
Só especialista pode explicar a Bíblia? Esdras e os rabinos
Esdras, o escriba que buscou a Lei, a praticou e a ensinou, e a resposta de Jesus ao monopólio dos mestres
No primeiro dia do quinto mês, depois de quatro meses de estrada desde a Babilônia, um sacerdote chegou a Jerusalém com uma carta do rei da Pérsia que o chamava de escriba. É dele que vêm os escribas dos Evangelhos, os intérpretes da Lei?
Um sacerdote com a carta de um rei
O sacerdote era Esdras, e o livro que leva o nome dele copia a carta no aramaico da chancelaria persa: “Artaxerxes, rei dos reis, a Esdras, o sacerdote, escriba da lei do Deus do céu”. O episódio sobre Jônatas e o Sacerdote Ímpio contou que, séculos depois, um rei grego faria um sumo sacerdote por carta, com púrpura e coroa de ouro. A carta de Artaxerxes não manda insígnia nenhuma: dá a um sacerdote autoridade para fazer valer a lei do seu Deus.
Esdras 7:6 apresenta o homem pelo mesmo título: “Ele era escriba hábil na Lei de Moisés, que o Senhor, Deus de Israel, tinha dado; e o rei lhe deu tudo o que pedia, segundo a mão do Senhor, seu Deus, sobre ele.” Em Elefantina, no Nilo, um papiro aramaico do século quinto antes de Cristo chama um sábio da corte assíria de “escriba sábio e hábil”. Escriba hábil, sofer mahir, era fórmula de corte, e o livro de Esdras a toma e muda o objeto: hábil num livro que Esdras não escreveu e que veio de Deus. E Esdras não era sumo sacerdote, como seria Jônatas: os livros de Esdras e de Neemias o chamam de o sacerdote e o escriba.
Buscar a Lei, fazer e ensinar
Esdras 7:10 diz por que ele foi: “Pois Esdras tinha firmado o seu coração para buscar a Lei do Senhor, e para praticá-la, e para ensinar em Israel estatuto e juízo.” Nos livros dos Reis, quem queria buscar o Senhor ia a um profeta. Esdras firmou o coração para buscar a Lei, e só aqui, na Bíblia hebraica, a Lei é o objeto direto desse verbo. Praticar, no hebraico, é o simples fazer: buscar, fazer, ensinar. A ordem é a mensagem, porque quem ensina o que não pratica ensina mal.
A carta dá verbas do tesouro real, “até cem talentos de prata”. E, nos versículos 25 e 26, o próprio rei manda Esdras nomear juízes e ensinar as leis do seu Deus a quem não as conhece. Quem não cumprir “a lei do teu Deus e a lei do rei” será castigado, até com a morte.
Desde 1930, há quem veja no título de Esdras um cargo persa, uma espécie de secretário do rei para a lei dos judeus. É hipótese forte, nunca provada, e há quem julgue a carta uma composição judaica posterior. Nem o ano é certo: o livro não diz qual Artaxerxes, e entre os dois candidatos há 60 anos. Certo é o retrato. O rei escreve que a lei do Deus de Esdras “está na tua mão”; o narrador, que a mão do Senhor estava sobre ele.
A leitura na praça da Porta das Águas
Foi com esse livro na mão que Esdras subiu, numa manhã de outono, a uma torre de madeira. No primeiro dia do sétimo mês, conta o livro de Neemias, “todo o povo se reuniu como um só homem na praça que está diante da Porta das Águas” e pediu a Esdras o livro da Lei. Quem pede é o povo. Esdras ficou de pé “sobre uma torre de madeira que tinham feito para isso” e leu “desde a luz até o meio do dia”, umas seis horas. Quando abriu o livro, “todo o povo se pôs de pé”. Esdras bendisse o Senhor, e o povo respondeu “Amém, amém”, “com as mãos levantadas”, e se prostrou “com o rosto em terra”.
