
Uma pedra no Templo barrava o estrangeiro. O que ela dizia?
A inscrição que ameaçava de morte o estrangeiro no Templo, a prisão de Paulo e o muro derrubado em Efésios 2
Por volta do ano 57, uma multidão arrastou um homem para fora do Templo de Jerusalém, gritando que ele levara gregos para dentro. Numa balaustrada de pedra, placas ameaçavam de morte o estrangeiro que a passasse. Quem podia entrar na casa de Deus?
O homem arrastado era o apóstolo Paulo, e uma carta que leva o nome dele fala de um muro derrubado.
A pedra da balaustrada
Uma dessas placas foi achada em 1871 por um jovem arqueólogo francês chamado Charles Clermont-Ganneau; hoje ela está em Istambul. O texto diz: “Nenhum estrangeiro entre dentro da balaustrada e do recinto em volta do santuário. Quem for apanhado será, ele mesmo, culpado da morte que se seguirá.” A palavra da pedra para estrangeiro é allogenés, “de outra raça”. É a mesma que Jesus usa no Evangelho de Lucas para o leproso samaritano que voltou para agradecer: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?”
O historiador judeu Flávio Josefo, que conheceu o Templo antes de ele cair, descreve as fronteiras na Guerra Judaica e no Contra Ápion. No pátio de fora, podiam entrar todos, até os estrangeiros. Depois vinha a barreira das placas, o pátio das mulheres, o dos homens de Israel, o dos sacerdotes e, no fundo, o Santo dos Santos. O Templo era feito de fronteiras, e a primeira delas separava Israel das nações.
No episódio sobre o templo que João Hircano destruiu, vimos Jesus dizer a uma samaritana que vinha a hora em que nem no monte dela nem em Jerusalém se adoraria o Pai. Aquela conversa tratava do lugar. A pedra trata das pessoas: não diz onde adorar, diz quem deve parar. E a Bíblia fala do estrangeiro que chega à porta desde a dedicação do primeiro Templo até a última página.
O estrangeiro e a casa de oração
Ao dedicar o primeiro Templo, Salomão pediu também por alguém que não era de Israel. Está em 1 Reis 8: “E também o estrangeiro, que não é do teu povo Israel e vier de uma terra distante por causa do teu nome”. E, se ele orasse voltado para aquela casa, o rei pedia: “ouve tu nos céus, lugar da tua habitação, e faze conforme tudo o que o estrangeiro clamar a ti, para que todos os povos da terra conheçam o teu nome”. Salomão não promete ao estrangeiro um lugar no santuário. Promete que Deus vai ouvi-lo.
Mais de mil anos depois, Josefo recontou essa oração nas Antiguidades Judaicas. E pôs na boca do rei uma frase que não está no livro dos Reis: “nós não somos desumanos por natureza, nem hostis aos que não são da nossa raça”. É o mesmo Josefo que descreveu as colunas que ameaçavam de morte o estrangeiro que passasse da balaustrada.
O profeta Isaías foi mais longe. No capítulo 56, ele fala aos filhos do estrangeiro que se unem ao Senhor, guardam o sábado e se apegam à aliança. E Deus diz: “Eu os trarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração”. E dá a razão: “porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.” Na Bíblia grega, esses estrangeiros são allogeneis, a palavra da pedra. O nome que a balaustrada dava a quem devia parar é o que Isaías dá a quem Deus traz para dentro.
Mas a barreira também tinha o seu versículo. Ezequiel, ao descrever o santuário futuro, ouve de Deus: “Nenhum filho de estrangeiro, incircunciso de coração e incircunciso de carne, entrará no meu santuário”. Na Bíblia grega, a palavra é de novo allogenés. A pedra tinha um texto a seu favor, e a tensão estava dentro da própria Escritura: um profeta fechava o santuário ao estrangeiro incircunciso, outro anunciava o dia em que a casa seria de todos os povos.
