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José Gonçalves: O pastor de Água Branca que foi buscar a raiz arminiana das Assembleias de Deus
Neste texto
- Vida
- Conversão e chamado
- Formação
- Pastor e conselheiro de doutrina
- O escritor e o comentarista
- Pensamento
- Um pentecostal arminiano
- A graça em Romanos
- Romanos 9 e a eleição de um povo
- Perseverança e apostasia em Hebreus
- Sofrimento, soberania e amor
- Proximidade e diferença
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 2017, quando as igrejas protestantes lembravam os 500 anos da Reforma, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) convidou um pastor do interior do Piauí para uma palestra na CPAD Megastore, no Rio de Janeiro. O tema tinha sido sugerido pela própria editora: “Redescobrindo a tradição Armínio-wesleyana na visão bíblica da salvação”. No fim, o diretor executivo da CPAD, Ronaldo Rodrigues de Souza, fez um pedido ao palestrante: “Escreva um livro sobre o assunto.” Cinco anos depois saiu A Glossolalia e a Formação das Assembleias de Deus, um estudo de mais de quinhentas páginas sobre a teologia dos primeiros pentecostais. O autor era José Gonçalves, pastor da Assembleia de Deus em Água Branca e um dos comentaristas mais lidos das Lições Bíblicas, a revista trimestral da Escola Dominical assembleiana.
Vida
Conversão e chamado
José Gonçalves se converteu em 1983, nas Assembleias de Deus. Nos primeiros anos de vida cristã recebeu o que ele chama de “minha experiência pentecostal com o Espírito Santo, falando em línguas”. Durante muito tempo trabalhou como funcionário público federal. Numa oração, conta ele, recebeu uma palavra que guardou como promessa: “Eu tenho uma aliança ministerial com você”. Oito anos depois, o seu pastor o apresentou à convenção para o ministério de evangelista, e ele foi consagrado naquela mesma semana. Pouco depois deixou o serviço público para se dedicar ao ministério em tempo integral.
Formação
O pastor assembleiano estudou em escolas batistas. Formou-se bacharel em Teologia pelo Seminário Batista de Teresina em 1995, onde foi considerado o melhor aluno de grego bíblico da história da instituição até então. Em 2001 licenciou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí. Depois fez especialização em Interpretação Bíblica e mestrado em Teologia na Faculdade Batista do Paraná (FABAPAR). Lecionou grego, hebraico e Teologia Sistemática na Faculdade Evangélica do Piauí. A familiaridade com a tradição batista volta, anos depois, no centro do seu livro mais ambicioso.
Pastor e conselheiro de doutrina
À frente da Assembleia de Deus em Água Branca, José Gonçalves ganhou também funções na convenção. Preside o Conselho de Doutrina da Convenção Estadual das Assembleias de Deus no Piauí (CEADEP) e, em 2018, era vice-presidente da Comissão de Apologética da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), da qual continuava membro em 2021.
Como articulista, escreve sobre a vida das igrejas. Num artigo de 2018 descreveu o pastor decadente como aquele que “a igreja leva nas costas”. Em 2025 culpou o carreirismo pastoral pelas disputas de poder nas Assembleias de Deus. Em 2026 explicou o crescimento assembleiano por cinco elementos, a oração, o evangelismo, a experiência pentecostal, o trabalho dos leigos e o ensino bíblico, e escreveu que a oração “não era apenas uma prática litúrgica, mas a força motriz da igreja”.
O escritor e o comentarista
O primeiro livro, Missões: o mundo pede socorro, saiu em 2002 pela editora Halley, para levantar recursos para o departamento de missões da sua igreja. Em 2006 a CPAD publicou Por que Caem os Valentes?, e a partir dali a editora se tornou a casa dos seus livros. Em 2009 estreou como comentarista das Lições Bíblicas de adultos, com a revista sobre Davi, e participou do livro Davi: as vitórias e as derrotas de um homem de Deus, escrito com César Moisés Carvalho, Esdras Costa Bentho e outros autores, que recebeu o Prêmio Areté. No mesmo ano saiu Defendendo o Verdadeiro Evangelho, obra de apologética sobre falsos profetas, a ideia de um cânon bíblico aberto e as Testemunhas de Jeová.
