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Lourenço Stelio Rega: O professor de grego e de ética que quis dar um jeito no jeitinho

Diego Gonçalves13 min de leitura2.665 palavras

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Neste texto

Em 1970, um rapaz de Suzano, na Grande São Paulo, recebeu o diploma de técnico em Contabilidade no Liceu Santo Antônio da cidade. Poucos anos depois ele estava na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, e dali saiu a gramática pela qual várias gerações de estudantes brasileiros aprenderam a ler o Novo Testamento em grego: Noções do grego bíblico, de Lourenço Stelio Rega, que passou de dezenas de milhares de exemplares e chegou a ser usada em Portugal e na África de língua portuguesa. O mesmo homem escreveu o livro que fez da expressão “jeitinho brasileiro” um problema de ética cristã, dirigiu por 24 anos a faculdade onde estudou e hoje coordena a comissão que revisa a declaração de fé da Convenção Batista Brasileira.

Vida

Suzano e a “Teológica”

Lourenço Stelio Rega nasceu em 1953, em Suzano, no estado de São Paulo. Depois do curso técnico, entrou na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, que os batistas paulistas chamam simplesmente de “a Teológica”, e bacharelou-se em Teologia no fim da década de 1970. Ainda aluno, foi monitor de dois professores que ele chama de inesquecíveis, Thurmon Earl Bryant e Richard Julius Sturz.

O ministério pastoral começou em 1977: em junho de 2023 ele completou 46 anos de ministério. Em 1978 casou-se com Givanilda, que também estudou Teologia, formou-se em Psicologia e se especializou em terapia familiar sistêmica. O casal tem três filhos. Durante um ano e cinco meses a família morou na Ilha de Vitória, no Espírito Santo, onde Rega implantou um projeto de educação religiosa na Igreja Batista da Praia do Canto. Nos anos 2000 era membro da Igreja Batista do Morumbi, em São Paulo.

A gramática e o jeitinho

Até meados dos anos 2000, Noções do grego bíblico tinha várias edições e reimpressões pela Vida Nova. Em 2004, revista com a ajuda do professor Johannes Bergmann, saiu com o título Noções do grego bíblico: gramática fundamental, e recebeu dois prêmios na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2005.

No mestrado em Teologia, na própria Teológica, especializou-se em ética teológica. Como monografia de curso escreveu Libertação e sexualidade: uma análise (Vida Nova, 1991), um livreto sobre o livro homônimo de Robinson Cavalcanti, no qual, para Rega, a fonte da verdade sobre a sexualidade passava a ser a cultura e a biologia, e não a Bíblia.

A dissertação de mestrado, defendida em 1992 sob a orientação de Thurmon Bryant e Bárbara Burns, tratou das implicações éticas do jeitinho brasileiro. Transformada em livro, tornou-se Dando um jeito no jeitinho: como ser ético sem deixar de ser brasileiro (Mundo Cristão, 2000), premiado na Bienal do Livro do Rio em 2001. O tema voltou por décadas em palestras e colunas, inclusive no Movimento Paraná Sem Corrupção.

Professor, deão e diretor

Rega fez quase toda a carreira na Teológica, onde ensinou por cerca de 40 anos. Foi assistente do diretor e do deão, deão acadêmico por cerca de sete anos e meio, coordenador do mestrado em Teologia e, por 24 anos, diretor-geral. Era o professor titular de Ética e dava também Bioética, Ética e Cultura e Exegese do grego do Novo Testamento.

A formação continuou fora do mundo batista. Licenciou-se em Filosofia em 1996 e, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, fez o mestrado em Educação (2001), sobre a história da educação teológica batista no Brasil, e o doutorado em Ciências da Religião (2007), com uma tese sobre a “Alter-História” do filósofo argentino Enrique Dussel, a história da Igreja na América Latina escrita a partir do pobre e do oprimido. Especializou-se ainda em Bioética no Hospital Albert Einstein e estudou o mercado religioso com a teoria econômica da escolha racional.

Presidiu por cinco anos a Associação Brasileira de Instituições Batistas de Ensino Teológico (ABIBET), depois que o parecer 241/99 abriu caminho para o reconhecimento dos cursos superiores de Teologia pelo Ministério da Educação, e participou da preparação do parecer CNE/CES 063/04, sobre a convalidação dos cursos feitos em regime livre. Foi também membro e coordenador da comissão de especialistas que assessorou o Conselho Nacional de Educação na elaboração das diretrizes curriculares nacionais para o bacharelado em Teologia.