O pátio de fora e os gregos que queriam ver Jesus
Era no pátio de fora, aberto ao estrangeiro, que ficavam os vendedores e os cambistas, segundo o comentário do bispo inglês B. F. Westcott ao Evangelho de João. Ali Jesus derrubou as mesas. E Marcos é o único evangelista que guarda a frase de Isaías inteira, no capítulo 11: “Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações?” Nações, no grego, é a palavra do Novo Testamento para os gentios. Se Jesus pensava também no espaço dos gentios tomado pelo comércio, os estudiosos discutem.
Dias antes da Paixão, em Jerusalém, João conta outra cena: “Havia alguns gregos entre os que subiam para adorar na festa.” Eles procuraram o discípulo Filipe e pediram: “Senhor, queremos ver Jesus.” Não pediam para entrar no santuário. Pediam para ver uma pessoa. E Jesus respondeu falando da própria morte: “Chegou a hora de o Filho do Homem ser glorificado”. E, pouco depois: “eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”. João não diz onde a conversa aconteceu, mas, se aqueles gregos subiam ao Templo sem circuncisão, a barreira os detinha no pátio de fora. Jesus falava em atrair todos.
Paulo arrastado para fora do Templo
Uma geração depois, Paulo subiu a Jerusalém para a festa de Pentecostes. O livro de Atos dá os nomes dos que o acompanhavam, entre eles, “da Ásia, Tíquico e Trófimo”. A Ásia era a província romana cuja cidade principal era Éfeso. Em Jerusalém, Tiago e os anciãos da igreja pediram que ele se purificasse no Templo com quatro homens que tinham feito voto. Perto do fim dos sete dias, judeus vindos da Ásia o viram lá e gritaram: “Homens de Israel, socorro!” Diziam que ele “introduziu gregos no Templo e profanou este lugar santo”. E Lucas explica: “Pois tinham visto antes Trófimo, o efésio, com ele na cidade, e supunham que Paulo o tinha introduzido no Templo.” Lucas escolheu o verbo com cuidado: eles supunham. E o verbo da acusação, no grego, é tornar comum, que era o modo de dizer profanar.
A pedra explica o que veio a seguir. “A cidade inteira se agitou, houve uma correria do povo, e, agarrando Paulo, arrastavam-no para fora do Templo; e logo as portas foram fechadas.” E procuravam matá-lo. A placa ameaçava de morte o estrangeiro; a multidão quis matar o judeu que, pensava ela, o tinha levado para dentro. Na Guerra Judaica, ao contar o cerco do ano 70, Josefo pôs na boca do general Tito um discurso sobre aquela balaustrada: “Não fomos nós que vos permitimos matar quem a ultrapassasse, ainda que fosse romano?”
Paulo só escapou porque o comandante romano desceu correndo, com soldados, da fortaleza que ficava junto ao Templo, e o prendeu com duas correntes. Do alto da escada da fortaleza, Paulo falou ao povo e contou como tinha encontrado Jesus. Ouviram-no em silêncio até a frase que o Senhor lhe dissera, anos antes, naquele mesmo Templo: “Vai, porque eu te enviarei longe, às nações”. Ali gritaram: “Tira da terra esse homem”. Depois, como vimos no episódio sobre Atos 23, ele foi levado ao Sinédrio, o conselho judaico da cidade, e gritou que era fariseu.
Daquele dia em diante, Paulo foi prisioneiro: dois anos em Cesareia, depois Roma. Em Roma, disse aos chefes dos judeus: “é por causa da esperança de Israel que trago esta corrente”. A corrente tinha começado no Templo, por causa de um efésio que não tinha entrado.
O muro derrubado em Efésios
Entre as cartas com o nome de Paulo, há uma dirigida aos santos em Éfeso, embora, nos manuscritos mais antigos, a saudação não diga a cidade; por isso muitos pensam numa carta para várias igrejas da região. Quem escreve é um prisioneiro: “Por esta causa, eu, Paulo, o prisioneiro de Cristo Jesus por vós, os gentios”. Logo antes, a carta lembra aos gentios que tinham sido “excluídos da cidadania de Israel e estrangeiros às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo”. E diz o que Cristo fez. Está em Efésios 2:13-14: “Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes trazidos para perto pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz: dos dois fez um só e derrubou o muro do meio, a cerca, a inimizade, na sua carne.”
