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Elienai Cabral: O cantor das cruzadas que virou mestre da Escola Dominical

Diego Gonçalves15 min de leitura2.975 palavras

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Neste texto

Em abril de 1967, na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, a recém-criada Cruzada Boas Novas fez a sua primeira campanha de evangelização. A equipe tinha como cantores o duo Otoniel e Oziel, o Quarteto dos Evangelistas e um solista catarinense de 21 anos chamado Elienai Cabral. Durante quase nove anos ele seria a voz oficial das cruzadas de Bernhard Johnson Jr. pelo Brasil. Depois trocou o microfone de cantor pelo púlpito e pela pena, e se tornou um dos comentaristas mais constantes das Lições Bíblicas, as revistas trimestrais de Escola Dominical da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD). Em 2021, ao escrever sobre a conversão do apóstolo Paulo, deixou numa frase curta a sua posição no debate sobre a graça: “Discordamos dessa última afirmação calvinista”.

Vida

Mafra, o IBAD e a primeira ordenação

Elienai Cabral nasceu em 23 de dezembro de 1945, em Mafra, Santa Catarina, filho de Osmar Cabral e Jardelina Cabral. O pai foi pastor de várias igrejas no estado e é lembrado como um dos pioneiros do pentecostalismo catarinense. Desde menino Elienai se dedicou à música, e ainda adolescente regia corais em cidades de Santa Catarina.

Em 1963, depois de uma forte experiência de chamado, e aconselhado por John Peter Kolenda, decidiu entregar-se ao ministério. Em 1964 e 1965 estudou no Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD), em Pindamonhangaba (SP). Em 6 de janeiro de 1966 foi ordenado evangelista pela convenção das Assembleias de Deus de Santa Catarina, em Itajaí, e trabalhou por um ano como obreiro auxiliar em Rio do Sul. Em 3 de setembro de 1966 casou-se com Arézia Lessa Cabral, na Assembleia de Deus de Itaperuna (RJ). Os dois filhos do casal, Tâmara e Elienai Cabral Júnior, seguiram também no ministério.

A Cruzada Boas Novas (1967-1976)

Em fevereiro de 1967 o pastor Bernhard Johnson Jr. o convidou para formar uma equipe de evangelistas que faria cruzadas em todo o Brasil e no exterior. Elienai entrou para a Equipe de Boas Novas em 15 de março de 1967, e um mês depois estava em Taubaté. Nas cruzadas ele dirigia os programas de rádio, ajudava a conduzir os cultos e foi o cantor oficial durante todo o tempo em que esteve na equipe, gravando discos que circularam pelo Brasil e fora dele. Foi Johnson quem o apresentou para a segunda ordenação, e em 18 de agosto de 1968 a convenção de Minas Gerais o consagrou pastor, no Triângulo Mineiro.

Entre 1971 e 1973 pregava nos congressos de Uberlândia, Ituiutaba e Goiânia, e um ouvinte daquela época, o pastor e deputado distrital Peniel Pacheco, contaria em 1997 que nunca esqueceu um sermão dele sobre Davi e Golias. Elienai ficou na cruzada até janeiro de 1976 e, em 2007, ainda registrava a sua gratidão “à memória do fundador”.

Institutos bíblicos e igrejas (1976-1987)

Ao deixar as cruzadas, Elienai passou a formar obreiros. Em 1976, a convite do pastor João Alves Correia, líder das Assembleias de Deus da Baixada Santista, fundou e organizou o Instituto Bíblico de Santos. Depois foi chamado para abrir o Centro Evangelístico de Icaraí, em Niterói (RJ), que dirigiu de 1979 a 1981, e entre 1981 e 1983 manteve com sede em Niterói o Ministério Cristocêntrico, com o qual dava conferências pelo país. De 1983 a 1987 foi vice-presidente da Assembleia de Deus da Bela Vista, em Fortaleza (CE), onde organizou mais um instituto bíblico e formou duas turmas de obreiros.

Foi nesse período que começou a escrever para a CPAD. Desde 1985 comenta as Lições Bíblicas, e em 1987 a editora publicou o seu comentário Carta aos Efésios.

Sobradinho e a liderança no Distrito Federal

Em 9 de agosto de 1987 Elienai aceitou o convite para pastorear a Assembleia de Deus de Sobradinho, cidade-satélite de Brasília, que ainda pastoreava em 2009. No Distrito Federal presidiu o Conselho de Pastores Evangélicos e, por vários mandatos, a Convenção Evangélica das Assembleias de Deus do Distrito Federal (CEADDIF), que já dirigia em 1993 e voltou a dirigir em 2009.

