
TeologiaCurso de Teologia Sistemática Arminiana13 de 30
Lição 13: O cânon das Escrituras
Curso de Teologia Sistemática Arminiana, parte 1
Neste texto
- Objetivos da lição
- Introdução
- 1. Os termos
- 1.1 Cânon
- 1.2 Sentido ativo e sentido passivo
- 1.3 Deuterocanônicos, apócrifos e pseudepígrafos
- 2. A fundamentação bíblica
- 2.1 Uma coleção que começa no Antigo Testamento
- 2.2 Jesus e a Bíblia hebraica
- 2.3 O Novo Testamento em formação
- 2.4 Cristo, os apóstolos e o fechamento do cânon
- 3. Desenvolvimento histórico
- 3.1 O cânon do Antigo Testamento
- 3.2 O cânon do Novo Testamento
- 3.3 Os livros discutidos do Antigo Testamento
- 3.4 A Reforma, Trento e as confissões
- 3.5 Armínio, Wesley e os sistemáticos wesleyanos
- 3.6 O cânon no Brasil
- 4. Os critérios de canonicidade
- 5. Os apócrifos
- 5.1 Que livros são
- 5.2 Por que não os recebemos como Escritura
- 5.3 Como lê-los
- 6. A posição arminiana clássica e wesleyana
- 6.1 Em suma
- 6.2 Um traço arminiano
- 6.3 Comparação com outras tradições
- 7. Implicações para a fé, a igreja e a vida
- Síntese
- Questões para revisão
- Bibliografia
Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Parte 1: Introdução: teologia, revelação e Escritura.
Objetivos da lição
- Definir cânon, canonicidade, deuterocanônico, apócrifo e pseudepígrafo.
- Examinar o testemunho bíblico sobre a coleção das Escrituras.
- Acompanhar a formação histórica do cânon, até Armínio e Wesley.
- Compreender os critérios de canonicidade e as razões pelas quais os protestantes não recebem os apócrifos.
- Situar a posição arminiana clássica e wesleyana diante das outras tradições cristãs.
Introdução
O telefone toca numa casa do interior, a mãe atende e, antes que a pessoa do outro lado diga o nome, já sabe que é o filho que mora longe. Basta o primeiro “alô”, o jeito de começar a frase. Ninguém pensa que ela fez dele seu filho ao reconhecê-lo; ela apenas reconheceu a voz de quem já era seu.
A tradição protestante descreve de modo semelhante a relação entre a igreja e os livros da Bíblia. A igreja não fez as Escrituras, nem lhes conferiu a autoridade que têm; reconheceu nelas a voz do seu Senhor, que disse: “Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem” (João 10:27). A pergunta, porém, é concreta, porque ao lado da voz do Pastor circularam muitas outras vozes, e a Bíblia que um católico leva para a missa tem sete livros a mais do que a que nós levamos para o culto.
A lição 11 estudou como Deus fez escrever e preservou a sua revelação, e a lição 12, em que sentido essa palavra escrita é inspirada e tem autoridade. Resta perguntar quais livros compõem a Escritura, como a igreja chegou a reconhecê-los e o que fazemos com os que ficaram à margem. O estudo Apócrifos ou deuterocanônicos: por que 7 livros a mais? conta essa história; aqui ela recebe tratamento doutrinário.
1. Os termos
1.1 Cânon
A palavra grega kanōn veio de uma raiz semítica que significa “cana”, a mesma do hebraico qāneh. Uma cana reta servia de vara de medir, e daí o termo passou a significar “régua”, “norma” e também “lista” (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, verbete “Regra, padrão, medida”). No Novo Testamento, só Paulo a emprega, no sentido de norma de vida: “E todos os que andarem conforme esta regra, paz e misericórdia estejam sobre eles, e sobre o Israel de Deus” (Gálatas 6:16).