Depois comentou trimestres sobre Provérbios e Eclesiastes (2013), Lucas (2015), Romanos (2016), Hebreus (2018), Jó (2020), os ataques contra a Igreja (2022), a doutrina da Igreja (2024) e a igreja em Jerusalém (2025). Entre 2005 e 2020 foi um dos autores com mais revistas de adultos, ao lado de Elinaldo Renovato, Claudionor de Andrade, Elienai Cabral e Esequias Soares. Para ele, a Escola Dominical é “o grande Seminário da igreja”, e ele vê “com desconfiança o discipulado de igrejas que aboliram a EBD”.
Em 2021 publicou O Carisma Profético e o Pentecostalismo Atual, em que as ações de Elias e Eliseu servem de critério para avaliar o que ele chama de “pentecostalismo periférico”, o neopentecostalismo. Em 2018 escreveu um dos textos de abertura de Revestidos de Poder, o primeiro livro de Gutierres Fernandes Siqueira. E em 2022 cumpriu o pedido de 2017 com A Glossolalia e a Formação das Assembleias de Deus.
Pensamento
Um pentecostal arminiano
José Gonçalves é um pentecostal arminiano, e foi ele quem escreveu a defesa histórica dessa posição para o seu próprio movimento. A Glossolalia e a Formação das Assembleias de Deus tem duas partes. A primeira, “O Mapa do Fogo”, estuda a pneumatologia, a doutrina do Espírito Santo, dos primeiros pentecostais americanos, britânicos e escandinavos, entre eles Gunnar Vingren, que fundou as Assembleias de Deus no Brasil com Daniel Berg. A segunda, “A Marca do Sangue”, estuda a soteriologia, a doutrina da salvação, dos mesmos grupos. Para o autor, as duas coisas são “lados diferentes de uma mesma moeda”: a experiência de falar em línguas nasceu dentro de uma busca de santidade que tinha uma teologia da salvação por trás.
A tese do livro é que as Assembleias de Deus, a americana e a brasileira, são de matriz armínio-wesleyana, “arminiana na sua teologia”. As americanas refletem sobretudo o arminianismo wesleyano, que vem de John Wesley e do movimento de santidade. As brasileiras, porque vieram da tradição batista, refletem “com maior fulgor o arminianismo clássico”, o de Jacó Armínio e dos remonstrantes. Vingren recebeu o batismo no Espírito na Primeira Igreja Batista de Chicago, e os batistas suecos, mostra o autor, sofreram influência metodista desde a origem. Ele lê Pethrus e o sueco Nils Kastberg a partir da mesma cosmovisão arminiana: Pethrus rejeitava a escravidão da vontade no modelo luterano, mas não acreditava que alguém pudesse se salvar sem a graça. Por isso a Assembleia de Deus brasileira, conclui, “espelha mais do que qualquer outra a crença arminiana de que Deus ama a todos”. Os apêndices reproduzem as confissões em que a pesquisa se apoia, entre elas a Remonstrância (1610) e a confissão batista sueca (1861). O autor avisa que “o objetivo dessa pesquisa não foi arminianizar os batistas”, e sim mostrar a presença do arminianismo na história deles.
O livro também revê um lugar-comum. William Durham, o pregador de Chicago que ensinou a “obra consumada do Calvário”, costuma ser lido como um pregador de linha reformada. Para Gonçalves, Durham “poderia ser identificado mais como um wesleyano radicalizado”, e o primeiro a ensinar a obra consumada foi Copley, não Durham. Antes, o livro recua até Wesley, John Fletcher e D. L. Moody.
