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TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana14 de 30

Lição 14: A interpretação da Escritura

Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1

Diego Gonçalves25 min de leitura4.991 palavras

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Neste texto

Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.

Objetivos da lição

  • Definir hermenêutica, exegese, sentido literal, tipologia, alegoria, analogia da fé e iluminação.
  • Examinar o que a própria Escritura ensina sobre o ato de lê-la e de explicá-la.
  • Acompanhar a história da interpretação bíblica, da igreja antiga a Armínio, Wesley e a igreja brasileira.
  • Formular os princípios do método gramático-histórico, lido sob a analogia da fé e a iluminação do Espírito.
  • Situar a posição arminiana clássica e wesleyana diante das outras tradições.

Introdução

Em muitas casas evangélicas do Brasil havia, ao lado do filtro de barro, uma caixinha de promessas: dezenas de cartões enrolados, cada um com um versículo, de onde se tirava um ao acaso pela manhã. Quem tirava “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” saía confiante para o vestibular; quem tirava “pensamentos de paz, e não de mal” atravessava a semana difícil com outro ânimo. Confesso que também tirei os meus cartões, e não pretendo zombar da piedade simples que eles alimentaram, porque as promessas eram verdadeiras. O problema estava em outro lugar: cada cartão trazia uma frase recortada de uma carta, e ninguém perguntava quem a escrevera, a quem, em que circunstância e com que intenção.

A pergunta que Jesus fez a um intérprete da lei continua a ser a desta lição: “O que está escrito na Lei? Como tu a lês?” (Lucas 10:26). As lições anteriores trataram da revelação e da sua preservação (lição 11), da inspiração e da autoridade da Escritura (lição 12) e do cânon (lição 13); a lição 9 apresentou a analogia da fé como instrumento da formulação doutrinária. Resta perguntar como se lê um texto inspirado, escrito há milênios, em línguas e culturas que não são as nossas, sem que a sua autoridade se dissolva na opinião do leitor. Toda doutrina que estudaremos a partir da próxima lição depende de um modo de ler, e boa parte das divergências entre as tradições cristãs, inclusive entre arminianos e calvinistas, consiste em divergências de interpretação de textos que todos recebem como palavra de Deus.

1. Os termos

1.1 Hermenêutica e exegese

Hermenêutica vem do verbo grego hermēneuō, “explicar”, “expor”, “traduzir”. No Novo Testamento, o grupo significa traduzir na maior parte das vezes; mas, na estrada de Emaús, o composto diermēneuō está por trás do verbo “declarava”: Jesus “lhes declarava em todas as Escrituras o que estava escrito sobre ele” (Lucas 24:27), isto é, as expunha (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, verbete “Explicar”, de A. C. Thiselton). Doravante, chamaremos de hermenêutica a reflexão sobre os princípios da interpretação, e de exegese a aplicação desses princípios a um texto. Exēgeomai significa “conduzir para fora”, “narrar”, e João o emprega para dizer que o Filho tornou o Pai conhecido: “o unigênito Deus, que está no seio do Pai, ele o declarou” (João 1:18). O contrário da exegese é a eisegese, que introduz no texto o que o leitor já pensava antes de abri-lo.

1.2 Sentido literal e método gramático-histórico

Na tradição que vai de Tomás de Aquino aos reformadores, o sensus literalis é o sentido que o autor quis comunicar pelas palavras que empregou, em sentido próprio ou figurado. Quando Isaías anuncia que “todas as árvores do campo baterão palmas” (Isaías 55:12), o sentido literal é a alegria da criação diante da redenção, e não uma informação de botânica. Armínio define o sentido legítimo da Escritura como aquele que o Espírito Santo, seu autor, tencionou e que se recolhe das próprias palavras, “sejam elas recebidas em seu significado apropriado ou figurado, isto é, o sentido gramatical, como é chamado” (Disputas privadas, IX, 1). Literal opõe-se a arbitrário, e não a figurado; quem lê as metáforas como descrições físicas é literalista, e não intérprete literal. O método gramático-histórico busca esse sentido pela gramática da língua original, pelo gênero literário do texto e pela situação histórica em que foi escrito e lido pela primeira vez.