Nos primeiros séculos, a igreja falou da “regra de fé” (regula fidei), o resumo do ensino apostólico pelo qual se julgavam as doutrinas. Só no século IV a palavra passou a designar a lista dos livros reconhecidos como Escritura; Atanásio, em 367, chamou-os de “livros canonizados” (kanonizomena). O cânon das Escrituras é, portanto, a coleção dos livros que a igreja reconhece como inspirados por Deus e, por isso, como regra da fé e da vida; a canonicidade é a qualidade de pertencer a ela.
1.2 Sentido ativo e sentido passivo
Armínio fez uma distinção que orienta toda esta lição. As Escrituras, diz ele, são canônicas “em um sentido ativo, porque prescrevem um cânone ou uma regra, e não passivo, porque são reconhecidas como um cânone, ou porque são incluídas em um cânone”; e o são da mesma maneira como são divinas, “porque são dadas por Deus, e não porque são ‘recebidas pelos homens’” (Disputas públicas, I, 6). Um livro não se torna regra porque entrou numa lista; entrou na lista porque já era regra.
McGrath observa que a questão teologicamente relevante, hoje, está aí: a delimitação do cânon implica que a igreja tenha autoridade sobre as Escrituras, ou ela apenas reconheceu uma autoridade que os livros já possuíam? A primeira resposta atrai os teólogos católicos, e a segunda, os protestantes (Teologia sistemática, histórica e filosófica, cap. 6). Armínio deu à resposta protestante uma formulação precisa.
1.3 Deuterocanônicos, apócrifos e pseudepígrafos
Deuterocanônicos (“do segundo cânon”) é o nome que a teologia católica dá a sete livros do Antigo Testamento (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico ou Sirácida, Baruque, 1 e 2 Macabeus) e aos acréscimos gregos de Ester e de Daniel, que estão na tradução grega dos Setenta, mas não na Bíblia hebraica; os livros nunca contestados são os protocanônicos. Os protestantes chamam esses mesmos sete livros de apócrifos, do grego apokryphos, “oculto”, termo que Jerônimo lhes aplicou por volta de 390. Para os católicos, “apócrifos” são os livros que nenhuma igreja recebeu, como o Evangelho de Tomé, que os protestantes costumam chamar de pseudepígrafos, isto é, escritos atribuídos falsamente a uma personagem bíblica. Boa parte das discussões populares nasce dessa confusão de vocabulário.
Para o Novo Testamento, Eusébio de Cesareia deixou outra classificação: os livros “reconhecidos” (homologoumena); os “contestados” (antilegomena), aceitos pela maioria, mas discutidos por alguns, como Tiago, Judas, 2 Pedro e 2 e 3 João; os “espúrios”, como o Pastor de Hermas; e os heréticos, como os evangelhos de Pedro e de Tomé (História eclesiástica, III, 25).
2. A fundamentação bíblica
2.1 Uma coleção que começa no Antigo Testamento
A ideia de um conjunto de escritos com autoridade divina está dentro da própria Escritura. Quando Moisés terminou de escrever a lei, ordenou que o livro fosse guardado junto do objeto mais santo de Israel:
E quando acabou Moisés de escrever as palavras desta lei em um livro até concluir, Mandou Moisés aos levitas que levavam a arca do pacto do SENHOR, dizendo: Tomai este livro da lei, e ponde-o ao lado da arca do pacto do SENHOR vosso Deus, e esteja ali por testemunha contra ti.
Josué “escreveu estas palavras no livro da lei de Deus” (Josué 24:26), e a coleção cresceu com os profetas e os escritos que Israel reconheceu como palavra do Senhor. Paulo resume o privilégio de Israel numa frase: “em primeiro lugar, as palavras de Deus lhes foram confiadas” (Romanos 3:2). Wesley comenta que essas palavras são as Escrituras, “nas quais há tão grandes e preciosas promessas” (Notas explicativas sobre a Epístola aos Romanos, 3:2).