Os levitas “faziam o povo entender a Lei”, e o hebraico diz: “E leram no livro, na Lei de Deus, meforash, e deram o sentido; e entenderam a leitura.” O episódio sobre a sinagoga de Nazaré mostrou que esse versículo é o padrão da leitura pública; aqui importa a palavra meforash. No livro de Esdras, um rei persa recebe uma carta de denúncia contra Jerusalém e responde: “O documento que nos enviastes foi lido mefarash diante de mim.” O mesmo capítulo avisa que a carta enviada a esse rei “estava escrita em aramaico, e traduzida”. Na corte persa, ler mefarash era ler em tradução, por partes ou com clareza.
Foi a tradução que a tradição judaica escolheu: no Talmude babilônico, Rav, mestre do século terceiro depois de Cristo, diz que “‘meforash’: é a tradução”. É leitura de séculos depois, e não o que se passou na praça. O certo é mais simples: ler não bastou; alguém explicou, e o povo entendeu.
Então “todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei”, e o texto não diz por quê. Veio a ordem de parar o luto: “Ide, comei gorduras e bebei doçuras, e mandai porções a quem não tem nada preparado”, porque “a alegria do Senhor é a vossa fortaleza”. O povo foi “fazer grande alegria, porque tinham entendido as palavras”: o choro veio de ouvir; a alegria, de entender. No dia seguinte, os chefes, os sacerdotes e os levitas foram “a Esdras, o escriba, para obter discernimento nas palavras da Lei”. O escriba lê para todos, e os líderes vão estudar com ele.
O escriba depois de Esdras
Muito antes de Esdras, o profeta Jeremias já acusava os que diziam ter a Lei consigo: “Eis que a pena mentirosa dos escribas a transformou em mentira.” Esdras não inventou o escriba; deu-lhe um modelo. E a palavra cobria do secretário do rei ao perito na Lei, mas nunca foi nome de partido.
De Moisés aos profetas, de mão em mão: a Mishná, a coleção das leis dos rabinos, de por volta do ano 200 depois de Cristo, abre o tratado dos Pais com a corrente da Torá, a Lei. “Moisés recebeu a Torá do Sinai e a transmitiu a Josué; Josué, aos anciãos; os anciãos, aos profetas; e os profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembleia.” Essa Grande Assembleia nunca aparece na Bíblia e talvez seja a lembrança daquela assembleia de Neemias. A corrente não nomeia escribas nem Esdras, mas a tradição já fazia dele um gigante. Um mestre do século segundo diz, na Tosefta, uma coleção paralela à Mishná: “Esdras era digno de que a Torá fosse dada a Israel por meio dele, se Moisés não o tivesse precedido.” A tradição foi pondo nas mãos de Esdras a letra do hebraico de hoje, a tradução aramaica e até a reescrita dos livros queimados. Tudo isso é tardio: mostra como Esdras foi lembrado, e não o que ele fez.
Os escribas nos Evangelhos
Bem antes da Mishná, os Evangelhos mostram os escribas no conselho que julgou Jesus, ao lado dos sumos sacerdotes. E o episódio sobre o cetro de Judá lembrou que sumos sacerdotes e escribas do povo disseram a Herodes onde o Cristo nasceria. Mas Marcos fala também de “os escribas dos fariseus”, expressão que supõe escribas de outros lados. Escriba diz o que a pessoa fazia; fariseu, a que grupo pertencia. No Sinédrio, como vimos no episódio sobre fariseus e saduceus, foram escribas do partido dos fariseus que defenderam Paulo.
Há escribas que não cabem na caricatura. Um diz que amar vale “mais que todos os holocaustos” e ouve de Jesus: “Não estás longe do Reino de Deus.” Outro promete: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que fores”. E Jesus anuncia: “Eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas”.
No Templo, Jesus diz a frase da cadeira de Moisés, que naquele episódio ouvimos só de passagem. Mateus 23:2-3: “Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, fazei e guardai; mas não façais segundo as obras deles, porque dizem e não fazem.” Jesus não tira a cadeira de Moisés: manda fazer o que se ensina dela. O reformador João Calvino, na mesma Harmonia dos Evangelhos que citamos no episódio sobre a sinagoga de Nazaré, não estava certo de onde vinha a expressão. Mas escreveu: “há probabilidade na conjectura dos que a referem ao púlpito que Esdras levantou”. E as cadeiras de pedra achadas em sinagogas antigas são dos séculos terceiro e quarto, ou de depois: nenhuma é a de que Jesus falou.
