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HistóriaLevítico

O que Pompeu encontrou atrás do véu do Templo?

Pompeu no Santo dos Santos em 63 a.C., segundo Josefo, Cícero e Tácito, e o véu rasgado na morte de Jesus

Diego Gonçalvesatualizado 10 min de leitura2.036 palavras

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No terceiro mês de cerco, em 63 antes de Cristo, um general romano entrou no Santo dos Santos do Templo de Jerusalém, onde só um homem podia entrar, um dia por ano. Por que isso feriu os judeus mais do que a derrota? O general era Pompeu, o Grande. Um sacerdote judeu e um senador romano deixaram esse dia por escrito, e não concordam sobre o que ele significou. Um poeta judeu daqueles anos, falando com Deus sobre o invasor, escreveu: “tu não o impediste”.

Naquele ano, Pompeu, que tinha vencido o rei Mitrídates, redesenhava o Oriente com as legiões de Roma. Jerusalém era governada pelos hasmoneus, sacerdotes que também se chamavam reis e que tinham conquistado a independência dos judeus uns oitenta anos antes.

O Templo e o véu

No alto do monte, atrás do grande altar de pedras onde ardiam os sacrifícios, ficava a casa do santuário, com duas salas. Na primeira, os sacerdotes entravam todos os dias para cuidar das lâmpadas do candelabro de ouro e queimar o incenso. A segunda ficava atrás de uma cortina pesada, o véu, e era o Santo dos Santos. Em Levítico 16:2, Deus diz a Moisés quem podia passar daquele véu:

“E o SENHOR disse a Moisés: Dize a Arão teu irmão, que não em todo tempo entre no santuário do véu dentro, diante do propiciatório que está sobre a arca, para que não morra: porque eu aparecerei na nuvem sobre o propiciatório.”

(Levítico 16:2, Bíblia Livre)

Repare nos três limites dessa regra:

  • Podia entrar só Arão, isto é, o sumo sacerdote, e o mesmo capítulo proíbe qualquer outro homem no santuário enquanto ele estiver lá dentro.
  • Só num dia do ano, o Dia da Expiação.
  • E nunca sem sangue, porque Levítico ensina que a vida está no sangue (Levítico 17:11), e ninguém se apresentava diante de Deus sem uma vida entregue no lugar do culpado.

Pompeu não era sumo sacerdote nem trazia sacrifício nenhum.

No tempo de Pompeu, a arca da aliança já não estava lá. Desde que os babilônios destruíram o primeiro Templo, mais de cinco séculos antes, ninguém sabia dela, e a sala ficou vazia. Mesmo assim, continuava guardada como o lugar onde Deus tinha prometido aparecer, e um sacerdote podia servir a vida inteira sem nunca ver o que havia atrás daquele pano.

O cerco de Jerusalém

Quem conta o cerco é Flávio Josefo, um sacerdote judeu que nasceu cerca de cem anos depois e se apoiou em autores mais antigos. Lutou contra Roma na grande revolta, foi capturado e passou o resto da vida escrevendo em Roma, sob a proteção dos imperadores. Ele narra aquele ano duas vezes: na Guerra Judaica e, com mais detalhes, no livro 14 das Antiguidades Judaicas.

Josefo conta que a desgraça começou dentro de casa. Dois irmãos, Hircano e Aristóbulo, disputavam a coroa e o sumo sacerdócio, e os dois foram pedir a Pompeu que decidisse a briga. Em Damasco, o general recebeu uma terceira delegação, que falava pelo povo e não queria rei nenhum, porque era costume dos pais obedecer só aos sacerdotes do seu Deus.

Quando Pompeu marchou sobre Jerusalém, a cidade se partiu ao meio. Os partidários de Hircano abriram as portas aos romanos. Os de Aristóbulo se fecharam no monte do Templo e cortaram a ponte que o ligava à cidade. A partir daí, metade dos judeus estava do lado de fora, ajudando a cercar o santuário. Os romanos encheram o fosso e ergueram um aterro contra os muros, e Josefo explica por que a obra avançou tão depressa. A Lei permitia aos judeus defender-se de quem os atacava, mas não atacar quem estava fazendo outra coisa, e por isso, nos sábados, os romanos não lutavam: trabalhavam no aterro e nas torres sem ser incomodados.

