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Brian Abasciano: O pastor de Hampton que leu Romanos 9 à luz do Antigo Testamento

Diego Gonçalves13 min de leitura2.673 palavras

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Neste texto

Em junho de 2006, o Journal of the Evangelical Theological Society publicou dois artigos seguidos sobre o mesmo capítulo da Bíblia. O primeiro, “Corporate Election in Romans 9: A Reply to Thomas Schreiner” (A eleição corporativa em Romanos 9: uma resposta a Thomas Schreiner), respondia a um texto que Schreiner, um dos principais defensores da eleição individual e incondicional entre os batistas americanos, tinha publicado na mesma revista treze anos antes. O segundo era a tréplica do próprio Schreiner. A nota de rodapé sobre o autor do primeiro artigo dizia apenas que Brian Abasciano era pastor da Faith Community Church, na High Street de Hampton, uma cidade pequena do litoral de New Hampshire. Esse pastor de igreja local se tornaria um dos nomes mais conhecidos do arminianismo acadêmico nos Estados Unidos.

Vida

Pastor em Hampton

Brian J. Abasciano estudou no Gordon-Conwell Theological Seminary, em Massachusetts, onde fez o mestrado em Divindade (Master of Divinity), o curso que forma pastores nos seminários americanos. A esposa, Valerie, estudou no mesmo seminário e se formou mestre em Aconselhamento. Desde 1993 os dois servem juntos na Faith Community Church, em Hampton.

A igreja nasceu na década de 1860, entre crentes que tinham ouvido William Miller pregar sobre a volta de Cristo, e foi organizada oficialmente em 18 de janeiro de 1877 como Igreja Cristã do Advento de Hampton. O nome Faith Community foi acrescentado em setembro de 1975. Abasciano é pastor da congregação e, ao longo de mais de três décadas, escreveu a sua obra acadêmica sem deixar o púlpito. Vários sermões dele sobre o Evangelho de João estão publicados no site da Sociedade dos Arminianos Evangélicos.

O doutorado em Aberdeen

Depois do mestrado, Abasciano foi para a Escócia. Na Universidade de Aberdeen, fez o doutorado em Novo Testamento sob a orientação de P. J. Williams e defendeu, em 2004, a tese Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9:1-9: An Intertextual and Theological Exegesis (O uso do Antigo Testamento por Paulo em Romanos 9:1-9: uma exegese intertextual e teológica). Aberdeen era então a casa de I. Howard Marshall, o estudioso metodista do Novo Testamento, que depois resenhou o livro e leu os rascunhos de artigos posteriores de Abasciano.

A tese partia de uma pergunta de método: quando Paulo cita o Antigo Testamento, usa só a frase ou tem em vista o contexto de onde ela saiu? Na linha de Richard Hays e de G. K. Beale, Abasciano defendeu que as citações apontam para o contexto amplo do texto citado, do qual o apóstolo tira boa parte da forma e da direção do argumento.

Em 2007, na revista Novum Testamentum, respondeu a Christopher Stanley, que duvidava que os primeiros leitores captassem essas alusões: as igrejas de Paulo eram comunidades instruídas nas Escrituras, e o apóstolo podia contar ao menos com os seus líderes para perceber o peso das referências.

Os três volumes sobre Romanos 9

A tese saiu em livro em 2005, revista e encurtada, no volume 301 da série Library of New Testament Studies, da T&T Clark, em Londres. Craig A. Evans e Marshall escreveram palavras de recomendação, e Marshall a resenhou no Journal of Theological Studies em 2008.

O projeto continuou. Em 2011 saiu Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9.10-18, volume 317 da mesma série, com capítulos inteiros sobre Gênesis 25:23 (“o maior servirá ao menor”) e Malaquias 1:2-3, citado em Romanos 9:13 (“Amei Jacó e aborreci Esaú”) e sobre o modo como os escritores judeus leram esses textos. Schreiner resenhou o livro na revista Themelios, e Steve Moyise na Review of Biblical Literature. Abasciano respondeu às duas, e a resposta a Moyise saiu em 2012 no blog de Roger Olson, que o apresentou como “um destacado arminiano evangélico”. O terceiro volume, sobre o oleiro e o barro de Romanos 9:19-24, saiu em 2022 como volume 429 da série e estuda os textos do Antigo Testamento sobre o oleiro e as tradições judaicas que os interpretaram.

Depois da troca com Schreiner vieram artigos sobre os equívocos a respeito da eleição corporativa, no Ashland Theological Journal (2009), e sobre 1 João 5:1, no Evangelical Quarterly (2012). Abasciano ensina também Novo Testamento como professor adjunto no Gordon-Conwell.