1.3 Alegoria e tipologia

A interpretação alegórica atribui aos pormenores de uma narrativa significados ocultos que o autor não pretendeu comunicar; Heráclito definia a alegoria como “dizer uma coisa com a intenção de dizer outra” (McGrath, Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 6). A tipologia lê pessoas, acontecimentos e instituições do Antigo Testamento, como o cordeiro pascal e o tabernáculo, como história real que, no plano de Deus, prefigura Cristo e a sua obra. A alegoria passa por cima da história; a tipologia a pressupõe. Armínio admite sob as mesmas palavras “dois significados, cada um deles certo e tencionado pelo autor”, o típico e o “representado no tipo” (Disputas privadas, IX, 3), e a exigência é clara: o segundo sentido tem de ser tencionado pelo autor, e não inventado pelo intérprete. Quando Paulo diz que a história de Agar e Sara “serve de ilustração” (Gálatas 4:24), usa o verbo allēgoreō, mas a sua leitura se apoia na história dos dois pactos e está mais perto da tipologia que da alegoria de Fílon de Alexandria.

1.4 Analogia da fé e iluminação

A analogia da fé, tirada da ordem de que a profecia se exerça “segundo a medida da fé” (Romanos 12:6), é o princípio de que cada passagem se lê em harmonia com as grandes verdades que atravessam a Escritura; distingue-se da analogia da Escritura, que é a comparação das passagens paralelas entre si. A iluminação é a obra do Espírito Santo que abre a mente e o coração do leitor para compreender e receber o que a Escritura diz. Distingue-se da inspiração, que produziu o texto uma vez para sempre, e da revelação, que comunicou um conteúdo novo: o Espírito não acrescenta ao texto um sentido que ele não tem, mas nos dá olhos para ver o que ele diz. “Abre meus olhos, para que eu veja as maravilhas de tua lei” (Salmos 119:18). O salmista pede olhos novos, e não uma lei nova.

2. A fundamentação bíblica

2.1 Ler e explicar o sentido

Depois do exílio, Esdras leu a lei diante do povo, e os levitas a explicaram:

E leram no livro da lei de Deus o declarando, e explicando o sentido, para que pudessem entender o que era lido.

Neemias 8:8

O versículo descreve a leitura, a explicação do sentido e o entendimento. Muitos intérpretes pensam que os levitas também traduziam o hebraico para o aramaico que a geração do exílio passara a falar, de modo que tradução e explicação caminhavam juntas. O próprio Esdras “tinha decidido em seu coração buscar a lei do SENHOR, e a praticar; e ensinar a Israel seus estatutos e juízos” (Esdras 7:10). Buscar, praticar e ensinar: é a ordem do trabalho do intérprete, em que a prática vem antes do ensino.

2.2 O Senhor que abre as Escrituras

No dia da ressurreição, Cristo abriu as Escrituras e abriu os discípulos: declarou-lhes o que estava escrito sobre ele (Lucas 24:27) e depois “lhes abriu o entendimento, para que entendessem as Escrituras” (Lucas 24:45). As duas aberturas correspondem à exposição do texto e à iluminação do leitor. Thiselton observa que, à luz da obra completada de Cristo, as passagens que só expressavam promessa passaram a ser lidas como cumprimento: “enquanto o AT interpreta a vinda de Cristo, Cristo também interpreta o AT”.

O mesmo Senhor advertiu que se pode estudar a Escritura com diligência e errar o alvo: “Investigai as Escrituras; porque vós pensais que nelas tendes a vida eterna, e elas são as que de mim testemunham. E não quereis vir a mim, para que tenhais vida” (João 5:39-40). O obstáculo não estava na falta de método, mas na vontade, e por isso a interpretação é também uma questão moral: “Se alguém quiser fazer sua vontade, da doutrina conhecerá” (João 7:17).

2.3 “Tu entendes o que estás lendo?”

E Filipe, correndo, ouviu que ele estava lendo ao profeta Isaías, e disse: Tu entendes o que estás lendo? E ele disse: Como eu poderia, se alguém não me ensinar? E pediu a Filipe que subisse e se sentasse com ele.

Atos 8:30-31

O tesoureiro etíope sabia ler e tinha nas mãos o rolo de Isaías, mas precisou de alguém que, “começando desta escritura, anunciou-lhe o Evangelho de Jesus” (Atos 8:35). O leitor da Bíblia não está sozinho, porque Cristo deu à igreja “pastores e instrutores” (Efésios 4:11); e o mestre também está debaixo do texto, como mostram os bereanos, que examinavam “a cada dia as escrituras, para ver se estas coisas eram assim” (Atos 17:11).

