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Douglas Baptista: o relator da Declaração de Fé das Assembleias de Deus
Neste texto
- Vida
- Formação
- Pastor, capelão e educador
- A Declaração de Fé
- Comentarista das Lições Bíblicas
- Pensamento
- Um pentecostal arminiano
- A graça vem primeiro
- Eleição em Cristo, sem dupla predestinação
- Selados, mas chamados a permanecer
- O ethos pentecostal na esfera pública
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em abril de 2017, na 43ª Assembleia Geral Ordinária da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), na nova sede da Assembleia de Deus do Belém, em São Paulo, um pastor de Brasília apresentou ao plenário a primeira confissão de fé completa da denominação e propôs a sua aprovação. Com poucas alterações, os pastores aprovaram a Declaração de Fé das Assembleias de Deus por unanimidade. O relator era Douglas Roberto de Almeida Baptista. Até então, como ele escreveu, “o Cremos era o único documento oficial doutrinário” da igreja. A partir dali, a leitura arminiana da eleição, da graça e da perseverança que as Assembleias de Deus pregavam passou a ter texto oficial, e Douglas tornou-se um dos seus principais intérpretes.
Vida
Formação
Douglas Baptista fez a formação em Brasília, ao lado do ministério. Licenciou-se em Educação Religiosa pela Faculdade Assembleiana (2000-2003), graduou-se em Teologia pela Faculdade de Teologia de Boa Vista (2003-2005), depois em Filosofia (2007-2010) e em Pedagogia (2010-2013), e fez uma especialização em Bíblia no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (2007-2008).
Entre 2013 e 2015 cursou o mestrado em Ciências das Religiões na Faculdade Unida de Vitória, com uma dissertação sobre a laicidade no Brasil. Entre 2018 e 2022 fez o doutorado em Teologia, na área de Teologia Prática, nas Faculdades EST, em São Leopoldo (RS), orientado por Oneide Bobsin, com uma tese sobre a Declaração de Fé assembleiana na esfera pública. Em 2024 concluiu um pós-doutorado na Florida Christian University. É também capitão da reserva remunerada do Exército Brasileiro.
Pastor, capelão e educador
Douglas é pastor presidente da Assembleia de Deus de Missão no Distrito Federal e presidiu a Sociedade Brasileira de Teologia Cristã Evangélica e a Ordem dos Capelães Evangélicos do Brasil. Em julho de 2010, depois de dar um curso de capelania em Ananindeua (PA), percorreu em Belém o caminho dos pioneiros Gunnar Vingren e Daniel Berg, do cais à Praça da República, e contou no seu blog a história da igreja nascida ali em 1911.
A educação cristã tornou-se o centro do seu trabalho. Dirige o Instituto Brasileiro de Teologia e Ciências Humanas (IBTECH), em Brasília, onde orientou trabalhos como Doutrina da Salvação: arminianismo e calvinismo à luz das Escrituras (2015), ensina na Faculdade Cristã de Curitiba e edita a revista da Rede de Estudos Pentecostais Assembleianos. Entre 2015 e 2016 organizou seis seminários preparatórios para os 500 anos da Reforma Protestante.
Na presidência do Conselho de Educação e Cultura da CGADB, organizou os Encontros Nacionais de Educadores Cristãos (2016, 2017 e 2019) e tornou-se vice-presidente da Rede Assembleiana de Ensino. Quando a CPAD lançou o novo currículo da Escola Dominical, em 1º de novembro de 2021, a primeira revista de adultos da série era dele.
A Declaração de Fé
A comissão especial que preparou a Declaração de Fé, presidida por Esequias Soares e com Claudionor de Andrade como sub-relator, estudou ao longo de 2016 os credos ecumênicos e as grandes confissões históricas. Com a aprovação, o Cremos, publicado no Mensageiro da Paz desde 1969, passou a ser um extrato da declaração maior, que reúne, nas palavras de Douglas, “as interpretações autorizadas das Escrituras e os ensinos oficiais” da denominação. Na tese, ele resume o alcance do documento: aprovado depois de 106 anos de história da igreja, não reformulou nenhuma doutrina.