2.2 Jesus e a Bíblia hebraica
Depois da ressurreição, Jesus disse aos discípulos que era necessário que se cumprissem “todas as coisas que estão escritas sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas, e nos Salmos” (Lucas 24:44). A divisão corresponde à da Bíblia hebraica, que os judeus chamam Tanakh, sigla de Torá (Lei), Nevi’im (Profetas) e Ketuvim (Escritos), que se abrem com os Salmos. Muitos intérpretes veem a mesma moldura nas palavras sobre o sangue derramado “desde o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias” (Mateus 23:35): Abel morre em Gênesis, o primeiro livro da Bíblia hebraica, e Zacarias em 2 Crônicas 24:20-22, o último na ordem judaica, como quem diz “do começo ao fim da Escritura”.
O Novo Testamento cita o Antigo centenas de vezes, mas nunca introduz um dos livros que chamamos apócrifos com a fórmula “está escrito”. E citar um livro não o canoniza. Judas reproduz uma profecia de Enoque, “o sétimo depois de Adão” (Judas 1:14), tirada do Livro de Enoque, e Paulo cita poetas gregos (Atos 17:28). A citação mostra que o apóstolo considerou verdadeira a frase citada, e não que o livro inteiro seja inspirado.
2.3 O Novo Testamento em formação
Os escritos apostólicos foram recebidos como palavra de Deus desde o início. Paulo ordena “pelo Senhor que esta carta seja lida a todos os irmãos” (1 Tessalonicenses 5:27), manda que a carta aos colossenses “também seja lida na igreja dos laodicenses” (Colossenses 4:16) e afirma que “as coisas que escrevo são mandamento do Senhor” (1 Coríntios 14:37). A leitura pública no culto, ao lado da Lei e dos Profetas, é o berço do cânon do Novo Testamento.
Desde o início, também, foi preciso distinguir, pois já circulavam cartas falsamente atribuídas a Paulo, “como que escrita por nós” (2 Tessalonicenses 2:2). Pedro, por sua vez, põe as cartas de Paulo no mesmo plano das Escrituras de Israel:
E considerai como salvação a paciência de nosso Senhor; assim como também nosso irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; Como também em todas as suas cartas, ele fala nelas destas coisas; entre as quais há algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e os inconstantes distorcem, assim como também as outras Escrituras, para a própria perdição deles.
2.4 Cristo, os apóstolos e o fechamento do cânon
O fundamento do cânon do Novo Testamento é Cristo, a Palavra definitiva do Pai: “Deus falou antigamente muitas vezes, e de muitas maneiras, aos ancestrais pelos profetas. Mas nestes últimos dias falou a nós por meio do seu Filho” (Hebreus 1:1-2). O Filho prometeu aos apóstolos o Espírito, que “vos fará lembrar” o que ele dissera (João 14:26) e “vos guiará em toda verdade” (João 16:13), e a igreja foi edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Cristo Jesus é a pedra principal da esquina” (Efésios 2:20). Um fundamento se lança uma vez. Judas exorta a batalhar “pela fé que de uma vez foi entregue aos santos” (Judas 1:3), e o advérbio hapax, “de uma vez”, indica uma entrega completa e irrepetível.
Geerhardus Vos, teólogo reformado, descreve a relação entre Jesus e os apóstolos como a relação entre o fato e a sua interpretação: Cristo realiza a redenção, e os apóstolos, conduzidos pelo Espírito, a explicam; e “o cânon do Novo Testamento é edificado sobre isso” (Teologia bíblica). Por isso o cânon se fecha com a geração apostólica.
3. Desenvolvimento histórico
3.1 O cânon do Antigo Testamento
No tempo de Jesus, o conteúdo da Bíblia hebraica estava substancialmente definido, embora alguns rabinos ainda discutissem Ezequiel, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes e Ester. No fim do século I, Flávio Josefo contou vinte e dois livros, que correspondem aos nossos trinta e nove agrupados de outro modo, e acrescentou que os escritos posteriores ao rei Artaxerxes não tinham a mesma autoridade, porque já não havia uma sucessão exata de profetas (Contra Apião, I, 8).