Em 5 de outubro de 1997 a Câmara Legislativa do Distrito Federal fez uma sessão solene dentro do templo de Sobradinho para lhe entregar o título de Cidadão Honorário de Brasília, a pedido do deputado Adão Xavier. No discurso de agradecimento, Elienai disse que o pastor não deve cuidar só da salvação das almas, mas de tudo o que faz parte do conteúdo do Evangelho, incluindo os valores morais, sociais e éticos. E se definiu assim: “eu não sou político, sou um pastor, mas também não sou apolítico”. Na época já tinha pregado em vários países da América do Sul, da Europa, em Israel e nos Estados Unidos.

Na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), Elienai foi relator do Conselho Fiscal e, em 9 de abril de 2017, foi eleito primeiro-secretário da entidade pela Região Centro-Oeste para o quadriênio 2017-2021, na primeira eleição da convenção feita pela internet, com 16.031 votos. Atua também como consultor teológico da convenção. Integrou por muitos anos o Conselho Administrativo da CPAD e, há décadas, a diretoria estatutária da Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD), para a qual escreveu um manual de homilética. Ocupa a cadeira 35 da Academia Evangélica de Letras do Brasil e é membro da Casa de Letras Emílio Conde, da CPAD.

O escritor e o comentarista

A produção escrita de Elienai acompanha o calendário da Escola Dominical. Entre os trimestres que ele comentou estão a Segunda Carta aos Coríntios (1º trimestre de 2010), Filipenses (3º de 2013, com Antonio Gilberto como consultor doutrinário), Daniel, sob o título “Integridade moral e espiritual” (4º de 2014), “O Deus de toda provisão” (4º de 2016), o Tabernáculo (2º de 2019), a vida do apóstolo Paulo (4º de 2021), os relacionamentos na família (2º de 2023) e o Evangelho de João, sob o título “E o Verbo se fez carne” (2º de 2025). Muitas dessas revistas ganharam um livro de apoio com o mesmo tema, como O Apóstolo Paulo (CPAD, 2021).

Além dos comentários de Efésios e de Romanos (Romanos: o Evangelho da Justiça de Deus, que chegou à 8ª edição em 2005), escreveu livros de pregação, de vida cristã e sobre personagens bíblicos, como O Pregador Eficaz, Mordomia Cristã e Abraão: as experiências de nosso pai na fé, e foi colunista do Mensageiro da Paz. Em 2008 assinou o capítulo de Hamartiologia, a doutrina do pecado, da Teologia Sistemática Pentecostal, obra coletiva da CPAD com Antonio Gilberto, Claudionor de Andrade, Ciro Sanches Zibordi e outros.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Elienai Cabral é um pentecostal arminiano, e a evidência está no que ele escreveu. No capítulo sobre a conversão de Saulo em O Apóstolo Paulo (2021), ele trata dos “adeptos do determinismo”, para quem Saulo não decidiu nada e foi o próprio Jesus quem decidiu por ele, e responde: “Discordamos dessa última afirmação calvinista”. No lugar dela ele põe a graça preveniente, a graça que vem antes da fé. Como Saulo estava bloqueado para entender o plano de Deus, Deus manifestou a ele essa graça, que alcança o homem ainda “morto no pecado”: Deus “derrama da sua graça sobre o pecador para que ele possa crer”. A graça, continua, “não foi uma imposição de Deus”, mas uma demonstração de misericórdia, e por meio dela Saulo pôde reconhecer Cristo.

O mesmo capítulo nega a leitura de que Saulo foi salvo porque era um eleito e “inevitavelmente” seria salvo. “A mesma graça é para todos os que aceitam a oferta salvadora de Cristo Jesus”, escreve Elienai, citando Tito 2:11, segundo o qual a graça de Deus se manifestou “trazendo salvação a todos os homens”. Quando fala da escolha de Paulo, ele a liga à presciência, o conhecimento antecipado que Deus tem do futuro: “Na presciência divina, esse homem foi escolhido para ser o apóstolo dos gentios”. E resume a conversão como “uma obra divina e, ao mesmo tempo, humana”, em que “a soberania de Deus caminha de mãos dadas com a responsabilidade humana”. O arrependimento e a fé, os dois elementos da conversão, são para ele obra do Espírito Santo, que convence o pecador do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8-11).

São as teses centrais de Jacó Armínio: a graça precede qualquer resposta humana, é oferecida a todos e pode ser recusada. Elienai diz o mesmo da outra ponta da história, no capítulo sobre o pecado de 2008: os que irão para a condenação eterna são “aquelas pessoas que rejeitaram conscientemente a graça de Deus”, e “Cristo morreu por todos” (2 Coríntios 5:15). Os temas estão em A graça preveniente em Armínio, Arminianismo: expiação para todos e Presciência, eleição e predestinação.

