
HistóriaTeólogos arminianos7 de 100
Walter Brunelli: O pastor assembleiano que escreveu uma teologia sistemática para pentecostais
Neste texto
- Vida
- Uma família pentecostal
- Pastor e professor
- A Bereana e o Ministério IDE
- O mestrado sobre a Casa da Bênção
- O escritor da Escola Dominical
- Pensamento
- Um pentecostal que se sabe arminiano
- A graça toma a iniciativa
- Eleição, Faraó e João 6
- Segurança sem “salvação instável”
- O Espírito e a santificação
- Diferenças com a declaração de fé deste site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No dia 10 de agosto de 1985, doze pessoas se reuniram para um culto numa sala de aula em São Paulo. A sala ficava na escola de teologia que o pastor Walter Brunelli dirigia, e o grupo era formado pela mulher dele, Márcia, pelo filho, Ricardo, e por alguns vizinhos que o casal tinha evangelizado. Foi o primeiro culto da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Bereana, que hoje tem sede na Vila Mariana e congregações em São Paulo, no Paraná, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Viseu, Portugal. Em 2016, Brunelli publicou pela Central Gospel os quatro volumes de Teologia para Pentecostais: uma teologia sistemática expandida, que a Bereana apresenta como a primeira teologia sistemática escrita por um brasileiro. No terceiro volume, o capítulo sobre a salvação tem um título que dispensa explicação: “A doutrina arminiana da salvação”.
Vida
Uma família pentecostal
Walter Brunelli nasceu em São Paulo em 13 de junho de 1953, filho de Celso Brunelli e Lourdes Attili Brunelli. Cresceu na sede da Assembleia de Deus do Ministério do Ipiranga, onde o pastor Cícero Canuto de Lima o apresentou a Deus. A música marcou a sua juventude: aos 15 anos já regia coral, tocava oboé e violoncelo e participava da liderança da mocidade da igreja.
O pentecostalismo corria na família. Foi ao lado de um tio, o pastor Delfino Brunelli, na Assembleia de Deus de Casa Verde, que Walter começou no ministério pastoral. Uma prima, Ruth Brunelli, fundou com o marido, Doriel de Oliveira, o Tabernáculo Evangélico de Jesus, mais conhecido como Casa da Bênção, em Belo Horizonte, em 1964.
Pastor e professor
Brunelli foi consagrado pastor em 9 de novembro de 1976, numa reunião do ministério da Assembleia de Deus de Santos, quando ainda era solteiro. Em 1979 assumiu a direção do Instituto Bíblico das Assembleias de Deus do Ministério de Santos, onde ficou até 1981. No ano seguinte fundou em São Paulo a Escola Superior de Teologia Evangélica (ESTE).
A formação dele passou por quatro tradições protestantes. Começou Teologia na Faculdade Batista de Teologia de São Paulo, concluiu o curso na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista Livre, de linha wesleyana, e convalidou o diploma na Escola Superior de Teologia (EST), luterana, de São Leopoldo. Depois fez pós-graduação em Didática do Ensino Superior e mestrado em Ciências da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A Bereana e o Ministério IDE
A igreja nascida na sala de aula cresceu até reunir dezenas de congregações e centenas de obreiros, sobretudo depois de 2016, quando abriu igrejas no Brasil e fora dele. A sede, na Rua Joaquim Távora, é hoje dirigida por Ricardo Brunelli e pela esposa, Priscilla, e Walter continua como pastor presidente da Bereana.
Em 1999 Brunelli criou o Ministério IDE, um curso de teologia por extensão, todo em vídeo e oferecido pela internet. Pensado para igrejas sem acesso a seminário, tem alunos em todos os estados brasileiros e em dezenas de países. De 2010 a 2014 Brunelli apresentou todos os dias o programa TV Bereana, na Rede Gospel de Televisão. Também presidiu por dois anos a Academia Paulista Evangélica de Letras (APEL).
O mestrado sobre a Casa da Bênção
No Mackenzie, Brunelli escreveu a dissertação Casa da Bênção: a construção de uma identidade interpentecostal, orientada por Paulo Romeiro e aprovada em 15 de agosto de 2011. O tema era delicado: a fundadora era sua prima, e ele pregava nos eventos da igreja. Na introdução, admite o “dilema axiológico” de estudar com isenção uma igreja “envolta por laços afetivos”. A dissertação acompanha a Casa da Bênção desde a saída de O Brasil para Cristo, de Manoel de Mello, e as sessões de exorcismo em Brasília até as 3.195 igrejas no Brasil e a adesão à teologia da prosperidade. Brunelli a chama de “interpentecostal”, porque concilia o pentecostalismo clássico, na escatologia, com o neopentecostal, na vida cotidiana, e não poupa a igreja da prima: aponta a falta de transparência nas contas e o escândalo político de 2009 que atingiu um deputado ligado à família do fundador.
