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Magno Paganelli: O pastor assembleiano que foi estudar os evangélicos na Terra Santa
Neste texto
Em agosto de 1991, num culto doméstico no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, um publicitário de 24 anos ouviu uma palavra profética que, segundo ele, falava de pensamentos que nunca tinha contado a ninguém. Vinha de quase dez anos de drogas, que começaram aos 15 e chegaram à cocaína. Saiu dali convertido, e conta que a oração de um missionário o livrou do vício naquele mesmo dia. O rapaz era Magno Paganelli. Nas décadas seguintes ele se tornou pastor da Assembleia de Deus, autor de mais de trinta livros, editor e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Em 2013, no mesmo ano em que Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, saiu no Brasil, ele publicou na revista de Ciências da Religião do Mackenzie uma resenha do livro com um título que já dizia o que pensava: “Outra verdade inconveniente”.
Vida
Araçatuba, São Paulo e o Bom Retiro
Magno Paganelli de Souza nasceu em 22 de agosto de 1967, em Araçatuba, no interior paulista. Quatro anos depois a família se mudou para a capital, onde ele cresceu e estudou. Fez um curso técnico de publicidade e começou a trabalhar na área, enquanto a dependência química desmanchava a carreira e a vida em casa.
Depois da conversão, ligou-se ao Ministério do Bom Retiro, das Assembleias de Deus, dirigido pelo pastor Jabes Guedes de Alencar. Ajudou no programa de rádio do grupo de evangelismo da Missão Brilho Celeste, viajou com missionários, pregou como itinerante e, por cerca de três anos, pastoreou uma congregação no bairro da Casa Verde, em São Paulo.
Dessa congregação saiu o material de Socorro, minha igreja se dividiu! (2000). O grupo cresceu de 13 para cerca de 60 membros, e o crescimento trouxe disputas entre irmãos vindos de igrejas diferentes sobre o jeito de fazer o culto. A paz voltou quando os membros foram para a rua distribuir folhetos e visitar casas.
Publicidade, livros e ghost writer
Paganelli juntou a fé à profissão. Trabalhou em agências de publicidade, dirigiu um estúdio de design gráfico e participou de mais de 2.100 projetos editoriais. O primeiro livro, E então virá o fim, sobre escatologia, saiu em 1995 e lhe deu o Prêmio ABEC de autor revelação em 1996. Dois capítulos dele viraram depois Os sinais da volta de Cristo.
Desde 1997 trabalha também como ghost writer, o escritor que redige o livro de outra pessoa, que assina a capa. Numa entrevista de 2010 ao blog Literatura Evangélica, contou que fez isso muitas vezes para pastores brasileiros e estrangeiros. Naquele ano calculava ter 22 livros publicados.
Dirigiu a Arte Editorial, pela qual saíram mais de 160 títulos, entre eles O livro dos diáconos (2004), que virou um seminário levado a igrejas de vários estados e uma disciplina no Seminário do Sul, no Rio de Janeiro, É cristã a igreja evangélica? (2008) e Sionismo evangélico (2020). O romance Estive preso, mas não estive só recebeu o Prêmio Areté. Hoje ele escreve para editoras como Planeta do Brasil, Thomas Nelson Brasil e Vida.
Na mesma entrevista disse uma frase que pouco combina com o mercado evangélico: “Eu prego pouco”. Explicou que não gosta da cultura do “pregador da moda” e que tenta dizer o que a Bíblia diz sem torcer o texto. Citou como autores que o formaram Eugene Peterson, Alister McGrath, Gene Getz e o padre Antônio Vieira.
Da teologia ao doutorado
A formação acadêmica veio depois de quase vinte anos de ministério. Paganelli concluiu o bacharelado em Teologia na Faculdade Unida de Vitória em 2009, especializou-se em Novo Testamento, licenciou-se em Pedagogia em 2012 e também é jornalista. No mestrado em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, concluído em 2014 sob a orientação de Ricardo Bitun, estudou a relação entre a violência do Hamas e a interpretação do Corão.
O doutorado em História Social, na USP, terminou em 2018 com a tese A história recente do turismo religioso brasileiro e seu papel no conflito Israel-Palestina, orientada por Peter Demant. Paganelli viajou a Israel e aos territórios palestinos em 2011, 2012 e 2013 e acompanhou por um ano um grupo de dez turistas brasileiros. A tese refaz a história das peregrinações à Terra Santa desde a Antiguidade, recupera as viagens de brasileiros à região desde 1853 e descreve a profissionalização das caravanas evangélicas, com a teoria dos campos de Pierre Bourdieu.