A graça em Romanos
A teologia da salvação dele aparece por inteiro no trimestre sobre Romanos (2016). Ele parte da incapacidade humana: “O pecado manchou toda a raça humana”, e a humanidade separada de Cristo é “incapaz de libertar-se por si mesma”. O remédio vem só de Deus: “Somos libertos do poder do pecado unicamente pela graça de Jesus Cristo.” A justificação, escreve, ocorre “somente pela fé”; Deus “imputa justiça ao que crê”, isto é, põe na conta do pecador a justiça de Cristo, e “não há mérito humano quando a graça de Deus se manifesta”. Na cruz, Cristo “cumpriu a nossa pena”, porque “o Filho de Deus assumiu o castigo que era nosso”, que é a expiação como substituição penal. A fé recebe essa obra sem acrescentar nada a ela: a salvação, escreve, “não é pelo que fazemos, mas pelo que Cristo fez por nós”. É a linha da Declaração de Sentimentos de Armínio, que diz que o homem caído não pode, por si mesmo, querer nem fazer o bem verdadeiro.
Sobre a resposta humana, José Gonçalves fala em receber, e não em contribuir. O crente participa da própria salvação “escolhendo, ou não, receber a graça de Deus”, e a graça pode ser recusada. A salvação, diz, “não se dá de forma mecânica e nem compulsória”. É a graça resistível do arminianismo: Deus age primeiro e salva sozinho, mas não arrasta ninguém contra a vontade (ver A graça preveniente em Armínio).
Romanos 9 e a eleição de um povo
No capítulo mais disputado da carta, ele lê a eleição como escolha de um povo. “Paulo não está se referindo à eleição individual, mas coletiva”, escreve sobre Romanos 9; “a predestinação é corporativa, isto é, de um grupo, povo, ou nação, e não de pessoas”. Na citação de Malaquias, “Esaú é identificado com Edom, um povo e não um indivíduo”. O endurecimento de Faraó “ocorreu quando este resistiu à vontade de Deus”, e os vasos da ira “se tornaram, por si mesmos, objetos da ira de Deus”, enquanto os vasos de misericórdia participam da glória “através da fé, pela graça de Deus”. A leitura determinista, diz, “cai diante da exposição do próprio texto”; para ele, “o arrependimento e a fé são os caminhos que darão acesso ao portão da graça de Deus”.
É a eleição corporativa, que também está em autores como Chad Thornhill: Deus escolhe um povo em Cristo, e cada pessoa entra nesse povo pela fé. Ela fica dentro do arminianismo, com uma diferença de ênfase em relação a Armínio, cujo quarto decreto fala também da eleição de pessoas determinadas, segundo a presciência que Deus tem de quem vai crer e perseverar (ver Presciência, eleição e predestinação).
Perseverança e apostasia em Hebreus
A segurança do crente, para José Gonçalves, é real e condicional. Em Romanos 8 ele escreve que nada poderá nos separar do amor de Deus “enquanto permanecermos em Cristo”. No trimestre sobre Hebreus (2018), define a apostasia como “abandono premeditado e consciente da fé cristã”, um modo de “romper o relacionamento salvífico com Cristo”, e diz que a carta a trata como “algo real e não apenas como um perigo hipotético”. Contra a leitura de Wayne Grudem, lê Hebreus 6:4-6 como aviso a quem já crê: o autor “fala de pessoas crentes, porque nenhum descrente foi iluminado”. Diante desse perigo, “a Palavra de Deus revela a necessidade de ânimo e perseverança de fé”, com a confiança no Senhor “que é poderoso para guardar-nos até o dia final”. É a perseverança condicional do arminianismo (ver Apostasia na Bíblia e a biografia de Robert Shank).
Sofrimento, soberania e amor
No trimestre sobre Jó, José Gonçalves trata da soberania de Deus sem separá-la do amor. Satanás existe, mas “não é autoexistente” e está submetido a Deus: “O Maligno não o tocou como quis, mas apenas da forma que Deus permitiu.” Contra os amigos de Jó, que deduziam o pecado a partir do sofrimento, lembra que a soberania de Deus não deve ser posta acima do seu amor, e fecha o trimestre assim: “Deus não nos prova porque deseja nos punir, mas porque nos ama.”
Proximidade e diferença
A soteriologia de José Gonçalves coincide com a declaração de fé deste site nos pontos centrais: incapacidade humana, graça para todos e resistível, justificação somente pela fé, expiação substitutiva e perseverança condicional. A diferença está na tradição que ele identifica nas Assembleias de Deus brasileiras, um arminianismo clássico de raiz batista, sem a segunda obra da graça do ramo wesleyano; a declaração do site afirma a inteira santificação, obra da graça posterior à regeneração e recebida pela fé.