Comentarista das Lições Bíblicas
Desde 2018 Douglas escreve trimestres das Lições Bíblicas de adultos da CPAD, a revista das Escolas Dominicais assembleianas, sempre com um livro de apoio. Foram cinco: Valores Cristãos (2018), Igreja Eleita, sobre a Carta aos Efésios (2020), A Supremacia das Escrituras (2022), A Igreja de Cristo e o Império do Mal (2023) e A Santíssima Trindade (2026).
A revista de 2018, estudada entre abril e junho, meses antes da eleição presidencial, tratou de ideologia de gênero, direitos humanos, aborto, eutanásia, sexualidade, política e redes sociais. O livro de 2023 levou a deputada federal Erika Hilton a pedir à polícia, em setembro daquele ano, que o investigasse por transfobia. A investigação, aberta em junho de 2024, foi arquivada em fevereiro de 2025, quando o Ministério Público Federal concluiu que o autor expusera as suas convicções dentro da liberdade de expressão e de religião.
Douglas também falou em audiências públicas: no Supremo Tribunal Federal sobre o ensino religioso (2015), na Câmara dos Deputados sobre o aborto (2018) e, como conselheiro do Instituto Brasileiro de Direito e Religião, no Senado, em abril de 2025. No mesmo ano a CPAD publicou a sua Filosofia da Educação Cristã, de mais de quinhentas páginas.
Pensamento
Um pentecostal arminiano
Douglas Baptista é um pentecostal arminiano: assembleiano, defende o batismo no Espírito Santo e a atualidade dos dons, e lê a doutrina da salvação da sua igreja como arminiana. Num artigo de janeiro de 2018, ele transcreve o Cremos e o capítulo “Da Salvação” da Declaração de Fé e conclui que a soteriologia assembleiana é “concorde” com a justificação pela fé dos reformadores e com a “mecânica da salvação” arminiana, expressão de Silas Daniel. Na tese de 2022 ele identifica a crença assembleiana na expiação ilimitada com os cinco pontos do arminianismo, resumidos no acrônimo FACTS, e apresenta Jacó Armínio como “o teólogo holandês” de quem deriva o nome.
O ponto de partida dele é a Reforma. O artigo de 2018 abre com a angústia de Lutero no convento de Erfurt e com a descoberta de Romanos 1:17, contada também em a descoberta de Lutero. A justificação é um ato judicial de Deus, e a fé “não é meritória”: ela é “o meio de se receber a justificação” (A Reforma, a justificação pela fé e a mecânica da salvação, 2018). Os reformadores concordavam nisso, explica ele, e divergiram sobre eleição, predestinação, livre-arbítrio e presciência, como o site mostra em o arminianismo é reformado?.
A graça vem primeiro
A doutrina da salvação de Douglas começa pela incapacidade humana. Na revista de 2023, ele descreve a “corrupção total” como o estado de corrupção mental, moral e espiritual da natureza humana depois da queda, e tira a consequência: “Essa corrupção impede o homem de tomar a iniciativa no processo de regeneração”. O pecador só é libertado depois do convencimento do Espírito Santo (João 16:8), e por isso “o livre-arbítrio precisa ser divinamente restaurado” (Lições Bíblicas, 3º trimestre de 2023, lição 2). É o que o arminianismo clássico chama de depravação total: depois da queda, ninguém pode voltar-se para Deus por conta própria.
A saída é a graça, que vem antes da resposta humana. Na lição sobre Efésios 2, Douglas explica que a iniciativa da salvação veio de Deus e que é por meio da graça que Deus ativa o livre-arbítrio e capacita o pecador a responder com fé ao chamado do Evangelho. A pessoa continua livre para recusar, e “a graça pode ser resistida” (Lições Bíblicas, 2º trimestre de 2020, lição 5). É a doutrina que os arminianos chamam de graça preveniente, a graça que precede: Deus age primeiro no coração, convence e liberta, sem forçar. A mesma estrutura aparece na graça preveniente em Armínio.