2.4 “Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular”

Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Porque a profecia jamais foi produzida pela vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus conduzidos pelo Espírito Santo.

2 Pedro 1:20-21

O versículo 20 admite mais de uma leitura, mas, com Ceslas Spicq, o mínimo que se pode dizer é que o apóstolo condena a exegese arbitrária (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, verbete “Explicar”). Pedro adverte ainda que há nas cartas de Paulo “algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e os inconstantes distorcem” (2 Pedro 3:16), e Paulo pede a Timóteo que seja um trabalhador “que usa bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15); o verbo, orthotomeō, significa “cortar em linha reta”, como quem abre um sulco sem desvios.

2.5 O véu e a luz

Porém suas mentes foram endurecidas, porque até hoje fica o mesmo véu ainda coberto na leitura do antigo pacto, o qual é extinto por Cristo. Mas até hoje, quando se lê as palavras de Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Porém quando se converterem ao Senhor, então o véu será tirado.

2 Coríntios 3:14-16

O véu está sobre o coração, e não sobre o texto. “O ser humano natural não compreende as coisas que são do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não as pode entender, porque se compreendem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14). A interpretação toca aqui a doutrina da graça: a mesma incapacidade que impede o ser humano caído de vir a Cristo por si mesmo, pois “ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer” (João 6:44), impede-o de receber as coisas do Espírito sem que o Espírito o preceda.

3. Desenvolvimento histórico

3.1 A igreja antiga: Alexandria, Antioquia e Agostinho

Em Alexandria, Clemente, Orígenes e Dídimo, o Cego, herdeiros dos métodos de Fílon, procuravam sob a superfície do texto um sentido espiritual; para Orígenes, a conquista de Canaã figurava a vitória de Cristo sobre o pecado. Em Antioquia, Diodoro de Tarso, João Crisóstomo e Teodoro de Mopsuéstia insistiam no contexto histórico, e Teodoro lia poucas profecias como referência direta a Cristo (McGrath, cap. 6). Agostinho, em A doutrina cristã, ensinou a esclarecer as passagens obscuras pelas mais claras, resumiu a relação entre os Testamentos na fórmula de que o Novo está latente no Antigo e o Antigo patente no Novo, e acrescentou uma regra que nenhum método substitui: quem julga ter entendido as Escrituras, mas não edifica com esse entendimento o duplo amor a Deus e ao próximo, ainda não as entendeu (I, 36, 40).

3.2 A Idade Média: os quatro sentidos

A Idade Média sistematizou na quadriga os quatro sentidos da Escritura, que um dístico do século XIII resumiu: a letra ensina o que aconteceu, a alegoria o que crer, o sentido moral (tropológico) o que fazer, e o anagógico para onde caminhar. Jerusalém podia ser a cidade de Davi, a igreja, a alma fiel e a cidade celeste; Bernardo de Claraval viu nas vigas de cedro de Cântico dos Cânticos 1:17 os governantes da igreja e do Estado (McGrath, cap. 6). Os melhores teólogos medievais corrigiram a fragilidade do método: Tomás de Aquino ensinou que todos os sentidos se fundam no literal e que só dele se tira argumento (Suma teológica, I, q. 1, a. 10), e Nicolau de Lira deu ao sentido literal o primeiro lugar nos seus comentários.

3.3 A Reforma: a Escritura, intérprete de si mesma

Em 1515, Lutero escreveu que nenhuma alegoria, tropologia ou anagogia é válida se a mesma verdade não estiver declarada literalmente em outro lugar da Bíblia, “do contrário, as Escrituras se tornariam motivo de riso” (citado por McGrath, cap. 6); pouco depois, chamou a Escritura de “intérprete de si mesma” (sui ipsius interpres). Calvino, na dedicatória do comentário a Romanos (1540), definiu a tarefa do intérprete como a de expor a mente do escritor com clareza e brevidade. O estudo Reforma e estudo bíblico: fim da leitura alegórica conta essa virada. A Confissão de Westminster (1647) deu ao princípio a forma clássica: “a regra infalível de interpretação da Escritura é a própria Escritura”, e o sentido de um texto, que “não é múltiplo, mas único”, deve ser esclarecido pelos que falam mais claramente (I, 9). Trento, por sua vez, proibira interpretar a Escritura contra o sentido sustentado pela igreja, a quem compete julgá-lo, ou contra o consenso unânime dos Pais (sessão IV, 1546).