Durante muito tempo se ensinou que um concílio judaico em Jâmnia, por volta do ano 90, teria fechado o cânon hebraico. O Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento observa que a hipótese, embora pressuposta de modo generalizado, não tem evidências que a confirmem: os mestres de Jâmnia discutiram alguns livros, mas não criaram um cânon que já existia. No século II, o bispo Melitão de Sardes ainda procurou saber na Palestina quais eram os livros da Bíblia hebraica, “porque era tido certo que esta era a norma para a igreja” (verbete “Regra”). Entre os judeus de língua grega circulava a Septuaginta, que reunia outros escritos do período entre os Testamentos; foi a Bíblia que os cristãos de fala grega mais leram, e daí vem a diferença que ainda separa as Bíblias protestantes das católicas e ortodoxas.
3.2 O cânon do Novo Testamento
Três pressões levaram a igreja do século II a precisar quais livros pertenciam ao Novo Testamento: Marcião, excomungado em Roma por volta de 144, que reduziu a Escritura cristã a uma versão mutilada de Lucas e a dez cartas de Paulo; os evangelhos e atos apócrifos, muitos de inspiração gnóstica, que reivindicavam ensinos secretos; e o montanismo, com as suas “novas profecias”. A igreja respondeu tornando explícito o que já lia. Ireneu de Lião, por volta de 180, defendia que os evangelhos são quatro, nem mais nem menos (Contra as heresias, III, 11, 8), e o Fragmento muratoriano, que a maioria data do fim do século II, enumera quase todos os nossos livros e recusa a leitura pública do Pastor de Hermas, por ser obra recente.
No fim do século II, os Evangelhos, Atos e as cartas de Paulo eram reconhecidos em toda parte; as dúvidas recaíam sobre Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Em 367, a carta pascal de Atanásio, bispo de Alexandria, apresentou a primeira lista que coincide exatamente com os nossos vinte e sete livros e advertiu que ninguém lhes acrescentasse nem lhes tirasse coisa alguma (Carta festal 39). No Ocidente, os sínodos de Hipona (393) e de Cartago (397) confirmaram a mesma lista. Eram, porém, assembleias regionais, e nenhum concílio ecumênico antigo promulgou uma lista. O dicionário conclui que “seria errado dizer que a igreja nos deu o cânon da Escritura”, pois era questão de reconhecer “através de quais livros o Espírito estava falando”.
3.3 Os livros discutidos do Antigo Testamento
Sobre os livros da Septuaginta nunca houve consenso. Atanásio, na mesma carta de 367, separou dos livros canônicos os que os Pais mandaram ler aos catecúmenos, como Sabedoria, Siraque, Judite e Tobias. Jerônimo, que aprendeu hebraico em Belém para traduzir a Vulgata, escreveu que a igreja os lê “para edificação do povo, não para confirmar a autoridade das doutrinas eclesiásticas” (prefácio aos livros de Salomão). Agostinho, porém, incluiu-os na sua lista (A doutrina cristã, II, 8), e foi a posição dele que prevaleceu no uso da igreja latina. A dúvida atravessou a Idade Média: Gregório Magno tratou Macabeus como livro não canônico, publicado para edificação, e, às vésperas da Reforma, o cardeal Caetano repetia Jerônimo.
3.4 A Reforma, Trento e as confissões
Lutero, na Bíblia alemã de 1534, reuniu os apócrifos numa seção entre os Testamentos, como livros que não se igualam à Sagrada Escritura, mas são úteis e bons de ler (ver A Bíblia na língua do povo: Lutero e a revolução da Palavra). Mais delicado foi o modo como tratou o Novo Testamento: em 1522 chamou Tiago de “epístola de palha”, comparada com João, Romanos e 1 Pedro, e a pôs no fim do volume com Hebreus, Judas e Apocalipse, porque o seu critério era “o que promove Cristo”. O critério tem um núcleo verdadeiro, pois Cristo é o centro da Escritura; mas, convertido em régua para decidir quais livros são Escritura, faz do leitor juiz do cânon.