Da pesquisa saiu também o artigo “D. Pedro II, o Oriente e os protestantes” (Plura, 2018), sobre o diário da viagem do imperador à Palestina em 1876. Paganelli fez depois um pós-doutorado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Sociólogas da religião como Maria das Dores Campos Machado, Cecília Mariz e Brenda Carranza se apoiam no trabalho dele para explicar como o real forte dos anos 1990 encheu de crentes de classe média as caravanas a Israel.
Professor e pastor
Paganelli ensina história das religiões, história da Igreja e teologia. Em 2023 era professor da Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP) e professor visitante da Faculdade de Teologia Integrada (Fatin). Continua pastor nas Assembleias de Deus: em 2019 a revista Comunhão o apresentava como pastor da Assembleia de Deus Bereana, na Vila Mariana, em São Paulo. Numa reportagem sobre o esvaziamento da escola bíblica dominical, ele não culpou os membros que chegam exaustos ao domingo e sugeriu mudar o dia do estudo ou levá-lo para as casas.
Pensamento
Um pentecostal arminiano
Paganelli pertence à classe dos pentecostais arminianos. Formou-se na fé e no ministério nas Assembleias de Deus, cuja tradição ensina que Cristo morreu por todos e que a graça pode ser recusada, e na resenha de 2013 defende abertamente o arminianismo clássico como teologia reformada, bíblica e evangélica.
A resenha começa pelo Sínodo de Dort (1618-1619), onde Simão Episcópio e outros doze pastores foram dispensados antes de qualquer debate, e daí passa aos dez “mitos” que Olson refuta, com um comentário próprio em cada um. Paganelli concorda que Jacó Armínio, aluno de Beza em Genebra, tem lugar na tradição reformada (ver O arminianismo é reformado?), e que arminianos e calvinistas afirmam juntos a salvação somente pela graça, mediante a fé.
O centro da resenha é a doutrina da graça. Paganelli escreve que Armínio cria na depravação total “tanto ou mais que os calvinistas”, porque incluía nela a escravidão da própria vontade ao pecado. Depravação total quer dizer que o pecado atingiu o ser humano por inteiro, a ponto de deixá-lo incapaz de, sozinho, sequer querer a Deus. Por isso, na leitura de Paganelli, o livre-arbítrio arminiano é a vontade libertada pela graça, e não uma força natural que sobreviveu à queda, e a parte dela na salvação é apenas não resistir. Ele chama isso, com Olson, de “sinergismo evangélico”: toda a capacidade de crer vem de Deus, e a pessoa nada acrescenta à obra. Contra o monergismo, a posição segundo a qual Deus regenera o eleito de modo irresistível antes de qualquer resposta, ele provoca: “Se os mortos nada decidem, receio que o dom de Deus esteja até agora ao lado da sepultura monergista.” A resposta arminiana é a graça preveniente, a graça que vem antes e que chama, convence, ilumina e capacita o pecador para o arrependimento e a fé. “Nada disso é possível sem o auxílio do Espírito Santo”, escreve ele. É também a posição da declaração de fé deste site (ver Arminianismo: é tudo sobre a graça).
Na predestinação, ele segue a leitura que liga a eleição à presciência de Deus (Romanos 8:29) e a entende em Cristo e de modo corporativo: Deus elege o povo dos que creem, a Igreja, e cada um participa dessa eleição pela fé. Na justificação, insiste que a fé é só a causa instrumental, a mão que recebe, e nunca causa meritória: Cristo é o único mérito. Sobre a expiação, afirma que Cristo morreu por todos sem que todos sejam salvos, porque a obra da cruz é recebida pela fé (ver Arminianismo: expiação para todos).
O trecho mais duro responde ao calvinista Edwin Palmer, que comparava a expiação arminiana a uma “caixa de surpresas”, com pacotes que muitos não iriam buscar. Paganelli vira a imagem ao contrário: a surpresa estaria na eleição incondicional, em que um ouvinte da Palavra abriria o pacote chamado “amor de Deus” e não acharia nada com o seu nome. “Deus não o ama, o que é uma afirmação horripilante.”
Contra o sionismo evangélico e a escatologia de Parham
A pesquisa sobre o turismo à Terra Santa virou também crítica teológica. O subtítulo de Sionismo evangélico (2020) resume a tese: as ideias sionistas e o turismo para a Terra Santa arrastam evangélicos para um conflito que compromete a missão e a imagem da igreja.
Em 2023, na Revista de Cultura Teológica, da PUC de São Paulo, ele examinou Uma voz clamando no deserto, de Charles Fox Parham, o pregador americano tido como um dos pais do pentecostalismo. Parham ensinava que só os batizados no Espírito escapariam da Grande Tribulação, que os povos anglo-saxões descendiam das tribos perdidas de Israel e que a Palestina inteira poderia ser comprada por dez milhões de dólares, ignorando, observa Paganelli, uma população “majoritariamente palestina, inclusive com comunidades cristãs entre eles”. A conclusão é que esse pensamento é “de caráter heterodoxo, ou mesmo herético”. Paganelli reconhece o mérito de Parham em levar os alunos a buscar o batismo no Espírito Santo, mas não subscreve a sua profissão de fé nesses pontos.
