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Bruce R. Reichenbach: o filósofo que defendeu a liberdade humana e a presciência de Deus

Diego Gonçalves13 min de leitura2.605 palavras

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Neste texto

No dia 10 de novembro de 1985, um professor de filosofia de Minneapolis escrevia um capítulo sobre a soberania de Deus e a liberdade humana e resolveu usar a própria data como exemplo. Martinho Lutero tinha nascido exatamente 502 anos antes daquele dia. Estava no poder do professor fazer com que essa frase fosse verdadeira, escrevendo o parágrafo naquela data, ou falsa, deixando a escrita para depois. Ninguém altera o passado, mas alguns fatos sobre o passado dependem do que fazemos hoje. Era assim, dizia ele, que a presciência de Deus se relaciona com as nossas escolhas: Deus sabe hoje o que faremos amanhã porque nós o faremos, e o conhecimento dele não é a causa do nosso ato. O professor era Bruce R. Reichenbach, filósofo da religião que ensinou 43 anos no Augsburg College e que deu ao arminianismo algumas das suas defesas filosóficas mais cuidadosas.

Vida

Formação

Bruce Robert Reichenbach nasceu nos Estados Unidos em 1943. Fez o bacharelado no Wheaton College, a faculdade evangélica de Illinois, e o mestrado e o doutorado em filosofia na Northwestern University. A tese de doutorado, de 1968, tratava do argumento cosmológico, o raciocínio que parte da existência de coisas contingentes (coisas que poderiam não existir) para chegar a um ser necessário que explica a existência delas. Revista, a tese virou o primeiro livro, The Cosmological Argument: A Reassessment (1972), que formula uma versão plausível do argumento e a defende das críticas mais comuns.

O tema o acompanhou a vida inteira: desde 2004 ele é o autor do verbete “Cosmological Argument” da Stanford Encyclopedia of Philosophy, revisto várias vezes, a última em 2026.

Quarenta e três anos no Augsburg

Em 1968 ele começou a lecionar no Augsburg College, faculdade luterana de Minneapolis, hoje Augsburg University. Ficou ali até se aposentar, em 2011. Dava lógica, história da filosofia de Descartes a Nietzsche, filosofia da religião, filosofia asiática e ética da medicina. Ele descrevia a tarefa do professor como a de levar o aluno a examinar não só as posições que defende, mas as razões que usa para defendê-las, e adotou como lema uma frase do pregador metodista Ralph Sockman: quanto maior a ilha do conhecimento, mais longa a praia do assombro.

A sala de aula dele não ficou em Minneapolis. Em 1976 e 1977 ensinou no Seminário Teológico de Morija, no Lesoto, e em 1998 na Daystar University, em Nairóbi. Foi professor visitante no Juniata College, na Pensilvânia, passou um semestre em Zhuhai, na China, e deu aulas no Luther Seminary, em Saint Paul.

Reichenbach é membro da Roseville Covenant Church, congregação da Igreja Evangélica do Pacto (Evangelical Covenant Church), denominação nascida entre imigrantes pietistas suecos. Pela igreja, trabalhou com a Igreja Evangélica do Pacto do Quênia em criação de galinhas, microcrédito, uma oficina de costura e formação de líderes. É casado com Sharon e tem dois filhos, Robert e Rachel.

Desses anos saíram Evil and a Good God (1982), sobre o problema do mal, The Law of Karma (1990), um estudo filosófico do carma no hinduísmo e no budismo, e, com Michael Peterson, William Hasker e David Basinger, Reason and Religious Belief (1991), manual de filosofia da religião muito usado nas faculdades, que chegou à quinta edição em 2013.

Professor voluntário

Depois da aposentadoria, Reichenbach passou dois anos ensinando filosofia na ABC University, em Yekepa, na Libéria, universidade reerguida depois de destruída na guerra civil. Em 2016 ensinou em Acra, no Gana, no Good News Theological College and Seminary, escola criada por menonitas e luteranos para formar líderes das igrejas africanas independentes. Ali lhe pediram um curso sobre a literatura joanina, e da falta de material acessível para os alunos nasceu Diving into the Gospel of John (2023). Voltou à Libéria de 2018 a 2020, quando a pandemia obrigou a evacuação, e de novo em 2023, ano em que completou cinquenta anos de magistério.

Pensamento

Reichenbach é um arminiano que trabalha com as ferramentas da filosofia analítica. Os organizadores de Predestination and Free Will (1986) registram que ele e Clark Pinnock, os dois defensores da “soberania geral” no livro, se consideravam arminianos. Em 1989 ele escreveu “Freedom, Justice, and Moral Responsibility” para The Grace of God, the Will of Man, coletânea organizada por Pinnock com o subtítulo A Case for Arminianism. E Roger Olson recomendou Divine Providence (2016) como um tratado sobre a providência inteiramente coerente com o arminianismo clássico, embora a palavra “arminiano” não apareça no livro. Diferente de Pinnock, Reichenbach mantém que Deus conhece todo o futuro, e isso o separa do teísmo aberto.