O pecado e a vontade

No capítulo da Teologia Sistemática Pentecostal, Elienai define o pecado como desvio do propósito que Deus estabeleceu (o grego hamartia é “errar o alvo”) e distingue o pecado original, a natureza corrompida herdada de Adão e Eva, da culpa original, que, para ele, não é herdada, e sim imputada, isto é, posta na conta de cada pessoa. Adão pecou “na qualidade de chefe federal da raça humana”, e por isso a culpa do pecado foi imputada a todos os seus descendentes (Romanos 5:12-19). A essa imputação correspondem outras duas: o nosso pecado foi imputado a Cristo, que se tornou “o nosso substituto vicário” (2 Coríntios 5:21), e a justiça de Deus é imputada aos que creem. Contra Pelágio, que negava a herança do pecado, ele afirma que todo ser humano nasce com uma “natureza corrompida”, e que “o remédio para o pecado está, não em algum mérito pessoal do pecador, mas no mérito da obra expiatória de Cristo”. Num artigo para o portal Raízes Pentecostais, da EETAD, repete a ideia: “O problema capital do homem é a sua pecaminosidade, e nenhum esforço próprio poderá salvá-lo”. Ver também A doutrina do pecado e A doutrina da depravação total.

As crianças, escreve, nascem com a natureza pecaminosa, mas sem culpa pessoal, e a graça de Cristo as salva; o adulto precisa de fé pessoal. Elienai rejeita ainda o universalismo, o restauracionismo, o purgatório e o aniquilacionismo: a morte eterna é o banimento da presença de Deus.

Sobre a vontade humana, os dois textos dele soam diferentes. Em 2008 ele escreveu que, depois da queda, a vontade do homem “perdeu a capacidade de escolha”. Em 2021, ao tratar da conversão de Saulo, disse o contrário sobre o livre-arbítrio: “Existe uma teoria de que o homem perdeu o seu livre-arbítrio por causa do pecado, mas nós refutamos essa ideia, porque o homem pode escolher sim - ajudado pelo Espírito Santo”. A primeira formulação está próxima de Armínio, que nas Disputas públicas (XI) diz que o livre-arbítrio do homem para o verdadeiro bem está “aprisionado, destruído e perdido” e só a graça o liberta, e da declaração de fé deste site, segundo a qual todos nascemos “incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar”. A segunda recusa a palavra “perdido”, mas não devolve ao homem uma capacidade natural de ir a Deus: a escolha que ela afirma é feita “ajudado pelo Espírito Santo”, e vem depois da graça preveniente que, no mesmo capítulo, alcança o pecador morto no pecado. A iniciativa continua sendo de Deus, o que mantém Elienai longe do semipelagianismo, em que o homem dá o primeiro passo.

Espírito, sofrimento e esperança

Como pentecostal, Elienai escreveu sobre Saulo no caminho de Damasco: “Uma das qualidades do nosso pentecostalismo é deixar o Espírito Santo trabalhar livremente com o nosso emocional para alcançar o nosso racional”. Ele descreve o ser humano em três partes, corpo, alma e espírito, e a alma com três faculdades, a mente, os sentimentos e a vontade; por isso a conversão tem um elemento intelectual, um emocional e um volitivo. Defende a doutrina da subsequência: com base em Atos 19:1-6, ensina que ninguém recebe o batismo no Espírito Santo antes de crer em Cristo, porque o batismo no Espírito é um revestimento de poder posterior à conversão.

Na vida de Paulo ele lê também uma teologia do sofrimento: o apóstolo via nas perseguições e nos açoites um modo de Deus aperfeiçoá-lo, o que Elienai opõe à “pseudoteologia da prosperidade”, que não admite que o crente sofra no corpo e na alma.

Na escatologia ele é pré-tribulacionista: “Nós, pentecostais, adotamos a linha de interpretação ‘pretribulacionista’”. A volta de Cristo teria duas fases, primeiro o arrebatamento da Igreja, antes da grande tribulação, e depois a vinda visível para derrotar o Anticristo e implantar o reino de mil anos. Aqui a diferença com a declaração de fé deste site é clara: ela é amilenista, lê os mil anos de Apocalipse 20 como o tempo presente e espera uma só segunda vinda de Cristo, seguida da ressurreição de todos e do juízo final.

Obras principais

  • Carta aos Efésios (CPAD, 1987).
  • Romanos: o Evangelho da Justiça de Deus (CPAD, série Comentário Bíblico; 8ª edição em 2005).
  • “Hamartiologia: a doutrina do pecado”, em Teologia Sistemática Pentecostal (CPAD, 2008).
  • Lições Bíblicas de Jovens e Adultos (CPAD), comentários de 2 Coríntios (2010), Filipenses (2013), Daniel (2014), “O Deus de toda provisão” (2016), o Tabernáculo (2019), o apóstolo Paulo (2021), relacionamentos em família (2023) e o Evangelho de João (2025).
  • O Apóstolo Paulo (CPAD, 2021).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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