O escritor da Escola Dominical
Brunelli começou a publicar pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD). A Vontade de Deus e Você já estava na segunda edição em 1987, e Conhecidos pelo Amor saiu em 1995. Pela Dynamus publicou Levando a Sério o Sobrenatural (2006). Escreveu mais de trinta revistas de Escola Bíblica Dominical para a CPAD, a Ideall Comunicações e a Central Gospel. Para a Central Gospel comentou as Epístolas Universais (2025) e As Cartas da Prisão (2026). Na dissertação, ele mesmo observou que a revista de Escola Dominical deu certo nas Assembleias de Deus como meio de orientar o pensamento teológico da igreja.
A obra maior é Teologia para Pentecostais. No prefácio geral, Silas Malafaia, presidente da Central Gospel, chama o amigo de “uma das mais autorizadas vozes” do ensino bíblico entre os ministros pentecostais. Os quatro volumes, com 1.728 páginas, percorrem os dez temas clássicos da teologia sistemática e acrescentam a história da teologia cristã e a história do movimento pentecostal. O prefácio à soteriologia é de Carlos Augusto Vailatti, que destaca o fato de ser uma sistemática escrita por “um autor cem por cento brasileiro”. Ediudson Fontes recomenda a obra pelo modo como trata a perfeição cristã, desfazendo os mitos de que John Wesley é acusado.
Pensamento
Um pentecostal que se sabe arminiano
Walter Brunelli é um pentecostal arminiano, e, ao contrário de boa parte do seu público, ele usa o nome. Na seção “Um balanço entre Calvino e Armínio na perspectiva pentecostal” (Teologia para Pentecostais, v. 3, 2016), observa que o debate entre calvinistas e arminianos é coisa de seminário, e não de púlpito. O pentecostalismo, escreve, “perfila com a teologia arminiana”, mas os pentecostais não se declaram arminianos porque desconhecem a fonte primária, a obra de Jacó Armínio, cuja edição brasileira a CPAD tinha acabado de lançar. Com Wellington Mariano, lembra que as Assembleias de Deus nunca abraçaram a eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível.
O tom é pastoral. A um irmão calvinista que sempre insistia na predestinação, Brunelli respondeu um dia: “a quem interessa saber quem é ou não predestinado, senão a Deus?”. No mesmo espírito, o livro expõe as duas posições, com os cinco pontos do calvinismo, o Sínodo de Dort e a resposta dos remonstrantes (o site traduziu os cinco artigos da Remonstrância), antes de defender a leitura arminiana.
A graça toma a iniciativa
O arminianismo de Brunelli não começa no livre-arbítrio. Ele afirma a incapacidade humana com Romanos 3:10-12: o ser humano é “inabilitado para, sozinho, ter a iniciativa de buscar a Deus e de praticar o bem”. Lembra, com Lewis Sperry Chafer, que o arminianismo se inclina mais para Agostinho do que para o semipelagianismo. Na soteriologia, a frase é direta: “O ato de conversão é sempre uma iniciativa divina”. A graça manifestada na cruz, a pregação do evangelho pela qual Deus busca o pecador e a fé que nasce no coração “são todas iniciativas divinas”.
Para explicar isso, Brunelli recorre à graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade presa ao pecado. Cita a definição de Thomas Oden: a graça preveniente é sobrenatural, “não é meramente uma intensificação da graça comum”, e dá ao pecador o primeiro impulso de boa vontade para com Deus. Com Mildred Wynkoop, insiste que a graça é uma só, embora os teólogos a dividam para fins didáticos: “Deus não tem duas graças, nem dois amores”. E, com Tito 2:11, lembra que a salvação é oferecida “indistintamente a todos os seres humanos” (o site explica a doutrina em a graça preveniente em Armínio).
Onde entra a pessoa? Na resposta ao evangelho, quando o ouve. Brunelli ilustra com a parábola do semeador: a semente frutifica no “coração honesto” de Lucas 8:15, e esse coração pode estar numa pessoa de mau caráter, enquanto alguém bem-intencionado recusa a oferta. Contra o determinismo, pergunta o que haveria de verdadeiro no arrependimento, no amor a Deus e na fé se fôssemos “robôs, todos programados”. Para ele, a graça irresistível do calvinismo resulta numa liberdade compatibilista, com todas as ações preordenadas por Deus; a graça preveniente, numa liberdade real de querer ou não querer.
Eleição, Faraó e João 6
Em Romanos 9, Jacó e Esaú representam povos, e não indivíduos isolados: “Duas nações há no teu ventre” (Gênesis 25:23). Paulo fala, portanto, de eleição corporativa, a escolha de um povo, e não da salvação ou da perdição de cada pessoa. O endurecimento de Faraó também não foi arbitrário. Seguindo Jerry Walls e Joseph Dongell (Por que não sou calvinista), Brunelli afirma que Deus fortaleceu o coração de Faraó na direção que ele mesmo já tinha escolhido: “Deus não colocou o mal em Faraó, apenas o potencializou”.
Em João 6:44 (“Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer”), o contexto é decisivo. Jesus falava a pessoas que diziam conhecer a Deus, mas não criam em Moisés nem no Filho, e quem rejeita a luz que o Pai já deu fecha o caminho para a seguinte. A questão, conclui, é de cristologia, a unidade do Pai e do Filho, e não de predestinação.