A resposta de Roma veio na quarta sessão do Concílio de Trento, em 8 de abril de 1546, que listou os livros incluindo os deuterocanônicos e declarou anátema quem não os recebesse “como sagrados e canônicos” (ver Concílio de Trento: a resposta de Roma à Reforma Protestante). Os ortodoxos conservaram a coleção mais ampla da Septuaginta, que chamam de “livros que se leem” (anagignoskomena), e a Igreja Etíope tem a coleção mais extensa da cristandade, com Enoque e Jubileus.
As confissões protestantes fixaram o cânon hebraico. A Confissão Belga (1561), confissão da igreja em que Armínio foi ministro e professor, recebe os livros canônicos “não tanto porque a igreja os recebe e aprova”, mas porque o Espírito Santo testemunha no coração que vêm de Deus e porque eles trazem em si mesmos a prova disso (art. 5); os apócrifos podem ser lidos no que concordam com os canônicos, mas não têm força para confirmar artigo de fé (art. 6). Os Trinta e Nove Artigos anglicanos dizem que a igreja lê os outros livros, “como diz Jerônimo”, para exemplo de vida e instrução de costumes, mas não os aplica para estabelecer doutrina (art. VI).
3.5 Armínio, Wesley e os sistemáticos wesleyanos
Armínio pertence, nesse ponto, à corrente reformada sem reservas. Nas Disputas privadas enumera os livros do Antigo Testamento segundo o cânon hebraico, com uma precisão que revela o conhecimento do texto: de Ester, conta apenas “os dez primeiros capítulos”, isto é, o livro hebraico sem os acréscimos gregos. Lista em seguida os vinte e sete livros do Novo Testamento e reconhece que, a respeito de alguns, “houve algumas dúvidas ocasionais”; “entretanto”, conclui, “é bastante suficiente o número daqueles a respeito dos quais jamais houve qualquer dúvida” (Disputas privadas, V, 6). Nenhuma doutrina necessária à salvação depende de um livro antigamente contestado.
Quanto à autoridade, as Escrituras “não requerem autoridade humana para que sejam recebidas no cânone” (Disputas privadas, VI, 9), e toda a atividade da igreja de aprovar, pregar e distinguir os livros sagrados dos adulterados “é apenas um atestado” pelo qual ela declara que os reconhece como divinos (Disputas públicas, I, 4). A igreja antiga recebeu os escritos de Isaías e de Jeremias, de Paulo e de Pedro, tão logo se demonstrou a sua origem divina, e não lhes deu origem (I, 5). Para reconhecer as Escrituras, Armínio junta os sinais externos, os argumentos internos da própria Escritura e o testemunho do Espírito, e deixa o testemunho da igreja como prova secundária.
Wesley herdou a questão pela via anglicana e lhe deu forma mais estrita. Ao preparar, em 1784, os Artigos de Religião para os metodistas americanos, conservou no artigo V a lista dos livros do Antigo Testamento e a declaração de que todos os livros do Novo, “como são comumente recebidos”, são canônicos; mas suprimiu o parágrafo anglicano sobre os livros que a igreja lê para exemplo de vida, e os apócrifos desapareceram do padrão doutrinário metodista. Don Thorsen resume: para Wesley, o Espírito Santo inspirou a redação, a canonização e a transmissão da Bíblia (Calvin vs. Wesley, cap. 1).
Wesley também não selecionou o cânon conforme o seu gosto: comentou nas Notas todos os livros do Novo Testamento e datou Hebreus, Tiago, 2 Pedro, Judas e Apocalipse como escritos apostólicos (Notas explicativas sobre a Epístola aos Romanos, introdução). Diante de Tiago, recusou o caminho de Lutero: Randy Maddox observa que Wesley procurava preservar a ligação entre a fé e as obras presente no “diálogo canônico entre Tiago e Paulo” e se recusava a jogar um contra o outro, porque a fé que Paulo afirma é a que produz o amor, e a fé que Tiago condena é a que não o produz (Responsible Grace, cap. 7). Para Wesley, a regra era o cânon inteiro, lido segundo o seu “teor geral”, e não uma Bíblia dentro da Bíblia. Watson, Pope e Wiley trataram o cânon dentro das evidências da autoridade divina da Escritura e confessaram os sessenta e seis livros.