Essa resposta não acrescenta mérito. O artigo de 2018 cita Silas Daniel: quem é salvo apenas recebe, “de mãos vazias”, o que Deus fez em seu favor. A conclusão de Douglas é que a salvação pela fé e a liberdade para crer são “dádivas divinas”. A expressão “ativar o livre-arbítrio” vem de Silas Daniel, e Douglas a usa sempre presa à iniciativa da graça, longe do semipelagianismo, a ideia de que o homem dá o primeiro passo e a graça só ajuda.
Eleição em Cristo, sem dupla predestinação
A revista de 2020 sobre Efésios é o lugar em que Douglas expõe a eleição. A verdade prática da lição 3 resume a posição: “Segundo a sua presciência, Deus elegeu e predestinou para a salvação os que creriam e perseverariam na fé em Cristo Jesus”. A eleição é cristocêntrica, porque acontece “em Cristo” (Efésios 1:4); com Donald Stamps, ele afirma que ninguém é eleito sem estar unido a Cristo pela fé. A eleição é oferecida a todos (João 3:16; 1 Timóteo 2:4-6) e se torna realidade em cada pessoa pelo arrependimento e pela fé, que não são mérito e que ninguém cumpre sem a graça de Deus.
Douglas distingue a eleição da predestinação. Eleição é a escolha de um povo em Cristo; predestinação, do grego proorizō, “determinar antes”, é o destino que Deus preparou para esse povo: a adoção como filhos, a semelhança com Cristo, a herança. A palavra aparece seis vezes no Novo Testamento, e nenhuma se refere à condenação; portanto, “não houve uma dupla predestinação” em que Deus escolheu uns para o céu e outros para o inferno (lição 3). Os que vêm a Cristo “não são coagidos, mas atraídos a Ele” (João 12:32). O site trata o tema em presciência, eleição e predestinação.
Selados, mas chamados a permanecer
Sobre a segurança do crente, Douglas segue a Declaração de Fé, que afirma a possibilidade da apostasia. Na lição sobre o selo do Espírito (Efésios 1:13-14), ele ensina que o Espírito Santo é o “penhor”, a garantia da herança, e que quem tem o selo tem a salvação garantida. Logo em seguida explica o alcance da frase: “Isso não quer dizer que o crente está salvo para sempre, independente de sua conduta”, mas que a redenção está validada para os eleitos em Cristo que permanecem fiéis (Mateus 24:13). Na tese, ele cita a Declaração: o crente pode apostatar da fé pelo mau uso do livre-arbítrio e, depois do novo nascimento, tem a responsabilidade de zelar pela salvação recebida de graça. É a perseverança condicional que o site expõe em a segurança da salvação.
A santificação, nos textos dele, é o fim da eleição: Deus nos escolheu para sermos “santos e irrepreensíveis” (Efésios 1:4). Douglas a descreve como processo contínuo, da conversão à glorificação, sempre pela capacitação do Espírito, e trata a vida santa como evidência da salvação, e não como condição para recebê-la.
O ethos pentecostal na esfera pública
A outra linha do pensamento de Douglas é a ética pública. Na tese, publicada pela CPAD em 2023 como O Ethos Pentecostal na Esfera Pública, ele explica a ação dos assembleianos no Parlamento e nos tribunais a partir da Declaração de Fé. O “ethos” pentecostal nasce da supremacia das Escrituras; por isso os pentecostais obedecem ao Estado como instituição dada por Deus (Romanos 13:1-7), mas só até o limite da Palavra (Atos 5:29). Contra a leitura que via o pentecostal como alienado, ele afirma que a escatologia pré-milenista assembleiana é “militante e questionadora” (tese, 2022), e descreve essa presença pública como apologética, e não como imposição de valores.
