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HistóriaGênesis

Roma fez Herodes rei da Judeia. O cetro saiu de Judá?

Herodes, Antígono e a leitura de Gênesis 49:10 pelos Pais da Igreja, pelo Talmude e por Calvino

Diego Gonçalvesatualizado 11 min de leitura2.133 palavras

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No fim do ano 40 antes de Cristo, um cortejo subiu ao Capitólio, em Roma, para depositar no templo de Júpiter um decreto do Senado. No meio ia um fugitivo, feito rei dos judeus pelo decreto. Com ele, o cetro de Judá saiu de Judá?

O fugitivo se chamava Herodes, filho de um idumeu, de um povo vizinho do sul. Séculos depois, grandes nomes da Igreja antiga responderiam que sim. No fim do livro de Gênesis, o patriarca Jacó, perto da morte, abençoa o filho Judá, pai da tribo de Davi. Gênesis 49:10: “Não se afastará o cetro de Judá, nem o bastão de comando de entre os seus pés, até que venha Siló; e a ele, a obediência dos povos.” Siló é palavra difícil, mas judeus e cristãos antigos liam ali o Messias.

Um fugitivo feito rei em Roma

No ano do cortejo, os partos, o império rival de Roma no Oriente, tinham posto no trono de Jerusalém Antígono, um príncipe dos hasmoneus, a família sacerdotal dos Macabeus. Quem conta é Flávio Josefo, sacerdote judeu que escreveu em Roma, mais de um século depois, as Antiguidades Judaicas. Herodes chegou à Itália navegando em pleno inverno, sem reino e sem o irmão, morto na prisão. Em Roma, Marco Antônio, um dos dois senhores do mundo romano, tinha motivos para recebê-lo. Josefo cita o dinheiro que Herodes prometia se fosse feito rei e, “muito mais”, o ódio a Antígono.

No Senado, Antônio “ensinou-lhes que também para a guerra contra os partos convinha que Herodes reinasse. E, parecendo isso bem a todos, votam”. O motivo declarado foi militar, e não religioso. Em sete dias, o fugitivo virou rei dos judeus, e Antônio deu o banquete do primeiro dia do reinado. O próprio Herodes, diz Josefo, nem esperava o reino, porque os romanos “costumam dá-lo aos da linhagem”. Pode ser propaganda da corte, mas deixa escapar que Herodes não era da linhagem.

Particular e idumeu: a voz de Antígono

E o novo rei voltou com o título, mas sem a cidade. Sob as muralhas de Jerusalém, provavelmente em 39 antes de Cristo, um arauto anunciou que Herodes vinha “para o bem do povo e a salvação da cidade”. Antígono respondeu, e respondeu aos romanos. Josefo resume a resposta: contra a própria justiça deles, os romanos iam dar o reino a Herodes, “que era um particular e um idumeu, isto é, um meio-judeu”. Particular é o homem comum, de fora da família real.

Já ouvimos esta frase no episódio sobre a pedra do Templo que proibia a entrada de estrangeiros. Aqui, o que importa é de quem é a voz: a de Antígono, um rival em guerra, a quem o trono estava sendo tirado. Antípatro, o pai de Herodes, morreu envenenado em 43 antes de Cristo, e Josefo, com a própria voz, escreve: “E Antípatro, que se distinguiu pela piedade, pela justiça e pelo zelo pela pátria, morreu dessa maneira.” Josefo nunca chama Herodes de meio-judeu. Quem chama é o inimigo, e quem hoje repete a palavra como rótulo fala com a voz do inimigo.

Numa frase quase nunca citada, Antígono diz ainda que “havia muitos da sua linhagem que receberiam o reino segundo a lei, os quais, sem terem errado em nada contra os romanos e sendo sacerdotes, não mereceriam ser privados da honra”. A linhagem que ele defendia era a dos sacerdotes. Nas moedas dele, em hebraico, com o seu nome judeu, está “Matatias, o sumo sacerdote”; em grego, “do rei Antígono”. Nenhuma moeda fala de Davi ou de Judá.

Os hasmoneus eram sacerdotes, da tribo de Levi, e nunca disseram descender de Davi. Como vimos no episódio sobre a dinastia que se destruiu por dentro, foi isso que os judeus piedosos lhes cobraram. E foi essa família que, no fim do século segundo antes de Cristo, obrigou os idumeus a viver pela Lei dos judeus. Em 40 antes de Cristo, portanto, o título de rei dos judeus foi disputado entre um levita e um idumeu. Nenhum dos dois segurava o cetro da tribo de Judá.

