
HistóriaTeólogos arminianos1 de 100
Charles Henry Fowler: o bispo orador que queria wesleyanizar o mundo
Num encontro das sociedades missionárias protestantes no Carnegie Hall, em Nova York, os organizadores quiseram ouvir as duas grandes famílias do protestantismo, a calvinista e a arminiana. Para falar pelos calvinistas chamaram o pregador congregacional Richard Salter Storrs. Para falar pelos arminianos chamaram o bispo metodista Charles Henry Fowler, que subiu à tribuna com o tema “A influência de volta das missões”: a igreja que envia missionários recebe de volta, em vida e em força, mais do que deu. Fowler foi pastor em Chicago, presidente de universidade, editor do influente Christian Advocate, secretário de missões e, por vinte e quatro anos, bispo da Igreja Metodista Episcopal.
Vida
Da fazenda ao púlpito
Charles Henry Fowler nasceu em 11 de agosto de 1837, em Burford, no Canadá, na atual província de Ontário. Em 1841 a família se mudou para o Illinois, nos Estados Unidos, e ele cresceu numa fazenda. A irmã, Jennie Fowler Willing, também se tornaria uma figura do metodismo americano, como pregadora e líder das sociedades missionárias femininas e da União Cristã Feminina de Temperança.
Estudou em duas escolas preparatórias metodistas, a de Rock River, no Illinois, e a de Genesee, em Lima, no estado de Nova York, e em 1859 se formou no Genesee College, que daria origem à Universidade de Syracuse, como primeiro da turma. Tinha memória fora do comum: recitava tábuas inteiras de logaritmos como quem recita a tabuada.
De volta a Chicago, começou a estudar Direito. Na noite de Natal de 1859 converteu-se, e a carreira de advogado ficou para trás. Em março de 1860 entrou no Instituto Bíblico Garrett, o seminário metodista de Evanston, ao lado de Chicago. Em 8 de setembro daquele ano o vapor Lady Elgin afundou no lago Michigan, diante de Winnetka, e Fowler esteve entre os que ajudaram a tirar passageiros da água. Formou-se no Garrett em 1861, e o instituto lhe daria mais tarde o primeiro doutorado em Divindade que concedeu.
Nesses anos de seminário ele conheceu Frances Willard, então professora no colégio feminino de Evanston. Os dois ficaram noivos em 1861 e desfizeram o noivado em 1862. Ela registrou no diário que o rompimento se deu em termos bons e compreendidos pelos dois. Em 1868 Fowler se casou com Myra Amanda Hitchcock, com quem teve um filho, Carl Hitchcock Fowler.
Doze anos em Chicago
No outono de 1861 Fowler foi recebido na Conferência de Rock River e serviu doze anos em igrejas de Chicago, entre elas a Primeira Igreja Metodista Episcopal, na Clark Street, e a Jefferson Street, onde construiu o grande templo da igreja Centenary. Em março de 1863, na Jefferson Street, fez o primeiro discurso missionário da sua vida, sobre “a divindade da ideia missionária”. Em 1870 pregou o sermão missionário da conferência a partir de Atos 13:46-47, e o estudo que fez para prepará-lo o transformou, segundo os seus editores, em entusiasta das missões no estrangeiro para o resto da vida.
Em 4 de maio de 1865, dia do sepultamento de Abraham Lincoln em Springfield, Fowler fez o elogio fúnebre do presidente no Bryan Hall, em Chicago. Anos depois, ampliado, o discurso era recitado de memória em duas horas. Depois do grande incêndio de Chicago, em outubro de 1871, ele percorreu Filadélfia e outras cidades do Leste e levantou quarenta mil dólares para reconstruir as igrejas da cidade e o Instituto Garrett.