O soberano e o romancista

O capítulo “God Limits His Power” (1986) trata o problema como um quebra-cabeça de seis peças: a liberdade humana, a soberania, a onipotência, a onisciência, a relação de Deus com o tempo e a providência. A primeira peça é a liberdade. Ser livre, para ele, é poder ter feito outra coisa nas mesmas circunstâncias. As condições externas e internas são necessárias para a escolha, mas não bastam para produzi-la, e a pessoa é quem decide. O exemplo é uma avelã coberta de chocolate em cima da mesa: ele gosta muito de avelãs, mas nem a presença nem o gosto o obrigam a comê-la. A escolha tem razões, e razões não são causas. Sem essa liberdade não haveria responsabilidade moral, e as escolhas postas diante do povo de Deus, de Josué 24 aos dois caminhos de Mateus 7:13-14, perderiam o sentido.

Daí vem a distinção que organiza o capítulo. O romancista cria personagens que fazem exatamente o que ele determina, e a liberdade deles é aparente. O soberano governa súditos que podem obedecer ou resistir. Para Reichenbach, Deus como soberano “tem sido frequentemente confundido com o romancista” (“God Limits His Power”, 1986), e essa confusão faz da criação um romance bem orquestrado. A onipotência não fica diminuída: nem um ser todo-poderoso faz um círculo quadrado ou causa um ato livre de outro, porque as duas coisas são contraditórias. Ao criar seres livres, Deus limita o exercício do próprio poder, e essa limitação é escolha dele. Por isso a forma principal de Deus agir sobre as pessoas é a persuasão: ele “chama, corteja, persuade com jeito, admoesta, inspira e ama”, como o dono da vinha que manda servos e por fim o filho aos lavradores.

Na resposta a John Feinberg, o defensor calvinista do livro, Reichenbach apontou o que via como o custo do determinismo. Se Deus decretou tudo e sempre consegue persuadir sem coagir, por que não persuade todos a fazer o bem e a reconhecê-lo? E, se decretou também o mal, teria de persuadir alguém a escolher o mal. “A soberania de Deus foi protegida”, concluiu, “mas à custa da sua sabedoria e da sua bondade”.

O arminianismo clássico concorda com ele contra o determinismo, mas começa a conversa por outro ponto. Para Armínio, a vontade caída não está apenas fraca diante de Deus: está presa, e só a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, a liberta para crer (ver a Declaração de Sentimentos). Reichenbach fala da graça oferecida pela obra redentora de Cristo e da ajuda do Espírito para escolher o bem, mas o seu argumento parte da liberdade criada como dado filosófico. A declaração de fé deste site acrescenta o que Armínio punha na frente: depois da queda, a liberdade para Deus é dom da graça, e não capacidade natural (ver Livre-arbítrio e graça: a vontade libertada).

A presciência que não causa

A defesa mais conhecida de Reichenbach está na relação entre presciência e liberdade. O argumento fatalista diz que, se Deus sabe hoje que farei algo amanhã, não posso deixar de fazê-lo, senão Deus erraria. Reichenbach responde que esse raciocínio confunde a ordem das causas, o que produz um acontecimento, com a ordem do conhecimento, aquilo em que o saber se baseia. Deus crê que eu escrevo esta frase porque eu a escrevo, e não o contrário.

Contra Pinnock, que sustentava que ações livres futuras não podem ser conhecidas, ele deu dois contraexemplos simples. Um eclipse ainda não aconteceu, e o astrônomo sabe que vai acontecer. E ele mesmo sabia na véspera que tomaria café da manhã em casa, por conhecer os próprios hábitos, sem que os hábitos o obrigassem. A defesa da presciência exaustiva coloca Reichenbach com o arminianismo clássico e com a posição deste site (ver Presciência, eleição e predestinação).

Em dois pontos ele se afasta de outros arminianos. Primeiro, nega a ciência média, a ideia de que Deus conhece o que cada pessoa livre faria em qualquer circunstância possível, base do molinismo de William Lane Craig. Para Reichenbach, frases sobre o que alguém teria escolhido em situações que nunca existiram não são verdadeiras nem falsas, e por isso não fazem parte do que se pode conhecer. Segundo, entende que Deus vive no tempo, com duração sem começo nem fim. Um Deus atemporal, diz ele, é herança da filosofia grega, e lembrar, perdoar, revelar-se e responder a orações são ações que exigem um antes e um depois. Deus é imutável no caráter, mas muda nas relações com o mundo. Armínio, ao contrário, tratava o conhecimento divino como eterno, fora da sucessão do tempo.

Providência e mal

Divine Providence: God’s Love and Human Freedom (2016) reúne meio século dessas reflexões. Reichenbach rejeita a providência meticulosa, a ideia de que Deus determina cada detalhe, e afirma uma soberania geral: os propósitos de Deus abrangem o todo e incluem chamados particulares, como os de Jeremias e Paulo, mas Deus confiou parte da sua obra às mãos de pessoas livres. Os planos de Deus, escreve ele, “são maleáveis”, condicionados às respostas das pessoas, mas a promessa permanece de que Deus realizará os seus propósitos gerais. O livro trata ainda da bondade e do poder de Deus, do silêncio de Deus, da oração de petição e da possibilidade dos milagres.