3.6 O cânon no Brasil
A tradução de Almeida chegou aos nossos avós com o cânon hebraico, e as Bíblias católicas do país trazem os setenta e três livros de Trento. Para muitos evangélicos brasileiros, a primeira lição sobre o cânon acontece na casa de um vizinho católico, quando alguém abre a Bíblia dele e encontra Tobias entre Neemias e Ester. A. B. Langston explicava aos batistas que os livros estão na Bíblia “devido à providência de Deus” e “pelo valor intrínseco de cada um”, e que aos apócrifos falta “o valor intrínseco que caracteriza os demais” (Esboço de teologia sistemática, cap. 8). Walter Brunelli adverte os pentecostais contra quem atribui às suas interpretações “o mesmo nível de canonicidade da Bíblia” (Teologia para pentecostais, vol. 2).
4. Os critérios de canonicidade
Os critérios pelos quais a igreja antiga reconheceu os livros canônicos podem ser reunidos em quatro.
Em primeiro lugar, a origem profética ou apostólica: no Antigo Testamento, se o livro provinha de um profeta ou da época da profecia; no Novo, se procedia de um apóstolo ou tinha, como Marcos e Lucas, “algum tipo de apoio apostólico” (Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, verbete “Regra”). Em segundo lugar, a ortodoxia, isto é, a concordância com a regra de fé e com os livros já reconhecidos, porque um evangelho que negasse a encarnação não podia vir do Espírito que inspirou os profetas: “provai se os espíritos são da parte de Deus” (1 João 4:1). Em terceiro lugar, a catolicidade e o uso: o livro devia ser recebido amplamente e lido no culto desde a antiguidade, e não apenas num grupo ou numa região. Em quarto lugar, a autoridade intrínseca: nos próprios livros, diz o dicionário, “a igreja escutava a Deus falando”. Armínio fala dos argumentos “enxertados na própria palavra”, como o assunto, o estilo, a concordância entre as partes e a eficácia (Disputas privadas, VI, 5).
Esses critérios não são a causa da canonicidade, e sim os sinais pelos quais ela foi reconhecida. Um livro é canônico porque Deus o inspirou; a apostolicidade, a ortodoxia, o uso e a autoridade intrínseca são os vestígios dessa inspiração na história. Neste sentido, os critérios servem à fé sem substituí-la, como a mãe que reconhece a voz do filho sem precisar de um laudo técnico.
5. Os apócrifos
5.1 Que livros são
São Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque (com a Carta de Jeremias), 1 e 2 Macabeus e os acréscimos gregos a Ester e a Daniel (a Oração de Azarias com o Cântico dos três jovens, Susana e Bel e o dragão). As Bíblias ortodoxas acrescentam outros, como 1 Esdras, 3 Macabeus e a Oração de Manassés. Sobre um deles, ver Livro de Tobias: anjos, demônios e os livros apócrifos.
5.2 Por que não os recebemos como Escritura
Em primeiro lugar, porque não pertencem às Escrituras confiadas a Israel (Romanos 3:2), que Jesus resumiu como a Lei, os Profetas e os Salmos, e o Novo Testamento nunca os cita como Escritura. Em segundo lugar, porque não reivindicam inspiração profética: Primeiro Macabeus reconhece que não havia profeta em Israel (1 Macabeus 4:46; 9:27), e o autor de Segundo Macabeus termina dizendo ao leitor que, se o relato ficou bem escrito, era o que desejava, e, se ficou medíocre, foi o que conseguiu fazer (2 Macabeus 15:38-39). Em terceiro lugar, porque a igreja antiga nunca chegou a um consenso sobre eles, e vozes do peso de Atanásio e de Jerônimo os distinguiram dos canônicos.