A Sociedade dos Arminianos Evangélicos

Abasciano preside a Sociedade dos Arminianos Evangélicos (Society of Evangelical Arminians, SEA), associação de estudiosos e leigos cuja constituição foi adotada em 23 de abril de 2011. A sociedade tem como objetivos promover a teologia arminiana, refutar o calvinismo e encorajar os membros na verdade, tratando os calvinistas como irmãos em Cristo. A declaração de fé exige que o membro afirme a salvação pela graça mediante a fé e a morte de Cristo por todos. Ela acolhe arminianos de quatro e de cinco pontos: não decide se o crente pode cair da graça, mas afirma que perseverar na fé é necessário para a salvação final.

Como presidente, Abasciano escreveu The FACTS of Salvation, resumo da teologia arminiana que a sociedade publicou em outubro de 2013, e se tornou a voz pública da SEA em debates. Em 2018 discutiu João 3:16 com James White e outros calvinistas, defendendo que a expressão grega traduzida por “todo aquele que crê” tem sentido indefinido, aberto a qualquer pessoa. Em 2019 respondeu a John Piper, em 2022 conversou com Leighton Flowers, fundador do provisionismo, e em 2024 falou ao podcast PlainSpoken sobre o legado arminiano no metodismo.

Pensamento

Um arminiano clássico

Abasciano é arminiano clássico. O resumo que escreveu, The FACTS of Salvation, segue de perto os cinco artigos da Remonstrância de 1610, e o nome é um acróstico em inglês pensado como resposta ao TULIP calvinista: libertos pela graça para crer (Freed by grace), expiação para todos (Atonement for all), eleição condicional (Conditional election), depravação total (Total depravity) e segurança em Cristo (Security in Christ).

O ponto de partida é a incapacidade humana. O pecado atinge todas as partes da pessoa, e por isso os seres humanos “não são capazes de pensar, querer nem fazer nada de bom em si mesmos e por si mesmos” (The FACTS of Salvation, 2013). A frase é quase a mesma de Jacó Armínio na Declaração de Sentimentos. Ninguém crê no evangelho por conta própria (João 6:44), e, se alguém vai ser salvo, Deus tem de tomar a iniciativa. Essa iniciativa é a graça preveniente, que ele também chama de graça capacitadora ou pré-regeneradora: sem ela, ninguém pode sequer escolher crer; com ela, a vontade é libertada e pode receber ou rejeitar a graça salvadora, que é resistível.

É aqui que ele se separa do provisionismo de Flowers, que dispensa uma obra prévia da graça antes da fé. Para Abasciano, a fé é condição da eleição, mas uma condição que não merece nada: a salvação é “um presente gratuito recebido pela fé”, a condição “não meritória” da eleição. A segurança também é condicional. O crente verdadeiro pode abandonar a fé e perecer como incrédulo, e por isso tem uma certeza sólida da salvação, ainda que não incondicional, apoiada na promessa de que Deus o capacita a perseverar sem o forçar a isso.

A eleição corporativa

A contribuição mais conhecida de Abasciano é a defesa da eleição corporativa. Eleição corporativa é a escolha de um grupo, que traz consigo a escolha dos seus membros por pertencerem ao grupo. Os indivíduos são eleitos, mas em segundo lugar, como membros do povo eleito.

O modelo vem do Antigo Testamento. Deus escolheu Israel em Abraão, Isaque e Jacó (Deuteronômio 4:37; 7:6-8): ao escolher Jacó, o representante da aliança, escolheu também os seus descendentes. Estrangeiros como Raabe e Rute podiam entrar no povo e passavam a participar da sua eleição. Paulo, argumenta Abasciano, estreitou essa eleição em Cristo, o cabeça da nova aliança, e ao mesmo tempo a alargou, porque todos os que estão em Cristo pela fé, judeus ou gentios, são escolhidos nele. É o que Efésios 1:4 diz da igreja: Deus “nos elegeu nele antes da fundação do mundo” (as citações bíblicas são da Almeida Revista e Corrigida). Em 2006, contra Schreiner, ele resumiu assim: na eleição bíblica, os indivíduos “eram eleitos, mas só como membros do povo eleito” (JETS 49, 2006, p. 370).

Para explicar a ideia, ele usou uma imagem que o próprio Schreiner tinha proposto: a compra de um time de beisebol. Quem compra um time não escolhe cada jogador em separado para formar a equipe. Compra o time, e cada jogador fica comprado por fazer parte dele. Os jogadores entram e saem, e o time continua o mesmo. Um time pode até existir antes de ter jogadores, como lembrou William Klein a respeito do Colorado Rockies, que tinha nome e ingressos vendidos antes de contratar o primeiro atleta. Assim é a eleição em Cristo: Deus escolheu primeiro o Cabeça, e quem se une a ele pela fé participa da sua eleição. Por isso Abasciano escreve que os indivíduos “se tornam eleitos quando creem e continuam eleitos só enquanto creem” (The FACTS of Salvation, 2013).

A objeção calvinista mais comum diz que, nesse esquema, quem elege é o homem, que escolhe crer. Abasciano responde que Deus de fato escolhe: escolhe o Cabeça, o povo e a condição de entrada. Perguntar como alguém entra no povo é outra questão, que não muda o ato divino de escolher o povo. E afirmar que Deus determina de forma absoluta quem crerá e, ao mesmo tempo, que quem não creu deveria ter crido é, para ele, uma contradição, e não um mistério como o da Trindade, em que não sabemos como algo acontece, mas nada se contradiz.

