira uma lista de passos (arrepender-se, crer, perseverar), é fácil lê-los como iniciativas humanas que completam a obra de Cristo, e o resultado é o semipelagianismo. Sob o Espírito, cada etapa, da primeira inquietação da consciência à perfeição no amor, aparece como obra de uma pessoa divina. Abner Hernández mostrou que, para Armínio, a graça preveniente é obra pessoal do Espírito, e não substância infundida nem dom natural, e que a sua primeira operação, a libertação da vontade, é só de Deus (veja A graça preveniente em Armínio: um estudo completo). A fé responde, mas recebe e não contribui.
Em terceiro lugar, essa ordem protege contra o erro oposto, a salvação como execução mecânica de um decreto, em que o Espírito se torna mero instrumento. A graça do Espírito é real e eficaz, mas resistível: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51). Por isso a perseverança se estuda no fim do caminho, como permanência em Cristo.
Em quarto lugar, essa ordem dá o lugar devido ao testemunho do Espírito (Romanos 8:16) e à santificação, que deixam de ser apêndices e passam a pertencer à obra do Espírito que aplica a obra de Cristo.
4.6 Em diálogo com outras arquiteturas
A tradição católica romana fala, desde o Vaticano II, de uma “hierarquia das verdades” (Unitatis redintegratio, 11), segundo a qual as doutrinas se relacionam de modo diverso com o fundamento da fé. A tradição luterana mede o sistema pela justificação, o artigo com o qual a Igreja se mantém de pé ou cai. A tradição reformada põe os decretos no começo para confessar a soberania de Deus. Langston, batista, estuda a salvação antes do Espírito Santo; Walter Brunelli, na Teologia para pentecostais, estuda a pneumatologia junto da cristologia e da angelologia, e a soteriologia depois do pecado, dando aos dons espaço próprio. Todas essas arquiteturas contêm as mesmas peças. A planta trinitária tem, a nosso ver, duas vantagens decisivas: segue a forma em que Deus se revelou na Escritura e no Credo, e não permite pensar a salvação sem o Espírito, nem o Espírito sem a salvação.
5. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, quem conhece a planta lê melhor a Bíblia e percebe quando uma pregação constrói um puxadinho, usando um versículo para sustentar uma doutrina que não cabe no conjunto.
Em segundo lugar, a ordem trinitária corrige desequilíbrios conhecidos. Há comunidades em que se fala muito do Espírito e pouco de Cristo, como se o Espírito trouxesse experiências desligadas da cruz, mas ele glorifica o Filho. Há outras em que se fala da soberania de Deus como se tudo estivesse decidido e nada acontecesse no coração. E há debates entre calvinistas e arminianos que reduzem toda a teologia a cinco pontos, esquecendo que a divergência ocupa um único andar de um edifício que, em quase tudo, temos em comum.
Em terceiro lugar, a ordem trinitária forma a oração: a Igreja ora ao Pai, por meio do Filho, no Espírito. Confesso, por fim, que é fácil apaixonar-se pela elegância de um sistema e esquecer que ele existe para que Deus habite entre nós. Isso vale para todos nós.
Voltemos ao puxadinho. A casa sem planta abriga a família, mas cada acréscimo complica o anterior, e um dia é preciso reformar. O curso quer oferecer a planta inteira, para que cada doutrina ocupe o lugar que lhe pertence, e Paulo descreve o edifício que Deus está construindo:
Pois por meio dele ambos temos acesso ao Pai por um mesmo Espírito. Portanto, já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas sim, concidadãos dos santos, e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Cristo Jesus é a pedra principal da esquina. Nele o edifício todo, bem ajustado, cresce para ser um templo santo no Senhor. Nele também vós sois juntamente edificados para serdes morada de Deus em Espírito.
Eis a arquitetura de toda a doutrina cristã: acesso ao Pai, por meio do Filho, num mesmo Espírito. Que o Senhor nos conceda estudar a sua verdade com ordem e humildade, para que, bem ajustados em Cristo, sejamos também nós morada de Deus no Espírito.
Síntese
- As partes da doutrina (os loci) são quase comuns às tradições; o que as distingue é a ordem, porque o lugar de uma doutrina diz de que outras ela depende e quais governa.
- A Escritura revela a economia da salvação numa forma trinitária, do Pai, por meio do Filho, no Espírito (Efésios 1:3-14; 1 Pedro 1:2), sem dividir as obras indivisas de Deus.
- Os credos foram a primeira arquitetura da doutrina; a ortodoxia reformada, com Beza, fez dos decretos o princípio do sistema, enquanto Armínio tratou da predestinação depois de Cristo, como decreto evangélico em Cristo.
- Wiley adotou expressamente a ordem trinitária, que este curso segue, e Pope e Watson oferecem o método e a substância da teologia wesleyana.
- Estudar a salvação, a Igreja e as últimas coisas como obra do Espírito, que aplica a obra de Cristo, confessa que a salvação é de Deus do começo ao fim e protege contra o semipelagianismo e contra a redução da salvação à execução mecânica de um decreto.
Questões para revisão
- O que significam locus e articulus fidei, e por que a ordem dos loci é uma interpretação da fé?
- Como Efésios 1:3-14 e 1 Pedro 1:2 descrevem a economia trinitária da salvação?
- Como a noção de “apropriação” impede que a divisão trinitária reparta Deus em três departamentos?
- Que relação existe entre o terceiro artigo do Credo Apostólico e a quarta parte deste curso?
- Em que diferem o método de Calvino e o de Beza, segundo McGrath, e por que é significativo o lugar da predestinação nos Debates privados de Armínio?
- Qual é a diferença entre “ordem da salvação” e “caminho da salvação”?
- Por que a sistemática wesleyana estuda a salvação dentro da doutrina do Espírito Santo?
Bibliografia
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- WILEY, H. Orton; CULBERTSON, Paul T. Introdução à teologia cristã. Casa Nazarena de Publicações.
Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 2: Para que serve a teologia sistemática. Próxima: Lição 4: A tradição arminiana: de Armínio a Wesley e ao Brasil.
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