Obras principais
- Missões: o mundo pede socorro (Halley, 2002).
- Por que Caem os Valentes? (CPAD, 2006).
- Defendendo o Verdadeiro Evangelho (CPAD, 2009).
- Davi: as vitórias e as derrotas de um homem de Deus, com César Moisés Carvalho, Esdras Costa Bentho e outros (CPAD, 2009).
- Maravilhosa Graça: o Evangelho de Jesus Cristo revelado na Carta aos Romanos (CPAD, 2016).
- A Supremacia de Cristo: fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus (CPAD, 2017).
- A Fragilidade Humana e a Soberania Divina: o sofrimento e a restauração de Jó (CPAD, livro de apoio do 4º trimestre de 2020).
- O Carisma Profético e o Pentecostalismo Atual: pressupostos para uma práxis carismática autêntica (CPAD, 2021).
- A Glossolalia e a Formação das Assembleias de Deus: um resgate histórico e teológico da soteriologia e pneumatologia do início do movimento pentecostal (CPAD, 2022).
- Os Ataques contra a Igreja de Cristo (CPAD, 2022).
- O Corpo de Cristo (CPAD, livro de apoio do 1º trimestre de 2024).
- A Igreja em Jerusalém (CPAD, livro de apoio do 3º trimestre de 2025).
Livros em português
- A Glossolalia e a Formação das Assembleias de Deus (CPAD, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Maravilhosa Graça: o Evangelho de Jesus Cristo revelado na Carta aos Romanos (CPAD, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A Supremacia de Cristo: fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus (CPAD, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A Fragilidade Humana e a Soberania Divina (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O Carisma Profético e o Pentecostalismo Atual (CPAD, 2021). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Defendendo o Verdadeiro Evangelho (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Por que Caem os Valentes? (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Rastros de Fogo (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O Corpo de Cristo (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A Igreja em Jerusalém (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- CPAD, “José Gonçalves”, página do autor (formação, ensino e livros).
- Everton Edvaldo, “Entrevista exclusiva com o Pastor José Gonçalves”, Esquina da Teologia Pentecostal, 17 de julho de 2017 (conversão, chamado, primeiros livros, Escola Dominical).
- Ricardo Costa, “Convenção CEADEP diz que aguarda posicionamento da CGADB”, JM Notícia, 26 de maio de 2021.
- Heleno Farias, “‘Pastores são os culpados’, afirma teólogo José Gonçalves sobre brigas por poder nas Assembleias de Deus”, JM Notícia, 9 de janeiro de 2025, e “Por que a Assembleia de Deus se tornou a maior denominação do Brasil? Comentarista da CPAD responde”, JM Notícia, 28 de maio de 2026.
- Victor Rodrigues, “Como resistir aos ataques contra a Igreja de Cristo?”, Comunhão, 30 de agosto de 2022.
- José Gonçalves, “Igrejas ou pastores decadentes?”, Apologia 7 Bíblica, 1º de fevereiro de 2018.
- Cooperadores do Evangelho, textos e lições de José Gonçalves.
- José Gonçalves, A Glossolalia e a Formação das Assembleias de Deus (Rio de Janeiro: CPAD, 2022), introdução, sumário e capítulo “Santidade e Poder”.
- José Gonçalves, O Carisma Profético e o Pentecostalismo Atual (Rio de Janeiro: CPAD, 2021), introdução e sumário.
- Lições Bíblicas da CPAD comentadas por José Gonçalves, no arquivo do Estudantes da Bíblia: Provérbios e Eclesiastes (2013); Lucas (2015); Romanos (2016), lições 1, 2, 3, 4, 7 e 8; Hebreus (2018), lição 6; Jó (2020), lições 3, 11 e 13; Os ataques contra a Igreja (2022), lição 2; O Corpo de Cristo (2024), lição 1; A Igreja em Jerusalém (2025), lição 1.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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