A queda de Jerusalém

No terceiro ano depois do decreto, Herodes cercou Jerusalém, com as legiões de Antônio, pelo ponto mais fácil de atacar, diante do Templo, “como outrora Pompeu”, que tomara a cidade em 63. Meses depois, a cidade caiu, e Josefo descreve um massacre sem piedade de crianças nem de velhos. Antígono se jogou aos pés do comandante romano, que riu dele e o chamou de Antígona.

Diante do santuário, segundo Josefo, aconteceu então o avesso do que vimos no episódio sobre Pompeu no Santo dos Santos. A multidão estrangeira se lançava a ver o Templo, e Herodes a conteve, às vezes com as armas, porque “julgava a vitória pior que a derrota se alguma das coisas que não se podem ver fosse vista por eles”. No relato de Josefo, talvez idealizado, o homem que o rival chamava de meio-judeu protegeu o santuário dos estrangeiros.

Herodes convenceu Antônio, “com muito dinheiro”, a matar o prisioneiro, e Antígono foi decapitado em Antioquia, na Síria. Josefo fecha a história da dinastia dizendo que o governo “passou para Herodes, filho de Antípatro, que era de casa plebeia e de linhagem particular, e súdita dos reis”. Depois, os sumos sacerdotes passaram a ser homens do rei, que, nas palavras de Josefo, “dava a honra a uns obscuros”.

Os magos e o rei de decreto

Algumas décadas depois, “nos dias do rei Herodes”, magos do Oriente chegaram a Jerusalém perguntando: “Onde está o que nasceu rei dos judeus?” Josefo escreveu que Herodes era aquele “que por algum acaso se tornou rei dos judeus”. Lado a lado, são um rei de nascimento e um rei de decreto. Mateus não comenta: deixa a cena falar.

A pergunta chegou ao rei, e Mateus registra: “Ao ouvir isso, o rei Herodes se perturbou, e toda Jerusalém com ele.” Herodes, conta Josefo, eliminava quem tivesse pretensão real, até um filho. E reuniu “todos os sumos sacerdotes e escribas do povo” e “indagava deles onde nasce o Cristo”. Os sumos sacerdotes que respondem eram de famílias obscuras, nomeados pelo próprio rei. Eles responderam: “Em Belém da Judeia, porque assim está escrito por meio do profeta”. E citaram: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre os governantes de Judá, porque de ti sairá um chefe que apascentará o meu povo, Israel.”

Está em Mateus 2:5-6. A resposta vem de Miqueias 5:2. A segunda metade vem de 2 Samuel 5:2, por coincidência também capítulo 5, versículo 2: é a palavra de Deus a Davi, “Tu apascentarás o meu povo, Israel, e serás chefe sobre Israel”. Na corte de um rei sem Davi, sucessor de reis sacerdotes sem Davi, a Escritura aponta para a linhagem que nenhum dos dois tinha.

O cetro e os Pais da Igreja

Mateus não cita Gênesis 49. O argumento do cetro em Herodes é dos Pais da Igreja, e não do Novo Testamento. Por volta de 155, o filósofo cristão Justino escreveu ao imperador a Primeira Apologia, uma defesa dos cristãos, citando o verso de Jacó. O governante e rei próprio dos judeus, escreveu, durou “até a manifestação de Jesus Cristo”. Aqui não há Herodes. Pouco depois, no Diálogo com Trifão, Justino registra o que diziam os judeus com quem discutia: que Herodes era de Ascalom, uma cidade da costa. Justino desarma a objeção, lembrando que sob Herodes ainda havia sumo sacerdote e profetas, e põe o fim do governante “depois da manifestação e da morte de Jesus, o nosso Cristo”.

No começo do século terceiro, um escritor cristão citado por Eusébio fez do avô de Herodes um servo de um templo de Apolo em Ascalom, e atribuiu a história aos parentes de Jesus. O que os judeus diziam a Justino virou prova cristã.