3.4 Armínio: o sentido gramatical e a liberdade de profetizar

Armínio dedicou à interpretação duas disputas sucessivas. Na primeira, afirma que as verdades necessárias à salvação estão reveladas com tal clareza que podem ser percebidas “até mesmo pelos indivíduos mais simples”, mas são claras “apenas para aqueles que, sendo iluminados e esclarecidos pela luz do Espírito Santo, têm olhos para ver”, pois nenhuma cor é vista senão pelo olho dotado da capacidade de ver; e acrescenta que a lei deve ser distinguida do evangelho (Disputas privadas, VIII, 4-6).

Na segunda, define o sentido gramatical e afirma, como Tomás, que só dele se tiram argumentos eficazes para provar doutrinas (IX, 1-2). Pede que a tradução conserve as ambiguidades do original ou as anote à margem, que as palavras explicativas sejam buscadas na própria Escritura e que o sentido concorde com “a forma das palavras genuínas” e se ajuste “ao escopo ou à intenção do autor nessa passagem”, observando a ocasião, o fim, a conexão com o que precede e o que segue, e as circunstâncias de pessoas, tempos e lugares (IX, 7-9). É, com outro vocabulário, o método gramático-histórico. Quanto à autoridade, ninguém, “seja um indivíduo ou uma igreja”, pode impor a sua interpretação como autêntica, exceto os profetas e os apóstolos, e toda interpretação só deve ser recebida se confirmada “por força de argumentos”; por isso nem o consenso dos Pais nem o pontífice romano são regra de interpretação. Armínio não quer, porém, uma “permissão ilimitada” de rejeitar interpretações sem causa: preserva a liberdade de expor publicamente a Palavra e a submete ao juízo de Deus e da igreja (IX, 11-13).

A exegese dele pratica o que a disputa ensina. Na Dissertação sobre o sétimo capítulo da Epístola aos Romanos, sustenta que as heresias são refutadas “de maneira muito mais veemente” pelas passagens lidas segundo o escopo do apóstolo do que pelas que se adaptam à refutação “além do escopo e da intenção do autor”. No Exame do panfleto de Perkins (1602), antes de discutir Romanos 9, propõe “examinar, brevemente, a intenção e o escopo do apóstolo”, e lê o capítulo à luz dos versículos 30 a 32, onde Israel tropeça porque buscou a justiça “não pela fé, mas sim, como que pelas obras”. A controvérsia sobre a predestinação foi, desde o início, uma controvérsia sobre o modo de ler.

3.5 Wesley: o sentido claro, o teor geral e a leitura que se faz vida

Wesley resumiu numa carta a Samuel Furly a sua regra geral: tomar o sentido literal de cada texto, a menos que contradiga outro, caso em que “o texto obscuro deve ser interpretado por outros que falem de modo mais claro”; no sermão Sobre a Igreja (sermão 74), lembra que “nunca se deve fugir do sentido simples e literal, a menos que implique em algum absurdo” (Coletânea da teologia de João Wesley). Randy Maddox mostra que essa preferência pressupunha a pesquisa nas línguas originais e no melhor texto grego disponível, o de Bengel, e não o apelo ao sentido percebido pela “pessoa comum”, próprio do fundamentalismo posterior; e que uma das objeções mais frequentes de Wesley aos adversários era a de contradizerem “todo o teor e escopo da Escritura” (Responsible Grace, cap. 1).

No prefácio às Notas explicativas sobre o Antigo Testamento (1765), Wesley aconselha a reservar um tempo de manhã e à noite, a ler um capítulo de cada Testamento com o propósito de conhecer toda a vontade de Deus e a resolução de praticá-la, a atentar para a analogia da fé, que liga o pecado original, a justificação pela fé, o novo nascimento e a santidade interior e exterior, a orar antes e depois da leitura, porque “a Escritura só pode ser entendida através do mesmo Espírito que por ela foi dado”, e a parar com frequência para examinar o coração e a vida, usando imediatamente a luz recebida (Coletânea, “A Bíblia”). Método, oração e obediência formam uma só disciplina.