A mesma lógica sustenta a teodiceia, a tentativa de mostrar por que um Deus bom permite o mal, que ele construiu em Evil and a Good God (1982) para o mal moral e para o mal natural. O mal moral vem do mau uso da liberdade. O mal natural vem da regularidade das leis da natureza, sem a qual a ação moral seria impossível. Diante de alguém que se afoga num lago, exemplifica ele em 1986, só sabemos como socorrer porque a água se comporta sempre do mesmo jeito. Em 2022, respondendo ao filósofo James Sterba, ele argumentou que exigir de Deus uma providência meticulosa, que impedisse todo mal, é exigir um padrão que não aplicamos nem às pessoas boas e que destruiria o amadurecimento moral (ver O problema do mal e Providência, liberdade e o problema do mal).

A cruz como cura

O filósofo também escreveu sobre a expiação. No artigo “By His Stripes We Are Healed” (1998), ele parte do quarto cântico do Servo (Isaías 52:13 a 53:12), em que doença e pecado andam juntos: o Servo leva as nossas enfermidades (Isaías 53:4) e é ferido pelas nossas transgressões (Isaías 53:5). Daí propõe a cura como modelo da expiação. Há um diagnóstico: estamos doentes de um pecado que nós mesmos somos incapazes de curar. Há um ato de cura: o Servo toma sobre si a doença e o juízo de impureza. E há uma restauração: o curado volta para Deus e para o seu povo. Reichenbach deixou claro que não queria trocar os modelos antigos pelo seu: “Minha intenção não é substituir nem suplantar os outros motivos, mas enriquecê-los” (“By His Stripes We Are Healed”, 1998). Em 2006 defendeu essa “visão da cura” em The Nature of the Atonement: Four Views, ao lado de Gregory Boyd, Thomas Schreiner e Joel Green.

No mesmo artigo, porém, listou dificuldades em cada modelo, e ao modelo judicial perguntou como alguém pode, com justiça, levar o castigo de outro. Aqui está a maior distância entre ele e a declaração de fé deste site, que afirma a substituição penal: Cristo levou sobre si a pena dos nossos pecados. Em “Soteriology in the Gospel of John” (Themelios, 2021), Reichenbach reconhece a substituição vicária como um dos fios do quarto Evangelho, na figura do Cordeiro que tira o pecado do mundo (João 1:29), “mundo” lido em sentido amplo, junto com a vitória sobre o diabo e a cura, todos amarrados pela ideia de vida. Ali também aparece a ordem que os arminianos reconhecem: é crendo em Jesus e recebendo-o que a pessoa nasce do alto e se torna filha de Deus (João 1:12-13).

Em 1999, em Faith and Philosophy, defendeu ainda uma leitura inclusivista da expiação: os benefícios da cruz podem alcançar quem nunca ouviu falar de Cristo, sem deixar de vir dele.

O legado de Reichenbach está menos numa escola de discípulos do que em gerações de estudantes. Pelo manual Reason and Religious Belief, pela Stanford Encyclopedia e pelo debate de 1986, que Olson ainda indica como a introdução padrão ao tema para iniciantes, ele ensinou muitos cristãos a pensar a soberania de Deus sem abrir mão da liberdade humana e a liberdade humana sem tirar de Deus o conhecimento do futuro.

Obras principais

  • The Cosmological Argument: A Reassessment (1972)
  • Is Man the Phoenix? A Study of Immortality (1978)
  • Evil and a Good God (1982)
  • “God Limits His Power”, em David e Randall Basinger (orgs.), Predestination and Free Will (1986)
  • “Freedom, Justice, and Moral Responsibility”, em Clark Pinnock (org.), The Grace of God, the Will of Man (1989)
  • The Law of Karma: A Philosophical Study (1990)
  • Reason and Religious Belief, com Michael Peterson, William Hasker e David Basinger (1991; 5ª edição, 2013)
  • On Behalf of God: A Christian Ethic for Biology, com V. Elving Anderson (1995)
  • Philosophy of Religion: Selected Readings, com os mesmos coautores (1996)
  • “By His Stripes We Are Healed”, Journal of the Evangelical Theological Society (1998)
  • “Inclusivism and the Atonement”, Faith and Philosophy (1999)
  • Introduction to Critical Thinking (2001)
  • “Healing View”, em James Beilby e Paul R. Eddy (orgs.), The Nature of the Atonement: Four Views (2006)
  • Epistemic Obligations: Truth, Individualism, and the Limits of Belief (2012)
  • Divine Providence: God’s Love and Human Freedom (2016)
  • “Soteriology in the Gospel of John”, Themelios (2021)
  • Diving into the Gospel of John: Life through Believing (2023)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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