Longe e perto vêm de Isaías, logo depois do capítulo da casa de oração: “paz, paz ao que está longe e ao que está perto”. E a conclusão vem em língua de cidade e de casa: “já não sois estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da casa de Deus”.
Trófimo, que a multidão pensou ter sido levado por Paulo além da barreira, era um efésio, e a carta que leva o nome de Éfeso fala de um muro derrubado. Muitos leitores juntaram as duas coisas. No século dezenove, o comentário inglês dirigido pelo bispo Charles Ellicott lembrava que a acusação de ter levado Trófimo, um efésio, além daquele muro tinha sido a causa da prisão de Paulo. Em 1982, o manual das Sociedades Bíblicas Unidas para tradutores achou provável que o autor pensasse na balaustrada. Outros discordam: nenhuma fonte antiga chama a barreira por essas palavras. E os estudiosos ainda discutem se a carta é do próprio Paulo ou de um discípulo, depois da morte dele.
A pedra era o muro? Crisóstomo e Calvino
Dois grandes leitores da Igreja não leram ali a pedra. João Crisóstomo, pregador de Antioquia e depois bispo de Constantinopla, conhecia no fim do século quarto a leitura do muro entre judeus e gregos e, nas suas Homilias sobre Efésios, preferiu outra. Para ele, Paulo “chama de muro do meio a inimizade na carne, por ser uma barreira comum, que nos separa igualmente de Deus”. O reformador João Calvino, no seu comentário a Efésios, de 1548, explicou o muro pelas cerimônias, como a circuncisão e as regras de comida, que separaram Israel das nações por um tempo. E acrescentou: “a lei moral não é o muro que nos separa dos judeus”.
A carta não nomeia a balaustrada, e a pergunta continua aberta. Mas uma coisa não depende dela. Onde a pedra separava o estrangeiro do israelita, a carta diz que os gentios são “coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus”. E o muro foi derrubado na carne de Cristo, pela cruz, antes que os soldados de Tito derrubassem qualquer pedra. Os gregos tinham pedido para ver Jesus. Quando ele foi levantado da terra, os que estavam longe foram trazidos para perto.
Uma cidade de portas abertas
No ano 70, o Templo caiu, e a balaustrada com ele. A pedra ficou: dezoito séculos depois, Clermont-Ganneau a achou com as sete linhas inteiras. E o último livro da Bíblia termina numa cidade com doze portas que levam os nomes das tribos de Israel. Ela não tem santuário, porque “o seu santuário é o Senhor, o Deus todo-poderoso, e o Cordeiro”. Está no Apocalipse 21: “E as suas portas nunca se fecharão de dia, porque ali não haverá noite; e trarão a ela a glória e a honra das nações.”
No dia em que arrastaram Paulo para fora, logo as portas foram fechadas. Na cidade de Deus, elas nunca se fecharão, e o verbo grego é o mesmo. A cidade ainda tem fronteira: “nela não entrará nada comum”, diz o versículo seguinte, “mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro”. Comum é a palavra da acusação contra Paulo. O que separa já não é a origem gravada numa pedra, mas um nome escrito no livro do Cordeiro.
Volte àquela pedra, com o seu aviso: nenhum estrangeiro entre. No Templo, quem podia passar dependia de pertencer a Israel, e a barreira quase custou a vida de Paulo por um efésio que nem tinha entrado. Em Cristo, que derrubou o muro na sua carne, os que estavam longe foram trazidos para perto, e a casa de oração é para todos os povos. E isso pergunta também à nossa igreja quem ela deixa, sem perceber, do lado de fora da balaustrada.
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