3.6 Depois de Wesley: erudição metodista e crítica moderna

O metodismo do século XIX produziu erudição bíblica: Adam Clarke, pregador metodista e filólogo, publicou entre 1810 e 1826 um comentário a toda a Bíblia que formou gerações de pregadores, e Richard Watson publicou um Dicionário bíblico e teológico (1831). Nos séculos XIX e XX, a crítica histórica passou a perguntar pela distância entre o mundo do texto e o do leitor, e Rudolf Bultmann propôs “desmitologizar” o Novo Testamento, reinterpretando em termos existenciais o que julgava ser a cosmologia mítica dos autores (Grenz e Olson, A teologia do século 20). Thiselton responde que a incredulidade moderna diante dos milagres também é produto de uma cultura, e que, no diálogo entre o texto e o intérprete, o texto também interpreta o intérprete.

3.7 A interpretação na igreja brasileira

O Brasil evangélico leu muito a Bíblia, nos cultos, nas Escolas Bíblicas Dominicais e nas casas, e também foi muito exposto ao versículo isolado e à teologia da prosperidade, que converte promessas feitas a Israel em contratos individuais. O manual de Gordon Fee, pastor das Assembleias de Deus, e Douglas Stuart, Entendes o que lês?, tornou-se leitura comum nos seminários de várias denominações. Walter Brunelli adverte os pentecostais de que a hermenêutica é necessária, mas “não é autossuficiente”, e de que ninguém chega a conclusões acertadas sem a iluminação do Espírito (Teologia para pentecostais, vol. 2); Craig Keener propõe uma hermenêutica do Espírito, à luz do Pentecostes. Entre os arminianos, Flávyo Henrique Costa Santos mostra o método a serviço da doutrina: o “mundo todo” que jaz no maligno (1 João 5:19) é o mesmo “todo o mundo” por cujos pecados Cristo é o sacrifício (2:2), e a análise gramatical e contextual basta para mostrá-lo (Manual de teologia arminiana).

4. Princípios de interpretação

Em primeiro lugar, o intérprete pergunta o que as palavras significavam na língua e na época em que foram escritas, e não no dicionário de hoje.

Em segundo lugar, pergunta pelo gênero, porque Deus falou “muitas vezes, e de muitas maneiras” (Hebreus 1:1): narrativa, lei, poesia, sabedoria, profecia, evangelho, carta e apocalipse pedem leituras diferentes. O provérbio é sabedoria para a vida comum, e não promessa incondicional, como mostra o par “Não respondas ao tolo conforme sua loucura” e “Responde ao tolo conforme sua loucura” (Provérbios 26:4-5). O Apocalipse fala por imagens, e a leitura delas decide a questão do milênio, que a lição 48 estudará na perspectiva amilenista.

Em terceiro lugar, lê o texto no seu contexto. Antes de “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13), Paulo diz que aprendeu “a contentar-me com o que tenho”, “tanto a estar farto, como a ter fome” (4:11-12): o versículo trata da força para viver contente na abundância e na escassez. Os “pensamentos de paz, e não de mal” de Jeremias 29:11 foram dirigidos a exilados que ficariam setenta anos na Babilônia (29:10). As duas promessas valem para nós do modo como foram feitas, e o contexto mostra o seu alcance verdadeiro: Deus prometeu presença no exílio, e não ausência de exílio.

Em quarto lugar, interpreta a passagem obscura pelas mais claras, e cada uma pelo teor geral da Escritura, segundo a analogia da fé. A revelação é progressiva, pois Deus falou pelos profetas e “nestes últimos dias” pelo Filho (Hebreus 1:1-2); não se constrói doutrina sobre um versículo isolado contra o testemunho do conjunto.

Em quinto lugar, lê a Escritura como testemunho de Cristo (João 5:39), e admite a tipologia quando ela segue a história da redenção. Geerhardus Vos formulou a regra: só depois de descobrir o que uma coisa simbolizava no seu tempo podemos perguntar o que ela tipifica, porque o laço entre tipo e antítipo deve ser de continuidade vital na história da redenção; sem ele, aparecem absurdos como ver no cordão escarlate de Raabe o sangue de Cristo e nos quatro leprosos de Samaria os quatro evangelistas (Teologia bíblica). O cordeiro pascal aponta para Cristo porque Deus libertou Israel pelo sangue de um cordeiro; a cor de um cordão de janela não tem esse laço.

