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História

Livro de Tobias: anjos, demônios e os livros apócrifos

A História de Tobias e o Enigma dos Livros Apócrifos

Diego Gonçalves3 min de leitura568 palavras

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Imagine a situação de um homem justo que passou a vida inteira praticando o bem, ajudando os necessitados e arriscando o próprio pescoço para enterrar com dignidade seus compatriotas executados pela tirania imperial. E qual é a recompensa imediata que ele recebe? O confisco dos seus bens, a miséria e, para completar a desgraça, uma cegueira inesperada provocada por dejetos de pássaros enquanto dormia encostado num muro. Para piorar, a própria esposa o acusa de tolice, perguntando de que adiantou tanta religiosidade.

Esse é o ponto de partida de uma das narrativas mais fascinantes da literatura judaica do período do Segundo Templo: o Livro de Tobias.

A história se passa em Nínive, capital do Império Assírio, após a deportação das dez tribos do reino do norte de Israel. No centro do drama está Tobit, um israelita piedoso da tribo de Naftali que se recusa a adotar os costumes pagãos dos captores. Ao mesmo tempo, a centenas de quilômetros dali, na cidade de Ecbátana, uma jovem chamada Sara vive o seu próprio calvário: casou-se sete vezes e viu cada um dos noivos ser assassinado na noite de núpcias por um demônio ciumento chamado Asmodeus. Esmagados pela dor e pela vergonha pública, Tobit e Sara se fecham em seus quartos no mesmo dia e clamam a Deus pedindo a morte.

A resposta divina a esses dois gritos desesperados é o fio condutor de toda a trama. Deus envia o anjo Rafael, disfarçado como um viajante comum de nome Azarias, para guiar Tobias, o filho jovem de Tobit, numa longa jornada até a Média. No caminho, com a ajuda de partes medicinais de um peixe pescado no rio Tigre, o anjo orienta o rapaz a libertar Sara do demônio, celebrar o casamento e retornar a Nínive para curar os olhos do pai idoso com o fel do animal. A história termina em festa, reconciliação e na revelação da verdadeira identidade do anjo Rafael, que sobe aos céus após cumprir sua missão.

Esse livro ocupa um lugar peculiar e controverso nas Bíblias que circulam pelo mundo. Para a tradição católica romana e para os ortodoxos, Tobias é considerado parte do cânon das Escrituras (chamado de livro deuterocanônico), com base na versão grega da Septuaginta adotada por concílios antigos como o de Hipona, em 393, e o de Cartago, em 397. Para a tradição protestante, no entanto, Tobias é classificado como apócrifo. Reformadores como Martinho Lutero e as confissões reformadas reconheceram o livro como uma leitura histórica e edificante para a conduta moral, mas sem autoridade normativa para fundamentar doutrinas de fé.

As razões para a cautela protestante são claras. Além de não constar no cânon hebraico tradicional estabelecido pelos judeus, Tobias contém elementos que soam estranhos à sobriedade dos milagres bíblicos, como o uso de fumaça de órgãos de peixe para afugentar espíritos malignos, aproximando-se de costumes populares do folclore antigo. Além disso, certas declarações do texto, como a afirmação de que a esmola por si mesma limpa pecados e livra da morte, entram em conflito com o princípio apostólico da justificação pela fé somente.

Mesmo com as divergências históricas sobre a sua canonicidade, o livro preserva uma mensagem poderosa sobre a providência de Deus. Ele mostra que o Senhor ouve o clamor dos abatidos quando tudo parece perdido e nos ensina que a solidariedade, a honra aos pais e o cuidado com os sofredores continuam sendo virtudes fundamentais em qualquer época.