E Eusébio de Cesareia, no século quarto, escreveu na História Eclesiástica: “Nesse tempo, quando Herodes, o primeiro de raça estrangeira, tomou o reino da nação dos judeus, chegava ao seu termo a profecia dada por Moisés”. Eusébio sabia que, depois da volta da Babilônia, “os sacerdotes presidiam aos negócios”. Se governavam levitas, o cetro não estava com Judá, e ele resolveu isso numa frase: “tendo cessado os governantes e chefes de Judá, digo, os da nação dos judeus”. Para a conta fechar, Judá virou a nação judaica. Um século depois, o bispo Agostinho repetiu a tese em A Cidade de Deus: “Não faltou, portanto, aos judeus um príncipe dentre os judeus até esse Herodes, o primeiro rei estrangeiro que receberam.”

Entre os rabinos, o verso tinha a mesma esperança e outra conta. O Talmude Babilônico, posto por escrito séculos depois de Herodes, cita o verso numa discussão sobre quem podia autorizar juízes. E o aplica aos chefes dos judeus no exílio, que se diziam da casa de Davi: “estes são os exilarcas da Babilônia, que dominam Israel com o cetro”. O cristão antigo dizia que o cetro tinha saído, e por isso o Messias tinha vindo. O Talmude dizia que o cetro continuava, e por isso o Messias não tinha vindo. A leitura dos Pais fala do tempo de Herodes, e não é arma contra os judeus de hoje. E o marco muda de lugar conforme quem lê.

A resposta de Calvino e Ezequiel

Em 1554, no seu comentário a Gênesis, o reformador João Calvino criticou os próprios cristãos que punham em Herodes o fim do cetro. Escreveu, com ironia, que falavam como se “os asmoneus não tivessem usurpado para si o título e o poder, até que os judeus caíram sob o domínio romano”. Quando Herodes chegou, a coroa de Judá já estava no chão havia muito tempo.

A resposta de Calvino vem do profeta Ezequiel, que falou ao último rei de Judá antes da queda de Jerusalém, em 586 antes de Cristo. Está em Ezequiel 21:26-27: “Remove o turbante e tira a coroa!” E depois: “Ruína, ruína, ruína farei dela. Também isto não existirá, até que venha aquele a quem pertence o direito, e eu lho darei.” Em hebraico, “remove” é o mesmo verbo de “não se afastará”, agora na boca de Deus. Cinco séculos antes de Herodes, a Escritura já mostra Deus tirando a coroa e guardando-a para o seu dono. E Calvino concluiu: “A coroa, portanto, ficou revirada, não num só dia nem numa só cabeça, mas por muito tempo e de muitos modos, até que Deus a ajustasse a Cristo, o seu rei legítimo.”

Um verso que aponta para uma pessoa

Como prova cronológica, a leitura de que o cetro saiu com Herodes é fraca: precisa redefinir Judá, saltar cinco séculos sem rei da casa de Davi e chamar de estrangeiro um rei que praticava o judaísmo. Como leitura teológica, é legítimo dizer que o menino nascido rei sob um rei imposto por Roma marca a chegada da promessa de Judá ao seu dono. Mas ela se apoia em Miqueias, em Ezequiel e na pessoa de Jesus, que Mateus, no primeiro versículo do Evangelho, chama de “filho de Davi, filho de Abraão”, e não na genealogia de Herodes. O verso aponta para uma pessoa, e não para uma data.

Em Belém, os estrangeiros se prostraram diante do menino, conta Mateus 2:11. O verso de Jacó também não termina no cetro, mas num pronome e num plural: “e a ele, a obediência dos povos”, ou, como dizia o Targum, a tradução aramaica lida nas sinagogas, “e a ele obedecerão os povos”. E o Evangelho termina, no capítulo 28, versículos 18 e 19, com o Ressuscitado dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e sobre a terra. Indo, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.”

Volte ao Capitólio, ao fugitivo no meio do cortejo. Herodes recebeu o reino por um voto do Senado, e Roma pregou depois o mesmo título, rei dos judeus, sobre a cruz de Jesus. O cetro de Judá não saiu de Judá com Herodes: a coroa tinha caído séculos antes, e Deus a guardou até que viesse aquele a quem pertence o direito. Hoje o cetro está na mão daquele que nasceu rei. Que nós saibamos ler a profecia com humildade, porque as datas são nossas, e com certeza, porque o Rei é de Deus.

Publicado em 21 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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