Durante o cerco inteiro, os sacerdotes continuaram oferecendo os sacrifícios, de manhã e às três da tarde, como se a cidade estivesse em paz. Quando uma das grandes torres caiu e os soldados invadiram os pátios, eles estavam no altar, e Josefo escreve que eram degolados enquanto derramavam as ofertas e queimavam o incenso. Ele registra cerca de doze mil judeus mortos na tomada do monte, muitos deles pelas mãos de outros judeus.

O que havia atrás do véu

Então Pompeu subiu ao santuário. Josefo escreve que ele entrou, e com ele não poucos dos seus, e viram o que não era permitido a nenhum outro homem ver, senão aos sumos sacerdotes. Na primeira sala estavam a mesa de ouro, o candelabro, as taças e muitas especiarias, e nos cofres havia dois mil talentos de dinheiro consagrado, uma fortuna em prata. Atrás do véu, não havia nada.

O que surpreende é que Pompeu não tocou em coisa alguma, e no dia seguinte mandou que os servidores purificassem o Templo e retomassem os sacrifícios. Josefo diz que foi reverência.

Cícero, o grande orador de Roma, dá outro motivo quatro anos depois, no discurso Em defesa de Flaco, em que defendia um governador acusado de confiscar o ouro que os judeus da Ásia mandavam ao Templo. Ele confirma que Pompeu não tocou em nada daquele santuário, mas diz que não foi piedade, foi senso de honra, para não dar assunto aos detratores. E acrescenta, com desprezo, que aquele povo tinha mostrado quanto era caro aos deuses, porque foi vencido e feito escravo.

Por que doeu tanto

Você pode estar pensando que, se ele não roubou nada e ainda mandou restaurar o culto, o choque foi exagerado. Josefo responde na Guerra Judaica. De todas as desgraças daquele tempo, escreve ele, nada feriu tanto a nação quanto ver o santo, até então invisível, desvelado por estrangeiros. A cidade foi tomada e a independência acabou, mas o que mais doeu foi um olhar.

E um romano, como contou esse mesmo dia? No começo do século segundo, em Roma, o senador Tácito escreveu as Histórias. No livro 5, antes de narrar a guerra que destruiu Jerusalém, ele resume quem eram os judeus, e não esconde o desprezo, porque nas mesmas páginas chama o costume judaico de absurdo e sórdido. É com esse olhar que ele conta a entrada de Pompeu: “O primeiro romano a subjugar os judeus foi Cneu Pompeu, que entrou no templo pelo direito da vitória. Daí se espalhou que lá dentro não havia imagem de deuses: a sede vazia, os mistérios vazios.”

Os dois relatos se completam no fato. Josefo descreve a primeira sala, com o ouro; Tácito, a segunda, vazia. Mas se afastam no sentido: Josefo enxerga um lugar santo violado e um general que ao menos respeitou o que viu, e Tácito enxerga um quarto vazio, onde para ele não havia nada a respeitar.

“Então o romano tinha razão”, alguém poderia dizer: os judeus sofreram por uma sala sem nada. É a melhor forma da objeção, e a resposta está no próprio Tácito. No mesmo livro, ele registra que os judeus concebem um só deus, só com a mente, supremo e eterno, que não se pode representar. O Deus de Israel tinha proibido que fizessem imagem dele e tinha prometido aparecer na nuvem, sobre a arca. O vazio de que Tácito zomba era justamente o que Israel confessava: Deus não cabe numa estátua nem fica à disposição de quem tem a chave. Roma ficou com a cidade, e a sala continuou sem nada que um soldado pudesse levar.