“Dizem e não fazem” é o avesso exato de Esdras 7:10: buscar a Lei, fazê-la e ensiná-la. A comparação é nossa, e não de Mateus. Mas mostra que a crítica de Jesus não atinge o escriba de Esdras. Atinge quem o abandona.
O escriba feito discípulo
Numa casa, depois das parábolas do Reino, Jesus pergunta aos discípulos. Em Mateus 13:51-52, ele pergunta se entenderam todas estas coisas, e eles dizem que sim. E ele lhes diz: “por isso, todo escriba feito discípulo para o Reino dos céus é semelhante a um homem, dono de casa, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.” Entender é o verbo que a Bíblia grega usa em Neemias 8 para o povo que entendeu a leitura. Em Neemias, quem entende se alegra; em Mateus, quem entende vira escriba. A alusão não se prova, mas o vocabulário é o mesmo. E o escriba do Reino não se forma numa escola: é feito discípulo, ensinado por Jesus.
Diante do conselho de Jerusalém, onde também havia escribas, dois pescadores da Galileia falaram com ousadia. Os chefes, diz Atos 4:13, “percebendo que eram homens iletrados e simples, admiravam-se; e reconheciam que eles tinham estado com Jesus”. Iletrados, em grego, é agrámmatoi, sem letras: a família de grammateús, escriba, com uma negação na frente.
Um só Mestre
Num monte, as multidões ouvem Jesus terminar o Sermão. Mateus 7:28-29: “E aconteceu que, quando Jesus terminou estas palavras, as multidões se admiravam do seu ensino, pois as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas deles.” John Wesley, pregador do avivamento metodista, resumiu nas Notas explicativas sobre o Novo Testamento: os escribas “só expunham a lei de outro”. Jesus fala com autoridade própria e, no Evangelho de João, diz de onde ela vem: “o meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou”.
No mesmo discurso da cadeira de Moisés, Jesus põe um limite a todo título de mestre. Mateus 23:8 e 10: “um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos”, e “um só é o vosso Guia, o Cristo”. As correntes de mestres param aqui: há muitos que ensinam, mas um só Mestre.
Ao abrir o livro de Atos, Lucas resume o seu Evangelho em dois verbos: “tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar”. A Bíblia grega usa os mesmos dois para Esdras, que “pôs no seu coração buscar a Lei, e fazer e ensinar”. É um eco, e não uma alusão provada. Mas, em Jesus, o fazer e o ensinar nunca se separaram.
Num monte da Galileia, o ressuscitado dá a ordem que, no episódio sobre o cetro de Judá, ouvimos como a obediência dos povos. Aqui pesam os verbos de Mateus 28:19-20. “Fazei discípulos de todas as nações” é o verbo do escriba feito discípulo, e “ensinando-os a guardar tudo o que vos ordenei” junta de novo o ensinar e o fazer. E o Mestre fica: “eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século”.
Deus nunca deixou a sua Palavra sem quem a guardasse e explicasse: levantou Esdras e os levitas. Mas em Cristo o tesouro fica aberto a quem crê, e não trancado numa casta: ouviam homens e mulheres na praça, e pescadores sem letras tinham estado com Jesus. O que Cristo tira é o monopólio, e não o estudo: nas Large Minutes, as suas atas, Wesley mandava os pregadores ler “pelo menos cinco horas em vinte e quatro”.
Volte a Jerusalém, ao sacerdote que chega com a carta de um rei que o chamava de escriba. Os escribas dos Evangelhos não vêm dele como de um fundador: o ofício era mais antigo, e nunca foi partido. Mas o modelo é dele: buscar a Lei, fazê-la e ensiná-la. E, em Cristo, o único Mestre, a alegria daquela praça é de todo discípulo que entende: “a alegria do Senhor é a vossa fortaleza”.
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