A Convenção e o Jornal Batista

A Convenção Batista Brasileira chamou-o muitas vezes para pensar a própria estrutura. Rega foi relator e depois assessor do grupo de trabalho “Repensando a Convenção Batista Brasileira” e do grupo que reestruturou a Convenção Batista do Estado de São Paulo, e apresentou às igrejas as diretrizes do Plano Diretor de Educação Religiosa da CBB. Em O Jornal Batista, órgão oficial da Convenção, publicou cerca de 350 artigos em 14 anos. Hoje coordena a comissão de revisão da Declaração Doutrinária da CBB, e no programa Batistas em Pauta, da Convenção, explicou o artigo sobre a família incluído na Declaração pela assembleia de 2023.

Fora da denominação, falou em seminários presbiterianos, em congressos de bioética e em campanhas de doação de órgãos, e em 2013 fez uma conferência na 62ª Semana Wesleyana, dedicada aos 275 anos da experiência religiosa de John Wesley, com o título “Experimentar Deus hoje”.

Curitiba, Londrina e a Sepal

Depois da Teológica, Rega passou a ensinar na Faculdade Batista do Paraná (FABAPAR), em Curitiba, e na Faculdade Teológica Sul Americana, em Londrina. Com Givanilda, serve como missionário da Sepal, organização que trabalha com pastores e líderes. Em abril de 2024 foi preletor da I Conferência Escrituras em Meu Ser, na Primeira Igreja Batista de Vitória.

Pensamento

Um batista de livre-arbítrio

Rega pertence à classe dos simpatizantes do arminianismo: é um batista de livre-arbítrio na linha da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, a confissão que ele ensina e cuja revisão coordena. Essa declaração ensina a eleição condicional, isto é, que Deus escolhe para a salvação os que ele já sabe que vão crer. Deus elegeu, “à luz de Sua presciência de todas as coisas”, aqueles que “aceitariam livremente o dom da salvação”, e essa eleição se faz “não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça”. É a eleição em Cristo e segundo a presciência que Jacó Armínio defendeu na Declaração de Sentimentos e que os remonstrantes puseram no primeiro artigo da Remonstrância de 1610. Ver também Presciência, eleição e predestinação.

A mesma declaração afirma que “a salvação do crente é eterna” e que os salvos perseveram, guardados pelo poder de Deus. Aqui está a distância em relação ao arminianismo clássico e à declaração de fé deste site, que ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a apostasia, o abandono da fé, é possível (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). É a posição batista de “quatro pontos”, a mesma do colega de Teológica Jorge Pinheiro. Outros batistas foram até a perseverança condicional, como Robert Shank. Ver Arminianismo: a segurança da salvação.

Rega trata o debate entre calvinistas e arminianos como uma questão de interpretação, que se resolve com exegese e com paciência. Na série “Batistas radicais e defesa da fé”, publicada em O Jornal Batista em 2019, ele lembra que leu intérpretes que, a partir de Romanos 9, “chegam a conclusões calvinistas, mas também arminianas”. Distingue a “teologia declarativa”, que apenas afirma uma posição sem argumento exegético, da “teologia explicativa”, que estuda o texto com princípios rigorosos de hermenêutica. Para defender essa diversidade, ele recorre à “competência da alma” do batista norte-americano E. Y. Mullins: cada pessoa responde diretamente a Deus diante das Escrituras.

A visão que ele tem da soberania de Deus combina com essa soteriologia. Num artigo de 2020 sobre Romanos 13, Rega recorre à doutrina clássica da providência, com a definição de Louis Berkhof da “concorrência divina”, e separa a vontade diretiva de Deus, “quando ele diretamente atua”, da vontade permissiva, “quando ele permite, mesmo que necessariamente não esteja o fato coincidente com sua vontade”. Deus governa a história sem que cada ato humano seja obra direta dele. É a mesma distinção que os arminianos usam para afirmar a soberania de Deus sem fazer dele o autor do pecado (ver A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano).

Deus antes da salvação

Num ensaio de 2009, “A Teologia primeira”, Rega critica uma tendência das igrejas evangélicas brasileiras: fazer da doutrina da salvação o ponto de partida de toda a teologia. Ele vê isso nos hinos, nos cultos de domingo à noite e até na Escola Bíblica Dominical apresentada como tendo por missão evangelizar. Ele deixa claro que apoia a evangelização e as missões; o que o incomoda é a ordem de prioridade: quando tudo é visto a partir da necessidade humana de salvação, a teologia corre o risco de ficar centrada no homem. A proposta dele é que “o ponto de partida da Teologia” seja “o próprio Deus”.