Romanos 9 lido com o Antigo Testamento

Os três volumes aplicam esse método ao capítulo que os calvinistas mais citam. Abasciano começa por Romanos 9:3, em que Paulo deseja ser “anátema, separado de Cristo” por amor dos seus irmãos. Ali ele ouve o eco do pedido de Moisés depois do bezerro de ouro: “risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êxodo 32:32). Êxodo 32 a 34 seria então o modelo do argumento: Israel cai em idolatria, é julgado e é restaurado pela intercessão do mediador, e Paulo vê no Israel que rejeitou o Messias uma nova versão daquela apostasia. Para ele, Paulo está defendendo a resposta de Deus à incredulidade de Israel. Os privilégios da eleição pertencem ao Israel verdadeiro de Romanos 9:6, e o endurecimento de Israel começa como endurecimento que o próprio povo escolheu.

No segundo volume, Jacó e Esaú aparecem como os dois povos que Gênesis 25:23 anuncia: “duas nações há no teu ventre”. O “chamado” de Romanos 9:12 é lido como um nomear eficaz, que faz dos crentes filhos de Deus, e não como uma convocação que produz a fé. Êxodo 33:19 (“terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”) afirma que Deus é o Senhor da misericórdia e que ninguém pode forçá-lo a concedê-la; o texto não diz que ela seja incondicional. O endurecimento de Faraó é descrito como Deus fortalecendo a vontade dele contra o medo das pragas, para que agisse conforme o que já queria, e não como retirada da graça. Esse endurecimento podia ser revertido, e Faraó funciona em Paulo como figura do Israel incrédulo, cujo endurecimento abriu caminho para o evangelho chegar aos gentios (Romanos 11:11-25).

A fé e o novo nascimento

O artigo de 2012 sobre 1 João 5:1 enfrenta um argumento que John Piper chamou de o texto mais claro do Novo Testamento sobre a relação entre fé e novo nascimento. A frase diz: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus”. Como “crê” está no presente e “é nascido” no perfeito, muitos calvinistas concluíram que a regeneração vem antes da fé. Abasciano mostra que o argumento gramatical não se sustenta. O verbo “crê” está num particípio substantivado, que pode não ter valor de tempo, e, se os tempos indicam ordem, a gramática grega aponta para fé e novo nascimento simultâneos ou, mais provavelmente, para o crer como logicamente anterior ao ser gerado de Deus. É a ordem que os arminianos sustentam desde Armínio: a graça preveniente vem antes da fé, e a regeneração acompanha a fé.

Diferenças com a declaração de fé do site

A teologia de Abasciano coincide com a declaração de fé deste site nos pontos centrais: depravação total, graça preveniente resistível, expiação por todos, eleição em Cristo condicionada à fé e perseverança condicional (ver Arminianismo: a segurança da salvação). As diferenças estão no foco. Abasciano é exegeta e não é wesleyano, e a sua obra não trata da inteira santificação nem dos meios de graça, que a declaração afirma. A Sociedade que ele preside acolhe também arminianos de quatro pontos, que não afirmam a possibilidade da apostasia. E a eleição corporativa é uma das leituras arminianas da eleição: ao lado dela, autores como Robert Picirilli e Jack Cottrell defendem a eleição individual condicionada à presciência da fé, e Abasciano trata as duas como arminianas.

Obras principais

  • Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9:1-9: An Intertextual and Theological Exegesis (tese de doutorado, Universidade de Aberdeen, 2004; livro: T&T Clark, 2005, LNTS 301).
  • “Corporate Election in Romans 9: A Reply to Thomas Schreiner”, Journal of the Evangelical Theological Society 49/2 (2006), p. 351-371.
  • “Diamonds in the Rough: A Reply to Christopher Stanley Concerning the Reader Competency of Paul’s Original Audiences”, Novum Testamentum 49/2 (2007), p. 153-183.
  • “Clearing Up Misconceptions about Corporate Election”, Ashland Theological Journal 41 (2009).
  • Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9.10-18: An Intertextual and Theological Exegesis (T&T Clark, 2011, LNTS 317).
  • “Does Regeneration Precede Faith? The Use of 1 John 5:1 as a Proof Text”, Evangelical Quarterly 84/4 (2012), p. 307-322.
  • The FACTS of Salvation: A Summary of Arminian Theology/the Biblical Doctrines of Grace (Society of Evangelical Arminians, 2013).
  • Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9:19-24: An Intertextual and Theological Exegesis (T&T Clark, 2022, LNTS 429).

Para aprofundar

Para comparar, leia as biografias de Chad Thornhill, que também lê a eleição de Paulo como escolha de um povo, de Robert Shank, de Ben Witherington III e de Roger Olson. Sobre o tema, veja Presciência, eleição e predestinação.

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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