O que o salmista viu

Nas décadas seguintes, em Jerusalém, judeus piedosos escreveram uma coleção de dezoito cânticos que chegou até nós em grego e em siríaco, com o nome de Salmos de Salomão, embora Salomão não seja o autor. Esses cânticos não fazem parte da Bíblia, mas são testemunhas daquele tempo, e o segundo deles começa assim: “Quando o pecador se ensoberbeceu, com o aríete derrubou muros fortificados, e tu não o impediste. Subiram ao teu altar nações estrangeiras, pisaram-no com as suas sandálias, com soberba.” Logo em seguida, o poeta dá a razão: os filhos de Jerusalém tinham contaminado as coisas santas do Senhor. Para ele, a invasão foi ao mesmo tempo soberba de um estrangeiro e disciplina sobre o próprio povo, e em outro salmo ele lembra que foram os príncipes da cidade que abriram as portas ao invasor. Mais adiante, o mesmo poeta vê o dragão orgulhoso traspassado sobre os montes do Egito, com o corpo levado pelas ondas e sem ninguém que o sepultasse.

Quinze anos depois de entrar no Templo, Pompeu foi derrotado por Júlio César, fugiu para o Egito e foi morto no barco, no momento de desembarcar; cortaram-lhe a cabeça e atiraram o corpo na praia. Por isso a maioria dos estudiosos lê o dragão como Pompeu, mas é interpretação, porque o salmo não escreve o nome dele. A Escritura não diz em lugar nenhum que Pompeu foi o juízo de Deus, e nós não temos o direito de transformar a confissão do salmista em fato demonstrado. Mas ela nos ensina a ler um dia assim. O profeta Habacuque perguntou como Deus podia usar os babilônios contra Judá, e a resposta foi que Deus os usaria e depois os julgaria pela própria arrogância deles. O sacrilégio continua sendo culpa de quem o comete, e a disciplina continua sendo um chamado ao povo que deixou de guardar o que era santo.

O véu que ninguém puxou

Os sacrifícios voltaram no dia seguinte, e por mais de um século o sumo sacerdote continuou atravessando o véu um dia por ano. Numa tarde de Páscoa em Jerusalém, uns noventa anos depois de Pompeu, por volta das três horas, a mesma hora do sacrifício da tarde, um homem crucificado fora dos muros deu um grito e morreu. Marcos registra, no capítulo 15, versículos 37 e 38: “Mas Jesus, dando um grande grito, expirou. E o véu do santuário foi rasgado em dois, de cima até embaixo.”

Ninguém puxou aquele véu. A carta aos Hebreus explica o que isso significa com a mesma regra de Levítico. Em Hebreus 9:7, ela lembra que na segunda sala só o sumo sacerdote entrava, uma vez por ano, e não sem sangue. E logo depois diz que Cristo, pelo seu próprio sangue, entrou uma vez por todas, não num santuário feito por mãos humanas, mas no próprio céu, para se apresentar diante de Deus por nós. E em Hebreus 10:19-20 lemos:

“Portanto, irmãos, já que temos a confiança de entrar no Santuário pelo sangue de Jesus, pelo caminho novo e vivo que ele consagrou para nós através do véu, isto é, pela sua carne.”

(Hebreus 10:19-20, Bíblia Livre)

Séculos depois, Agostinho escreveu em A Cidade de Deus que Pompeu chegou ao Santo dos Santos não como adorador, mas como profanador. Pompeu entrou pelo direito da vitória, passando por cima dos sacerdotes mortos no altar, e saiu sem encontrar Deus, porque a presença do Senhor não se arromba. Jesus entrou pelo próprio sangue, morrendo pelos pecados do povo, e abriu o caminho que nenhum exército conseguiria forçar. O reformador João Calvino, comentando Hebreus, resumiu assim: ninguém pode achar Deus, a não ser aquele para quem o homem Cristo se torna a porta e o caminho.

Volte àquela sala de 63 antes de Cristo, com um general estrangeiro diante do véu. Os judeus sofreram porque um homem que não era sumo sacerdote, que não trazia sacrifício nenhum e que só tinha o direito da vitória forçou a única porta que o próprio Deus regulou. E a Escritura mostra que essa porta só se abriria de outro jeito: pelo sangue do verdadeiro sumo sacerdote, que entrou por nós, uma vez por todas.

Dois anos antes de Pompeu, nesse mesmo monte, judeus cercaram judeus, e um homem justo chamado Onias foi apedrejado por se recusar a amaldiçoar os sitiados.

Publicado em 16 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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