Vista a partir de Deus, a salvação fica maior. Rega descreve três dimensões: a jurídica, do perdão e da justificação; a escatológica, da esperança da vida eterna; e a cósmica, em que a pessoa salva é recolocada no seu lugar na criação. Com 2 Coríntios 5:17, lê a salvação como nova criação, que ainda precisa amadurecer. Os textos dele insistem no discipulado, que chamou de a estratégia de ação e de vida da igreja.

A ética do jeitinho

O centro da obra de Rega é a ética. No resumo que publicou em O Jornal Batista em 2017, o jeitinho é “a imposição do conveniente sobre o certo”: a solução que funciona passa a ser tratada como a solução certa, desde que resolva o problema imediato. O brasileiro, observa, “não nega a existência da lei”, nega a sua aplicação naquele momento; o jeito suspende a regra e cria uma exceção. Rega descreve um ciclo em que o “cada um por si” alimenta a transgressão, a transgressão vira corrupção e a corrupção termina em impunidade. Ele também reconhece o lado bom do jeito, a criatividade e a solidariedade. Por isso a pergunta do livro é se o brasileiro pode usar o jeito de forma ética, criativa e solidária, e Rega termina dizendo que o Brasil tem saída.

A bioética foi o outro campo. Em “Brincando de Deus”, ensaio de 2003, ele parte do anúncio de clonagem humana feito pelo médico italiano Severino Antinori e da morte da ovelha Dolly para perguntar se um ser humano clonado seria eticamente responsável pelos seus atos, e lembra a história da eugenia, de Francis Galton ao nazismo. Em 2015 dedicou ao aborto uma série de oito artigos.

A Bíblia, a igreja e a vida pública

Para Rega, a Bíblia é a regra de fé e prática, e o trabalho do intérprete é chegar ao princípio por trás da forma do texto, o que ele chama de hermenêutica funcional. Num artigo de 2020 ele resume: “A Palavra de Deus não precisa de atualização, ela é que nos atualiza sempre.” Os exemplos são o cabelo e o véu das mulheres em 1 Coríntios 11 e a carta a Filemom, em que Paulo não exige a libertação de Onésimo, mas pede que ele seja recebido como irmão amado. Na crítica de 2024 à NVI revisada, respondida por Marcelo Berti em nome da comissão revisora, discordou da tradução de Gênesis 2:18 por “aliada”.

Sobre a vida pública, Rega lê Romanos 13 no contexto do império romano e conclui que, numa democracia, a autoridade maior está “na Constituição”, e não nos ocupantes do governo. O cristão deve ser sal e luz também na política, orar pelas autoridades (1 Timóteo 2:1-2) e não tratar nenhum político como messias.

Sobre a igreja, A dinâmica da igreja autêntica segundo o Novo Testamento (2019) troca os modelos de igreja dos anos 1990 e 2000 por princípios do Novo Testamento. Num artigo de 2023 sobre a liberdade no modo batista de ser, Rega afirma que a autonomia da igreja local e o livre exame das Escrituras exigem responsabilidade: o intérprete batista não trabalha sozinho, apresenta as suas conclusões à igreja e as submete ao juízo do corpo. Em 2024 resumiu o que espera dos cristãos das cidades: viver como a “encarnação” do evangelho no cotidiano.

Obras principais

  • Noções do grego bíblico (Vida Nova; edição de 1986)
  • Libertação e sexualidade: uma análise (Vida Nova, 1991)
  • “Novos horizontes da ética cristã”, em Chamado para servir: ensaios em homenagem a Russell P. Shedd (Vida Nova, 1994)
  • Dando um jeito no jeitinho: como ser ético sem deixar de ser brasileiro (Mundo Cristão, 2000)
  • Paulo: sua vida e sua presença ontem, hoje e sempre (organizador; Vida, 2001)
  • “Brincando de Deus”, Último Andar (PUC-SP), v. 8 (2003)
  • Noções do grego bíblico: gramática fundamental, com Johannes Bergmann (Vida Nova, 2004)
  • Paulo e sua teologia (organizador; Vida, 2009)
  • A dinâmica da igreja autêntica segundo o Novo Testamento (Convicção, 2019)

Livros em português

  • Noções do grego bíblico: gramática fundamental, com Johannes Bergmann (Vida Nova, 2004). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Dando um jeito no jeitinho: como ser ético sem deixar de ser brasileiro (Mundo Cristão, 2000). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Paulo e sua teologia (organizador; Vida, 2009). Ver na Amazon
  • A dinâmica da igreja autêntica segundo o Novo Testamento (Convicção, 2019). Ver na Amazon

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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