A Northwestern e a disputa com Frances Willard
A Universidade Northwestern já o tinha convidado para a presidência uma vez, e ele recusara. Em 1872 aceitou, aos trinta e cinco anos, sem nunca ter dado aula nem dirigido escola. O discurso de posse, em 26 de junho de 1873, durou duas horas e defendeu a educação conjunta de homens e mulheres: “a coeducação começa pelo plano de Deus na família”, disse, e continua na escola pública sem que ninguém se oponha.
Na Northwestern, Fowler criou um currículo de línguas modernas que levava ao bacharelado em Letras, incorporou a Union College of Law como faculdade de Direito e viu o colégio feminino de Evanston se tornar o Woman’s College da universidade, com Frances Willard como primeira decana das alunas.
Com Willard o choque foi de ideias sobre o governo das alunas. Ela queria um colégio feminino com vida própria; ele queria as mulheres integradas à universidade sob a mesma administração. Em 1874 Willard escreveu que Fowler tinha “a vontade de um Napoleão” e ela “a vontade de uma rainha Elizabeth”, e no mesmo ano deixou o cargo com uma carta de quinze páginas sobre as políticas da universidade. Na União Cristã Feminina de Temperança, ela se tornaria uma das mulheres mais conhecidas do país.
Também em 1874 Fowler foi um dos três delegados fraternos enviados à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul, em Louisville, na primeira troca de saudações entre as duas igrejas desde a divisão de 1844, provocada pela escravidão.
O editor e o secretário de missões
Em 1872 Fowler fora indicado para editor do Christian Advocate, o semanário metodista de Nova York que Nathan Bangs dirigira décadas antes, mas Daniel Curry foi reconduzido. Na Conferência Geral de 1876, em Baltimore, foi eleito editor no primeiro escrutínio e deixou a Northwestern em maio daquele ano. Em 1878 publicou Wines of the Bible, pela Sociedade Nacional de Temperança: contra quem dizia que a Bíblia aprovava o vinho das tavernas, sustentou que as Escrituras falam de dois vinhos, um fermentado, que condenam, e outro sem álcool, que abençoam.
Em 1880 a Conferência Geral o elegeu secretário correspondente da Sociedade Missionária. Nesse cargo escreveu uma “Mensagem” às igrejas, publicada ao mesmo tempo nos principais jornais metodistas.
Bispo do Pacífico ao Oriente
Em 1884 Fowler foi eleito bispo. Morou oito anos em San Francisco e depois em Minneapolis, Buffalo e Nova York. Na primeira Conferência de Puget Sound, em 1884, propôs uma faculdade dentro dos limites da conferência; a ideia virou a Puget Sound University, incorporada em Tacoma em 17 de março de 1888 e hoje Universidade de Puget Sound. Visitou a América do Sul em 1885 e o Japão, a China e a Coreia em 1888.
No mesmo ano, em Nanquim, fundou o Huiwen Shuyuan, que teve John Calvin Ferguson como primeiro presidente e deu origem à Universidade de Nanquim. Fowler está também entre os fundadores da Universidade de Pequim metodista, do Maclay College of Theology, no sul da Califórnia, e da Universidade Wesleyana de Nebraska. Também organizou a primeira igreja metodista episcopal de São Petersburgo, na Rússia.
O bispo era chamado para as grandes ocasiões públicas. Em 21 de outubro de 1892, diante de cerca de cento e trinta e cinco mil pessoas, fez a oração de dedicação da Exposição Colombiana de Chicago. Em julho de 1898 levou a saudação da sua igreja à Conferência Wesleyana britânica, reunida em Hull. Em janeiro de 1899, por proposta dele, os bispos decidiram pedir à igreja uma oferta de gratidão, e ele redigiu o apelo por vinte milhões de dólares; a igreja levantou mais de vinte e um milhões.
Em 29 de junho de 1903, no bicentenário do nascimento de John Wesley, falou no People’s Temple de Boston sobre a “wesleyanização do mundo”. Em 13 de outubro do mesmo ano, na Academia de Música de Filadélfia, fez o discurso “Missões e movimentos mundiais” enquanto os jornaleiros gritavam na rua as primeiras notícias da ruptura entre a Rússia e o Japão.