Em sexto lugar, o intérprete examina os seus pressupostos, lê na comunidade e com a memória da igreja, sem lhe dar a palavra final, como mostra o estudo Bíblia e tradição: ninguém lê a Escritura no vácuo, e lê em oração, pedindo ao Espírito que lhe abra os olhos.

Por fim, a interpretação só se completa na obediência. Tiago compara o ouvinte que não pratica a “um homem que observa num espelho o seu rosto natural; porque observou a si mesmo e saiu, e logo se esqueceu de como era” (Tiago 1:23-24). O que a quadriga chamava de sentido tropológico Armínio entendia como a acomodação do sentido gramatical “segundo as circunstâncias das pessoas, lugar, época” (Disputas privadas, IX, 4). A aplicação não cria um sentido novo, mas leva o único sentido do texto até a nossa vida.

5. A posição arminiana clássica e wesleyana

5.1 Em suma

A tradição arminiana e wesleyana interpreta a Escritura pelo sentido gramatical e histórico que o Espírito Santo tencionou, lido no seu contexto, comparado com as passagens paralelas e harmonizado com o teor geral da Escritura, que tem em Cristo o centro e no amor santo de Deus, que alcança todos e salva os que creem, o seu fio condutor. Recusa o alegorismo, que dissolve a história, e o literalismo, que ignora as figuras e os gêneros. Afirma que a Escritura é clara no necessário à salvação e que nenhuma pessoa ou igreja pode impor a sua interpretação senão pela força dos argumentos tirados do próprio texto.

5.2 A graça e a leitura

O modo como lemos a Escritura reflete o modo como cremos que Deus salva. Para Armínio, as verdades da salvação são claras em si mesmas, mas só as vê quem foi iluminado pelo Espírito. A iluminação vem antes, porque o ser humano natural não pode entender as coisas do Espírito, e é obra de Deus do começo ao fim; ela, porém, não dispensa o estudo nem atua de modo irresistível, pois os que investigavam as Escrituras e não queriam vir a Cristo (João 5:40) mostram que a luz pode ser recusada. A lição 36 estudará esse mesmo padrão na graça preveniente. Neste sentido, o intérprete arminiano não confia na razão autônoma, nem espera uma luz que o dispense da gramática.

5.3 Comparação com outras tradições

Com a tradição católica partilhamos o primado do sentido literal, a atenção aos gêneros literários e a leitura de cada texto na unidade de toda a Escritura (Dei Verbum, 12); divergimos quanto à autoridade, pois o Vaticano II atribui ao magistério vivo o ofício de interpretar autenticamente a Palavra (n. 10). Com a tradição reformada partilhamos o método quase por inteiro, e o artigo de Westminster poderia ser assinado por Armínio; a divergência está no teor geral que cada tradição reconhece na Escritura e, por isso, na leitura de textos como João 6, Romanos 9 e 1 João 2:2. Com a tradição luterana partilhamos a distinção entre lei e evangelho, que o próprio Armínio exige. Com a tradição pentecostal partilhamos a confiança na iluminação do Espírito, lembrando que a experiência confirma, mas não decide, como mostrou a lição 8. Da hermenêutica dispensacionalista divergimos quanto às profecias, porque o Novo Testamento as lê como cumpridas em Cristo e no seu povo; da teologia liberal, quando faz da cosmovisão moderna o juiz do que o texto pode dizer.

5.4 Dois contrastes: Finney e Cheung

Charles Finney enuncia regras em parte corretas, como a de ler a linguagem “de acordo com o assunto do discurso”, mas exige também que ela seja interpretada de modo a não entrar “em conflito com a sã filosofia, questões de fato, a natureza das coisas ou a justiça imutável” (Teologia sistemática). Com essa regra, conclui que o “não pode” dos textos sobre a vontade não indica impossibilidade real e chama a incapacidade natural de “dogma absurdo”; o “ninguém pode” de João 6:44 fica esvaziado por uma filosofia do governo moral, e a doutrina do pecado escorrega para o semipelagianismo, como a lição 26 mostrará. Vincent Cheung erra na direção oposta: afirma que “o conhecimento sobre a realidade vem somente de deduções válidas da revelação bíblica, e nunca de métodos científicos ou empíricos”, e usa o princípio do contexto para restringir o “todos” dos textos sobre a graça (Teologia sistemática). Nos dois casos, um princípio legítimo se torna ilegítimo quando um sistema prévio decide o que o texto tem permissão de dizer.