Em quarto lugar, porque há neles ensinos que não se harmonizam com o restante da Escritura. Segundo Macabeus louva Judas Macabeu por oferecer um sacrifício pelos soldados mortos, para que fossem libertados do pecado (2 Macabeus 12:43-45), e o texto se tornou o principal apoio bíblico das orações pelos mortos e do purgatório; para McGrath, foi praticamente a única questão teológica de peso nesse debate do século XVI (cap. 6). Tobias afirma que a esmola livra da morte e purifica de todo pecado (Tobias 12:9). Uma teologia que confessa que a obra da salvação é de Deus, do começo ao fim, e que somos “justificados gratuitamente pela sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3:24), não pode receber como regra de fé um livro que atribui à esmola o poder de purificar o pecado. A esmola é fruto da fé que opera pelo amor, e não causa do perdão.
5.3 Como lê-los
Recusar a canonicidade não é desprezar os livros. Eles são testemunhas da fé de Israel no período entre os Testamentos e explicam pormenores do Novo Testamento, como “a festa da renovação do Templo em Jerusalém” que Jesus frequentou no inverno (João 10:22), instituída quando os macabeus purificaram o templo. A orientação de Jerônimo, que os Trinta e Nove Artigos repetiram, continua sensata: podem ser lidos para instrução e edificação, desde que nenhum artigo de fé se apoie neles.
6. A posição arminiana clássica e wesleyana
6.1 Em suma
A tradição arminiana e wesleyana confessa, com toda a Reforma, que o cânon é formado pelos trinta e nove livros do Antigo Testamento, segundo a Bíblia hebraica, e pelos vinte e sete do Novo; que esses livros são canônicos porque Deus os inspirou, e não porque a igreja os aprovou; que a igreja os reconheceu, pela providência de Deus e pela ação do Espírito, num processo histórico real e documentado; e que o cânon está fechado, porque o fundamento dos apóstolos e dos profetas foi lançado uma vez.
6.2 Um traço arminiano
O modo como a igreja recebeu o cânon se parece com o modo como, segundo a nossa tradição, o pecador recebe a salvação. Armínio comparava a fé à mão do mendigo que se estende para receber o presente: aceitar não acrescenta mérito. A igreja também estendeu a mão e recebeu os livros que Deus lhe dava, e a sua aprovação “é apenas um atestado”, e não uma contribuição à autoridade deles. A voz do Espírito na Escritura também pôde ser recusada, como mostra Marcião, e é recusada sempre que se põe uma nova revelação ao lado do texto. Deus guiou a igreja sem anular os homens de que se serviu, e os homens reconheceram sem criar.
6.3 Comparação com outras tradições
Com a tradição católica partilhamos o Novo Testamento inteiro e a inspiração da Escritura; divergimos quanto aos deuterocanônicos e, sobretudo, quanto ao fundamento do cânon, pois o Vaticano II ensina que é por meio da Tradição que a igreja conhece “o cânon inteiro dos livros sagrados” (Dei Verbum, 8), enquanto nós cremos, com Armínio, que a autoridade dos livros não depende da tradição que os reconheceu. Com a tradição ortodoxa partilhamos a herança dos Pais, mas não a coleção ampliada. Com a tradição reformada concordamos plenamente quanto à extensão do cânon e ao testemunho do Espírito; Armínio e a Confissão Belga falam aqui a mesma língua. Com a tradição luterana partilhamos o cânon, mas não o critério de Lutero, que julgava os livros pelo quanto promovem Cristo. Com a tradição pentecostal partilhamos o cânon protestante e a convicção de que nenhuma profecia atual se iguala à Escritura. Da literatura popular sobre os “evangelhos perdidos”, que apresenta o cânon como escolha política do século IV, divergimos frontalmente: os Evangelhos e as cartas de Paulo eram lidos como Escritura em toda a igreja mais de um século antes de Constantino.
7. Implicações para a fé, a igreja e a vida
Em primeiro lugar, somos chamados à segurança. A Bíblia que temos nas mãos não é fruto do acaso nem de uma conspiração de bispos, mas de uma história longa e documentada, em que Deus guardou a sua palavra pelas mãos do seu povo.