Os últimos anos
Doente nos dois últimos anos, Fowler passou os meses finais revisando os discursos que sairiam em Addresses on Notable Occasions. Morreu em 20 de março de 1908, em casa, em Nova York, ao lado da mulher e do filho. O funeral foi na igreja metodista da avenida Madison, e o presidente Theodore Roosevelt mandou da Casa Branca uma coroa de lírios. James M. Buckley, editor do Christian Advocate, escreveu que força, imaginação, memória, vontade, amizade e grandes feitos o punham bem acima da multidão. Em 1910 o filho publicou os seus discursos patrióticos.
Pensamento
Fowler é um wesleyano. Foi metodista episcopal da conversão à morte, falou em Carnegie Hall como representante do ramo arminiano do protestantismo e, diante da Conferência Wesleyana britânica, em 1898, apresentou o metodismo como o movimento que “travou uma batalha vitoriosa contra os cinco pontos do calvinismo”. As ideias dele estão nos sermões, nos discursos e nas cartas pastorais, e giram em torno de quatro temas.
A salvação é obra de Deus, recebida pela fé. No discurso de Boston, Fowler disse que não ousaria mais pregar se não cresse que uma mulher perdida, morrendo num beco, seria salva com um único clamor de fé a Jesus. A regra vinha daí: “Nós não fazemos a obra. Deus a faz”, e Deus pode salvar “até o último momento”, se a pessoa crê (“Wesleyanizing the World”, 1903). A fé aparece como a mão que se agarra à mão de Deus, sem mérito nenhum. É a primazia da graça que Armínio e Wesley defenderam e que faz do arminianismo uma teologia da graça.
Cristo morreu por todos, e Deus quer salvar a todos. Nos Missionary Addresses (1906), Fowler escreveu que Deus procura, “com todo o poder e com toda a sabedoria”, levantar e salvar todos os homens, porque não quer a morte de quem morre, mas que todos se convertam e vivam. Na “Mensagem” do secretário de missões, a razão da obra missionária é que Cristo morreu por todos (Hebreus 2:9) e é a necessidade suprema de cada mortal. É a expiação universal, em oposição à expiação limitada aos eleitos.
A salvação pode ser conhecida. Para Fowler, a marca do metodismo é o testemunho do Espírito: o Espírito Santo dá ao crente, por dentro, a certeza de que foi perdoado e adotado como filho (Romanos 8:16). Sob o “decreto secreto” do calvinismo rígido, dizia ele, ninguém podia saber se era eleito; o testemunho do Espírito pôs fim a esse decreto e a “todos os outros decretos”. O metodismo, dizia, foi chamado à existência “para pregar uma religião que se pode conhecer”. Na carta pastoral “O selo da aliança” (1900), escrita em nome dos bispos, ele pôs o começo do metodismo na experiência de Wesley, que sentiu o coração estranhamente aquecido e soube que era filho de Deus, e pediu que cada membro tivesse esse testemunho em todos os estados da graça: convicção, justificação, regeneração, adoção e santificação. A segurança da salvação nasce da obra do Espírito, e não da especulação sobre decretos eternos.
A santidade sem estranheza. Fowler pregou a santificação como parte do caminho da graça e cobrava modéstia de quem a testemunhava. A. M. Hills registrou em Holiness and Power (1897) o conselho que o bispo deu a jovens ministros em Cleveland: “Lembrem-se, santificação não é esquisitice”. O tom combina com a nossa declaração de fé, que entende a perfeição cristã como coração consagrado, e não como ausência de erros e limitações.