6. Implicações para a fé, a igreja e a vida

Em primeiro lugar, somos chamados à humildade. Se o tesoureiro etíope precisou de Filipe, e se Pedro achou difíceis algumas coisas de Paulo, nenhum de nós lê sozinho nem lê sem erro.

Em segundo lugar, somos chamados ao estudo. Pregadores, professores de Escola Bíblica Dominical e líderes de célula têm o dever de perguntar quem escreveu, a quem, em que circunstância e com que intenção, antes de perguntar o que o texto diz hoje.

Em terceiro lugar, somos chamados à oração, porque a Escritura só se entende pelo mesmo Espírito que a deu.

Por fim, somos chamados à obediência, pois a leitura que não chega à vida é a do homem que se olha no espelho e esquece o próprio rosto.

Voltemos à caixinha de promessas. Os cartões diziam a verdade, mas diziam pedaços dela, e a promessa inteira só se ouve quando lemos a carta inteira, sabendo quem a escreveu e para quem. Que aprendamos a trocar o hábito de tirar versículos ao acaso pelo de ler a Escritura como ela foi dada, livro por livro, com a gramática, a história e o coração abertos. Senhor, abre os nossos olhos para que vejamos as maravilhas da tua lei, livra-nos de torcer a tua palavra para que ela diga o que queremos, e faze de nós praticantes daquilo que entendemos.

Síntese

  1. A hermenêutica estuda os princípios da interpretação, e a exegese os aplica a um texto; o seu objetivo é recolher o sentido que o Espírito Santo tencionou, e não introduzir no texto o que o leitor já pensava.
  2. O sentido literal é o sentido gramatical e histórico pretendido pelo autor, próprio ou figurado, e só dele se tiram argumentos para a doutrina; a tipologia legítima segue a história da redenção, e a alegoria a dissolve.
  3. A Escritura apresenta a leitura que explica o sentido (Neemias 8), o Cristo que abre as Escrituras e o entendimento (Lucas 24), o ensino na comunidade (Atos 8) e a iluminação do Espírito, sem a qual o véu permanece sobre o coração (2 Coríntios 3).
  4. Da quadriga medieval à Reforma, a igreja aprendeu a dar o primeiro lugar ao sentido literal e a deixar que a Escritura interprete a si mesma; Armínio formulou esses princípios, e Wesley os viveu em oração e obediência.
  5. A interpretação considera as palavras, o gênero, o contexto, o conjunto da Escritura, o seu centro em Cristo, os pressupostos do intérprete e a aplicação à vida.
  6. A posição arminiana e wesleyana entende a iluminação como obra de Deus que precede, capacita e pode ser recusada, e recusa tanto a interpretação imposta por uma igreja quanto a liberdade sem limites do leitor isolado.

Questões para revisão

  1. Qual é a diferença entre hermenêutica, exegese e eisegese?
  2. Por que “sentido literal” não significa “literalismo”? Como Armínio define o sentido gramatical?
  3. Qual é a diferença entre alegoria e tipologia, e que regra Geerhardus Vos propõe para a tipologia legítima?
  4. O que ensinam Neemias 8:8, Lucas 24 e Atos 8:30-31 sobre o ato de interpretar a Escritura?
  5. Como Tomás de Aquino, Lutero e a Confissão de Westminster limitaram o uso dos quatro sentidos medievais?
  6. Como Armínio equilibra a recusa de toda interpretação imposta com a recusa de uma “permissão ilimitada” ao intérprete?
  7. Que lugar os conselhos de Wesley sobre a leitura da Bíblia dão à analogia da fé, à oração e à obediência?

Bibliografia

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  • WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
  • WESLEY, John. Explanatory Notes upon the Old Testament (1765), prefácio; sermão 74, Sobre a Igreja.
  • WILEY, H. Orton. Christian Theology. 3 vols. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1940-1943.
  • Para contraste: FINNEY, Charles G. Teologia sistemática; CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática.

Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 13: O cânon das Escrituras. Próxima: Lição 15: A doutrina de Deus: existência e conhecimento.

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