Segurança sem “salvação instável”
Brunelli defende a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé. “Um crente pode perder a salvação por apostatar da fé”, escreve, com base em Hebreus 6:4-6 e 10:26-29. A apostasia, porém, é o abandono deliberado da fé, e não um tropeço qualquer (o site trata do tema em apostasia na Bíblia).
Por isso ele critica o outro extremo, comum em púlpitos pentecostais: a “salvação instável”, que o crente perderia a qualquer momento conforme o estado emocional ou o que estivesse fazendo na hora da volta de Cristo. Para Brunelli, essa pregação submete os crentes a uma escravidão “pior do que a do pecado no qual antes viviam”. Ela mede a santidade por listas de roupas e adornos e esquece a mentira e a cobiça. “Salvação não é estado psicológico, é estado de graça”, resume. O Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Romanos 8:16), e por isso o crente não diz que “está” salvo, mas que “é” salvo.
O Espírito e a santificação
Como pentecostal clássico, Brunelli ensina que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência distinta do batismo nas águas e da conversão, e que a sua evidência inicial é o falar em línguas, a glossolalia. Defende a atualidade de todos os dons espirituais contra os cessacionistas, os que creem que os dons milagrosos cessaram com os apóstolos. Sobre 1 Coríntios 12:7, brinca: se alguém encontrar o cemitério onde esse versículo foi sepultado, “avise para que levemos flores”. Sem romantizar o movimento, lembra que “milagre é milagre pelo fato de ser raro” e que muitos pentecostais trouxeram escândalo ao evangelho em busca de lucro.
Na santificação, ele descreve uma obra de toda a Trindade que começa com a justificação e a regeneração, avança ao longo da vida e se completa no céu. Respeita a perfeição cristã de Wesley como perfeição relativa, a “circuncisão do coração” de Deuteronômio 30:6, e rejeita os grupos que, distorcendo Wesley, ensinam que o crente batizado no Espírito nunca mais peca.
Diferenças com a declaração de fé deste site
A declaração de fé do site concorda com Brunelli no essencial: incapacidade humana, graça preveniente oferecida a todos, graça resistível, perseverança condicional e certeza da salvação pelo testemunho do Espírito. As diferenças são duas. A primeira é de vocabulário. Brunelli adota a fórmula de Roger Olson, “dádiva e esforço”, e chega a escrever que a salvação depende “simultaneamente da graça e da decisão humana”; o site prefere dizer que a fé não acrescenta nada, apenas recebe o que a graça oferece, embora Brunelli também diga que a resposta humana depende da ação do Espírito. A segunda é a santificação. Para Brunelli, ninguém atinge nesta vida a plena santidade; a tradição wesleyana do site crê na inteira santificação, obra da graça recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor perfeito.
Obras principais
- A Vontade de Deus e Você (CPAD; 2. ed., 1987).
- Conhecidos pelo Amor (CPAD, 1995).
- Levando a Sério o Sobrenatural (Dynamus, 2006).
- Revistas de Escola Bíblica Dominical (2005-2010) sobre Josué, Abraão, Hebreus, o Espírito Santo, os anjos, Neemias e os profetas menores.
- Casa da Bênção: a construção de uma identidade interpentecostal, dissertação de mestrado (Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2011).
- Teologia para Pentecostais: uma teologia sistemática expandida, 4 volumes (Central Gospel, 2016).
- Epístolas Universais, revista de Escola Bíblica Dominical (Central Gospel, 2025).
- As Cartas da Prisão, revista de Escola Bíblica Dominical, 2º trimestre (Central Gospel, 2026).
Livros em português
- Teologia para Pentecostais: uma teologia sistemática expandida, 4 volumes (Central Gospel, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Conhecidos pelo Amor (CPAD, 1995). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Em busca do que se perdeu: parábolas sobre perdas. Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Levando a Sério o Sobrenatural (Dynamus, 2006). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Assembleia de Deus Bereana, “Conheça o Pastor Walter Brunelli” (biografia oficial e história da igreja).
- Fábrica EBD, “Pr. Walter Brunelli” (nota biográfica do comentarista).
- Escavador, “Walter Brunelli” (dados do currículo Lattes: formação, livros e revistas de estudo).
- Walter Brunelli, Casa da Bênção: a construção de uma identidade interpentecostal, dissertação de mestrado em Ciências da Religião (Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2011), na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações.
- Walter Brunelli, Teologia para Pentecostais: uma teologia sistemática expandida, v. 2 e 3 (Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016), com prefácio geral de Silas Malafaia e prefácio à soteriologia de Carlos Augusto Vailatti.
- O Cristão Pentecostal, “Entrevista: a soteriologia na relação entre arminianismo e pentecostalismo”, com Ediudson Fontes (2020).
- Pecador Confesso, “Revista Central Gospel: Cartas da Prisão, 2º trimestre de 2026” (lições e apresentação do comentarista).
- Ricardo Brunelli, página oficial (história recente da Bereana).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Pentecostalismo