Em segundo lugar, somos chamados ao respeito. A divergência com católicos e ortodoxos é real e tem consequências doutrinárias, mas não justifica a caricatura; conhecer a história nos permite conversar com o vizinho católico sem dizer que a Bíblia dele é falsa e sem fingir que a diferença não importa.
Em terceiro lugar, somos chamados ao discernimento. Se o cânon está fechado, nenhum sonho, nenhuma visão e nenhum “evangelho” descoberto num documentário pode ser imposto à consciência cristã como palavra de Deus.
Por fim, somos chamados a ler o cânon inteiro. Muitos de nós temos, sem perceber, um cânon dentro do cânon: os Salmos e os Evangelhos muito sublinhados, Levítico e os profetas menores com as páginas ainda grudadas. Se Deus nos deu sessenta e seis livros, foi para que os lêssemos todos, e o teor geral da Escritura só se percebe por quem a conhece por inteiro.
Voltemos à mãe que atende o telefone. Ela reconhece a voz do filho porque passou a vida inteira ouvindo essa voz. A igreja reconheceu os livros sagrados porque já vivia da palavra dos profetas e dos apóstolos, e nós só aprenderemos a distinguir a voz do Pastor das outras vozes se a ouvirmos todos os dias. Que o Senhor nos conceda ouvidos atentos à sua palavra e a humildade de nos deixarmos corrigir por ela, para que, ouvindo a sua voz, o sigamos.
Síntese
- O cânon é a coleção dos livros que a igreja reconhece como inspirados e, por isso, como regra de fé e de vida; os livros são canônicos em sentido ativo, porque prescrevem a regra, e não porque foram incluídos numa lista.
- A própria Escritura conhece uma coleção de escritos com autoridade divina, do livro da lei ao lado da arca às cartas de Paulo.
- O cânon do Antigo Testamento é o da Bíblia hebraica, confiada a Israel e confirmada por Jesus; o do Novo Testamento é o testemunho apostólico sobre Cristo, reconhecido em toda a igreja e fechado com a geração dos apóstolos.
- A origem apostólica, a ortodoxia, o uso universal e a autoridade intrínseca são sinais pelos quais a igreja reconheceu os livros, e não a causa da sua canonicidade, que é a inspiração divina.
- Os apócrifos não pertencem ao cânon porque não estavam na Bíblia de Israel, não reivindicam inspiração profética, não tiveram consenso na igreja antiga e contêm ensinos contrários à salvação pela graça; podem, porém, ser lidos para instrução.
- A posição arminiana e wesleyana, com Armínio, a Confissão Belga e o artigo V dos Artigos de Religião, confessa os sessenta e seis livros e entende a obra da igreja como reconhecimento que recebe, e não como autoridade que confere.
Questões para revisão
- Qual é a origem da palavra “cânon”, e como o seu sentido passou de “régua” a “lista de livros”?
- O que Armínio quer dizer ao afirmar que as Escrituras são canônicas em sentido ativo, e não passivo?
- Qual é a diferença entre deuterocanônicos, apócrifos e pseudepígrafos, conforme a tradição de quem usa os termos?
- Quais pressões levaram a igreja do século II a precisar o cânon do Novo Testamento, e qual foi o papel da carta de Atanásio de 367?
- Quais são os critérios de canonicidade, e por que eles não são a causa da canonicidade de um livro?
- Por que a tradição protestante não recebe os apócrifos como Escritura, e como recomenda que sejam lidos?
- O que Wesley mudou no artigo anglicano sobre a Escritura, e como a sua leitura de Tiago se distingue da de Lutero?
Bibliografia
- ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
- ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Carta festal 39 (367).
- BROWN, Colin; COENEN, Lothar (orgs.). Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000.
- BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Rio de Janeiro: Central Gospel.
- Confissão Belga (1561); Confissão de Westminster (1647); Trinta e Nove Artigos (1571).
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Esta lição integra o Curso de Teologia Sistemática Arminiana. Anterior: Lição 12: A doutrina da Escritura: inspiração e autoridade. Próxima: Lição 14: A interpretação da Escritura.
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