No mesmo artigo aparecem as escolhas exegéticas dele. Lê a maior parte de Mateus 24 como um sermão dirigido aos judeus do tempo de Jesus. Contra quem vê em Isaías 66:8 a fundação do Estado de Israel em 1948, lembra que o versículo anterior fala do nascimento de um menino e aplica a passagem a Jesus e à Igreja: “Esquecem-se de que o versículo precisa de contexto.”
A igreja, a vocação e o Evangelho de Paulo
A outra linha da obra de Paganelli é a eclesiologia, o estudo da igreja. Em Socorro, minha igreja se dividiu!, ele lê as facções de Corinto (1 Coríntios 1:12) como sinal de imaturidade espiritual. “A referência da salvação continua sendo Cristo”, escreve, e as divisões aparecem onde os irmãos perderam essa referência e passaram a seguir estilos e pregadores. Ele distingue vocação, o talento natural, de chamada, que vem só de Deus, e lembra que a unção pertence a todos os crentes (2 Coríntios 1:21).
Em O Evangelho de Paulo (2023), Paganelli escreveu para leitores sem formação teológica um estudo da carta aos Romanos, a carta que esteve por trás da conversão de Lutero e da experiência de John Wesley em Aldersgate. O livro percorre o pecado e a redenção, a fé e a justiça, a lei e a graça, Israel e a Igreja, e apresenta a graça como o amor que alcança o pecador e o refaz à imagem de Cristo.
Obras principais
- E então virá o fim (1995)
- Socorro, minha igreja se dividiu! (2000)
- O livro dos diáconos (Arte Editorial, 2004)
- É cristã a igreja evangélica? (Arte Editorial, 2008)
- “Outra verdade inconveniente”, resenha de Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson (Ciências da Religião: História e Sociedade, 2013)
- A história recente do turismo religioso brasileiro e seu papel no conflito Israel-Palestina (tese de doutorado, USP, 2018)
- “D. Pedro II, o Oriente e os protestantes: o Imperador viajante e religioso em perspectiva” (Plura, 2018)
- Sionismo evangélico (Arte Editorial, 2020)
- O Evangelho de Paulo: uma análise histórica, cultural e teológica da carta aos Romanos (Geográfica, 2023)
- “Charles Fox Parham: sua confusa e heterodoxa escatologia” (Revista de Cultura Teológica, 2023)
Livros em português
- O Evangelho de Paulo: uma análise histórica, cultural e teológica da carta aos Romanos (Geográfica, 2023). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Introdução ao estudo da tipologia bíblica (Geográfica). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Sionismo evangélico (Arte Editorial, 2020). Ver na Amazon
- O livro dos diáconos (Arte Editorial, 2004). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Magno Paganelli de Souza, “Outra verdade inconveniente”, resenha de Roger Olson, Teologia arminiana: mitos e realidades, em Ciências da Religião: História e Sociedade (Universidade Presbiteriana Mackenzie), v. 11, n. 2, 2013, p. 214-228.
- Magno Paganelli de Souza, “Charles Fox Parham: sua confusa e heterodoxa escatologia”, Revista de Cultura Teológica (PUC-SP), n. 106, 2023.
- Magno Paganelli de Souza, A história recente do turismo religioso brasileiro e seu papel no conflito Israel-Palestina, tese de doutorado em História Social, USP, 2018.
- Magno Paganelli de Souza, “D. Pedro II, o Oriente e os protestantes”, Plura, Revista de Estudos de Religião, v. 9, n. 2, 2018, p. 50-84.
- Magno Paganelli, Socorro, minha igreja se dividiu! (2000), com a nota biográfica do autor.
- “Autor e Pastor Magno Paganelli fala sobre a literatura evangélica no Brasil”, entrevista ao blog Literatura Evangélica, 4 de agosto de 2010.
- Mario Souza, “Escola Bíblica em crise?”, revista Comunhão, 7 de junho de 2019.
- Maria das Dores Campos Machado, Cecília Loreto Mariz e Brenda Carranza, “Genealogia do sionismo evangélico no Brasil”, Religião & Sociedade, v. 42, n. 2, 2022.
- Magno Paganelli de Souza, currículo acadêmico no Escavador (Plataforma Lattes).
- O Evangelho de Paulo, página do livro e nota sobre o autor, Geográfica Editora.
- Site de Magno Paganelli.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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