Fowler juntava essa fé a uma confiança grande na razão e na história. Em Colenso’s Fallacies (1864), resposta ao bispo anglicano John Colenso, que negava a historicidade do Pentateuco, disse que o exame das objeções o deixara mais seguro da veracidade das Escrituras, porque não podia “aceitar uma verdade que não vale nada pela lógica”. Aceitava uma evolução teísta, com “um impulso inicial divino”, e lia a história como obra da providência: “o Monte Calvário é a chave que abre o mistério” (“Missions and World Movements”, 1903). Também trazia as marcas do seu tempo: em 1870, no discurso sobre a Bíblia nas escolas públicas de Chicago, terminou com o grito “nenhuma paz com o papado”.
Dois pontos se afastam da nossa declaração de fé. O primeiro é a sorte de quem nunca ouviu o evangelho. Na “Mensagem”, Fowler escreveu que os pagãos serão julgados pela luz que receberam, e que quem vive tão perto da sua luz quanto um cristão salvo vive da dele será salvo; o argumento servia para mostrar o perigo deles, já que a luz de João 1:9 alcança todos. A nossa declaração afirma que a graça preveniente age em todas as pessoas, mas diz que são salvos os que estão unidos a Cristo pela fé, e não trata de salvação fora do conhecimento do evangelho. O segundo é o otimismo sobre o futuro: Fowler via o mundo sendo “rapidamente wesleyanizado” e o século XX como o maior de todos. A nossa declaração, amilenista, afirma que Cristo já reina e que o evangelho avança entre as nações, mas não espera uma era de ouro antes da volta de Cristo.
Obras principais
- Colenso’s Fallacies: Another Review of the Bishop of Natal (Cincinnati: Poe & Hitchcock, 1864), com ensaio introdutório de Henry Bannister.
- An Oration on the Character and Public Services of Abraham Lincoln (Chicago, 1867).
- Wines of the Bible (Nova York: National Temperance Society, 1878).
- General Grant: Memorial Address (San Francisco, 1885).
- Missions and World Movements (1903).
- Missionary Addresses (Cincinnati: Jennings and Graham, 1906).
- Addresses on Notable Occasions (Cincinnati: Jennings and Graham, 1908), com introdução de R. J. Cooke.
- Patriotic Orations (Nova York: Eaton & Mains, 1910), organizado pelo filho, Carl Hitchcock Fowler.
Para aprofundar
- Charles H. Fowler, Missionary Addresses (1906), com notas do editor R. J. Cooke sobre a data e a ocasião de cada discurso, entre elas o encontro de Carnegie Hall. Internet Archive.
- Charles H. Fowler, Addresses on Notable Occasions (1908), com a introdução biográfica de R. J. Cooke, “Wesleyanizing the World” e “The Seal of the Covenant”. Internet Archive.
- Charles H. Fowler, Patriotic Orations (1910), com introdução de John Wesley Hill. Internet Archive.
- Charles H. Fowler, Colenso’s Fallacies (1864) e Wines of the Bible (1878). Internet Archive.
- Matthew Simpson (org.), Cyclopaedia of Methodism (ed. de 1880), verbete “Fowler, Charles Henry”. Internet Archive.
- The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 4, verbete “Fowler, Charles Henry”. CCEL.
- Northwestern University, “Charles Henry Fowler”, na série sobre os presidentes da universidade.
- The Daily Northwestern, “The secret life of Frances Willard” (2011), com depoimento da arquivista Janet Olson.
- Christian History, “Preachers, fighters, and crusaders”, sobre Frances Willard e Charles Fowler.
- University of Puget Sound, Collins Library, “Happy 130th Birthday, Puget Sound” (2018).
- Universidade de Zurique, China and the West, verbete sobre Fowler e a fundação do Huiwen Shuyuan (1888).
- A. M. Hills, Holiness and Power for the Church and the Ministry (1897), cap. 19. Internet Archive.
- Wikipédia em inglês, Charles Henry Fowler.
Para conhecer outros bispos e editores da mesma igreja, veja as biografias de Francis Asbury, Nathan Bangs, Daniel Whedon e John Miley.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Metodismo