Na soteriologia, Douglas e a declaração de fé deste site coincidem: depravação total, graça que vem antes e pode ser resistida, expiação por todos, eleição em Cristo segundo a presciência e perseverança condicional. As diferenças estão em outros pontos. Douglas segue a escatologia assembleiana, pré-milenista e com o arrebatamento da Igreja, enquanto o site é amilenista e espera uma única volta de Cristo, seguida da ressurreição e do juízo. Ele descreve a santificação como processo até a glorificação, e o site acrescenta, na linha de John Wesley, a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé.
Obras principais
- Ministério Pastoral: conflitos e alegrias na missão de servir (Trindade, 2010; 2ª ed., Renovagraf, 2015).
- História das Assembleias de Deus: o grande movimento pentecostal do Brasil (Intersaberes, 2017).
- Declaração de Fé das Assembleias de Deus (CPAD, 2017; organização de Esequias Soares), da qual foi relator.
- Valores Cristãos: enfrentando as questões morais de nosso tempo (CPAD, 2018).
- A Igreja Eleita: redimida pelo sangue de Cristo e selada com o Espírito Santo da promessa (CPAD, 2020).
- A Supremacia das Escrituras: a inspirada, inerrante e infalível Palavra de Deus (CPAD, 2022).
- O ethos da Declaração de Fé assembleiana na esfera pública: valores morais, ação política e o Estado Democrático de Direito (tese de doutorado, Faculdades EST, 2022).
- A Igreja de Cristo e o Império do Mal: como viver neste mundo dominado pelo espírito da Babilônia (CPAD, 2023).
- O Ethos Pentecostal na Esfera Pública (CPAD, 2023).
- Filosofia da Educação Cristã: uma proposta de formação plena da cidadania (CPAD, 2025).
- Santíssima Trindade (CPAD, livro de apoio das Lições Bíblicas do 1º trimestre de 2026).
Livros em português
- Valores Cristãos (CPAD, 2018). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A Igreja Eleita (CPAD, 2020). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A Supremacia das Escrituras (CPAD, 2022). Ver na Amazon
- A Igreja de Cristo e o Império do Mal (CPAD, 2023). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O Ethos Pentecostal na Esfera Pública (CPAD, 2023). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Filosofia da Educação Cristã (CPAD, 2025). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Santíssima Trindade (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Douglas Roberto de Almeida Baptista, O ethos da Declaração de Fé assembleiana na esfera pública: valores morais, ação política e o Estado Democrático de Direito, tese de doutorado em Teologia, Faculdades EST, São Leopoldo, 2022.
- “Douglas Roberto de Almeida Baptista”, resumo do currículo Lattes no Escavador (formação, cargos, orientações, publicações e eventos).
- Douglas Baptista, “A Reforma, a justificação pela fé e a mecânica da salvação” e “A Reforma Protestante e as ordenanças”, janeiro de 2018; “Declaração de Fé das Assembleias de Deus do Brasil”, maio de 2017; “Refazendo os passos dos pioneiros da Assembleia de Deus no Brasil”, julho de 2010.
- Douglas Baptista, Lições Bíblicas de adultos (CPAD), no acervo de Estudantes da Bíblia: sumário do 2º trimestre de 2018; “Eleição e Predestinação”, “A sublimidade das bênçãos espirituais em Cristo” e “Libertos do pecado para uma nova vida em Cristo” (2020); “A Autoridade da Bíblia” (2022); “A deturpação da Doutrina Bíblica do Pecado” (2023); “O mistério da Santíssima Trindade” (2026).
- Página do autor na CPAD.
- Priscilla Cerqueira, “A igreja eleita, com pastor Douglas Baptista”, Comunhão, 20 de julho de 2020.
- Heleno Farias, “Douglas Baptista lamenta banalização do ministério”, JM Notícia, 12 de agosto de 2019; “CPAD realiza lançamento do novo Currículo de Escola Dominical”, JM Notícia, 2 de novembro de 2021.
- “Pastor Douglas Baptista (Brazil)”, ADF International, sobre o inquérito de 2024 e o arquivamento de 2025.
- Agência Senado, fotos da audiência pública da Comissão de Direitos Humanos de 24 de abril de 2025, Wikimedia Commons.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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